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Glacial variations during the Holocene

In document geology of norway Quaternary (sider 62-75)

Ninguém se sabe atrasado senão quando descobre a Realidade. A Realidade somos nós. Nem mais nem menos.

Almada Negreiros

Há na poesia de MAP, muitos têm sido os críticos a salientá-lo32, uma manifesta consciência do tardio, que aflora repetidamente à superfície dos textos.

A condição tardia, em MAP, mais do que uma temática geral passível de ser avaliada e ajuizada de fora, é uma experiência (uma situação) de escrita. Nesse sentido, o tardio, em MAP, não é uma mera noção temporal, inscrita numa linearidade cronológica preestabelecida que faz distar o princípio do fim, determinando o meio a partir do qual o tardio não será senão o que está próximo do termo. Começar a publicação de uma obra poética por um poema como “Os Tempos Não”, é bem um modo de dizer “Calma”, refreando cómodas identificações apressadas e constrangedores pré-juízos. São, aliás, bem expressivos os modos como a poesia de MAP parodia as pretensões dos que, por se considerarem detentores de um lugar exterior àquilo de que falam, se julgam capazes de demarcar fins e princípios na história dos textos literários.

A poesia de MAP não é imune às sombrias preocupações que inquietam tempo histórico que é o seu, o que não quer dizer que se deixe cegar pelo pessimismo que as determina e condiciona. Eis talvez o sentido da passagem tendencialmente paródica, sobretudo no primeiro livro de MAP, pelo tema da “morte da literatura”. No entanto – e este é um dado significativo – esta passagem é feita por intermédio de uma “segunda pessoa”, ou seja, de uma personagem literária que em ANFNPM recebe o nome de

32 Abro uma nota para registar o interessante conjunto de perguntas que, a propósito do título do

primeiro livro de MAP, Américo Diogo e Osvaldo Silvestre colocaram a MAP relativamente a esta temática do tardio: “É o poeta que é tardio (em relação aos seus mestres modernos: Pound, etc.)? É a poesia que já não tem apetência de canto? É a revolução que vem fora de tempo?” (DVA, 2007: 12). Importa, por agora, reter o sentido destas perguntas que receberão, no decorrer da leitura que apresento, uma orientação particular.

41 “Clóvis da Silva”, personagem que se liga parodicamente a uma explicitação poética do tema dos princípios e dos fins da literatura.

Clóvis, o poeta que quer “enterrar” ou “emperrar” a “littratura” ‒ “A littratura morreu. Eu e Flávio lhe faremos o emprerro” (TP: 31) ‒ pode dar-se a ler como emblema dessa espécie de “ideólogos dos fins”, menos preocupados em fazer um diagnóstico reflectido e atento das situações do que em propor-lhes uma apressada solução final. Reduzido às suas justas proporções, Clóvis da Silva acaba, afinal, por morrer da “mais pequena e ordeira morte possível”, antes de ver cumprido o seu grande projecto literário.

Desta hipótese de leitura deriva uma outra, que o próprio autor não invalida, que será a de ler nas figuras de Clóvis da Silva e do seu companheiro Flávio dos Prazeres um emblema das desmesuradas ambições que movem os grandes projectistas dos “fins e dos princípios” que ocupam, na história da literatura moderna, o lugar das vanguardas literárias ou culturais33. A este propósito, numa entrevista a Américo Lindeza Diogo e

Osvaldo Silvestre, MAP comenta:

Porque, repare-se, [Clóvis da Silva] é alguém que, justamente, anuncia a morte da “littratura” (e o Littré é a metáfora aparente de uma literatura canónica), e se propõe enterrá-la, ou “emperrá-la”, com a colaboração de um outro que, sendo Flávio dos Prazeres, é também Plágio dos Fazeres… Alguém que, aliás, morrerá da mais banal e ordeira morte possível antes de levar a cabo o seu desmesurado e inútil propósito literário. Tão inútil e desmesurado como os de Breton ou de Tzara (e, sim, também o da chamada contracultura), que acabaram, de uma forma ou de outra, na omnívora barriga do Littré. (DVA: 21).

À poesia de MAP interessa, no entanto, muito menos a exposição da distância que separa a sua própria escrita dos projectos das vanguardas “littrárias”, que acabarão inevitavelmente, como o próprio autor salienta, “na omnívora barriga do Littré”34, do

33 Esta proposta de leitura é sugerida por Américo Lindeza Diogo e Osvaldo Silvestre, na entrevista citada.

(Cf. DVA 2007: 21).

