Mesmo que ceci ne soit pas une pipe, o texto icônico do haikai, e também seus semelhantes, como o Álbum de Mallarmé, as epifanias de James Joyce e a própria escritura fragmentada de Roland Barthes são muitos mais próximos do real que o texto contínuo, cujos “momentos de verdade” se alternam com muito mais freqüência com o que é criado.
Para Comment, esse dom do presente o impossibilitou a realizar seu Livro, de ficcionar. Escrever o Romance seria o triunfo da mentira, uma luta moral para Barthes, o homem dos fragmentos. Comment conclui que o desejo de Romance não teria sido interrompido por causa da morte repentina, mas por um fracasso de forma.
Outro problema seria sobre o que escrever. Ele não queria escrever, como Proust, sobre a memória, mas ele tentava provar seu amor pela Literatura. Compagnon sintetiza as três missões do romance barthesiano: “1.dizer aquilo que ele ama; 2. Representar uma ordem afetiva; 3. Não fazer pressões sobre o outro”20. O Amor a que ele se refere em Vita Nova não seria o amor de Eros, que é egoísta, mas o amor de Ágape, sem se vangloriar do que escreve, nem explorando uma erudição de linguagem. No seu ensaio “Lequel est le bon”, do livro de Gefen e Macé (2002), Compagnon recorda que a literatura, para Barthes, é aquela que trapaceia com a língua, essa fascista, como disse, na célebre Aula inaugural de sua cadeira de Semiologia literária do Collège de France. Seu romance abraçaria o mundo ao quebrar as estruturas ideológicas inerentes à língua e assim perpetuaria o que se ama, no caso, a linguagem dos mesmos romances que, para ele, acompanham e permitem pensar as transformações sociais por
evidenciar os mecanismos de poder a partir do ato de transformar a língua. Nessa mesma Aula, afirmou que mudar a língua e mudar o mundo são frases concomitantes. Ele notava que essa linguagem transformadora, a literária, morria aos poucos, encontrava-se deficitária já no fim dos anos 1970. Desde os meados do século passado, era notório o desaparecimento dos grandes romancistas na literatura francesa. O papel desempenhado pelo “grande escritor” como os escritores do final do século XIX e do início do século XX é cada vez mais substituído por aqueles que fazem reflexão teórica em francês literário, escritura que ultrapassa também o gênero ensaístico, puro e simples. Em A câmara clara, ele se posiciona no papel da testemunha de uma era que morre, a era da História, da Fotografia e dos Romances.
Para Diana Knight, “Vita Nova” era a esquematização desse Romance impossível, a evidência de que Barthes iniciava, efetivamente, a produção de seu romance. A referida pasta vermelha continha oito folhas manuscritas, todas datadas. Há algumas palavras cuja decifração é dificultada pela grafia corrida de Barthes (das tautologias, ou mais uma questão tostines: eram seus desenhos próximos de sua letra ou sua letra que queria transformar-se em significantes sem significados, a “grafia pra nada”? Se estudasse grafologia em vez de literatura francesa, talvez dissesse que essa grafia acompanhava sua busca do neutro, o significante vazio). Além disso, há muitas abreviações e termos que poderiam designar diferentes caminhos de leitura.
Um dos argumentos para a suposição de “Vita Nova” como pretenso romance é esta data enigmática que aparece cinco vezes nessas folhas: a “decisão de 15 de abril de 1978”, acrescentando em uma delas: “a literatura”. Todas as folhas encontravam-se devidamente datadas e organizadas cronologicamente. Em outros textos ele também comentava essa decisão, levando muitos a pensar que ele realmente pretendia abandonar tudo para escrever o Romance. Seu biógrafo, Louis-Jean Calvet,
comenta também que Barthes teria cogitado sair do Collège de France para empreender o Grande Projeto. De qualquer forma, todos os seus esforços foram reunidos sob esse tema; mesmo que tergiversando teoricamente sobre ele, seu Fantasma estava presente em grande parte de suas produções, seja como referência explícita ou pela disseminação do assunto em estudos, aulas, entrevistas, pistas dispersas em seu discurso.
O primeiro trecho de “Vita Nova” foi escrito em 21 de agosto de 1979 (ver, em anexo, os fac-símiles dos manuscritos originais):
VITA NOVA
Meditação. Balanço Moral sem esperança de aplicação Prólogo – Luto
I. O Mundo como objeto contraditório de espetáculo e de indiferença [como Discurso]
– Objetos arquétipos: – [o Mal?]
