A existência transformada em efemeridade – a vida líquida em uma sociedade líquido- moderna – é, para Bauman, resultado das mudanças impactantes e generalizadas da vida social e da ‘destruição criativa’ imposta pelo capitalismo por serem elementos a alterar substancialmente a condição humana, gerando a propagação do desapego, do viver na indiferença, de uma existência repleta de preocupações, sobretudo em relação aos recomeços e términos, em velocidade espantosa.
Junto ao efêmero, vem o medo de ficar para trás, de não acompanhar a fluidez e a rapidez dos tempos, espaços e produtos, de se tornar dispensável, ‘descartável-humano’; resumindo, ‘medo das incertezas’. A marca da modernidade líquida, para Bauman (2001), é o valor atribuído à vontade da liberdade, algo que acompanha a velocidade das mudanças econômicas, tecnológicas, culturais e do cotidiano. O mundo é vivido como incerto, incontrolável, ao mesmo tempo que assustador, oposto aos tempos da segurança projetada em torno de uma vida social estável e ordenada. Bauman nos incita a, com ele, refletir sobre o ‘mal-estar’ da contemporaneidade e sobre as diversas formas de ‘estar no mundo’, considerando as ameaças e as incertezas.
Como pontos de partida, Bauman (2001) apresenta um ‘novo quadro cultural’, definindo-o como ‘modernidade líquida’, que tem como base uma ‘nova ideia de identidade’, proposta por essa cultura. Bauman (2001) apresenta o conceito de ‘modernidade líquida’ para definir o tempo presente, em vez do termo ‘pós-modernidade’, que, segundo ele, representa mais um qualificativo ideológico.
A modernidade líquida assinala um momento em que a sociabilidade humana experimenta transformações, de forma que viver torna-se uma tarefa difícil de acontecer, considerando as mudanças rápidas e radicais a ponto de promover a perplexidade; a dificuldade de vislumbrar um futuro; o rompimento com ideias e regras estabelecidas como seguras; a dificuldade de encontrar pontos de referências a garantir coerência e consistência
no viver a partir da compreensão do que está acontecendo; a necessidade de decodificar novas forças simbólicas; entre tantos outros sinais que se avizinham nesse diverso contexto.
As dimensões da incerteza do tempo presente se manifestam em um mundo indeterminável, incontrolável e corrosivo. Bauman (2001) assinala alguns fatores responsáveis:
a) ‘nova desordem do mundo’ – após meio século de divisões bem-definidas, tanto os interesses como os indubitáveis desígnios e estratégias políticas privaram o mundo de uma estrutura visível e de qualquer lógica. Países ricos e tidos como poderosos encontram-se aflitos e incertos de si próprios e enfrentam o resto do mundo, que já não se inclina a venerar as suas definições de progresso e felicidade; tenta-se preservar qualquer felicidade ou meramente a sobrevivência que se possa conseguir, mesmo penosamente. Nessa perspectiva, Bauman (2001) considera que talvez o conceito de ‘barbarização secundária’ englobe o impacto global do metropolitanato dos nossos dias sobre a periferia do mundo; b) ‘desregulamentação universal’ – a inquestionável e irrestrita prioridade outorgada à irracionalidade e à cegueira moral da competição do mercado, a desatada liberdade concedida ao capital e às finanças à custa de todas as liberdades, o despedaçamento das redes socialmente tecidas e societariamente sustentadas deram novos impulsos a uma polarização ainda maior no mundo. Para Bauman (1998, p. 34, grifo do autor),
o desvio do projeto da comunidade como defensora do direito universal à vida decente e dignificada para o da promoção do mercado como garantia suficiente da universal oportunidade de autoenriquecimento vem agravando o sofrimento dos ‘novos pobres’, interpretando a pobreza com humilhação e com a negação da liberdade. Meio de vida, posição social, reconhecimento da utilidade podem todos desvanecer-se simultaneamente da noite para o dia;
c) ‘nova configuração inter-relacional’ – a mudança nas relações interpessoais, agora permeadas pela visão consumista, induz que as pessoas disponham umas das outras, distanciando-se da possibilidade de estabelecer laços duradouros; d) ‘nova lógica dos mundos material e social’ – as incertezas desses mundos advêm da lógica da ‘liberdade’ do consumir; carrega mensagem da indeterminação e da maleabilidade do mundo, ou seja, nesse mundo ‘tudo pode acontecer e tudo pode ser feito...’.
