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Para retratar a realidade de Oviedo no século XIX, foi necessário que o autor tivesse um profundo conhecimento de todos os fatos, acontecimentos, que propôs narrar ao longo dos trinta capítulos de La

Regenta, e os espaços de leitura são, sem dúvida, um deles.

Retomando, portanto, o conceito de representação da realidade, difundido pela Retórica, e resgatado, posteriormente, pelas primeiras manifestações artísticas do movimento realista, na segunda metade do século XIX, observamos que o autor consegue apresentar-nos em La

Regenta, através de construções literárias, um perfeito panorama do

ingresso do público leitor no mundo das letras, destacando a presença de espaços determinados exclusivamente ao exercício da leitura.

Atividade muito comum no século XIX, o ato de ler, da coletividade, ou seja, das tradicionais leituras em rodas, feitas geralmente pela matrona da casa no âmbito familiar, se estende à individualidade. Fortifica-se, neste período, uma preferência pela leitura individual, uma vez que esta proporciona um contato mais íntimo, mais pessoal entre o leitor e a obra lida por ele. Nesta relação, destacamos indiscutivelmente a importância dos

espaços internos, dentre eles o quarto (la habitación), locus que acentua essa identificação do homem com o livro, ou melhor, com o universo literário nele contido.

No capítulo III do romance, observamos que o quarto torna-se um dos principias espaços de leitura no século XIX. Apaixonado pelo teatro do século XVII, em especial pelas comédias de Calderón de la Barca, o ex- regente de Audiência, dom Víctor Quintanar, um magistrado “aragonés muy cabal, valiente, gran cazador...” (ALAS, 1997, p.177), realiza grande parte de suas leituras em seu quarto, à noite, antes de dormir:

Volvió a encender luz. Cogió el único libro que tenía sobre la mesa de noche. Era un tomo de mucho bulto. «Calderón de la Barca» decían unas letras doradas en el lomo. Leyó. Siempre había sido muy aficionado a representar comedias, y le deleitaba especialmente el teatro del siglo diecisiete. (Ibidem, p.127).

No decorrer do capítulo V, encontramos Víctor novamente em posição

de leitura: “a la luz de una lámpara de viaje, calada hasta las orejas una gorra de seda, leía tranquilamente, algo arrugado el entrecejo, El Mayor

Monstruo los celos o el Tetrarca de Jerusalén, del inmortal Calderón de la

Barca” (Ibidem, p.186), e, à medida que tomamos ciência das leituras feitas pelo protagonista e dos espaços em que ele as realizava, notamos que

Clarín passa a valorizar um importante elemento dentro do quarto de

Quintanar (espaço interior): a cama.

Em posição de repouso, o personagem adentrava nas páginas das imortais comédias espanholas, buscando no ato de ler não só o entretenimento, a diversão, mas principalmente uma maneira de alimentar o

seu imaginário, uma vez que estas obras refletiam todos aqueles ideais cavalheirescos admirados por ele.

Dom Víctor lia Calderón sem se cansar, e, em várias cenas de La

Regenta, encontramos as influências que o ato de ler apresentou na vida do

personagem leitor, que teve seu imaginário alimentado pelas leituras. Para melhor explicar essa idéia, de que a leitura pode influenciar o comportamento do indivíduo, apresentamos um fragmento da obra que pode perfeitamente sintetizar esse pensamento. Vejamos:

Todas las noches antes de dormir se daba un atracón de honra a la antigua, como él decía; honra habladora, así con la espada como con la discreta lengua. Quintanar manejaba el florete, la espada española, la daga. Esta afición le había venido de su pasión por el teatro. (Ibidem, p.128).

No entanto, há algo mais do que satisfação e entretenimento no ato de ler na cama: há privacidade. Ler na cama seria “um ato autocentrado, imóvel, livre das convenções sociais comuns, invisível ao mundo” e, com base nesta definição proposta por Manguel (2002, p.180), pudemos evidenciar uma preferência pela individualização, o que vem a corroborar a prática de uma das mais diversas modalidades da leitura: a leitura íntima. Ao tornar-se tão privativa, tão íntima do leitor, a cama acaba conquistando um papel de destaque na narrativa de Leopoldo Alas, passando a ser um <<novo espaço>> dentro do universo literário de La Regenta.

Da mesma forma que Víctor Quintanar, Ana Ozores também é uma personagem-leitora. No capítulo IV, Ana passa a manifestar um incrível

interesse pela leitura, e será nas estantes da biblioteca de dom Carlos, seu pai, que também encontrará novos livros.