– O Militante – A má fé I bis que os “prazeres” são insuscetíveis de...
– A Música
II. – A decisão do 15 de abril de 78 – A literatura como substituto de amor
–
– Escrever
Aqui, podemos ver uma espécie de descrição do que seria essa “Vita Nova”: “Meditação, Balanço, Moral sem esperança de aplicação”. O prólogo que antecede vários dos esboços é quase sempre o mesmo: o Luto.
Abaixo da “decisão”, ele coloca a literatura como a “substituta de amor”, esse amor perdido pela morte. Como dito anteriormente, era notável o amor que ele sentia por sua mãe, essa que ele perdera e que motivaria a escritura de seu romance. Como lembra Compagnon, assim como Proust escrevia para salvar os seus da morte, Barthes escreveu A câmara clara, como um “monumento” à sua mãe. É interessante notar que ele deixa um traço vazio abaixo, como uma hesitação, para decidir logo
depois: “Escrever”.
Nesse outro trecho de “Vita Nova”, temos alguns dos “guias” de sua escritura, que Diana Knight diz ser uma estrutura mitológica, como personagens do Romance:
VN
26 VIII 79 Pesquisas
Viagens, Círculos Dialética : – Mal et Bem Misturados
Guias –
Positivo e Insuficiente – Fantasmas de sucessos de
cada viagem. Dom até o extremo
– O gigolô
– O jovem homem desconhecido – O Amigo
– O escritor
Mam. permanece o guia Decisão do 15 de Abril de 78
– VN
– « Eu me retiro para empreender uma grande obra
onde será dito... o Amor. Eu não sabia se eu me retirava por isso ou seu
contrário o menino (marroquino) o Sem Guia a Preguiça.
Novamente, ele escreve sobre a “decisão”: VN, iniciais de “Vita Nova”, uma nova vida após o luto, onde ele ainda escreve “eu me retiro para empreender uma grande obra onde será dito... o Amor”, referindo-se, talvez, ao seu desejo de abandonar todos os seus estudos para escrever o Romance. De acordo com Knight, que analisou esses manuscritos, o seu principal guia, como ele explicita em várias folhas, é a “Mãe” (“Mam.”), que ele contrapõe ao menino marroquino, do poema “zenzin”, o Sem Guia,
um dos papéis dessa sua estrutura mitológica. No manuscrito “II” do 22 de agosto de 1979, por exemplo, ele escreve: “A ausência de mestre/ O Menino marroquino do Poema zenzin” e, abaixo, “A Ociosidade pura”. Esse termo, “zenzin”, foi assim transcrito pelo editor de Barthes, Eric Marty. Ele afirma que o vocábulo seria uma gíria marroquina que designa uma pessoa um tanto quanto louca mas que diz coisas lúcidas e proféticas. Podemos encontrar respaldo para essa afirmação no livro Incidents, e na entrevista “Ousemos ser preguiçosos”, em que ele chama esse poema de “poema zen”, que “poderia ser a definição poética desta preguiça que eu sonho”. Nesse mesmo manuscrito, uma outra referência a Dante, dessa vez a entrada no Inferno. Nesse trecho (“Enfer II 139-42”), Dante escreve que desde o início da caminhada de seu guia, ele o seguiu pelos caminhos perigosos do Inferno. Poderíamos ler aqui, talvez, que a busca de Barthes por essa “Nova vida” começa desde que seu Guia – a mãe – partira. No manuscrito seguinte, ele apresenta, em seu “prólogo”: “- Luto – A perda do Guia (a Mãe)”. Pouco depois, pergunta-se que discurso lhe restaria ainda a fazer.
