CHAPTER 2: CONCEPTUALISING GENDER IN AGRICULTURE
2.2.1. Gender ideologies
O termo empregabilidade ganha destaque no cenário brasileiro a partir da década de 1990, “sendo definida como eixo fundamental de um conjunto de políticas supostamente destinadas a diminuir os riscos sociais do grande tormento deste final de século: o desemprego” (GENTILI, 2002, p. 52). Há, por parte das administrações neoliberais, e até por parte de seus opositores em relação ao referido conceito, o consenso de que a empregabilidade é que articularia e ofereceria coerência aos três elementos que poderiam possibilitar a superação da questão do desemprego. Essa tese se apóia na dinamização do mercado de trabalho por meio da flexibilização de leis trabalhistas, pela redução de encargos trabalhistas e pela formação profissional permanente.
Enquanto, no período do Estado de Bem-Estar Social, as políticas de pleno emprego objetivavam solucionar a crise, na atualidade, ao contrário, o desemprego é considerado um dos elementos do processo de controle das crises, promovendo o desaquecimento da economia, como forma de mantê-la ajustada às relações sociais, sob o jugo dos interesses do sistema financeiro internacional (SAVIANI, 2002). As bases materiais de produção impõem, pois, inovações também às relações sociais.
77 Conforme Alves (1998, p.110), na década de 1990, 58.000 metalúrgicos perderam o emprego e
400 fábricas desapareceram no ABC Paulista. Em agosto de 1990, a indústria tinha 51% da mão-de- obra empregada no ABC, enquanto o comércio empregava 12,5% da força de trabalho e os serviços 36%. Em setembro de 1995, as indústrias empregavam 32%, o comércio 18,5% e o setor de serviços 49%.
78 O atual Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, se tornou conhecido e obteve projeção
política inicialmente por meio de sua atuação de sindicalista, que se deu a partir dos anos setenta, nessa região.
Modificam-se as relações de trabalho, tecnologia/conhecimento e os respectivos princípios educativos compatíveis com demandas da organização do trabalho.
Foi assim que as organizações de base fordista inspiraram tendências pedagógicas conservadoras, fundadas na divisão entre pensamento e ação, privilegiando ora a racionalidade formal, ora a racionalidade técnica. Durante a Era de Ouro do capitalismo contemporâneo, a Teoria do Capital Humano, “principal enquadramento teórico usado para definir o sentido da relação trabalho-educação”, difundiu, a partir de concepções estreitas de sociedade, de homem e de trabalho, a chamada promessa da escola como entidade integradora (GENTILI, 2002). Segundo o autor, as massas populares e os grupos dirigentes consideravam os sistemas educacionais como um dispositivo institucional de integração social, em sentido ampliado.
Essa promessa estava associada, na dimensão econômica, à possibilidade de universalizar os direitos econômicos e sociais que sustentavam o Estado de Bem- Estar Social nos países industrializados (e na construção do Estado em torno das questões sociais, nos países periféricos). A idéia-chave é que a escolaridade constituía elemento fundamental na formação do capital humano imprescindível para a competitividade das economias, da riqueza social (derivada de um incremento do capital humano social) e da renda individual (derivada do incremento do capital humano individual).
A escola se constituiria, portanto, num espaço decisivo para a integração econômica da sociedade, formando o contingente da força de trabalho que seria incorporado ao mercado. O Estado tinha o papel central nas atividades de planejamento e na captação de recursos financeiros, na atribuição e na distribuição das verbas destinadas ao sistema educacional, contribuindo, dessa forma, tanto para o aumento da renda individual quanto para o aumento da riqueza social.
Com as mudanças que ocorreram no mundo do trabalho, a partir da década de 1990, com a ideologia da globalização econômica79 e com as novas relações
79 Embora a globalização possa ser entendida e caracterizada, sobretudo, “pela ruptura das fronteiras
dos mercados nacionais, pela ferrenha competição na realização (venda) das mercadorias que condensam o trabalho social explorado (capital-mercadoria), sob a égide da força desigual do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) e pela hegemonia do capital-financeiro (capital dinheiro)” (FRIGOTTO, 1998, p. 41-42), cabe salientar o destaque feito por Castanho (2003, p.15) ao considerar a globalização como um fenômeno que não é recente, como por vezes, é suposto. Considera a globalização como uma tendência que acompanha todo o percurso do capitalismo desde sua origem, sendo pois, parte constitutiva de sua lógica interna e uma de suas características principais. Para o autor, os fluxos e refluxos desse ‘fenômeno da ampliação dos limites territoriais da troca ampliada’
entre sociedade e Estado, entre capital e trabalho, aliadas à perspectiva mistificadora da reestruturação produtiva, passou-se a requerer novas formas de disciplinamento do trabalhador e embasamento no campo educativo, novas demandas do capital foram impostas também à escola.