34 Esta “omnívora barriga” pode servir também de leitura aos primeiros dois versos do poema “Já não é

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que a consciência de não escapar, também ele, hélas, à força de atracção de tais propósitos que inevitavelmente o arrastam para a esfera dessa “omnívora barriga” que, rindo por último, o devora. É desta consciência que MAP fala, com mais inquietante seriedade, quando comenta, como leitor da obra que vai deixando escrita, a queda da sua própria poesia (sobretudo a dos seus primeiros livros) em alguns “propósitos desmesurados”, apesar da permanente consciência do despropósito e da inutilidade deles:

A poesia daquilo que classifica de minha “primeira fase” vive, com efeito (acho eu, que sou hoje apenas um leitor dela), de alguns propósitos desmesurados […] e, simultaneamente, da consciência da inutilidade – e despropósito – deles. (ibidem).

Esta ambivalente relação com a escrita literária, enquanto consciência do que nela é desdobramento e desapropriação da vontade daquele que escreve, nunca abandona a poesia de MAP, sendo mesmo, aliás, um dos tópicos permanentes da sua aprendizagem do literário.

A invenção de personagens como Clóvis ou Slim da Silva (a mesmidade do apelido pode ser lida como registo do laço que os aproxima de uma linhagem comum) é um exemplo concreto (entre muitos outros) da relação que a poesia de MAP estabelece com a literatura como mecanismo automático e desapropriador.

É disso mesmo que nos damos conta quando, na entrevista citada, encontramos uma outra perspectiva de leitura da personagem Clóvis da Silva, mais produtiva para a aprendizagem do literário que nesta poesia se dá a pensar. Diz MAP:

Clóvis da Silva é alguém que eu (não tenho melhor palavra à mão do que “eu”) vejo escrever algumas coisas que escrevo. Não um heterónimo, talvez antes um ortónimo da literatura ela-mesma (isto é, da outra). (DVA: 2. Itálico meu.).

morte ou não da Literatura (do Littré), mas pela possibilidade de lhe escapar quando ela parece engolir tudo: “Já tudo é tudo. A perfeição dos / deuses digere o próprio estômago.” (TP: 12).

43 Ver Clóvis da Silva enquanto mera colagem à heteronímia pessoana35 impede- nos de apreciar o modo divertido como algumas das questões que faziam a actualidade literária de uma época (não estritamente nacional, saliente-se) entram na poesia de MAP sob o olhar duplamente distanciado (diria dramatizado no irónico tom teatral com que para tais questões chega a criar personagens e circunstâncias) de um poeta que, embora se sinta desajustado face às apreensões estético-culturais e literárias que dominavam os anos em que teve início a publicação da sua obra, não tem, afinal, como escapar-lhes.

Impede-nos sobretudo de ver aquilo que nesta poesia constitui o traçado de uma linha de fuga à dupla alternativa de resposta aos tempos, que deixei atrás formulada. Em MAP não há a queda, nem numa visão cínica e fatalista do fenómeno literário, nem num olhar ingenuamente simplista desse mesmo fenómeno36. E é

35 Joaquim Manuel Magalhães será talvez um dos primeiros críticos a cobrir a escrita de MAP com a

sombra de Fernando Pessoa sem desvendar em que moldes (ou sob que sombras) o faz. Relativamente a Aquele que Quer Morrer limita-se a rotulá-lo como “um exercício, infelizmente namorado de heteronímias” (Magalhães, 1981: 266). Seguindo, talvez, o raciocínio de Magalhães, Inês F. Santos toma a complexidade heteronímica pessoana como multiplicação de nomes de um sujeito disperso, justificando o aparecimento de Clóvis da Silva e de Slim da Silva – “uns quase-heterónimos” (Santos, 2004: 19) –, como exemplo dessa mesma “dispersão”, que não redundaria senão em “colagem” da suposta experiência pessoana. Faltaria, pelo menos, que a ensaísta explicitasse em que termos entende esse “quase” que afecta a heteronímia, fazendo-a, afinal, descoincidir com a de Pessoa, tornando, assim, a leitura mais prometedora.

