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O indivíduo, segundo Manguel (2002), ao aprender a ler, ao entrar em contato com o mundo da leitura, é incluído imediatamente na memória comunal por meio de livros, familiarizando-se, desta forma, com um passado geral que ele renova, em maior ou menor grau, a cada leitura realizada.

Para a sociedade cristã da Baixa Idade Média e para a sociedade do começo da Renascença, aprender a ler e escrever era o privilégio mais exclusivo da aristocracia e, após o século XIII, da alta burguesia. A maioria dos meninos e algumas meninas dessas classes aprendiam as letras muito cedo, e este primeiro contato com a leitura e com a escrita ocorria,

geralmente, através da mãe ou da governanta que, caso fosse letrada, se encarregava das primeiras fases do processo de instrução das crianças.

Depois do aprendizado das primeiras letras, feito principalmente por meio de cartilhas e abecedários, a família que dispusesse de boas condições financeiras contratava professores como tutores particulares, para que estes ficassem encarregados de aprofundar o conhecimento dos seus alunos, introduzindo-os, de fato, em uma nova atmosfera educacional, marcada pela instrução de novas disciplinas pedagógicas (História, Geografia, Matemática, Ciências, o estudo da Língua Materna e Religião), fundamentais para a formação do indivíduo.

Em decorrência das grandes transformações sócio-econômicas e políticas, da industrialização, urbanização, fortalecimento da burguesia e o aumento na produção de texto impresso que, conseqüentemente, propiciou o aumento do público leitor, o século XIX é também marcado pelas campanhas de alfabetização. O direito de ler e escrever, nessa época, passa a se estender às mulheres, porém muitos questionaram os benefícios da educação pública, uma das importantes conquistas da Revolução Francesa, e da educação privada feminina, pois não era muito apropriado que as meninas aprendessem a ler e a escrever numa sociedade em que o conhecimento passa ser ameaçador para toda uma ordem edificada por pilares conservadores e tradicionais.

Sendo assim, com o objetivo de conter o surgimento de certas aspirações perigosas provenientes das más leituras realizadas pelo público leitor feminino, vimos que o imperativo controle que a Igreja Católica exercia

sobre a educação ainda se mantinha fortemente em muitas das sociedades européias do século XIX, dentre as quais podemos destacar a espanhola.

Educadas a fim de conhecer a verdadeira fé cristã, a educação recebida pelas mulheres na Espanha do século XIX fundamentava-se, em grande parte dos casos, na concepção de que as damas precisariam proteger-se dos perigos que, constantemente, ameaçavam suas almas, e, ao analisarmos os capítulos IV e V do romance naturalista La Regenta, verificamos que a protagonista Ana Ozores é “moldada”, constantemente, para se ajustar a esse modelo educacional tão bem difundido nos países católicos no século XIX.

Ainda que se produzissem, neste período, várias tentativas de reforma educativa, a aliança da Igreja com os setores mais conservadores da época conteve grande parte das aspirações burguesa de se implantar um ensino laico que servisse de base para levar ao Estado uma ideologia mais progressista e democrática, e, ao trazermos essas questões à tona, observamos que esses mesmos conflitos também se encontram presentes na obra La Regenta, principalmente na parte destinada à educação da protagonista Ana Ozores.

“¡Saber leer! Esta ambición fue su pasión primera. Los dolores que Doña Camila le hizo padecer antes de conseguir que aprendiera las sílabas, perdonóselos ella de todo corazón. Al final supo leer” (ALAS, 1997, p.137). Aprender a ler foi, indubitavelmente, a grande ambição de Ana Ozores, e, ao analisarmos o período correspondente à educação da personagem, exposto nos capítulos IV e V da obra, identificamos que esta se desenvolve em

quatro períodos: o primeiro, a cargo de dona Camila, uma cruel e brutal criada; o segundo, sob função de seu próprio pai, o liberal Carlos Ozores; o terceiro, sob responsabilidade de suas tias religiosas, dona Anuncia e dona Águeda, e o quarto e último, a cargo de Fermín de Pas, seu confessor.

Segundo Vives (2000), a educação que proporciona dona Camila à jovem Ozores é uma educação contra todos os princípios relacionados à natureza; era uma instrução baseada na repressão dos instintos e na anulação de toda espontaneidade e autonomia da criança. Citamos:

De todas suertes, doña Camila se rodeó de precauciones pedagógicas y preparó a la infancia de Ana Ozores un verdadero gimnasio de moralidad inglesa. Cuando aquella planta tierna comenzó a asomar a flor de tierra se encontró ya con un rodrigón al lado para que creciese derecha. El aya aseguraba que Anita necesitaba aquel palo seco junto a sí y estar atada a él fuertemente. El palo seco era doña Camila. El encierro y el ayuno fueron sus disciplinas. (Ibidem, p.136).

A partir da leitura deste fragmento, vimos que a jovem fora educada sem qualquer tipo de afeto, carinho, sendo submetida, a todo instante, ao rigor e à disciplina de uma educação tradicional, fundamentada nos moldes ingleses, e, em razão disto, chegamos à conclusão de que Ana viveu contradizendo poderosos instintos de sua natureza, contendo, constantemente, os seus impulsos de alegria. Neste período, declarou-se vencida, seguindo, sem discutir, a conduta moral que arbitrariamente lhe impuseram.

Durante toda a primeira fase, a personagem teve de conviver com a falta do carinho materno, dado o falecimento da mãe, e com a ausência do

pai, o revolucionário Carlos Ozores, que percorria a Europa em busca de novos horizontes, de novos caminhos, em especial daqueles que estivessem relacionados à arte, à literatura e à política, sua grande paixão.

Ao voltar dom Carlos do exterior, este se dá conta do terrível dano que causara a Anita ao conferir a dona Camila a preciosa missão de instruí-la. Reconhecido o equívoco, o próprio Ozores, após dispensar a criada de seu dever, se encarrega pessoalmente da instrução de Ana, expondo-a, nesta segunda fase, a uma nova filosofia educacional: a krausista. Imbuído de um espírito liberal, o librepensador, em oposição à viciosa educação que a jovem havia recebido de dona Camila, estabelece uma educação mais liberal, permitindo que Ana se desenvolvesse livremente por meio de uma educação unilateral e harmônica, tal como prescreve o krausismo, e, para melhor compreender como se estrutura o segundo período relativo à educação de Ana Ozores, acreditamos ser necessário um sucinto comentário sobre este importante movimento filosófico presente na sociedade espanhola da segunda metade do século XIX.