8. Diskusjon
8.1 Preaksepterte løsningsmodeller mot alternative løsninger
8.1.1 Generelt om funksjonskrav i TEK og preaksepterte løsningsmodeller
Esse desejo, essa vontade básica de ligar a música – através dos sons – ao espaço é uma temática bastante definida dentro do Armorial, e fortalecida pela ânsia de um certo público que busca se encontrar em sua obra. Há um investimento, aqui, no poder da música enquanto produtora de um imaginário espacial e local que encontra memórias históricas e culturais, passando pelo medievo, ainda no antigo mundo grego. De certa forma, pode-se dizer que o Armorial encontrou em boa parte do público nordestino ressonância nessa busca por uma sonoridade própria, por uma música que os representasse. Para essa parcela do público, na maioria, nordestino, escutar a música armorial significava fazer parte dessa construção imagética e sonora sobre esse espaço imaginado que é o Nordeste.
Quando do concerto de estréia do Quinteto Armorial – então chamado Quarteto, por sua formação inicial – pouco depois, da Orquestra Romançal Brasileira, uma grande parte do público, notadamente, de Recife, recebeu com grande entusiasmo o trabalho dos músicos. De forma geral, vê-se, naquele momento, dois tipos de discurso na imprensa nacional, falando (bem ou mal) da música armorial. O primeiro tipo de discurso é aquele típico dos jornais locais, ou seja, publicados na Região Nordeste, principalmente na cidade do Recife – Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco. A grande maioria dos artigos desses jornais que comentam o trabalho inicial da Orquestra Armorial, do Quinteto Armorial e da Orquestra Romançal, incorpora o discurso da “volta às origens da música nacional popular”, da “redescoberta” das raízes populares da música nordestina, falam do reconhecimento ou não (seja a crítica favorável ou não ao trabalho dos grupos armoriais) do público de si mesmo nessa dita “música popular nordestina”. Trata-se de afirmar: “sim, nós somos isso”, ou, caso o crítico não a aprove a sonoridade pretensamente “nordestina” proposta pelo Armorial, de defender-se dizendo: “não aceito essa música como sendo minha, de meu povo”. Daí porque grande parte dos artigos favoráveis à música armorial, publicados nesses jornais de Recife, sede do Movimento, após as primeiras apresentações públicas dos grupos armorias de música, preocupa-se em relatar o sucesso da música armorial junto ao público pernambucano. Trata-se de mostrar como o dito povo nordestino se reconhece em sua sonoridade. Alguns títulos de artigos desse tipo ilustram bem essa atitude paternalista dos intelectuais da região sobre a assim chamada “cultura popular nordestina”, já apontada por intelectuais como Jomard Muniz
de Brito.203 Exemplos são: “MAIS DE 600 PESSOAS APLAUDIRAM DE PÉ A ORB [Orquestra Romançal Brasileira] NO TEATRO DE S. ISABEL” (Diário Oficial do Município, 22/12/1975); “PLATÉIA APLAUDE DE PÉ A ORQUESTRA ROMANÇAL” (Jornal do Commercio, 20/12/1975); “O SOM DO NORDESTE EM ARRANJOS BEM COMPORTADOS” (Revista Movimento, Recife/Pe, 18/10/1976); “SUCESSO ARMORIAL” (Diário de Pernambuco, 23/04/1981); “MOVIMENTO ARMORIAL É TÃO IMPORTANTE QUANTO SEMANA DE ARTE MODERNA” (Diário de Pernambuco, 19/05/1972); “CIVÍTICOS ELOGIAM A ORQUESTRA ARMORIAL” (Diário de Pernambuco, 30/12/1973).
O segundo tipo de discurso é o dos jornais “de fora”, ou seja, daqueles publicados em outras regiões do país e que nos mostram a repercussão da música armorial, apresentada como sendo a “verdadeira música popular nordestina”, fora do Nordeste. Nesse caso, não é mais uma questão de auto-reconhecimento; não é mais preciso dizer “sim, isso é nossa música” ou “não, nós fazemos música assim”. Trata-se unicamente de se aceitar ou não essa assim chamada “música do Nordeste” como tendo ou não algum valor estético e cultural; trata-se de dizer “sim, eles fazem música de qualidade no Nordeste, que, entretanto, não é a nossa”. Essa divergência de discursos pode ser observada pela própria utilização de expressões como “raízes populares”, “canto do povo”, dentre outras. Os jornais de fora do Nordeste as trazem, muitas vezes, já no título do artigo, de forma a manter um certo distanciamento formal, quase ético. É um discurso sempre na terceira pessoa, que visa manter a dita “música nordestina” separada da música brasileira como um todo. Enquanto que as publicações locais, em geral, trazem essas expressões no corpo do texto, incorporando-as literalmente ao seu discurso (elogioso ou não), tomando-as tais expressões - “legítima tradição cultural no Brasil” (Diário de Pernambuco, 24/10/1976) – “música brasileira erudita de raízes populares” (Jornal do Commercio, 28/11/1972) – “espírito da música popular” (Jornal do Commercio, 27/04/1975) – como naturalmente existentes.
