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Generelt om tilretteleggingsplikten

5.3 Individuelle tilretteleggingsplikter

5.3.1 Generelt om tilretteleggingsplikten

Ao tipo “curador independente” corresponde o que habitualmente se designa de freelancer. Quando este é o centro da sua actividade, o curador trabalha por projecto e, potencialmente, com várias instituições diferentes, com as quais tem ligações pontuais, sejam estas contratualizadas ou não. Quando praticada como complemento de outras actividades, permite que o curador tolere nessa esfera outros trabalhos aos quais não pode fugir, mais administrativos. A curadoria independente é, nesse caso, descrita como uma actividade «vital para a sanidade mental».241

Fui sempre mantendo outras coisas em paralelo permitindo-me respirar da burocracia que era o [nome da instituição]. O que aconteceu (...) foi que comecei a ficar desmoralizada com o que estava ali a fazer. Também sou muito sôfrega, gosto de desafios e de projectos. (C31)

Na sua condição de curador externo, o curador independente pode trabalhar com mais do que uma instituição, quer sequencialmente, quer cumulativamente. A organização do seu tempo assenta, geralmente, na sobreposição de tarefas variadas, que se traduz num «patchwork» de vários trabalhos.242 Contudo, tal cumulatividade nem sempre é bem vista, e levanta, em certos casos, questões éticas.243

O problema com que me começo a confrontar nessa altura é que a vida era difícil para um curador freelancer. Não era por acaso que não havia curadores freelancer em Portugal. Sou capaz de ter sido a primeira pessoa que procurou viver apenas daquilo que fazia como curador, porque não escrevia crítica para jornais, por exemplo. Achava que um curador não podia escrever crítica no contexto português. As pessoas fazerem tudo no contexto português, fazerem exposições e fazer crítica às exposições dos outros, eu achava que não podia ser feito e nunca o fiz. Tinha deixado de dar aulas e procurei viver apenas daquilo que fazia. (C49)

A condição de curador independente, quando gestor dos seus próprios projectos, possui algumas vantagens. Uma das mais relevantes é o facto de recair sobre si a escolha dos artistas com que se quer trabalhar. Compete-lhe seleccionar os trabalhos que lhe interessam, sem imposição superior e sem a obrigação de agradar às audiências, ao invés do que sucede

241

A expressão citada pertence a um entrevistado. 242

A expressão citada pertence a um entrevistado. 243

quando está numa instituição – o que pode condicionar de forma vital as programações. Pelo contrário, o curador independente caracteriza-se, genericamente, na sua acção, pelo maior arrojo nas suas programações, colmatando as falhas detectadas nas programações institucionais existentes.

As equipas em que o curador independente trabalha quando no desenvolvimento de projectos próprios são, por norma, pequenas e horizontais. Nalguns casos, mobilizam o envolvimento recorrente dos mesmos sujeitos, com quem se adquire proximidade e confiança no trabalho. Essas circunstâncias permitem desenvolver projectos caracterizados por uma lógica mais experimental e arriscada.

Tenho tido muita sorte de trabalhar em equipas horizontais em que as pessoas concordam. Por isso também tenho uma visão do trabalho em equipa que é romântica para a maior parte das pessoas. (...) Tenho trabalhado sempre com uma equipa muito pequena, com muita confiança, absolutamente fora do mainstream. Dentro de Portugal não consigo encontrar outras pessoas com as quais desenvolver trabalho interdisciplinar numa estrutura não hierárquica, em colaboração e com confiança mútua. Não sou nada ditadora para andar a decidir nada por ninguém (C37).

Quanto às dificuldades de acção do curador independente, salienta-se a necessidade de cativar apoios financeiros para a realização dos mesmos, a não rara inexistência de remuneração e o frequente investimento próprio. Estas são limitações variáveis consoante o contexto em que se esteja a operar.

