• No results found

Kapittel 6: Norsk OPEC- politikk

6.2 Grad av konsekvens endres

Para Costa (1986) questionar a violência é quase uma questão supérflua, visto que a violência é o “fermento da inquietação cotidiana”. Na sua reflexão sobre a violência, o autor resgata a pesquisa de Eduvaldo Daniel (1982) que traça um rápido perfil da violência urbana no Brasil do começo da década de 1980, o que resulta uma “espantosa” variedade conceitual

de violência: a) contra a pessoa, b) no trabalho, c) no trânsito, d) policial, e) da escola, f) da cultura, g) das discriminações, h) nos esportes e i) contra o patrimônio.

Diante desse quadro, afirma o autor “que a violência invadiu todas as áreas da vida de relação com o indivíduo – o mundo das coisas, das pessoas com seu corpo e sua mente.” (COSTA, 1986, p.09 ). A discussão proposta pelo autor revela as faces da violência baseadas na clínica e na teoria psicanalítica, em virtude da dificuldade da sistematização da própria violência. As definições dadas ao termo são “sempre provisórias, operacionais e inferidas de casos particulares estudados, em situações também particulares” (COSTA, 1986, p.10).

Do ponto de vista conceitual, a palavra violência encontra-se numa situação frágil. A dificuldade de universalização do termo violência leva o autor a afirmar que há “incongruências, subentendidos e mal entendidos” (COSTA, 1986, p.10) nas tentativas de definir violência pelos psicanalistas europeus, por volta de 1977, em Milão. A partir, dessa constatação, o autor navega nas escolas Freudiana e Lacaniana em busca de esclarecimentos sobre como definir a violência e entender o porquê da violência e da paz.

As indagações sobre a violência, feitas pelo autor, não determinam um conceito universal para violência. Constata que o tema é controverso, em virtude não da intransigência semântica ou ainda, pelo prazer formalista de distinguir violência de agressividade, por meio da teoria psicanalítica, ou violência do poder. Diante do discurso “oco” dos colegas, afirma Costa (1986) que há pouco espaço na teoria psicanalítica para a violência e que esta questão contradiz com a gravidade e a seriedade do problema. Independente da delimitação do conceito, ao final do texto o autor opta, indubitavelmente pela paz.

A reflexão de Costa (1986) é atual, mesmo decorrido mais de 20 anos, a violência não abandonou o cotidiano do brasileiro. Naquela época, a coletânea dos textos pesquisados pelo autor indicava à tentativa de tematizar a violência, sem, contudo a preocupação de delimitar com precisão a extensão e a significação do conceito.

O tema violência é complexo e se enreda nos recônditos das pulsões humanas de poder e dominação, nem sempre visíveis (assédio moral) e muitas vezes sutis (bullyng). A violência invadiu os lares, a escola e a sociedade como um todo. Resta para nós uma leitura que almeje revelar as faces da violência nos seus diversos contextos, seja acadêmico ou no mundo real.

Para tanto no próximo tópico, ensaiamos uma definição para a palavra violência no intuito de uma melhor percepção das relações entre a violência e a juventude.

Antes de ensaiarmos uma definição para o conceito de violência, buscamos compreender o que é um conceito. Isto nos ajuda a compreender e discutir este construto, quando nos deparamos com as salas de aulas e com a perplexidade que as atitudes violentas produzem tanto para os agentes, quanto para os objetos dessas práticas.

Para tanto, ao se delimitar um pouco mais “conceito”, temos as acepções de uma entidade abstrata, psíquica e universal que serve para designar uma categoria ou classe de relações, entidades ou eventos. A abstração que o conceito necessita é decorrente da omissão (semântica) das diferenças entre as coisas, para tratá-las como se fossem idênticas e substantivas. O conceito padroniza e modela o universo das coisas e eventos.