Orgulho legítimo de Carlos Ozores, a biblioteca torna-se um espaço crucial no romance, pois será em suas vastas estantes que Anita, ao longo de sua estadia em Loreto, irá buscar o conhecimento necessário para ampliar sua limitada visão de mundo, de realidade.

A jovem se tornará, neste período, uma grande leitora, passando a ler obras de distintos gêneros literários, sobretudo as que se relacionavam à literatura religiosa, como El Cantar de los Cantares, na versão poética de San Juan de la Cruz, e Las Confesiones de San Agustín, o que muito contribuirá para o surgimento das primeiras aspirações literárias (o desejo de tornar-se escritora e o projeto de escrever um livro dedicado a la Virgen) e para a manifestação do langor místico, ambas estudadas no sub-capítulo seguinte deste trabalho, dedicado especialmente às leituras realizadas pela protagonista.

Ainda se tratando de espaços internos, a cozinha torna-se também um

locus destinado à leitura, principalmente se consideramos o fato de que a

maioria das mulheres burguesas do século XIX passava grande parte do tempo em casa (espaço privado), cuidando dos afazeres domésticos e da criação dos filhos. Em função isto, não nos causou estranhamento a intenção do narrador em transformar a cozinha em um ambiente propício ao ato de ler, e, no intuito de melhor aclarar esta idéia, citamos o fragmento em que o narrador a apresenta como um possível espaço de leitura, sobretudo, dada a

presença da chaminé, que “al amor de cuya lumbre leyera en otros días tantos folletines la señorita Anunciación Ozores” (Ibidem, p.290). Citamos:

Después doña Anuncia se encerró en el comedor con doña Águeda, y terminada la conferencia compareció Anita. Doña Anuncia se puso en pie al lado de la chimenea pseudofeudal: dejó caer sobre la alfombra La Etelvina, novela que había encantado su juventud, y exclamó: “Señorita... hija mía; ha llegado un momento que puede ser decisivo en tu existencia” <<Era el estilo de La Etelvina>> . (Ibidem, p.181).

Muito mais que a apresentação de um novo espaço de leitura, vemos também as conseqüências da educação sentimental feita por intermédio do livro, ou melhor, do romance em destaque. Neste fragmento, o narrador de

La Regenta, evidencia-nos os efeitos acarretados pelo ato de ler. O discurso

da personagem dona Anuncia, assim como o de dom Víctor Quintanar, foi construído a partir das diversas leituras do romance que a mesma realizou ao longo de sua vida. “La Etelvina, novela que había encantado su juventud”, torna-se, portanto, o modelo, a referência de como agir, atuar em determinadas situações, confirmando, assim, o poder que a leitura exerce nos protagonistas leitores da obra.

Outro notável espaço presente na narrativa de Clarín é o gabinete de leitura de Rufina de Robledo, mais conhecida como Marquesa de Vegallana. Personagem-leitora, a dama, casada com o chefe do partido conservador de Vetusta, tinha o costume de passar grande parte do tempo em seu gabinete, local onde realizava as leituras de romances, revistas e jornais da época e onde recebia seus amigos mais íntimos quando estes lhe tinham algo para falar. Vejamos:

La excelentísima señora doña Rufina de Robledo, marquesa de Vegallana, se levantaba a las doce, almorzaba, y hasta la hora de comer leía novelas o hacía crochet, sentada o echada en algún mueble del gabinete. (…) se quedaba en su gabinete donde recibía a los amigos y amigas que quisieran hablar de sus cosas, mientras ella leía periódicos satíricos con caricaturas, revistas y novelas. (Ibidem, p.236).

Neste fragmento, além da disposição espacial, há também uma crítica contra o comportamento improdutivo da aristocracia da época. Para melhor ilustrá-la, o narrador Leopoldo Alas, ironicamente, utiliza o superlativo <<excelentísima>> para condenar a enfadonha vida (cotidiano) da Marquesa de Vegallana que se resumia praticamente em levantar-se tarde, fazer crochê, ler jornais satíricos, revistas e romances e receber a <<elite>> de Vetusta em seu imponente palácio para se divertir e conversar, amenizando, assim, as árduas horas de permanência em casa.