Por vezes favorável, por vezes contrária à música armorial, a imprensa, tanto da Região Nordeste, como de outras regiões, em especial a sulista, serviu, de forma geral, para levar a antiga visão dicotômica entre Norte e Sul do país, iniciada em meados da década de 1920 com a construção imagético-discursiva do Nordeste brasileiro, propiciada e publicada
203
Ver MORAES, Maria Thereza Didier de. Emblemas da sagração armorial: Ariano Suassuna e o
pelos mais variados meios de comunicação e arte204, também para a audição. Em outras palavras, reconhecendo ou não o valor estético da música armorial enquanto algo intrínseco à idéia de “tradição artística nordestina”, mas sempre em busca dessa dita “essência cultural do Nordeste”, a imprensa especializada nacional, em grande parte, partindo do discurso regionalista, cuidou de discriminar o Nordeste – antes dissociado geográfica, política e culturalmente – agora, também, sonoramente.
Em artigo no Jornal do Commercio de 23/12/1975, Waldemar de Oliveira chama atenção para o cuidado que se deve ter ao se analisar um trabalho como aquele, então recém- iniciado, da Orquestra Romançal Brasileira. Oliveira sugere um certo distanciamento crítico, uma apreciação não simplesmente entusiasta por parte do público. Sua intenção é alertar para o efeito provocado na imprensa e no público pelo sucesso obtido pela Romançal junto ao que ele chama de “auditórios ingênuos e naturalmente inclinados ao aplauso”. Para Oliveira, a imediata aprovação do público nordestino que, inebriado, busca se reconhecer nas composições armoriais, almejando a descoberta de uma dita “autêntica música popular e nordestina” pode mascarar fraquezas da Orquestra como, segundo ele, “a limitada eficiência técnica de seus componentes” e de seu principal compositor, Antônio Madureira, então principiante na arte de compor, com sua “concepção linear” e sua tendência ao “convencional das modulações chãs e dos acordes perfeitos”.
Na verdade, o artigo de Oliveira resume bem o embate estético entre os entusiastas da arte armorial e os seus críticos mais ferrenhos: de um lado, o aceite incondicional dado por aqueles interessados em descobrir no Armorial uma arte que represente o que seria uma “verdadeira poeticidade do Brasil e do seu povo”, ou seja, deles mesmos; de outro lado, a crítica ácida por parte dos artistas e intelectuais que consideravam o Armorial uma volta ingênua ao passado, ao medievo. Entretanto, Waldemar de Oliveira, ele próprio – e isso faz de seu artigo símbolo dessa discussão – não se decide de que lado ficar, pois, ao fazer a crítica estética musical da Orquestra Romançal, admite-a como sendo “uma tentativa válida no sentido de aproveitamento do nosso folclore sonoro”205 [Grifo meu] e que vinha a “contribuir para essa mineração de nossas jazidas musicais”206 [Grifo meu].
Como já foi sugerido, tanto o público quanto a imprensa engajada na propagação desse mito da “arte autenticamente brasileira”, proposto pelo Armorial, estavam em consonância com uma tendência nacional de valorização daquilo que seria a “cultura brasileira”, estigma
204
Ver ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 2 ed. Recife: FJN, Ed. Massangana; São Paulo: Cortez, 2001.
205
OLIVEIRA, Waldemar de. Ver, ouvir e não calar. Jornal do Commercio, Recife, p. 9, 23 dez 1975.
206
da política do “Pra frente, Brasil!”, propugnada nos anos de ditadura militar. Daí a produção e o intenso uso, na imprensa local e nacional, de chavões como “música do povo”, “arte popular brasileira”, dentre outras. Tais expressões pretendiam realçar o caráter pretensamente natural dado pelo Movimento Armorial a uma dita “música popular nordestina”. Havia um claro desejo, presente em segmentos tanto da imprensa – como do público, em ver fundo – como se viesse mesmo das entranhas da terra (“jazidas”) – no solo do Nordeste, a assim chamada “autêntica arte brasileira”.
2.7 O BARROCO – A EFUSÃO DO APOLÍNEO E O DIONISÍACO NA MÚSICA