No âmbito de uma área de assunto/tema, portanto, não pode existir dúvida quanto ao conceito que o termo comunica, ou seja, existe uma mono referencialidade relativa; o termo evoca o que tem que ser evocado. Pelo fato do tesauro lidar sempre com uma área específica do conhecimento é difícil ocorrer à homonímia. São, portanto, elementos constitutivos do conceito: o referente; as características; o termo (CAMPOS et al., 2004).

A discussão aqui exposta, assim como a discussão sobre sentido e referência do subitem 2.1, é importante para delimitarmos sobre o que estamos falando. Isto em decorrência do termo violência, com traduções em vários idiomas, parecer não contar com a mesma universalidade de entendimentos. Talvez em decorrência da multiplicidade de variáveis e situações que implicam e decorrem desse fenômeno social.

Dito isto, recorremos ao Dicionário Filosófico (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006) em busca de um conceito que expresse a violência. Etimologicamente a palavra deriva do latim

violentia – violare traduzido como tratar com força. Em sentido geral, todo ato exercido com

bastante força contra um obstáculo. Por extensão, o comportamento de uma pessoa agindo de modo constrangedor contra outra que considera um estorvo à realização de seus desejos. Do ponto de vista jurídico, uso da força contra o direito ou a lei, levando à nulidade de contratos (direito civil) ou ao agravamento de infrações (direito penal).

Para Japiassú e Marcondes (2006) à filosofia interessa a noção de violência, na medida em que nega a consciência e o poder de filosofar. Ela foi considerada de origem natural para Hobbes e Nietzsche; para Rosseau e Proudhon a violência provém de uma vida social mal organizada: tanto pode ser rejeitada como opressão e ausência de direito para Rosseau, quanto exaltada quando se apresenta como força libertadora opondo-se a uma violência anterior: a violência não é um meio entre outros para se atingir o fim, mas a escolha deliberada de atingir o fim por qualquer meio para Sartre (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006).

física ou da potência contra si mesmo, contra uma outra pessoa ou contra um grupo ou uma comunidade, que provoca ou pode provocar um traumatismo, a morte, um dano moral, um mal desenvolvimento ou uma carência” (DEJOURS, 2007a, p.09).

Em nossa abordagem teórica ela é interpretada como uma estratégia de defesa contra o sofrimento de uma massa de sujeitos, que tem negado o acesso ao mundo formal do trabalho. A escola torna-se uma arena privilegiada das manifestações da violência entre os jovens estudantes (DEJOURS, 2007a; 2007b).

Pode-se notar que, a conceituação de violência não é uma tarefa fácil, visto as várias facetas que ela assume, a depender do agente, do objeto, do contexto e a aproximação teórica. O universo dos estudantes conta com mais uma aproximação teórica, que pode auxiliar a compreender e desvendar a violência que opera nesse mundo juvenil. Entra em cena no contexto educação-escola um tipo de violência muitas vezes sutil e de difícil aceitação, tanto para os agentes, quanto para os objetos, a violência simbólica. Este tipo de violência tem como lócus privilegiado a arena da escola e influencia de forma indelével a formação da identidade dos jovens e suas futuras relações com o trabalho.

No próximo tópico discutimos a expressão cunhada por Bordieu e Passeron (1975), no contexto das representações e dos valores das classes dominantes reproduzidas nas normas criadas pelas instituições ensino, tem no próximo tópico suas relações discutidas.

2.2.6 Violência Simbólica

O conceito da violência simbólica se origina na Teoria da Reprodução Cultural, desenvolvida no início dos anos 1970, tendo como campo de pesquisa o sistema educacional francês, desenvolvido por Pierre Bordieu e Jean-Claude Passeron (1975).

Os autores pretendiam demonstrar a não existência de uma cultura única, mais que, na realidade, devido ao fato de que elas correspondem a interesses materiais e simbólicos de grupos ou classes diferentemente situadas nas relações de força, esses agentes pedagógicos tendem sempre a reproduzir a estrutura de distribuição do capital cultural entre esses grupos ou classes, contribuído do mesmo modo para a reprodução da estrutura social: com efeito, as leis do mercado em que se forma o valor econômico ou simbólico, isto é, o “valor enquanto capital cultural.

