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Grand Canonical Ensemble

In document Neutron and Quark Stars (sider 81-87)

A nova configuração industrial no Nordeste do Brasil apresenta- -se como uma manifestação bem definida da mais recente expansão capitalista pelo território nacional. Apoiadas pelos capitais privados nacionais e multinacionais, que muitas vezes contam com o suporte de governos estaduais e municipais, novas áreas anteriormente des- providas de infraestrutura inserem -se numa ciranda de produção, circulação e consumo de riquezas. O Nordeste passa por importan- tes transições socioeconômicas, com profundas implicações sobre os espaços urbanos e agrários, resultando numa dinâmica de fluidez em que os laços de integração demonstram como os novos sistemas de técnicas exercem, cada vez mais, um papel de combinação entre as diferentes regiões do país.

Na esteira das transformações engendradas pela abertura eco- nômica dos anos 1990, tornou -se visível na região outra estrutu- ração industrial, cujos traços mais marcantes são a modernização tecnológica, a chegada de novos gêneros de produção e a localização de unidades produtivas em lugares sem muita tradição fabril. As- sim, à dinamização das áreas de maior produção manufatureira e à expansão produtiva dos novos centros industriais soma -se a diver- sificação dos investimentos, sendo estes oriundos, principalmente, das regiões Sudeste e Sul.

A chegada desses investimentos não se dá sem atingir impor- tantes elementos na organização espacial. Ela implica uma recente

divisão territorial do trabalho dentro da região, acirrando traços de desigualdade, mas também reestruturando o papel de áreas anti- gas, especialmente por redefinir laços de submissão e comando no arranjo urbano regional. Além disso, a mudança na localização das unidades de produção de empresas do Centro -Sul para o Nordeste envolve, sobretudo, as indústrias de gêneros tradicionais, aquelas que empregam grandes quantidades de mão de obra, ficando os se- tores que realizam um maior esforço de inovação tecnológica nos centros mais tradicionais do país. Mesmo assim, essas transforma- ções promovem profundos impactos sobre o território, instaurando novos vetores de expansão econômica, todos voltados para o cres- cimento de um padrão moderno, o que implica uma forte mudança do processo produtivo e das relações de trabalho nas áreas que pas- sam a receber os investimentos industriais.

Ao longo da história nordestina, os padrões de estrutura pro- dutiva e localização industrial alteraram -se significativamente, de modo que é importante retomar os processos de produção territorial na região para compreender as transformações erigidas no presente. Para começar, como a região de ocupação mais antiga do território brasileiro e com porções regionais de clima semiárido que as mais

povoadas do mundo,44 o Nordeste vem sendo produzido há mais de

4,5 séculos. Sua colonização inicial deu -se em função da demanda de produtos alimentícios e matérias -primas pelo mercado externo. O quadro espacial resultante desse processo histórico organizou -se em benefício de oligarquias agrárias com forte expressão política, que estruturaram o seu poder desde o período colonial, a partir da articulação com grupos burgueses comerciais e industriais, mol- dando a estrutura social, política e econômica nordestina.

Deve -se considerar também que, entre as grandes regiões bra- sileiras, o Nordeste caracteriza -se por apresentar as paisagens mais diversificadas. Esse fator, primeiramente, confere à região vanta- gens ambientais e locacionais. Entretanto, estão embutidos nessa diversificação os problemas responsáveis pelas dificuldades socioe-

conômicas sentidas pelos seus estados. Isso porque o quadro natural da região, qualificado em função das disponibilidades de recursos minerais, hídricos e de solos, nunca foi dos mais favoráveis, uma vez que esses recursos, além de quantitativamente restritos, se en- contram distribuídos de modo desigual pelo território.

Segundo Andrade (1980, 1984), problemas dessa natureza fi- zeram surgir a ideia equivocada de que a região não possuía con- dições apropriadas de gerar o seu desenvolvimento, sobretudo por possuir clima e solo desfavoráveis, como se esses fatores fossem os únicos responsáveis pela melhoria das condições econômicas e so- ciais. Seja como for, historicamente, esses argumentos justificaram a reprodução das relações políticas e econômicas tradicionais e le- gitimaram as formas de apropriação e de uso concentradas da terra, tornando difícil qualquer transformação nas estruturas sociais e de poder na região.

As oligarquias tradicionais – produtos de um Nordeste “açuca- reiro semiburguês” e “algodoeiro -pecuário”, no dizer de Oliveira (1993) – tiveram influência na reprodução histórica de uma so- ciedade baseada no princípio da intocabilidade do poder político e econômico. Esse processo demarcou a construção social do Nor- deste e teve no Estado um protagonista que concentrou sua ação na montagem de mecanismos que evitaram um choque frontal entre as elites, legitimando o poder central e, sempre que necessário, mu- dando pouco para não mudar o todo.

Essa foi uma realidade recorrente no passado, mas também marca o sentido de muitas transformações no presente, com a ação do Estado na região parecendo reproduzir as relações tradicionais por meio de um pacto entre o poder político e econômico em esca- la nacional e local, demonstrando que a reprodução conservadora das tradições políticas interessou e ainda interessa muito às elites industriais brasileiras. Como assinala Bursztyn (1990), a estratégia adotada é sempre a da articulação política que mantém a estrutura de poder, mesmo que mediante o patrocínio de novas formas eco- nômicas e territoriais. A assimilação das imposições econômicas

garante a manutenção do poder conservador, que passa a ser co- mandado mais de perto pelas elites urbanas do país.

Com todas essas características, importantes fases marcaram a evolução econômica e industrial do Nordeste. Veremos cada uma delas a seguir.

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