Esse tema está relacionado, em parte, a aspectos alusivos aos profissionais mais jovens, que tendem a migrar em busca de melhores oportunidades. De forma consensual, segundo os relatos dos entrevistados, as oportunidades locais oferecem fraca competitividade em relação às empresas internacionais nas compensações financeiras.
“Os valores praticados de remuneração cresceram, então, nós passamos a perder funcionários para empresas de maior porte, multinacionais”. (Ev7G).
“Eu tenho hoje profissional que eu estou pegando e sentando para convencer o cara ir para São Paulo, porque aqui eu não vou conseguir dar para ele o que ele merece em termos de desafios, em termos de remuneração, em termos de crescimento, enfim, porque o Rio Grande do Sul é um estado que deu o que tinha que dar”. (Ev6T).
“Lá fora tem um cenário bem melhor porque começa na faixa de 1000 euros ou libras vamos assim dizer. Acho que em dólares acho que é uns 2000 dólares o salário base. Aí sobe a valores incríveis, pode ir a 10 mil. É muito fácil você ver salário de 10 mil dólares, 7 mil euros por exemplo por salário lá fora para profissionais na área de jogos e dá para ter uma qualidade de vida até razoável até lá fora”. (Ev13L).
“Temos profissionais que vão para o Google, Facebook, no Estados Unidos, como você faz esse cara não ir para o Google e o Facebook?”. (Ev8V).
Ele tem a opção de ficar em Recife, então, você está concorrendo com caras que vão lá recrutar ativamente, recrutador do Google, Facebook e da Microsoft”. (Ev8V).
Entretanto, assim como no tema relacionado às políticas de retenção, outros benefícios são relatados como forma de minimizar as diferenças nas compensações financeiras, pois, como já enfatizado, a remuneração tem maior importância para profissionais que estão em um estágio mais avançado de suas carreiras e vidas pessoais, quando já possuem família. Para os profissionais em início de carreira, a remuneração aparece como sendo importante, mas outras questões acabam impactando no desejo de migrar.
“Eu mantenho esse cara, não só com o salário dele, mas ele pode ser sócio da minha empresa se ele ficar. Chamamos de contrato de veste, né? Você consegue ao longo do tempo, quanto mais tempo ficar numa organização, você ganhará um percentual dessa empresa. Você não é simplesmente um funcionário, mas passa a ser sócio também desse negócio”. (Ev8V).
“A gente inclusive tem uma frase que a gente usa que é fator de higiene. Tipo, é o mínimo, é preciso ter um salário competitivo com o mercado. Ele não precisa ser muito mais alto que o mercado. Ele também não pode ser ruim demais. Ele tem que ser um salário bom, médio no mercado, mas isso não vai fazer ninguém ficar ou vir”. (Ev5A).
“Eles trabalham sem ter uma boa remuneração apostando em um rendimento futuro, então, isso funciona muito bem com profissionais que estão começando a carreira ou que já está seguindo a carreira há um certo tempo, mas ainda não tem família”. (Ev3S).
“Maior parte das empresas daqui acho que por causa de um programa de acesso ao mercado que elas têm mesmo, ou seja, de não conseguirem um faturamento autossuficiente para justificar políticas muito benéficas de retenção de talentos, assim brain drain é uma questão, sem dúvidas. Existe um cenário de vários países ou às vezes mesmo ambiente empresariais como São Paulo que possam lidar com tecnologia muito significativo, que oferece condições e é mais atraente”. (Ev10D).
“Muitos jovens trabalhadores no setor de TI aqui que tem seu projeto de startup, projeto de independência”. (Ev10D).
A maioria das entrevistas nesse tema deixou claro que o jovem profissional tem aspirações que diferem da maioria dos profissionais do setor. Os atrativos de empresas estrangeiras, combinados com todo o enlevo de morar em outro país e trabalhar em uma empresa que, além de remunerar bem, oportuniza toda a condição necessária ao desenvolvimento profissional constante, deixam uma certeza aos entrevistados. Eles acreditam que, mesmo que houvesse uma remuneração mais competitiva, o apelo pelo processo migratório seria inevitável para boa parcela desses jovens.
“Se você tem outros países do mundo ou se você tem uma coisa muito mais pujante a economia você quase sempre vai bem, as pessoas têm perspectiva de fazer coisas mais legais, mais interessantes, ganhar melhor está certo, se a empresa tem mais ou menos aquele tamanho, chega uma hora que as pessoas aprenderam tudo que tinha para aprender elas vão embora”. (Ev14G).
“Quer dizer mesmo uma empresa pequenininha, que seja uma startup, que tenha uma estrutura totalmente plana, não hierarquizada, que tenha tudo isso, etc., etc., etc., mas, se ela não cresce, o cara chega uma hora que aprende tudo o tinha que fazer e tá a fim de ganhar um salário melhor e ele vai embora. E ele aceita o desafio. Os casos que eu conheço tudo, que tem 22 brasileiros fora pernambucanos da indústria de games, que estão trabalhando em empresas no exterior estão lá por desafios”. (Ev14G). “Os caras estão nessa não foi nem pelo salário, além é claro, morar em outro país enfim tem suas vantagens”. (Ev14G).
“A indústria não é capaz de absorver. A pessoa tem que sair e esse é um problema maior, né? Ou seja, a pessoa que não quer sair como... eu não quero sair, eu quero estar aqui junto com minha família e meus amigos, mas eu tenho que sair. Não existe opção”. (Ev13L).
Mas existem alguns projetos que parecem ser motivadores para esses jovens profissionais.
“A gente quer salvar o mundo economizando energia. Então, é um propósito que, quando um profissional entra, a missão dele está alinhada àquele propósito. A remuneração passa a ser uma coisa não tão importante”. (Ev12P).
“A gente vê essa questão de uma forma muito fluida, muito líquida, a gente acha natural as pessoas migrarem, migrarem de empresa para outra, migrarem de um lugar para outro e eventualmente migrarem de cidade vão para fora depois elas voltam, tem muito problema com isso não, a gente não quer ser um exportador líquido de capital humano”. (Ev17S).
Em resumo, esse tema ratifica a lógica do pensamento dos entrevistados, pois houve consenso no que se refere à necessidade de uma melhor remuneração. Entretanto, a maioria das organizações não é competitiva, em relação a empresas multinacionais ou mesmo às estrangeiras. A maioria tem a consciência de que o processo migratório para os jovens é natural neste setor, porém, se preocupam com a exportação de capital humano, pois, como já relatado, investimentos e tempo são empreendidos no aprimoramento da formação desses jovens. Mas, dado que os entrevistados encaram como natural, parece que pouco pode ser realizado para minimizar a situação relacionada a uma melhor remuneração e, sendo assim, a migração, pelo menos por ora, continuará sendo registrada.