36 Não é tanto o facto de a poesia vir (ou não) a acabar que inquieta MAP e que o faz escrever para que,

afinal, não acabe. Ainda que por intermédio de Clóvis da Silva – essa “segunda pessoa” literária que partilha com MAP a autoria dos poemas de ANFNPM –, não deixamos de encontrar neste primeiro livro de MAP uma interrogação, chamemos-lhe poético-existencial, inquietante: o que faz a poesia por nós? Um poema como “A poesia vai” é emblemático. O poema começa assim: “A poesia vai acabar, os poetas / vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros / (enquanto os pássaros não / acabarem). […])” (TP: 38). O eixo da inquietação deste poema não é o sucessivo acabamento dos “lugares” onde a poesia pode (ou não) acabar ou continuar, nem o sucessivo deslocamento do poeta para lugares cada vez mais distantes da cidade (como aconselharia Platão), mas a indagação extrema do próprio fazer, que o poeta dirige a si mesmo ou a um outro, do interior da própria cidade, numa “repartição pública”: “«Que fez algum / poeta por este senhor?»” (Ibidem). Esta pergunta é a interrogação mais aguda do sentido profundo da paixão da literatura. São os últimos versos que trazem ao poema o sentido bíblico da “paixão” (amor e sofrimento) que habita língua (ocidental que é a nossa): “Uma pergunta numa cabeça. / – Como uma coroa de espinhos” (ibidem). O poema acaba, como afinal começa, com a ironia cara a MAP, um linha que desloca todo o dramatismo da cena para a perspectiva do observador, que se torna, assim, capaz de não a levar demasiadamente a sério: “Estão a ver onde é que o autor quer chegar?” (Ibidem). Mas isso mesmo não apaga nem atenua a aflição da pergunta e os seus efeitos: “E a pergunta / afligiu-me tanto por dentro e por / fora da cabeça que tive que voltar a ler / toda a poesia desde o princípio do mundo.” (Ibidem). Em MAP, as dúvidas, os medos, as suspeitas ou as inquietações não o levam jamais a decretar o fim ou a projectar um novo início para a indagação poética.

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precisamente a inexistência de um olhar cínico ou ingénuo que fecha, a MAP, a hipótese de fuga pela alterização heteronímica à maneira pessoana. O caminho que Fernando Pessoa abriu, o próprio Pessoa fechou: era a sua direcção única, diria Almada Negreiros. O que não é o mesmo que dizer que não haja efeitos, na escrita de MAP, da força de atracção que a obra de Fernando Pessoa exerceu sobre toda a literatura, nomeadamente sobre a literatura portuguesa do século XX.

MAP nunca negou a presença de Pessoa na sua obra, afirmando mesmo, em entrevista a Osvaldo Silvestre e Lindeza Diogo, que escapar à sua influência seria uma “inacreditável infelicidade”: “Acho eu que só por inacreditável infelicidade é que algum poeta posterior não terá sido – por acção ou omissão, por aceitação ou por denegação, mais ansiosamente ou menos ansiosamente – influenciado por Pessoa.” (DVA: 16).37

A presença do poeta da heteronímia não tem tido, no entanto, nos textos críticos sobre MAP, a produtividade desejável, limitando-se a ser, na maior parte dos casos, uma ilustração, com o nome de Fernando Pessoa, de marcas que são, afinal, comuns a todos os poetas modernos. É, uma vez mais, o próprio MAP quem o refere na mesma entrevista, comentando o facto nestes termos: “entre nós, Pessoa é, frequentemente, o nome que se atribui à modernidade (assim tem sucedido com a minha poesia, onde se tem identificado como ‘pessoana’ muita coisa, até a questão identitária, que é apenas moderna).” (Idem: 15, 16).

No ensaio “A intransigência do poeta”, que serve de prefácio à edição francesa Quelque chose comme ça de la même substance (colectânea de 1992 que reúne alguns poemas extraídos dos volumes dos livros publicados desde 1974 até Nenhuma Palavra Nenhuma Lembrança), Eduardo Prado Coelho não deixa de evocar essa indelével marca que a “presença imensa” de Fernando Pessoa deixou na literatura portuguesa, uma

MAP é o poeta do regresso, da releitura, da reaprendizagem no aprendido, do que ficou soterrado ou não foi jamais sequer notado aí, no que está sempre a passar e é desde sempre já passado, onde nunca se poderia esperar vir a encontrar o que ficou aí por vir. MAP é o poeta das grandes interrogações que partem, não das maiores evidências, mas das mais imperceptíveis coisas, como quem escava em busca do que ficou ignorado porque esquecido.

