CHAPTER 3: METHODOLOGY
3.5.4. Additional methods
Ao entrevistar os sujeitos da pesquisa a respeito da implantação de uma Unidade do CEFET-MG em Araxá, destaca-se a figura da EMINAS102. Os depoimentos são esclarecedores, ao revelar que a escola, enquanto esteve em funcionamento, foi decisiva e marcante na formação profissional dos trabalhadores da cidade e do país,
sendo de fundamental importância para a criação da Unidade do CEFET-MG. As pessoas não conseguem falar de uma sem mencionar a outra. Diz um empresário:
Agora, quando o CEFET veio pra cá, já existia uma escola técnica, a EMINAS, que já
tinha uma estruturazinha que já estava sendo desenvolvida [...] “Oh! Agora a EMINAS
vai ser do grupo do CEFET”. Então, toda aquela estrutura do CEFET viria para dar mais
um reforço naquela estrutura existente (EMPRESÁRIO).
A maioria dos entrevistados103, quando solicitados a falar das expectativas gerais acerca da implantação de uma escola pública de formação profissional na cidade, remetem-se à EMINAS, muitos descrevendo sua trajetória, outros relembrando o próprio trabalho profissional realizado, alguns por terem realizado nas duas escolas o curso de formação. Um por ter sido aluno e, posteriormente, funcionário. Outros fazendo apenas menção. Mas todos testemunhando de certa forma as dificuldades pelas quais a escola passou, a qualidade de seu trabalho e, principalmente, seu papel fundamental na formação de técnicos e na implantação do CEFET-MG na cidade. O depoimento de um dos professores expressa:
Eu sei, que a Escola de Minas teve um papel na formação de recursos humanos, especialmente nessa área de mineração [...] Eu sei que ela teve um impacto muito grande no Brasil, porque onde a gente vai hoje, nas empresas de mineração, a gente encontra ex-alunos formados na EMINAS (PROFESSOR),
Complementado-o, outro entrevistado afirma: “a Escola de Minas (EMINAS), aquela já existente, já era o coroamento de uma grande ansiedade da sociedade [...] Então, o CEFET, o que ele veio a fazer foi consolidar isso (GESTOR).
Reforçando a questão da íntima ligação entre as duas escolas, chama a atenção o fato de um empresário se referir a elas como sendo uma instituição só, quando solicitado a falar sobre as primeiras impressões que teve no contato com o CEFET-MG. Isso revela, de alguma maneira, a mencionada marca deixada pela EMINAS na formação profissional da região:
O primeiro contato foi com os estagiários. Já foi diretamente com eles. Naquela época, pelo que eu me lembro, formava muito bem. Nós formamos um grupinho de dez ou doze funcionários, oriundos da Escola de Minas e que nós treinamos [...] Foi uma experiência magnífica. Então, a minha lembrança da Escola de Minas e do CEFET é a melhor possível, uma boa impressão (EMPRESÁRIO).
Acrescente-se que muitos documentos que dizem respeito à Unidade do CEFET-MGem Araxá fazem referência à escola, até porque, foi com base nos cursos oferecidos na EMINAS que o CEFET-MG construiu sua oferta de cursos e o que permitiu o seu funcionamento inicial foi exatamente a estrutura física da referida
103 Mesmo aqueles que não mantiveram vínculos diretos com a EMINAS (já que os professores
escola. Nesse sentido, o Curso de Técnico em Mineração, oferecido naEMINAS,mas não nos campi do CEFET-MG, foi também incorporado e especialmente reestruturado, “porque havia o entendimento por parte do CEFET também, de que uma escola tipo a EMINAS, onde durante tanto tempo teve o Curso de Mineração, não poderia, repentinamente, parar. Especialmente por causa da demanda regional” (PROFESSOR).
Percebe-se no entanto que, para muitas pessoas ligadas diretamente à EMINAS, a vinda do CEFET-MG não despertou uma expectativa agradável. Antes, pelo contrário: entre outras impressões, destaca-se a de que, pelo fato de funcionarem duas escolas no mesmo espaço, durante o período de transição, a que entrava em desativação e a que estava sendo implantada, a atenção das pessoas voltava especialmente para a última. Isso provocava sério desconforto para os antigos alunos e professores, que se sentiam pouco à vontade num ambiente que passava por reformulações, tanto na estrutura física como na didático-pedagógica, particularmente quanto às matrizes curriculares. Acrescente-se a isso o fato de ter havido uma reformulação de quase todo o quadro de pessoal. Algumas falas dão mostra do desconforto ali estabelecido. “Havia a sensação de que eles estavam perdendo a EMINAS, certo? Isso, de um modo geral, inclusive os professores” (GESTOR). Em outro depoimento esta é a declaração:
pelo que eu me lembro, na época, foi um baque muito grande, a EMINAS ter
simplesmente, acabado daquele jeito que acabou. Com relação à EMINAS [...] aos
professores, aos funcionários [...] não foi uma expectativa muito boa, porque o CEFET
tava vindo, tava encampando a EMINAS Então, criou aquele medo: “e agora, pra onde eu vou? Vou perder o emprego...” (PROFESSOR).
