Houve consenso para a maioria dos participantes da pesquisa que atuam em parques tecnológicos sobre a existência de um potencial formado pelas universidades. Entretanto, cabe às organizações a qualificação e a formação continuada, dada a perecibilidade dos conhecimentos dos recursos humanos em TI.
“A formação acadêmica é muito importante. Ela dá o potencial daquele profissional porque faz uma base de conhecimento e permite mais rapidamente que ele aprenda uma linguagem específica”. (Ev5A).
Se, por um lado, os gestores de algumas organizações admitem a importância das IES, mesmo daquelas que não estão as melhores instituições na formação desses profissionais, por outro lado, argumentam que tais instituições estão equivocadas enquanto seu modelo de ensino.
“Sempre tem gente talentosa mesmo na pior faculdade [...] sempre vai ter um talento lá”. (Ev15B).
“A universidade [...] está muito equivocada no modelo de formação atual, porque ela não está conseguindo fazer o link adequado com a comunidade empreendedora, com as empresas, com as necessidades das empresas”. (Ev11E).
A maior ênfase nas questões relacionadas à formação acadêmica segue uma lógica fundamentada no fato de não haver, segundo parte dos entrevistados, conformidade entre o que o mercado precisa e o que é entregue pelas universidades. Todavia, assim como existe a crítica ao polo formador, há o reconhecimento da dificuldade de atender o mercado por suas especificidades técnicas e em constante alteração.
“A universidade não tem o que fazer com certificação, ela não está focada nisso, certo? Isso é uma demanda do mercado, mas a universidade podia estar mais próxima dos problemas reais”. (Ev15B).
“Numa área de pico de criatividade como o setor de tecnologia daqui, esta formação, há uma defasagem difícil de acompanhar, a não ser que você consiga fazer as universidades dos cursos em geral se tornarem instituições de alta criatividade e abandonarem as grades curriculares mais tradicionais”. (Ev10D).
“É difícil a academia acompanhar a evolução, o cara vai estar mudando o currículo acadêmico todo ano? É difícil”. (Ev12P).
Para a maioria dos entrevistados, a formação a priori possui problemas de difícil solução. Em geral, concluem que, para o segmento de TI, a formação é básica. É, ainda, consenso entre os entrevistados a necessidade tanto de complementar a formação com conhecimentos exigidos no desenvolvimento do segmento de TI, quanto de qualificar os profissionais em estudos avançados em línguas estrangeiras, em especial, o inglês. Existe a percepção de que o conhecimento de línguas é um aspecto da formação que deveria ser tratado pela família. O domínio da língua inglesa é fundamental para o segmento de TI e não deveria ser uma preocupação apenas da organização.
“A formação deles é uma formação básica”. (Ev16M).
“O cara sai da universidade muitas vezes com um pacote de coisas que não seria aquilo que ele vai aplicar no dia a dia, então é um desafio a gente falar de formação de ciências da tecnologia, engenharia e matemática, ao mesmo tempo que eu tenho que formar gente em uma segunda língua, a língua inglesa”. (Ev8V).
“Problema é na formação acadêmica e na família, porque inglês devia vir de casa, inglês, a gente não aprende inglês na faculdade”. (Ev15B).
As organizações se empenham em promover as adequações na formação que respondam às necessidades de mercado. Entretanto, parece haver uma espécie de conformidade com o que está estabelecido, pela perecibilidade do conhecimento e por dificuldades em obter das universidades o que precisam.
“Essa preocupação com a formação de mão de obra, ela é considerada muito forte”. (Ev8V).
“Sobra obviamente para quem contrata, complementar a formação insuficiente desse profissional, isso é um custo para a empresa, sendo um custo para a empresa é uma perda de competitividade”. (Ev17S).
“A universidade funciona como há 100 anos atrás, a universidade funciona ainda totalmente focada em ensinar conteúdos”. (Ev14G).
“Eles têm curso de computação e tá formando a gente para ter que tipo de habilidade, então não tem saber de tecnologia X não existe isso, existe ser capaz de resolver problemas, ser capaz de se comunicar não sei o que lá, ter uma visão global do sistema saber onde a computação se aplica a áreas diferentes tudo isso são coisas muito complicadas”. (Ev14G).
Entretanto, a complexidade do processo de aprendizado da área não evita que, embora haja o sentimento de aceitação entre os entrevistados em adequar a formação à necessidade das organizações, haja consenso de que tal adequação pode gerar importantes custos e gastos de tempo. Assim, concluem que, ainda que invistam recursos das organizações, tais ações não são suficientes para garantir a retenção dos recursos humanos qualificados. Percebe-se, desta forma, certa resignação na fala dos entrevistados.