Neste mundo, os laços são dissimulados em encontros sucessivos, as identidades em máscaras sucessivamente usadas, a história da vida numa série de episódios cuja única consequência duradoura é a sua igualmente efêmera memória. (BAUMAN, 1998, p. 36).
Viver sob condições de esmagadora e ‘autoeternizante’ incerteza é uma experiência inteiramente distinta da de uma vida subordinada à tarefa de construir a identidade e vivida em um mundo voltado para a construção da ordem, afirma Bauman (1998). Essa nova experiência vem desencadeando outros significados de mundo, de homem e de vida. O mundo se apresenta estranho, da mesma forma que nós somos estranhos ao mundo, e a nós mesmos!
Compactamente, Bauman (2007) destaca pontos demarcatórios que constituem o amplo espectro do que nomina de sociedade líquido-moderna, quais sejam: a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição; o enfraquecimento dos sistemas de proteção estatal às intempéries da vida, gerando um permanente ambiente de incertezas; a imputação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim da perspectiva do planejamento em longo prazo; a iminente apartação entre o poder e a política.
Simbolicamente, das condições apontadas está a resultante de todas elas: a passagem de uma condição sólida, segura, para uma condição precária e incerta, representada pela metamorfose do cidadão – de um sujeito de direitos para um indivíduo em busca de afirmação no espaço social.
O que se pretende é, inicialmente, questionar, sob a perspectiva de Bauman, as incertezas nos tempos e espaços da chamada ‘modernidade líquida’ e, posteriormente, identificar algumas características da crise da identidade humana e os seus contornos, com o fim de buscar possíveis saídas para o entendimento e a construção de práticas pedagógicas mais conscientes e autônomas.
A vida em um mundo Líquido-Moderno
O termo ‘liquidez’ representa uma metáfora utilizada por Bauman (2007) para reinterpretar o chamado tempo pós-moderno. As mudanças que levaram a esse tempo representam a crise do que se concebia como ‘sólido’, tipificado, sobretudo pelas certezas produzidas pela modernidade que agora se apresentam culturalmente em estado ‘fluido’, ‘líquido’, identificadas pela precariedade, pelas incertezas e pela rapidez dos movimentos.
“Os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma. A vida líquida e a modernidade líquida estão intimamente ligadas.” (BAUMAN, 2007, p. 7). Assim, no mundo líquido, vivenciamos algumas passagens que marcam outra cultura e condição humana. A vida líquida é uma ‘vida precária’, vivida em condições de incertezas constantes; é uma sucessão de reinícios, com finais rápidos. A precariedade se tornou um dado cultural e um dado social representado por estilo de vida, costumes, etc. Precário é o ser humano que se
sente inseguro, não só pelo trabalho, que não é mais fixo, mas também pelo medo das pessoas, medo por ficar fora dos acontecimentos. Esse é um estilo de vida da sociedade líquida. (BAUMAN, 2007).
“A ‘destruição criativa’ é a forma como caminha a vida líquida, mas não é só o momento em si que é destruído, são os modos de vida e, por decorrência, os seres humanos que os praticam.” (BAUMAN, 2007, p. 10, grifo do autor). Todos têm ‘garantia temporária’.
O processo identitário no contexto das mudanças
Um tipo diferente de mudança estrutural vem transformando as sociedades modernas no final do século XX e início do século XXI, provocando essas a fragmentação ‘de paisagens culturais’ de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade. Tais transformações societárias têm repercutido em mudanças nas identidades pessoais, abalando a ideia que cada um tem de si enquanto ‘sujeito integrado’. Essa perda de ‘sentido de si’ e da estabilidade representa um deslocamento ou descentração do sujeito. Assim, tem-se um duplo deslocamento – por um lado, a descentração dos sujeitos de seu mundo social e cultural e, por outro, a descentração dos sujeitos de si mesmos. Para Mercer (1990), caracteriza-se, assim, o que se pode denominar de ‘crise de identidade’, que tem como base o deslocamento do que estava estável, fixo e coerente para uma situação experiencial de dúvida e de incerteza.