A maioria dos professores que ministravam aulas na EMINAS, de acordo com os relatos, tinham outro emprego na cidade. Mesmo assim o mal-estar a que se referiu um outro depoimento é compreensível, quando se analisa o teor de uma publicação do jornal local, “O Tempo”, com esclarecimentos da Secretaria Municipal de Educação a respeito da situação dos alunos cujos cursos estavam inconclusos e dos professores da EMINAS: “Quanto aos professores, passarão por um exame de seleção, onde os melhores serão contratados pelo CEFET”(FEDERALIZAÇÃODA..., 1992).
Percebe-se na falas dos entrevistados que alguns fatos ocorridos no período de instalação do CEFET-MG, com desdobramentos, geraram grande mágoa no
pessoal da EMINAS.Especialmente pela maneira como os que chegavam se referiam à antiga escola, como mostra esta fala:
Então, no momento em que veio uma escola federal prá cá, o que aconteceu propriamente, é que houve um certo desprezo pela EMINAS [...] mas das pessoas eu
me lembro que houve... Depois, o pessoal que era da EMINAS, que era professor,
falava assim: “pôxa, mas que coisa triste isso, né? O pessoal, agora, do CEFET, veio e criou esse constrangimento pra gente. Falando que a gente não fez as coisas direito, que a escola não era boa...” E, no entanto, as pessoas tinham uma avaliação da escola, eu acho, de que era boa. Então, isso, esse tipo de coisa eu sentia dentro da própria Unidade da EMINAS (PROFESSOR).
Contudo, a percepção das dificuldades e até mesmo da sensação de desconforto vivenciada pelas pessoas que trabalhavam na EMINAS, na época da implantação da Unidade do CEFET-MG, não é mencionada por todos os entrevistados que presenciaram a transição. Mas há quem mencione:
Quanto à parte dos professores, das pessoas que trabalhavam na EMINAS, eu não senti essa resistência não, porque alguns foram “aproveitados” noutros setores da Fundação Cultural, e a expectativa dos que estavam na EMINAS, na época, de que
poderiam vir a ser, através de um concurso público, funcionário da rede federal, enchia todo mundo de muita expectativa (PROFESSOR).
A pesquisa mostra que os sentimentos das pessoas variavam de acordo com a possibilidade e/ou segurança que sentiam em relação ao próprio emprego. Como, na época, o desemprego já ameaçava grande parte dos trabalhadores de todas as áreas de atuação, a implantação do CEFET-MG/UNED ARAXÁ parece ter sido recebida de maneiras distintas. Assim, os que confiavam mais na possibilidade de ser aprovados no concurso público tinham a implantação do CEFET como uma alegria, ao passo que os que estavam menos seguros sentiam a ameaça de perda do emprego na EMINAS. Realizado o concurso, a situação que se estabeleceu foi, de desconforto total, tanto para os que não foram aprovados no concurso público quanto para os que não fizeram o concurso, mas continuavam a trabalhar na EMINAS, como foi relatado por alguns entrevistados.
Contudo cabe destacar que, conforme depoimentos de outras pessoas que não sofreram desse desconforto, a vinda da Unidade do CEFET foi aguardada e criou expectativas, principalmente pelo fato ser uma escola gratuita e de qualidade destacada em termos de formação profissional.
A esse respeito, percebe-se nos jornais que noticiavam a implantação, o destaque dado à fala dos gestores de políticas públicas que estiveram envolvidos no processo e à qualidade do ensino da instituição. Esta última parece ser até uma
justificativa – razoável – e uma sobrevalorização da troca que estava se efetivando, de uma escola pela outra, além do destaque à questão da gratuidade do ensino.
Nos jornais da época, em nenhum momento104, ao apregoar a qualidade do CEFET-MG, é percebida menção aos méritos ou à qualidade da antiga escola, mesmo tendo ela desempenhado importante papel na formação de trabalhadores. Era necessário continuar zelando pelo nome, pelos profissionais formados, pelos alunos matriculados e por todos que manteriam os cursos funcionando até a conclusão da última série. Talvez a própria euforia pela implantação da Unidade do CEFET-MG pode ter causado um descuido em relação a isso. Instrumento revelador, este texto, publicado em um jornal local, mostra o que foi dito:
A preliminar encampação da EMINAS pelo CEFET é o início de um outro processo de
ensino técnico, até então estabelecido pela EMINAS em todos esses anos de vigência. A metodologia é outra e em seqüência da federalização, num prazo de aproximadamente dez anos, a antiga escola, vai virar peça de museu da história da educação do município [...] Neste primeiro ano, o CEFET irá manter os mesmos cursos
existentes na EMINAS, inclusive para facilitar [...] O que muda neste primeiro ano é a presença do CEFET e sua qualidade (ARAXÁ COMPENSA...,1992).
Desse modo, a mídia escrita105, a despeito de ter prestado importante contribuição nesse contexto de implementação da Unidade, não faz alusão à continuidade (temporária) da escola que estava sendo encampada pelo CEFET-MG: “Araxá compensa morte da EMINAS com uma Unidade do CEFET” (ARAXÁ COMPENSA..., 1992). Esses dizeres parecem contribuir para a impressão de que a escola estava sendo, na verdade, enterrada viva.
A referência à EMINAS constitui fala introdutória e espontânea de praticamente todos os entrevistados, quando solicitados a falar sobre o CEFET-MG/UNED ARAXÁ. Ainda hoje, professores que trabalharam na EMINAS e estão no CEFET-MG afirmam com segurança: ”A EMINAS tinha uma excelente qualidade de ensino”.