Em seu segundo manuscrito, Roland Barthes se pergunta, mais uma vez, no “Prólogo”: “Que fazer?”. Em quase todas as folhas, há esse prólogo, o “Luto” e ainda o leitmotiv: “Decisão do 15 de abril de 1978”, que acompanha algumas vezes do complemento: “A literatura” ou “a literatura como substituta do amor”. Nota-se que ele explicita a necessidade de ultrapassar o já visto, o já feito. Outra pergunta em suas folhas era a possibilidade de ultrapassar sua impotência literária. Se o começo é sempre a partir do “luto”, em uma das folhas ele apresenta, como epílogo, um “encontro”, que pode ser, também, um reencontro. Como a palavra está apenas acompanhada de um artigo, “la Rencontre”, podemos traduzi-la de inúmeras maneiras, até mesmo de “acaso”, “coincidência”, tantas são as acepções que essa palavra permite em francês. Pergunto-me se não significaria o encontro dessa totalidade perdida, de um reencontro com a mãe. Poderia ser, também, talvez, do encontro do amor, mediado pela literatura,
ou, ainda, o encontro desse discurso de que faz busca.
Ao se perder o guia, surge o luto, seguido do Ócio, um estágio anterior à escritura, seria o que Proust chamava de “tempo perdido”, que serviria para “soltar as lembranças”. Mais abaixo, ele diz não saber se vai se retirar pela literatura ou seu contrário: a preguiça, que é a não busca por guias.
No manuscrito do 3 de setembro, ele explicita que a literatura de Pascal lhe provocou a vontade de empreender uma grande obra, mas ele desejava uma em que ele não se impusesse sobre ela como sujeito. Ele sabia que uma “grande obra” implica o apagamento de seu próprio autor. Neste fragmento, cita um resumo do que ele espera de seu romance, como as missões apontadas por Antoine Compagnon. No entanto, ao final, ele se compara à rã da famosa fábula, querendo dizer que qualquer esforço será frustrado. A rã que se inflou tanto, acabou por explodir. Declara, enfim, o abandono de sua empreitada, o abandono de qualquer tentativa.
Em primeiro de novembro de 1979, apenas dois meses depois, redigiu a última de todas as suas aulas. O mais interessante, como pinçou Compagnon, é o que ele riscou e terminou não lendo nessa aula, apresentada em 23 de fevereiro de 1980, dois dias antes do fatídico atropelamento. O que ele leu no curso foi uma constatação de derrota diante da escritura, mas pelo que riscou e deixou legível, posso dizer: o “Querer- Escrever” o rondava.
Hélas, en ce qui me concerne, il n’en est pas question : je ne puis sortir aucune oeuvre de mon chapeau, et de toute évidence sûrement pas ce Roman, dont j’ai voulu analyser la Préparation. Y arriverai je un jour ? Il ne m’est même pas évident, aujourd’hui où j’écris ces lignes (1er Nov 79) que j’écrirai encore, sinon des choses sur la lancée, l’acquis, dans la répétition, et non dans la Novation, la Mutation Pourquoi ce doute ? Parce que le deuil dont j’ai fait état au début de ce cours, il y a deux ans, a remanié profondement et obscurément mon désir du monde (II, 105).
até então abandonados. Em sua última linha, ele repete: “decisão do 15 de Abril de 1978: a Literatura”.
O pesquisador Antoine Compagnon afirma, ainda no ensaio sobre o Romance barthesiano, que o curso seria talvez um pretexto para escrever belos textos sobre o assunto. Afinal, os últimos livros de Barthes já seriam o que Barthes chamava de “forma terçã”: na impossibilidade de transformar o fragmento em romance, seria criada uma terceira forma, o Romance-Fragmento, ou o Romance do Fragmento. Já na capa de Roland Barthes por Roland Barthes, há essa inscrição: “Tudo isto deve ser considerado como dito por um personagem de romance”. E conta sua história alternando as vozes do discurso, entre je, il e RB, sem fazer uso dos nomes próprios em sua “‘verdade’ poética”21 como fazia Proust, mas de sua maneira, uma forma diferente de dizer o “eu”.
A temática do luto e do romance se entrelaçam e se disseminam pela obra de Barthes nesses últimos três anos de sua vida. Como reconhecem os citados pesquisadores, mesmo que Barthes não tenha conseguido empreender um Romance no modelo dos autores que amava, tais como Proust e Tolstói, o seu texto ensaístico desse
último período – por isso o chamo de o último Barthes – dá lugar a uma presença constante de um texto romanesco, aliás, de um desejo romanesco. Nos próximos capítulos, pretendo apresentar como o luto está diretamento ligado a essa escritura a que Barthes se propõe; e como a disseminação de seu próprio eu sujeito, em A câmara clara
permite-nos considerar esse livro como exemplo maior dessa relação.