Embora reconhecendo que semelhante dinâmica não pode ser reduzida a um mero reflexo mecânico de mudanças acontecidas na esfera econômica, algumas das transformações estruturais que condicionaram fortemente a quebra dessa promessa integradora foram centrais neste processo (GENTILI, 2002, p.51).
Do mesmo modo, foram centrais as transformações políticas e conceituais que deram um novo sentido à noção de processo educativo, formativo, de qualificação, desvinculando-a da dimensão ontológica do trabalho e da produção, reduzindo-a, de forma drástica, ao economicismo e, mais exatamente, à empregabilidade. Frigotto (1997, p. 07) afirma:
o ideário das novas habilidades- de conhecimento, valores e de gestão, e, portanto, de novas competências para a empregabilidade não mais se fundam no horizonte da educação como um direito subjetivo de todos, mas de um serviço e um bem a adquirir para barganhar no mercado produtivo. Trata-se de uma perspectiva educativa produtivista, mercadológica, pragmática e, portanto, desintegradora.
De uma lógica da integração, em vista das necessidades e demandas de caráter coletivo (a economia nacional, a competitividade das empresas, a riqueza social), entre outros elementos valorizados no período anterior, migrou-se para adoção de uma lógica econômica materializada pela pedagogia das competências, cujo caráter tipicamente privado atribui ao indivíduo, e não mais ao Estado, a responsabilização pela promessa de emprego para aqueles que, segundo as próprias escolhas, no sentido de requalificação e reconversão profissional no mercado educacional, busquem melhores posições no mercado de trabalho, consigam se encaixar no conceito de empregabilidade ou se tornem capazes de criar o auto-emprego no mercado informal ou na chamada economia de sobrevivência.
É prudente, no entanto, destacar que a educação, como garantia de mobilidade social, conforme se acreditava, e a educação, como receita para a empregabilidade, conforme se apregoa na contemporaneidade, camuflam a realidade e abstraem relações sociais complexas, quando classificam o problema de
que chamou, as marés da globalização, compreendem seis movimentos que são historicamente impulsionados: maré anti-feudal de totalização nacional; maré da globalização mercantil; maré globalizante da indústria; maré globalizante do imperialismo, maré globalizante da fase associacionista do capitalismo monopolista e, maré da globalização contemporânea.
conjuntural, já que essa relação não é ideologicamente inocente80 nem desprovida de história.
A nova etapa da acumulação capitalista tem no novo padrão tecnológico o lado mais aparente: “a impressionante rapidez na geração e difusão de novas tecnologias, na introdução de novos produtos e processos produtivos e na disseminação de novos métodos de organização e produção” (BRAGA, 1995b, p. 95). Esse fenômeno se reflete também em todos os aspectos da vida social e, conseqüentemente, modifica o perfil de qualificação da força de trabalho, considerando que o aumento da flexibilidade e da integração dos processos produtivos, ao mesmo tempo em que conferem competitividade às empresas, impõe- lhes alta variabilidade e vulnerabilidade, o que exige constante aperfeiçoamento e capacidade dos trabalhadores para exercer variadas funções.
Escolaridade básica, capacidade de adaptação a novas situações, compreensão global de um conjunto de tarefas e de funções conexas, responsabilidade (em relação ao manuseio de equipamentos sofisticados), capacidade de comunicação e de trabalho em grupo são quesitos que compõem o padrão de exigência feita aos trabalhadores, sobre os quais recai também a imposição de interminável e imprescindível requalificação profissional. Nesse sentido, importa considerar com atenção as formas com que o capital exerce o poder, refinadas pela internalização, de maneira cada vez mais profunda e sutil, da heterogestão, pois enquanto o taylorismo e o fordismo,
se caracterizavam por regimes fabris regidos pelas ordens e pela obediência a supervisores, chefias e gerências, a atual organização tem se apoiado muito mais num tipo de governo em que o rigor e o detalhismo das normas técnicas, cada vez mais impositivas em função da globalização capitalista, cobram pela obediência de todos à lógica do mercado e da concorrência (MACHADO, 1996, p. 30).