O que está em jogo é uma mudança nos conceitos de identidade e de sujeito. “Em essência, o que se discute na atualidade é que velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, hoje, encontram-se em declínio, fazendo surgir ‘novas’ identidades e fragmentando o sujeito antes tido como ‘unificado’. Parte-se do pressuposto de que as ‘identidades modernas’ estão sendo descentradas, isto é, deslocadas ou fragmentadas.” (HALL, 2006, p. 7, grifo do autor). Dessa forma, a chamada ‘crise de identidade’ se torna parte de um processo mais amplo de mudança, que, em síntese, está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e, sobretudo, abalando o que podemos nominar de ‘quadros de referência’, que, de certa forma, possibilitavam aos sujeitos uma ‘ancoragem estável’ no mundo social.
Considerando a dimensão do ‘fenômeno identidade’ por meio da história, Hall (2006), didaticamente, apresenta três concepções de sujeito e suas identidades: o sujeito do iluminismo, o sujeito antropológico e o sujeito pós-moderno. Sinteticamente, o sujeito do iluminismo era centrado, unificado, dotado de capacidades de razão, de consciência e de ação. No entanto, essa concepção de sujeito se alterou enquanto reflexo do movimento crescente de complexidade da realidade, mais especificamente do chamado ‘mundo moderno’. Com a
criação do Estado-Nação, surgiu, por meio do Estado, a necessidade de fazer do ‘nascimento’ o alicerce da própria soberania, ou seja, a ideia de identidade vinculada ao sentimento de pertencimento a um Estado, a uma nação. No entanto, a ideia de ‘identidade nacional’ não emergiu da experiência humana como ‘fato da vida’ e, forçosamente, passou a fazer parte da vida de homens e mulheres modernos. Para Bauman (2005, p. 2), o Estado buscava a obediência de seus indivíduos, apresentando-se como a concretização do futuro da nação e a garantia de sua continuidade. Logo, se o Estado era a concretização do futuro da nação, se fazia necessário, também, a criação de uma nação confiante e compartilhada, com o intuito de garantir a unidade e a coesão da ‘comunidade nacional’.
[...] a naturalidade do pressuposto de que pertencer-por-nascimento significava, automática e inequivocamente, pertencer a uma nação foi uma convenção arduamente construída – a aparência de naturalidade era tudo, menos natural [...]. (BAUMAN, 2005, p. 29).
Sob o referencial socioantropológico, entende-se que o núcleo interior do sujeito é, também, resultante da relação com outras pessoas, ou seja, imprime-se ao sujeito uma concepção ‘interativa’ da identidade e do ‘eu’, de modo a afirmar que a identidade é formada na ‘interação’ entre o ‘eu’ e a sociedade. (HALL, 2006). Desse modo, a identidade do sujeito é preenchida pelo ‘interior’ e ‘exterior’, entre o mundo pessoal e o mundo público. Por esse caminho, é possível ‘alinhar’ os elementos subjetivos aos objetivos, ou seja, os sujeitos são parte internalizada dos significados sociais e culturais, assim como se projetam nas ‘identidades culturais’. Em certa medida, podemos afirmar que o sujeito, nessa perspectiva, é parte predeterminada pela ‘ordem social’ e pela garantia de uma ‘relativa unidade’ entre o subjetivo e o objetivo.
Os sinais dos tempos líquido-modernos assinalam que o sujeito previamente estabelecido com uma identidade unificada e estável, agora, não mais dá conta da composição de uma ‘única’ identidade, mas, por encontrar-se fragmentado, assume várias identidades, algumas delas contraditórias ou não-resolvidas. Assim, as identidades que compunham as ‘paisagens sociais’ no espaço externo e que asseguravam a conformidade subjetiva dos sujeitos com as necessidades objetivas da cultura estão entrando em colapso, por conta das mudanças estruturais e institucionais. Tudo se tornou provisório, variável e incerto.
Modernidade líquida, globalização e identidade
No pensamento moderno, ao carregar entre seus pressupostos a visão de sujeito munido de uma unidade unificada e racional, entendia-se por ‘unificado’ o sujeito representativo de uma condição ‘Indivisível’, no entender de Williams (1976) apud Hall (2006), uma entidade singular, distinta e única. Racional, pensante e consciente, dotado, segundo Descartes, por duas substâncias: a espacial (matéria) e a pensante (mente), ou seja, as explicações da realidade se efetivam pela redução dos elementos essenciais. Por sua vez, Locke (1999), em ‘Ensaio sobre o entendimento humano’, sustenta que “o humano é dotado por uma identidade que permanece a mesma e é contínua com seu sujeito; no entanto, ressalta a razão como parte do processo de formulação do conhecimento e da experiência”.
