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Paluzzi de Andrade Souza1; Djanilson Barbosa dos Santos1; Gisele Queiroz Carvalho1 1Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Centro de Ciências da Saúde. Av. Carlos Amaral, nº 1015, Cajueiro. CEP: 44.570-000, Santo Antônio de Jesus, Bahia. Correspondência para: SOUZA PA. E-mail: <[email protected]> Tel/fax: (75) 3632-4674/4629.

Resumo

Objetivo: Estimar a prevalência de anemia e fatores associados em gestantes atendidas nas Unidades de Saúde da Família, do município de Santo Antônio de Jesus, Bahia. Métodos: O presente estudo é de corte transversal e os dados foram obtidos a partir de entrevistas com gestantes cadastradas no serviço de pré-natal, em 16 Unidades de Saúde da Família, no período de maio a julho de 2011. A coleta de dados foi realizada através de questionário estruturado. Os dados foram inseridos no banco de dados construído com a utilização do software EpiInfo 6.04 e analisados no programa SPSS versão 11. Resultados: A prevalência de anemia encontrada entre as gestantes entrevistadas foi de 18,2%. Houve razões de prevalência com associação positiva e estatisticamente significante entre anemia e gestantes menores de 20 anos de idade, solteira, que moravam em domicílio com mais de 7 pessoas e primigesta. Conclusão: O presente estudo contribui para o conhecimento da saúde materno-infantil, servindo de alerta aos órgãos municipais de saúde para intensificação de campanhas objetivando a prevenção, o tratamento e, conseqüentemente, a redução da prevalência de anemia em gestantes. Palavras-chaves: anemia; gestação; fatores associados.

Introdução

A anemia é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a condição na qual o conteúdo de hemoglobina no sangue está abaixo do normal sendo resultado da carência de um ou mais nutrientes essenciais, seja qual for a causa dessa deficiência1. Sua etiologia envolve múltiplos fatores, como socioeconômicos, nutricionais, biológicos, ambientais e culturais2.

A anemia é a mais comum das deficiências nutricionais, em todo o mundo, considerada um problema de saúde pública. Segundo a OMS, dois bilhões de pessoas - mais de 30% da população mundial - estão anêmicas3.

As gestantes fazem parte dos grupos mais vulneráveis para o desenvolvimento da anemia, devido ao grande requerimento de micronutrientes nesse período2.

A anemia materna está associada a maiores riscos de morbidade e mortalidade maternal, restrição do crescimento fetal intrauterino, aumento na incidência de partos prematuros, abortos espontâneos, baixo peso ao nascer, morte perinatal e anemia no primeiro ano de vida2.

Tendo em vista que a anemia é uma condição de origem multifatorial e que traz consigo sérias condições patológicas e aumento da morbi-mortalidade para a população, principalmente para aqueles constituintes do grupo de risco, o objetivo deste trabalho foi estimar a prevalência de anemia e fatores associados em gestantes atendidas nas Unidades de Saúde da Família, do município de Santo Antônio de Jesus, Bahia.

Métodos

O presente estudo é de corte transversal e os dados foram obtidos por meio de entrevistas com gestantes cadastradas no serviço de pré-natal em 16 unidades de Saúde da Família (USFs), de Santo Antônio de Jesus, município do Recôncavo da Bahia, participantes do projeto de pesquisa “Fatores maternos de risco para o baixo peso ao nascer, prematuridade e retardo do crescimento intrauterino no Recôncavo da Bahia”.

A amostra foi constituída por 192 gestantes cadastradas nas USFs, que foram entrevistadas após assinarem o termo de consentimento livre e esclarecido.

O trabalho de campo ocorreu no período de maio a julho de 2011. A coleta de dados relativa à caracterização das gestantes foi realizada por meio da utilização de questionário estruturado, para obtenção de informações sócio-demográficas (idade, estado civil, escolaridade, renda e número de membros na família), maternas (paridade) e laboratoriais (concentração de hemoglobina).

Para diagnóstico da anemia foram analisados os valores de hemoglobina, registrados no cartão das gestantes, obtidos por meio da anotação do primeiro resultado do exame laboratorial disponível nas consultas do pré-natal. Foram consideradas anêmicas as gestantes que apresentaram níveis de Hb inferiores a 11,00 g/dL1.