Outro importante espaço a ganhar destaque na narrativa de Leopoldo Alas, mais precisamente no capítulo VI de La Regenta, é o gabinete de leitura do Cassino de Vetusta, também utilizado como biblioteca pelos sócios. Através da minuciosa descrição empreendida pelo narrador, observamos a presença de um ambiente estreito, sem muito requinte, se o comparamos, por exemplo, com o luxuoso gabinete dos Vegallana. Vejamos a descrição:

El gabinete de lectura, que también servía de biblioteca, era estrecho y no muy largo. En medio había una mesa oblonga cubierta de bayeta verde y rodeada de sillones de terciopelo de Utrecht. La biblioteca consistía en un estante de nogal no grande, empotrado en la pared. Allí estaban representando la sabiduría de la sociedad el Diccionario y la Gramática de la Academia. Estos libros se habían comprado con motivo de las repetidas disputas de algunos socios que no estaban conformes respecto del significado y aun de la ortografía de ciertas palabras. Había además una colección incompleta de la Revue

des deux mondes, y otras de varias ilustraciones. (Ibidem, p.191).

Freqüentado exclusivamente por um público masculino cada vez mais interessado pela aquisição da informação, tal como evidencia o escritor: “estos y otros lectores asiduos se pasan los periódicos de mano en mano, en silencio, devorando noticias que leen repetidas en ocho o diez papeles” (Ibidem, p.110-111), notamos o que o ato de ler, neste local público, torna-se uma prática bastante usual, entre os mais variados personagens de La

Regenta, dentre os quais podemos destacar o bibliófilo Amadeo Bedoya,

responsável pelo desaparecimento de muitos livros da biblioteca.

Muito mais que um lugar destinado à prática da leitura, a biblioteca do Cassino de Vetusta também era o local onde se encontravam, segundo o narrador do romance, a sabedoria da sociedade vetustense: o Dicionário e a Gramática da Academia. Através da ironia de Leopoldo Alas, constatamos que os respectivos livros tornaram-se símbolos, ou melhor, representações do conhecimento e do saber, contrapondo-se, assim, à ignorância e à estupidez humana predominante na provinciana cidade, que longe estava de ser tida como modelo.

Analisando La Regenta, notamos que Clarín estabelece uma divisão entre o espaço público e o privado, e estes também se encontram divididos não só por classes sociais- aristocratas, burgueses, comerciantes, operários e jovens- mas também por sexo- homens e mulheres.

Geralmente, os espaços destinados à leitura feminina restringiam-se ao ambiente familiar, doméstico, enquanto a leitura masculina possuía um

alcance maior, até pelo fato da sociedade burguesa da época ser predominantemente dirigida por homens. Mesmo com todas as revoluções ocorridas no século XIX que favoreceram, sobretudo, o ingresso do público leitor feminino na cultura letrada, estabelece-se, na atmosfera ficcional de La

Regenta, uma oposição entre a situação de confinamento, vivida pelas

mulheres burguesas, e a mobilidade tida pelos homens, que, além dos espaços privados, tinham acesso aos públicos, tais como os cassinos, clubs, bares, cafés, pubs, bibliotecas públicas e outros.

Outro interessante aspecto apresentado pelo narrador de La Regenta refere-se à formação de leitores no âmbito doméstico. A família enquanto instituição era imprescindível ao novo modelo de Estado: o burguês. Era a principal responsável pela construção de valores necessários a sua manutenção, desde religiosos, éticos, morais até os de conduta social, e será neste importante espaço privado de vivência que a prática da leitura irá se desenvolver, principalmente se levarmos consideração o fato de que o gosto pela leitura se constitui em uma atividade adequada a esse contexto de privacidade doméstica.

Enquanto que em outros ambientes formais e rígidos a leitura é utilizada como meio de acesso à informação e formação de uma nova visão de mundo, ler em casa está relacionado, na maioria das vezes, ao lazer, uma vez que o âmbito doméstico proporciona, dentre outros benefícios, o conforto e o aconchego ao leitor.

Prática essencial à instrução, a leitura é tida como algo imprescindível à sobrevivência, ou melhor, à vida dos protagonistas, e, considerando o

importante papel que o ato de ler assume no romance clariniano, decidimos empreender uma análise sobre as leituras realizadas pela maior figura do leitor de toda a obra: Ana Ozores. Para isso, nos pareceu pertinente elaborar um breve comentário sobre a educação feminina no século XIX, a fim de que se possa compreender a proposta de dividir o período correspondente à educação da mesma em quatro fases, apresentando, detalhadamente, em cada uma delas, quais os textos lidos por ela e quais os conseqüentes efeitos acarretados pela prática da leitura.

2.2.2. As leituras de Ana Ozores e as quatro fases