37 Nesta mesma entrevista MAP salienta o modo como a leitura do ortónimo e de Alberto Caeiro o marcou

profundamente e fá-lo em termos quase físicos ao dizer que “apanhou” alguma coisa daquela poesia “como se ‘apanha’ uma doença.” (DVA: 16). Este sentido da leitura como “contaminação”, afecção concreta do corpo que se altera pela sua própria vulnerabilidade ao que lhe é exterior e alheio é um dos efeitos da aprendizagem do literário que é a sua.

45 presença que, sublinha o ensaísta, “domina tanto aqueles que o prolongam como aqueles que o rejeitam com veemência.” (Coelho, 2002: 9). O poeta que fez da sua escrita um modo de relação com a multidão de “conhecidos inexistentes”38 que o habitavam, acabando por fazer de si mesmo o mais famoso de todos os inexistentes conhecidos – o nome que assina uma literatura inteira –, é já parte de todos nós, é impossível não dialogar com ele. E MAP, como tão acertadamente intui Eduardo Prado Coelho, será “talvez entre os autores contemporâneos um daqueles que mais reescrevem Pessoa” (Ibidem). Mas este regresso a Pessoa não é um voltar a Pessoa, é antes a expressão da inevitabilidade de um (re)encontro (a múltiplas linhas) com Fernando Pessoa na escrita, como escrita. Pessoa é um “lugar” de passagem obrigatória. É desse inevitável encontro que a reescrita emerge, não como um prolongamento, nem como uma recusa, mas como um caminho paralelo, isto é, a par: o de MAP.

Quando MAP afirma que Clóvis da Silva é fruto do desdobramento de si que ocorre na própria escrita – “Clóvis da Silva é alguém que eu […] vejo escrever algumas coisas que escrevo”39 – não é de divisão, de fragmentação ou de multiplicação de eus

que fala. MAP fala de e da “literatura”. Com Fernando Pessoa, contra Fernando Pessoa, MAP afirma-se outro relativamente a esse outro ‒ à literatura ‒, ao seu inexorável poder de alterização. MAP não vê Clóvis da Silva como um heterónimo, um “outro” de si mesmo que, à maneira pessoana, equivaleria a um desdobramento em outros “eus” semelhantes entre si (e em face de si mesmo) na sua essência (verbal, ficcional), mas como um outro efectivamente dissemelhante, um “outro” que não mantém com o “eu” (e também não tenho melhor palavra à mão do que “eu”) uma relação interpessoal e intersubjectiva como a que se estabelece entre dois seres de natureza equivalente.

Clóvis da Silva é uma das figurações desse “outro” que, por definição, se distingue do “eu” (não tenho melhor palavra à mão) que o estranha, que lhe é estranho.

38 É na famosa carta a Adolfo Casais Monteiro sobre a Génese dos Heterónimos que Fernando Pessoa, a

propósito da sua “tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação”, usa a expressão “conhecido inexistente” para referir o encontro, ainda inicial e imaturo, com a sua própria despersonalização: “Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo Chevalier de Pas” (Pessoa, 1935. Itálico meu).

39 Esta leitura seria, só por si, argumento suficiente para justificar a divisão em duas partes – duas pessoas

– do seu primeiro livro, que se poderia ter chamado “duas biografias”, como o refere o autor nas “Notas” do seu segundo livro, AQQM (TP: 98), acentuando ainda mais a duplicação já patente na separação

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Clóvis da Silva, e é MAP quem assim o lê, é, volto a sublinhá-lo, um “ortónimo da literatura ela-mesma, (isto é da outra)”. Esta separação no seio da própria noção de literatura – entre uma literatura “ela mesma” (a ortónima) e uma outra ‒ “isto”, o que é sem nome – tem repercussões teóricas inapagáveis em toda a aprendizagem do literário que é a de MAP. 40

A Literatura (a ortónima) não é o comprometimento ético e poético de MAP. Não é para “criar uma literatura” que é tarde na sua poesia, é talvez um pouco tarde, sim, para “descriar” o modo de pensar imageticamente o mundo que com a “literatura” aprendemos a construir. Não há, na poesia de MAP um projecto de “criação literária” assente numa noção de “criação” como “origem” ou “génese”; haverá, quando muito, um sonho desejante de inverter o curso da operação discursiva, fazendo-o advir, não de uma origem, mas de um fim, operação que não é movida ou mobilizada por um projecto de edificação ou construção, mas orientada por um processo de desconstrução contínua das imagens fixadas numa memória totalizante: “Oh, juntar os pedaços de todos os livros / e desimaginar o mundo, descriá-lo” (TP: 307). Um “sonho” que não chega nunca a ter a materialidade de um projecto, que é apenas desejo, força desejante que instaura um combate menor, guerrilha contra as forças do instituído sem lhes pretender definir ou determinar alternativas.