O cidadão individual tornou-se cada vez mais enredado na burocracia e maquinarias do estado moderno. Desencadeou-se, gradativamente, uma concepção mais ‘social’ de sujeito, ou seja, esse sujeito passou a ser visto como mais ‘localizado’ e ‘definido’ no interior das grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna.
O sujeito moderno e a constituição de sua identidade sustentaram-se, inicialmente, sobre dois eixos: a razão, que tinha base na natureza, e a mente, que tinha por base o desenvolvimento físico do cérebro humano. As ciências sociais, no entanto, ao criticarem o individualismo racional originário do cartesianismo, sustentaram outra concepção importante na construção da identidade do sujeito moderno, qual seja, a de que os indivíduos são localizados em processos de grupo e nas normas coletivas. Mais claramente, a subjetividade dos indivíduos está implicada à sua participação no conjunto das relações sociais mais amplas. (HALL, 2006). A concepção primária do sujeito moderno tem raízes, também, nos processos de ‘internalização do exterior no sujeito’ e de ‘externalização do interior’ por meio da ação no mundo social. Esse ‘modelo socioantropológico’ de interatividade entre indivíduo e sociedade é que vai sustentar a ‘condição estável’ entre o interior e o exterior dos sujeitos, até a primeira metade do século XX.
Os movimentos em direção ao descentramento do sujeito
A segunda metade do século XX reservou grandes mudanças em diversas esferas. Há, também, a considerar as contribuições da Sociologia, da Antropologia, da Psicanálise e de outras áreas para o desencadeamento de uma série de rupturas nos discursos do conhecimento do pensamento moderno, como os referenciais do pensamento marxista, as contribuições freudianas sobre a subjetividade e os processos psíquicos inconscientes, entre outros, que
permitiram conceber a identidade como algo a se formar ao longo da vida. Dessa forma, a identidade toma contornos também pela ‘falta de inteireza’, que é preenchida a partir do exterior, pelas formas que imaginamos ser vistos pelos outros.
Outro elemento a possibilitar o descentramento do sujeito é a língua, uma vez que, para Saussure (1995) apud Pêcheux (1998), a língua é um sistema social e não individual; ela preexiste a nós. Influenciado por Saussure, Derrida (2002) argumenta que “o falante individual não pode nunca fixar o significado de uma forma final, incluindo o significado de sua identidade”. As palavras são multimoduladas, carregando ecos de outros significados. Outra contribuição a considerar é o trabalho de Foucault (1997), ao construir a ‘genealogia do sujeito moderno’, explicada pelo ‘poder disciplinar’. Destaca-se, sinteticamente, no conjunto de sua obra, a importância dos ‘regimes disciplinares’ do poder moderno administrativo; quanto mais organizado o coletivo das organizações, tanto maior a vigilância, o cerceamento do sujeito individual.
Acrescem-se, na segunda metade do século XX, os impactos dos diversos movimentos sociais sobre a modernidade líquida, influenciando na configuração da identidade ao apresentar questões feministas, étnicas, de gênero, entre outras.
Assim, na segunda metade do século XX, período no qual a modernidade líquida tomou contornos altamente questionadores do ponto de vista social, cultural, econômico, humano e ético, é preciso também se questionar o movimento da globalização.
Assim é que McGrew (1992) apud Hall (2006, p. 67) argumenta que a
globalização se refere àqueles processos atuantes numa escala global que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado.
Acrescentam-se a essas noções espaço-temporais o alcance e o ritmo da integração global como fatores a impactarem no processo de construção da identidade. Se antes espaços se encolheram para dar lugar a uma aldeia global de interdependências, assim como os horizontes temporais antes se encurtaram para dar lugar ao que o presente pode alcançar, segundo Harvey (1989) apud Hall (2006, p. 70), então se impõe aos indivíduos que aprendam a lidar com as novas compreensões / dimensões de mundo.
[...] os processos atuantes em escala global atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado. A globalização implica um movimento de distanciamento da ideia sociológica clássica da ‘sociedade’ como um sistema bem delimitado e sua substituição por uma perspectiva que se concentra na forma como a vida social está ordenada ao longo do tempo e do espaço. (GIDDENS, 1990 apud HALL, 2006, p. 68).
Assim posto, quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares, imagens, etc., tanto mais as identidades se tornam desvinculadas, desalojadas dos tempos, lugares, histórias e tradições, parecendo ‘flutuar livremente’, segundo Bauman (2007). Com efeito, a globalização acarretou novas relações / tensões entre o local e o global, com repercussão nas identidades, tendo em vista os modos de articulação entre os elementos do particular e os do universal.