Os dados foram inseridos no banco de dados construído com a utilização do software EpiInfo 6.04 e analisados no programa SPSS versão 11. Para a análise da associação entre as variáveis foi utilizado o teste de Qui quadrado de Pearson, adotando um intervalo de confiança de 95%. O estudo foi aprovado pela Comitê de Ética e Pesquisa em Seres Humanos da Faculdade Adventista de Fisioterapia da Bahia (Protocolo de aprovação: 4369.0.000.070-10).

Resultados

Do total de gestantes estudadas a média de idade foi de 25,6 anos (DP= 6,1), variando entre 14 a 40 anos, sendo que a maioria das gestantes entrevistadas encontravam-se na faixa etária entre 20 a 25 anos.

A prevalência de anemia nas gestantes avaliadas foi 18,2%, observando uma redução progressiva com o aumento da faixa etária das gestantes, estando mais prevalente entre as grávidas < 20 anos (35,0%). Ainda em relação à anemia e às características sócio-demográficas, detectou-se maior prevalência de anemia nas gestantes solteiras, que referiram 10 anos ou mais de estudo, renda mensal de até um salário mínimo, cor da pele preta, com sete membros na família, as primigestas e que encontravam-se no terceiro trimestre gestacional. Houve razões de prevalência com associação positiva e estatisticamente significante entre anemia e gestantes menores de 20 anos de idade [RP: 6,47 (1,58-26,59)], solteira [RP: 1,92 (1,05-3,52)], que moravam em domicílio com mais de 7 pessoas [RP: 3,37 (1,30-8,68)] e primigesta [RP: 2,32 (1,24-4,32)] (Tabela 1).

Discussão

Este estudo mostrou que a prevalência de anemia em gestantes assistidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no município de Santo Antônio de Jesus, Bahia, foi de 18,2%. De acordo com as definições para mensurar a magnitude da anemia como um problema de saúde pública (leve: prevalência de 5,0 a 19,9%; moderada: de 20,0 a 39,9% e grave: maior ou igual a 40%)1, o resultado apresentado indica situação de anemia de nível leve.

No Brasil, pesquisas de base populacional apontaram prevalências mais altas de anemia em gestantes quando comparadas com o estudo realizado no município de Santo Antônio de Jesus (BA), sendo 31,3% em um estudo realizado em seis cidades brasileiras, abrangendo Porto Alegre (RS), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), Fortaleza (CE), e Manaus (AM)4 e 31,9% em Feira de Santana (BA)5, localizada a 114 km do município do presente estudo.

No presente estudo observou-se que a prevalência de anemia foi inversamente proporcional às faixas etárias, sendo o grupo de gestantes < 20 anos o mais acometido, corroborando com os achados do estudo realizado no Estado de Alagoas em 20086, possuindo significância estatística. Tal achado retrata possível concentração do diagnóstico de anemia em adolescentes gestantes.

Do ponto de vista nutricional, se a gravidez ocorre na adolescência há necessidade de ferro aumentada quando comparada com gestantes adultas. Tal fato ocorre devido à demanda do crescimento de um organismo jovem somada àquela relacionada ao próprio processo gestacional. Esses fatores combinados aumentam de forma substancial o risco da instalação de deficiências nutricionais, com sérias consequências, principalmente nas classes sociais menos favorecidas, cujo consumo de alimentos, na maioria das vezes, é inadequado7.

As gestantes solteiras se destacaram quanto à prevalência de anemia, sendo estatisticamente significante. Os resultados do estudo realizado em Feira de Santana (BA) encontraram uma prevalência de 38,5% para gestantes anêmicas solteiras, quando comparada a 27,9% das casadas do mesmo estudo5.

Detectou-se associação significativa entre a prevalência de anemia e paridade. Houve maior freqüência de primigestas (27,2%) entre as anêmicas, corroborando com os resultados de um estudo realizado em Brasília (DF), onde os achados revelaram uma prevalência de 26,5% de primigestas em comparação a 17, 7% de multigestas, embora não tenham encontrado significância estatística8. O resultado obtido sugere uma deficiência do sistema de pré-natal em detectar gestantes que necessitam de uma atenção maior, uma vez que gestantes primigestas não possuem experiência no processo gravídico.