“Para o sistema 95%, essas faculdades achavam que forneciam capital humano devidamente qualificado para atender as necessidades do mercado [...] quando a gente fazia a mesma pergunta para o mercado, apenas 35% achava que recebia [...] essa assimetria, Eloisa, ela é mortal, ela revela a distância que existe entre o polo formador e o mercado”. (Ev17S).
“A gente tem uma política de formação [...] sempre há a necessidade de passar por algum tempo de formação interna [...] às vezes 2 anos, 1 ano, raramente menos que isso”. (Ev7G).
“Se gasta muito, para você treinar esse pessoal, muito tempo, esforço e capital investido também, e você não sabe quanto tempo você vai segurar esse profissional na sua empresa, enquanto isso, você vai continuar
mantendo motivado e que ele continue assim conosco, uma vez que ele vai, dificilmente retorna, essa é a realidade”. (Ev13L).
Houve argumentos sobre a necessidade de formação em outras modalidades de curso, como as de nível técnico. Essa possibilidade preencheria cargos que atualmente são ocupados por profissionais de nível superior com salários compatíveis à formação, mas não à atividade propriamente dita.
“A gente precisa ter mais cursos técnicos de programação para preencher esse primeiro nível da pirâmide profissional de informática que é o cara que é o programador”. (Ev12P).
“A gente não tem a cultura da formação do programador de nível médio, então isso gera um problema para as empresas muito grande porque a pessoa se forma numa faculdade, nem que seja uma faculdade particular de segunda linha, terceira linha mas a pessoa se forma, tem um diploma de nível superior e quer ganhar um salário maior compatível com quem fez um esforço, um investimento de vida de se formar, ter um título superior, acontece que na verdade a ambição e a qualificação dele é para programador, e o mercado não está disposto a pagar para um programador mais do que paga para um técnico em outras áreas, entendeu?, então esse é um problema”. (Ev17S).
Os entrevistados, de modo geral, acreditam que esses profissionais qualificados estão em níveis de conhecimento superior e levam em consideração o conjunto de habilidades e conhecimentos.
“As profissões mais qualificadas essencialmente há uma escassez, e é claro é uma escassez que, se você quiser saber minha opinião a respeito que as faculdades não formam essas pessoas porque não têm qualificação para formar, as faculdades fazem um grande faz de conta, formando pessoas nas áreas que são muito pobres em raciocínio lógico, pobres em matemática, pobres de algoritmos, então as faculdades priorizam a formação de manutenção de rede, suporte a um usuário, essas bobagens que isso se não absorver não faz diferença alguma, agora na hora que você entra na programação em coisas mais complexas, segurança, banco de dados aí você requer domínio de matemática, de raciocínio lógico, e precisa de laboratórios, precisa de professores muito mais qualificados nessas faculdades”. (Ev17S).
Repetidamente, a necessidade de a organização participar da formação dos profissionais é relatada pelos entrevistados, sobretudo, em casos de profissionais que
não possuem a iniciativa necessária para, sozinhos, conquistarem as condições de atuarem em cenário inovador.
“São profissionais que de fato precisam de uma expertise que não se ensina na universidade, então isso é um dos primeiros problemas”. (Ev12P).
“Aqui no Parque Tecnológico as empresas constantemente tentando desenvolver seu funcionário até porque se ela não fizer isso ela acaba perdendo o bonde, então se ela quiser estar trabalhando com inovação e se isso não é ensinado na universidade e a maioria dos seus funcionários não tem a iniciativa de aprender sozinho ela tem que estimular isso internamente, então tem que se criar cursos internos para capacitar e treinar esses profissionais”. (Ev12P).
Em resumo, a formação de recursos humanos apresenta algumas questões que estão aquém de decisão dos empresários, pois, embora os argumentos apresentados neste estudo reconheçam a importância do polo formador, também apontam, de alguma forma, para reformas estruturais nas grades curriculares, o que demanda ações de esferas como, por exemplo, a do poder público ou mesmo soluções igualmente complexas que envolvem a cultura ou o perfil profissional.
Mas, apesar das dificuldades de interagir com o mundo acadêmico, existe o entendimento para a maioria dos entrevistados da necessidade de uma maior simetria entre formação acadêmica e o que o mercado de tecnologias necessita. Houve consenso sobre o envolvimento das organizações na complementação da formação, mediante investimentos privados e públicos. Por fim, a despeito dos investimentos e do tempo utilizado em complementação da formação, a qualificação profissional não traduz uma certeza de retenção do recurso humano contratado.