Eis a razão por que ler em MAP um “poeta tardio” (expressão, a seu modo cómica) é um gesto que não pode ser praticado com excessiva ligeireza.

Encontramos, é certo, no início da sua obra inúmeras manifestações da consciência de um acabamento sem remissão. Atravessarei esses lugares nos próximos capítulos; é na expressão do esgotamento que advém a linha de fuga ao próprio esgotamento de um discurso que fechado em si mesmo. Num certo sentido, como ficou dito nos capítulos anteriores, não deixa de ser possível ler a experiência da travessia inicial da obra de MAP como um relato ou um testemunho poético do crepúsculo dos próprios poderes da negação e da ultrapassagem, que culminou no ocaso da moderna “tradição de ruptura”, como a descreve historicamente Octávio Paz:

40 O deítico “Isto” será, provavelmente, o núcleo axial da problemática da interrogação do literário que

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Hoje somos testemunhas de uma outra mutação: a arte moderna começa a perder os seus poderes de negação. Desde há anos, as suas negações são repetições rituais: a rebeldia convertida em procedimento, a crítica em retórica, a transgressão em cerimónia. A negação deixou de ser criadora. Não digo que vivemos o fim da arte: vivemos o fim da ideia de arte moderna (Paz, 1987: 211).

A mobilização do progresso para um futuro perfectível perdeu há muito o seu carácter de evidência. Uma dúvida generalizada ensombra o presente em que todos os fins se anunciam: fim de uma certa concepção da história como processo linear progressivo dotado de uma racionalidade imanente, fim das grandes narrativas, fim da arte, fim da cultura, fim do homem, fim da literatura…

Reconverter o pensamento poético de MAP a uma mera ilustração de um estado de desencanto, social e artístico, historicizável (cuja complexidade ultrapassa em muito a mera datação circunstancial como nos mostram filósofos como Jean François Lyotard), é amputá-la do que nela é, ainda e desde sempre já, aprendizagem do incerto da modernidade, do imprevisível, do incalculável, do novo (e não da novidade). É, sobretudo, desviar o olhar do que na obra de MAP é resistência a deixar-se devorar pelas sombrias luzes do desânimo e do desencanto que são, afinal, a perpetuação das forças (cada vez mais tíbias) da negação moderna. Obstinar-se na procura de um nome, de uma catalogação (fundada na noção de superação) para o nosso tempo, é uma vez mais deixar-se devorar pelo persistente processo de reciclagem da história como narrativa de negações sucessivas, orientadas (ainda) pela ideia axial de ultrapassagem e progresso.

Neste tempo em que tudo conflui, talvez a subtracção dos nomes comece por ser uma exigência inicial àquele que se quer contemporâneo do seu próprio tempo.

Voltemos ao ensaio de Eduardo Prado Coelho. A intransigência de MAP consiste precisamente em não se deixar cegar pela desmesura do excesso de focos de luz que encandeiam os homens do seu tempo. MAP pertence à família dos poetas que “subtraem” (enlèvent), os que fazem seu o ofício dos que “retiram, diminuem, eliminam,

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na convicção de que há sempre qualquer coisa de excesso, de abuso, de intruso, de inútil” (Coelho, 2002: 8). MAP é um poeta que olha para o escuro do seu tempo. E o seu tempo não é o do vazio, mas o do excesso.41

No ensaio O que é o Contemporâneo Giorgio Agamben adverte:

Só pode dizer-se contemporâneo aquele que não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue aprender nelas a parte da sombra, a sua sombria intimidade. (Agamben, 2008: 21).

Logo a seguir, o filósofo italiano pergunta: “Por que razão deveria interessar-nos o facto de se conseguir aperceber as trevas que emanam da época?” (Idem: 22).

O ocaso dos grandes ideais poéticos modernos pode afectar os olhos do homem

In document geology of norway Quaternary (sider 62-75)