A época líquido-moderna, para Bauman (2007), equivale a dizer que o mundo à volta dos sujeitos encontra-se em fragmentos mal coordenados, e as existências individuais, fatiadas em uma sucessão de episódios fragilmente conectados. O mal-estar da sociedade também inclui o estar total ou parcialmente deslocado em toda a parte; o não estar totalmente em lugar algum, ou seja, viver uma experiência desconfortável e até perturbadora. A construção das identidades é uma condição reconhecidamente ambivalente, uma vez que flutuam no ar e são entendidas na modernidade líquida como precárias, frágeis e inconclusas. (BAUMAN, 2007).
Com o mundo se movendo em constante aceleração, os sujeitos não podem mais confiar na pretensa utilidade das estruturas de referência com base na sua suposta durabilidade. (BAUMAN, 2005). Tais estruturas não incluem facilmente novos conteúdos; mostram-se desconfortáveis e incontroláveis para acomodar todas as identidades novas. No mundo líquido-moderno, em que as oportunidades são fugazes, as identidades rígidas e inegociáveis simplesmente não funcionam.
“Na modernidade líquida, o Estado não tem mais o poder ou o desejo de manter uma sólida e inabalável união com a nação.” (BAUMAN, 2003, p. 83). Tornamo-nos conscientes de que o ‘pertencimento’ e a identidade não têm solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida; tornaram-se, nos dizeres de Bauman (2005), ‘negociáveis’ e ‘revogáveis’.
Se, ‘identificar-se com’ significa dar abrigo a um destino desconhecido, então a busca desenfreada das pessoas ao ‘reconhecimento’ justifica-se, segundo Bauman (2005), resultando na precariedade do compromisso e na manifestação aguda da crise de existência.
O que fica evidente é que com a denominada ‘modernidade líquida’ consolida-se a provisoriedade, a precariedade e a fragilidade em várias instâncias, incluindo a do campo afetivo e relacional.
Crise de existência na sociedade do vazio
Bauman (2007), ao retratar a existência humana no tempo da modernidade líquida, chama a atenção para uma das condições perversas instaladas, qual seja, a da pessoa não mais situada, mas do ‘indivíduo sitiado’.
“Em uma sociedade individualizada, cada um é visto como ‘um Indivíduo’. Os membros dessa sociedade são tudo, menos ‘pessoas diferentes ou únicas’. São, ao contrário, semelhantes.” (BAUMAN, 2007, p. 26, grifo nosso). Paradoxalmente, individualidade se refere à condição de grupo – significa ser igual a todos no grupo – e se apresenta como um imperativo universal e como condição de todos. “O único ato que faria do sujeito diferente e, portanto, genuinamente individual, seria tentar – de modo desconcertante e surpreendente – não ser um indivíduo; ou seja, os sujeitos se sujeitam às consequências.” (BAUMAN, 2007, p. 26). Está posta a contradição lógica em meio a uma incerteza espantosa: a sociedade individualizada exige que todos sejam ‘indivíduos’ (sociedade de indivíduos).
A construção identitária carrega em si uma contradição ‘insolúvel’, o que nos leva a considerar como uma das incertezas da modernidade líquida: a possibilidade de encontro com a sombria verdade e, quem se dispõe a enfrentá-la, tenderá a lidar com muitas frustrações. Bauman (2007, p. 29, grifo nosso) conclui que “a individualidade é uma tarefa que a ‘sociedade dos indivíduos’ estabelece para seus membros, como tarefa individual”.
Apenas um adendo:
o termo ‘indivíduo’ apareceu no pensamento da sociedade ocidental, no século XVII, no limiar da Idade Moderna, representando como derivado do latim, tal como o á-tomo, do grego, um atributo de indivisibilidade. Referia- se ao fato, na época, de que se toda a população humana fosse dividida em partes constituintes cada vez menores não se conseguiria ir além de uma única pessoa, ou seja, um ‘simples’ ser humano é a menor unidade à qual ainda se pode atribuir a qualidade de ‘humanidade’. Em si mesmo, o termo não estipulava a singularidade de seu portador. (BAUMAN, 2007, p. 30, grifo nosso).
Esta ‘singularidade’, retratada na visão de Ricoeur (1991), no entanto, assinala para a condição de ‘ser diferente dos outros’. Na atualidade, o termo ‘indivíduo’ associado à visão