O sistema escolar reproduz, assim, a nível social, o capital cultural da classe social dominante que é a cultura que tem prestígio e valor social com seus (valores, gostos, costumes e hábitos) e, por fim, a própria classe social. Os valores e hábitos das classes menos

privilegiadas são tratados como qualquer coisa, menos como cultura. Assim o domínio simbólico atua, por meio de um “astucioso mecanismo”, adquirindo força e definindo a cultura da classe social dominante como única cultura, a cultura erudita. Os autores argumentam que os conteúdos escolares são organizados no currículo de modo a serem identificados com o capital cultural comum às classes dominantes.

O sistema escolar ao impor uma norma lingüística e cultural determinada mais aproximada àquela que é parte do universo simbólico das famílias mais burguesas, e distanciada daquela dos setores populares. O êxito ou o fracasso das crianças na escola se explica, nessa percepção, pela distância de sua cultura ou língua em relação à cultura e à língua da escola.

Para Bourdieu e Passeron (1975) o currículo da escola tem base na cultura da classe social burguesa e assim se expressa na linguagem da classe social burguesa e é transmitido também através do código cultural da classe social burguesa, o que é indecifrável para as crianças e jovens das classes sociais menos favorecidas as quais são dominadas. O currículo da escola reproduz o capital cultural da classe social dominante e “excluem” os indivíduos que não têm esse capital cultural.

A violência simbólica é entendida por Bourdieu e Passeron (1975, p. 7-8) como “insensível, invisível as suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento”.

Os autores falam da violência simbólica referindo-se principalmente a mecanismos sutis de dominação e exclusão social que são utilizados por indivíduos, grupos ou instituições. Na escola o professor (a) pode excluir o aluno pelo fato do mesmo não utilizar em seu vocabulário a norma culta da língua e isso é uma violência simbólica!

O aluno que possui um hábito mais ligado às atitudes consideradas mais certas em uma instituição escolar como, por exemplo, o habitus ligado à disciplina de estudos fora do horário da escola é também visto pela instituição escolar como “um bom aluno”. Neste sentido, do ponto de vista da nota e da análise dos comportamentos a escola realizaria uma dupla seleção, a qual tenderia a reproduzir as diferenças (culturais e às vezes econômicas já existentes na sociedade). Para Bourdieu e Passeron (1975) há dois mecanismos acontecendo, chamado de dupla violência, a imposição e a ocultação. Ocultação que aparece como uma imposição que é natural.

Segundo Vasconcellos (2002) através do uso de noção da violência simbólica, Bordieu e Passeron tentam desvendar o mecanismo que faz os indivíduos vejam como “natural” as

representações ou as idéias sociais dominantes. A violência simbólica é desenvolvida pelas instituições e peolos agentes que nelas atuam e se ancoram no exercício da autoridade. Para a autora, Bordieu elaborou um sistema toérico que não cessará de desenvolver, pois as condições de participação social são engendradas na herança social.Nesse sentido, acumular bens significa um hatibus social dominante, definindo a trajetória que o individuo desenvolverá, assegurando a reprodução social. A reprodução social se manifesta com a ação sutil das instituições e dos agentes, preservando as funções socias por meio da violência simbólica exercida sobre os individuos e com adesão deles. (VASCONCELLOS, 2002)

A violência simbólica é um assunto recorrente na academia (ARAÚJO, 2001; CAMACHO, 2001; CHARLOT, 2002; VASCONCELLOS, 2002), porém a impressão que fica é: a incapacidade desta discussão transpor os muros da academia e se transformar em realidade manifesta e transformada para os jovens alunos, seus professores, pessoal da direção e apoio da escola. Talvez, a força da reprodução social, demonstre sua face mais nefasta ao distanciar os jovens e seus interlocutores (professores) do pensamento crítico proposto por Bordieu e Passeron (1975), distanciando-os mais ainda de uma inserção social digna e saudável.

A seguir, trazemos algumas características especificas do fenômeno da violência e as relações com o ambiente escolar.