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3.1 Geographical Information Systems
Talvez as análises sobre Rito do Amor Selvagem tenham centrado fogo na transgressão e no experimentalismo do trabalho e simplesmente fechado os olhos para o caráter mais político da montagem. Em muitos momentos, no espetáculo, apresentam-se cenas em que o poder está instaurado, com todo o seu protocolo, rigor e prepotência (Discurso de Mussolini; Conselho de Segurança da ONU; Hitler na Chancelaria do III Reich). Apesar das cenas apresentarem-se como uma representação do institucional nas ações de seus interlocutores, isto é renegado ou contradito na forma como essas ações são realizadas pelos atores bailarinos. Através das posturas, intenções e textos revela-se a falácia, o teatro,
85 SANTIAGO, Silviano. Poder e Alegria: A Literatura Brasileira pós 64: Reflexões. In: _________. Nas malhas da
Letra. São Paulo: Companhia das letras, 1988. p.23.
86 GARCIA, Stênio. Entrevista concedida à Maria Thais de Lima Santos. São Paulo: Acervo da autora, 07 mai.
o vazio das reais pretensões por trás dessas organizações. E, mais que isso, muitas vezes essas situações ou cenas são interrompidas a partir de uma simultaneidade com outras cenas, que sugerem ou explicitam a desordem, a loucura, a sexualidade, a selvageria (No discurso de Mussolini, atores e dançarinos descem à plateia e começam a cheirar os espectadores; na reunião da ONU aparece um SS fanático que examina os pênis dos presentes em busca de judeus para exterminá-los; Hitler efetiva matrimonio com Eva Braun, mas ao surgir, paralelamente, um evento de bacanal, o líder nazista surta numa manifestação erótica em que, efeminadamente, faz um strip-tease).
A incidência de personalidades míticas ligadas à comunicação de massa está inserida na linguagem já conhecida de Agrippino, mas talvez o fato de se utilizar de personagens e grandes ditadores ligados à 2ª Guerra Mundial seja só um desvio para não chamar atenção dos militares brasileiros sobre o que exatamente está se querendo falar.
Mas é nítido que nas três situações citadas o poder instituído perde o prumo do razoável e torna-se insano, depravado ou assassino. Ninguém chamou atenção para isso, ou melhor, não conseguiu enxergar, em meio ao caos cênico, a possível camada que propunha uma leitura crítica à ditadura brasileira. Ao contrário, Sábato Magaldi, por exemplo, lamenta a ineficácia de Agrippino em tentar denegrir as figuras políticas abordadas:
A ideia de integração do texto numa unidade maior é muito justa, mas o autor José Agrippino de Paula não soube aproveitá-la. Não faz sentido Mussolini aplicar-se em veemente ginástica oratória, enquanto o povo se distribui pelas passagens da plateia e o público lhe volta as costas (teria sido tão bom se o fascismo pudesse ser sintetizado assim!). Também resulta gratuito o flagrante de Hitler casar com Eva Braun e soltar-se num desenfreado strip-tease. Os ritos sexuais secretos do nazismo falseiam suas implicações políticas aterradoras e não se desmitifica a imagem do ditador. A brincadeira tem até o risco de torná-lo simpático, pela redução a uma paródia inofensiva, um mito trágico. 87
Acontece que são tantas as imagens que emergem no espetáculo, com uma profusão de informações desorganizadas e, ao mesmo tempo, potencializadas em sua espetacularidade visual, na profusão de seus elementos, na justaposição de planos (o real, o ficcional, o delirante, o onírico), na contraposição das linguagens (tragédia, comédia, sátira, lírico, caricatural, grotesco...) que leituras simplesmente ideológicas parecem deslocadas, ou
87 MAGALDI, Sábato. Está no Teatro São Pedro um espetáculo de teatro experimental: Rito do Amor Selvagem,
onde há caricaturas de Hitler, de uma reunião da ONU, de Marlon Brando e de outros. O Estado de São Paulo, São Paulo, 09 jan. 1970.
esvaziadas no conteúdo geral. A liberdade imaginativa do Rito transcende qualquer postulado que possa ser atribuído ou enquadrado a alguma coligação ou movimento.
Mesmo em relação à Tropicália, Agrippino soa deslocado, por não retringir-se à devoração oswaldiana de incluir referências estrangeiras ao universo kitsch de uma estética brasileira popular. O processo de construção do Rito não se inibe em ampliar-se, em maior número, por inúmeras referências estrangeiras ou universais, que estendem-se e expandem- se para o universo da pop art; dos mitos modernos do cinema e do rock americano; História da Grande Guerra; Universo dos Super-Heróis; Histórias em Quadrinhos; Sonhos; Loucura e Sexualidade. Juntas, essas fontes formam um conjunto que não se restringe à cultura brasileira: falam numa amplitude global.
A seleção e organização final do que ficou no espetáculo sugere a proposição de uma liberdade individual e autônoma como único meio capaz de vencer a dominação e a padronização de ideias e comportamentos. Atribuo a José Agrippino de Paula, por ser o intelectual do grupo, a veemência em afirmar sua autoria no Rito através de uma grande explosão caótica de signos - nisto, sua assinatura é facilmente reconhecível - e em defender, junto com sua parceira de criação, a autonomia de um objeto estético aberto, plural, acima de qualquer determinação causal que localize ou induza o espectador a uma única leitura. )nclusive acredito que Agrippino tenha uma posição clara sobre espetáculos politicamente corretos ou de mensagens objetivadas, já que desde a sua época de estudos no Rio de Janeiro incomodava-o um certo localismo que defendia o nacionalismo e a conscientização das massas nas artes - vinculadas aos Centros Populares de Cultura -, como opção primordial a ser adotada pelos artistas.
O Rito se constrói como um filme, apresentando uma longa colagem de fragmentos da sociedade contemporânea, suas contradições e luxúrias, em cenas simultâneas e aparentemente desordenadas, justamente para ser apreendido pelo público mais no nível sensorial do que racional.
As cenas se sucedem fora de qualquer lógica, privilegiando rupturas e acidentes.(...) Utiliza-se de todos os recursos existentes e os transfigura em novos signos em alta rotação estética: é uma cena voltada para novas formas e novas ideias, novos processos narrativos para novas percepções, que conduzam ao inesperado, explorando novas áreas da consciência, revelando novos horizontes do
im provável88