(...) teria precisado de construir um secretariado, por exemplo. Estava sozinho. Marcar as viagens, organizar tudo, a produção, etc..., e não tinha ninguém, não tinha uma equipa comigo. Isso começava a ser uma ameaça séria à qualidade do meu trabalho. Eu não conseguia publicar os catálogos, escrever... (...) Tinha de lutar pelo dinheiro e depois não havia tempo para os fazer. Já estava com outros projectos (…) e ainda não tinha acabado o projecto anterior. E percebi nessa minha experiência de freelance que era muito difícil conseguir-se fazer freelance sem uma estrutura base. (...) Chego a uma altura, a um impasse muito grande na minha vida. Estou arruinado, aquilo que recebo por fazer exposições não me permite viver. Tenho muitos problemas e muitos projectos em atraso, catálogos que não tinha conseguido acabar, sem condições orçamentais boas para acabar esses projectos passados. (C49)

Outras dificuldades localizam-se quanto à organização do trabalho, ao negociar um projecto com as entidades responsáveis e financiadoras, no imperativo de o curador independente definir as condições económicas indispensáveis para si e para o desenvolvimento do trabalho dos artistas:

Aprendi que os curadores independentes têm de batalhar muito pelas condições de trabalho, saber muito bem trabalhar com as instituições, negociar os contratos com as instituições para as instituições pagarem a tempo e horas. Eu não sabia o que se gasta em telefones quando se faz um projecto internacional. Um curador tem de ter uma certa perspectiva económica sobre como organizar a sua vida. E eu não a tinha. Condições logísticas mínimas. Ou uma instituição tem secretariado e equipas para fazer essas coisas para trabalhar bem ou então o curador precisa de ter o seu secretariado que o ajude. Isso é importantíssimo. A certa altura comecei a conhecer pessoas que me ajudavam a produzir as coisas, havia jovens artistas que eram uma pequena equipa de produção para mim, que eu trazia para os projectos que eu fazia. (C49)

Paradoxalmente, as limitações tornam-se, por vezes, propulsoras da versatilidade e do desdobramento das valências e dos recursos: convertem-se em mais-valias.

Como já era o último projecto (...) havia muito poucas condições financeiras para que os artistas pudessem ir (...) à inauguração. O que eu negociei foi que durante a itinerância eu teria de levar um dos artistas a cada etapa, eles dariam um workshop no local e fazia-se uma selecção das obras feitas no local e integrava-se a selecção de obras no local, para ela ser diferente em cada etapa e ter uma ligação ao local, para não ser uma imposição e sim uma iniciativa que dê uma oportunidade aos artistas locais. Rentabilizar a minha ida o mais possível com visitas guiadas, no início do workshop com os artistas eu poder falar como foi feito o trabalho de curadoria com os artistas. O [Instituto], que inicialmente pensava que poderia ser apenas eu desenhar a adaptação da exposição para cada espaço, e depois a exposição ia, reviu completamente a posição. Inicialmente devia adaptar a exposição a cada lugar; eu recebia a planta, e a exposição ia. Expliquei que percebia que não houvesse orçamento para ir ver os locais, voltar – que era como se deveria fazer – adaptar a exposição e depois ir outra vez e montar. “Então vamos fazer de outra forma: recebo a planta para começar a trabalhar numa adaptação mas vou, com uma semana, acompanhar a exposição e levo um artista comigo.” Comecei a negociar condições. (...). Houve uma adesão tal dos centros culturais, que pensávamos que ela iria circular em três ou quatro etapas, para levar os quatro artistas, mas tivemos ainda mais uma etapa! (C31)

Outras estratégias para contrariar as adversidades económicas são a manutenção de uma hábil gestão de recursos materiais, como sejam: a solicitação de material emprestado, a compra de equipamentos para diversas funções e a sua posterior venda ou o seu uso próprio.

Quando se é curador independente existe uma maior necessidade de manterem-se activas as redes sociais, sob pena de, ao não o fazer, perderem-se oportunidades de trabalho; é importante comparecer aos momentos de socialização privilegiados, como sejam as inaugurações ou as feiras de arte, ou as visitas às exposições.