Considerações Finais

O presente estudo contribui para o conhecimento da saúde materno-infantil, uma vez que poderá contribuir para prevenir a anemia e reduzir suas conseqüências, através do perfil epidemiológico dessa doença nas gestantes assistidas pela atenção básica, servindo de alerta aos órgãos municipais de saúde para a necessidade de estudos adicionais e para intensificação de campanhas objetivando a prevenção, o tratamento e, conseqüentemente, a redução da prevalência de anemia em gestantes.

Referências

1 World Health Organization. Iron Deficiency Anaemia – Assessment, Prevention, and Control – A guide for programme managers. Geneva; 2001 (WHO).

2 Rasmussen KM. Is there a causal relationship between iron deficiency or iron deficiency anemia and weight at birth, length of gestation and perinatal mortality? J Nutr. 2001; 590s-603.

3 Montenegro CA; Resende J. Obstetrícia Fundamental. 11ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2008.

4 Pizzol TS; Giugliani ER; Mengue SS. Associação entre o uso de sais de ferro durante a gestação e nascimento pré-termo, baixo peso ao nascer e muito baixo peso ao nascer. Cad. Saúde Pública. 2009 Jan; 25(1):160-168.

5 Santos PNP. Prevalência de anemia nas gestantes atendidas em Unidades de Saúde da Família em Feira de Santana, Bahia, entre outubro de 2005 e março de 2006 [dissertação de mestrado]. Feira de Santana (BA): Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS; 2006. 158 p.

6 Ferreira HS; Moura FA; Cabral JCR. Prevalência e fatores associados à anemia em gestantes da região semi-árida do Estado de Alagoas. Rev Bras Ginecol Obstet. 2008; 30(9):445-51

7 Fujimori E; Laurenti D; Núñez De Cassana LM; Oliveira IM; Szarfarc SC. Anemia e Deficiência de Ferro em Gestantes Adolescentes. Rev. Nutr. 2000 Set/Dez; 13(3): 177- 184.

8 Lucyk JM. Perfil antropométrico, consumo alimentar e concentração de hemoglobina em gestantes assistidas no hospital universitário de Brasília.[dissertação de mestrado]. Brasília (DF): Universidade de Brasília; 2006. 110 p.

Tabela 1 - Prevalência de anemia e razões de prevalências, conforme características demográficas e socioeconômicas, nas gestantes atendidas nas Unidades de Saúde da Família do município de Santo Antonio de Jesus – BA, 2011.

Características N (%) Prevalência de anemia (%) RP* IC95% Total de Gestantes 192 (100) 35 (18,2) Idade (anos) < 20 40 (20,8) 14 (35,0) 6,47 1,58-26,59 20 – 25 60 (31,3) 13 (21,7) 4,01 0,96-16,77 25 – 30 55 (28,6) 6 (10,9) 2,02 0,43-9,46 > 30 47 (12) 2 (4,3) 1,00 Estado civil Solteira 40 (20,8) 12 (29,3) 1,92 1,05-3,52

Casada e união estável 150 (78,2) 23 (15,2) 1,00 Escolaridade

Até 9 anos de estudo 42 (21,9) 7 (16,7) 0,90 0,42-1,90 10 anos ou mais de estudo 150 (78,1) 28 (18,7) 1,00

Renda ≤ 1 SM 98 (51,0) 18 (18,4) 1,02 0,56-1,85 > 1 SM 94 (49,0) 17 (18,1) 1,00 Número de membros na família < 2 70 (36,5) 8 (11,4) 1,00 3 – 6 109 (56,8) 22 (20,2) 1,77 0,83-3,74 > 7 13 (6,7) 5 (38,5) 3,37 1,30-8,68 Paridade Primigesta 81 (42,2) 22 (27,2) 2,32 1,24-4,32 Multigesta 111 (57,8) 13 (11,7) 1,00 *Qui-quadrado de Pearson

AVALIAÇÃO QUALITATIVA DAS PREPARAÇÕES DO