Vários curadores independentes referem-se ao facto de se encontrar subjacente uma pressão externa para que produzam sempre algo de novo. Tal pode evidenciar-se quanto à invenção de novos modelos expositivos, alternativos aos formatos tradicionais – as exposições individuais, colectivas ou temáticas –, à selecção de artistas cujas obras são menos conhecidas, à proposta de temas e conceitos inusitados.

A opção pela curadoria independente pode ser tomada por não se encontrar lugar no meio institucional. Nesse caso, não será realmente uma opção, mas decorrer da ausência de alternativa.

Quando voltei [da formação em curadoria no estrangeiro], voltei um bocadinho sem lugar, e acho que continuo um bocado nesse “sem lugar”. É uma sensação que sempre tive (...). Não há instituições... Há a possibilidade de fazeres coisas pontuais mas depois é a inexistência de lugar. Portanto comecei a trabalhar de forma independente. (...) Não sou nada ambiciosa no sentido de querer ser directora de um museu daqui a dez anos. Imagino que seja inevitável, espero que daqui a uns anos esteja numa instituição. Imagino que seja o caminho mais ou menos normal para acontecer. Mas nesta altura acho que não há lugar para mim, por ser muito errática, (...) por não estar sempre a trabalhar com instituições, mas por trabalhar nos dois lados. Fui sempre externa. Dizer-te isto que não tenho lugar... Gostava imenso de trabalhar numa instituição. Cada vez mais acho que havendo possibilidade de desenvolver um trabalho, faz-me falta e olho para trás e sinto falta de construir uma coisa do princípio ao fim. (C27).

Situação diversa é a preferência consciente dessa via de maior liberdade programática. Nesse caso, os sujeitos sustentam que se tivessem oportunidade de inserção institucional, não o quereriam; actuam contra o sistema instalado: verifica-se, nalguns casos, uma postura de guerrilha pela legitimação e pelo desenvolvimento da curadoria no âmbito nacional; agem individualmente com o fim de contribuírem para uma desejada transformação de mentalidades no campo artístico. Esta posição, simultaneamente política e ética, manifesta-se na recusa vincada da institucionalização, pelo menos em fase inicial de percurso, em prol da realização

de projectos sem condicionamentos institucionais e do esforço para conseguirem realizar projectos diferentes dos existentes, que ofereçam alternativas ao sistema dominante.

Todavia, a liberdade da independência de um vínculo institucional acaba por ser, de algum modo, virtual: resulta, no final, na dependência de apoios pontuais institucionais, geradora de instabilidade, e conduz assim à existência de novos constrangimentos e por vezes à obrigação de contrapartidas em relação a outras instituições ou instâncias de apoio, como sejam a Direcção-Geral das Artes ou a Fundação Calouste Gulbenkian. No limite, o curador independente encontra-se na dependência de várias instâncias, pelo que é falsamente livre: «ao seres independente estás muito dependente se consegues ou não ter apoios».244 Por esse motivo, Paul O´Neill (2005: 7-10) transforma a designação “curador independente” no termo “codependente”, sustentando que uma curadoria verdadeiramente independente será – caricaturalmente – uma impossibilidade. Segundo Freidson (1986a), o autoemprego pode ser portador de uma ilusão de independência e de autonomia: os freelancers que falham em mover-se nos círculos mais restritos dos colegas de sucesso ficam trancados numa situação de precariedade.

Na Figura 4.9 apresenta-se a relação actual entre os dois tipos analisados, o curador independente e o curador institucional e a conjugação de ambos, quanto à estrutura da actividade.

Figura 4.9: Posicionamento actual, quanto à estrutura da actividade

A curadoria independente é hoje a realidade predominante, praticada por dois terços da população (66 %), contra um terço (32 %) que trabalha no seio de uma instituição e uma minoria (3 %) que desenvolve actividade em ambas as esferas.

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A expressão citada pertence a um entrevistado.

66% 32% 3% 0% 20% 40% 60% 80%

Consideram-se de seguida os perfis profissionais híbridos: “artista-curador” e o “curador investigador”.245