Piolhos e percevejos não há no Brasil, nem tantas pulgas como em Portugal; mas há uns bichinhos de feição de pulgas, tão pe- quenos como piolhos de galinhas, que se metem nos dedos e solas dos pés de quem anda descalço, e se fazem tão grandes, e redondos como camarinhas, quem sabe tirá-los inteiros sem lesão o faz com a ponta de um alfinete, mas quem não sabe re- benta-os, e ficando a pele dentro cria matéria (SALVADOR, 1954, p. 65).
Suas observações de plantas e animais foram rea- lizadas nos atuais Estados do Nordeste: Paraíba, Per- nambuco e principalmente Bahia, nos quais esteve em missões da sua ordem religiosa. Nestas há que se diferenciarem, entretanto, aquelas plantas e animais apenas mencionados de passagem pelo autor, daqueles que realmente fez alguma descrição por mais resumi- das que sejam.
Animais e plantas do Maranhão referenciados por franciscanos durante o período colonial
Durante o período colonial a fauna e a flora mara- nhenses foram referenciadas por religiosos francisca- nos como os capuchinhos franceses Claude d’Abbeville (?-1632) em 1614 e Yves d’Evreux (1577-1632) em 1615, os portugueses Frei Cristovão de Lisboa (1583-1652) em 1624 e Frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres (1790-1852) em 1819 com a publicação em 1891. Os três registros do século XVII são de enorme importância para a história natural da região, pois foram realiza- dos antes da ocupação holandesa do Nordeste brasilei- ro (1630-1654), cuja fauna e flora foram descritas sis- tematicamente pelos naturalistas nassovianos Georg Marcgrave e Guilherme Piso em 1648.
Claude d’Abbeville cujo nome de batismo era Clé- ment Foulon, quando se tornou frade capuchinho adotou o nome de Claude d’Abbeville que era sua cida- de natal, vindo a falecer em Rouen em 1632. Frei Clau- de chegou ao Maranhão em 29 de julho de 1612, onde ficou por apenas quatro meses. Acompanhou a expe- dição colonizadora de Daniel de la Touche e veio para o Brasil na companhia de quatro outros missionários, entre os quais o também cronista Yves d’Evreux. Ao
voltar para a França, publicou a obra Historie de la mission de pères capucins em l’isle de Maragnan et terres circun- voisines (1614), cuja mais recente edição brasileira é “A
história da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas” (de 1975) (NOMU- RA, 1996).
Évreux chegou ao Maranhão junto com Abbevil- le, onde permaneceu por dois anos. Escreveu a obra intitulada Suite de l’historie des choses plus mémorables
advenues em Maragnan ès annés 1613 & 1614. Second trai-
té editado em Paris em 1615, que teve como objetivo
servir de complemento à obra de Abbeville. Entretan- to, quase toda a edição foi destruída por motivos polí- ticos por conta da renúncia da monarquia francesa ao projeto da França Equinocial no Brasil, numa aliança com a Espanha que abrangia Portugal. Assim a pu- blicação da obra de Évreux neste novo contexto era inoportuna e os exemplares da obra foram destruídos
no atelier de impressão (DAHER, 2007), a sua obra per- maneceu inédita até 1835 quando foi encontrado um exemplar, baseado no qual foi feita a edição francesa de 1864 intitulada Voyage dans le nord du Brésil fait du-
rant les années 1613 et 1614 (NOMURA, 1996). A primeira
edição brasileira é de 1874, intitulada Viagem ao norte
do Brasil feita nos annos de 1613 a 1614, com a tradução
do Dr. Cesar Augusto Marques. Na sua obra Évreux enfatiza o seu principal interesse pelo que atualmen- te denominamos de etnologia, estudando a cultura indígena local. Nesse contexto etnológico, animais e plantas são apenas mencionados.
Os quatro meses da permanência de Frei Claude no Maranhão foi tempo suficiente para que adquiris- se uma notável soma de informações sobre a região. Mesmo não tendo uma formação de naturalista des- creveu com minúcia a história natural de plantas e animais da região, demonstrando uma grande capa- cidade de observação.
Já Évreux deixa claro que suas observações sobre a natureza foram registradas com a finalidade de com- pletar as de Abbéville e diz que “somente acrescen- tarei o que mais do que elle soube por experiência, pois eu estive no Maranhão dois annos completos e elle apenas quatro mezes”. Ainda assim, o trabalho de coligir dados de Abbéville foi notável e as observações de Évreux são particularmente ingênuas (ÁVILA-PI- RES, 1989).
O capucho português Frei Cristóvão de Lisboa (1583-1652) (Fig.1) partiu de Lisboa no dia 25 de mar- ço de 1624 e chegou ao Brasil a 2 de maio do mesmo ano, desembarcando em Pernambuco, e depois seguiu para o Maranhão no dia primeiro de julho e chegan- do lá em 16 de agosto, permanecendo por mais de 12 anos na região, durante os quais visitou muitas par- tes da província e se dedicou ao trabalho missioná- rio junto aos indígenas, tendo regressado à Portugal em 1635. Ele faleceu no convento de Santo Antonio do Curral em 19 de abril de1652 (NOMURA, 1996).
O códice de Frei Cristóvão “História dos Animais e Árvores do Maranhão” encontra-se depositado no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. Trata-se de um fólio de 198 folhas que foi encontrado em um al- farrabista de Lisboa e adquirido pelo Estado, em 1934. Em 1967, a obra foi impressa e a ela foram anexados estudos e notas de Jaime Walter e o prefácio de Alber- to Iria. Estes autores descrevem e caracterizam mi- nuciosamente a obra e trazem preciosas informações sobre Frei Cristóvão. Em 2000, entre as atividades co- memorativas dos 500 anos dos descobrimentos por- tugueses, a obra foi reeditada, desta feita enriquecida com comentários de Jaime Walter, Fernando Frade,
José E. Mendes Ferrão, Luiz F. Mendes e Maria C. Libe- rato (PEIXOTO; ESCUDEIRO, 2002).
Segundo Walter (1967) é possível que tenha sido recolhido pelo confrade a que se referiu em carta, o qual escreveria o relato feito por algum português discorrendo sobre as espécies desenhadas e outras, que lhe surgiram na memória. Teria sido um eu- ropeu, profundamente conhecedor da região e da língua tupi, e que, além disso, teve contato com os franceses (ÁVILA-PIRES, 1989).
Ao contrário da de seus correligionários france- ses, a obra de Frei Cristóvão permite a identificação segura, pelos detalhes registrados nas ilustrações, as mais antigas que retratam a fauna maranhense (ÁVILA-PIRES, 1989).
Entretanto, parece não ter sido ele próprio o au- tor dos desenhos, nem mesmo do breve texto que os acompanha. Ele teria escrito o índice, corrigindo os nomes de plantas e de animais que estavam incor- retos em alguns desenhos e adicionado também a alguns desenhos e breves observações. É, portanto, múltipla a autoria do manuscrito (COSTA, 2006).
No entanto o esforço de coligir o material e de tentar publicar coube apenas a Frei Cristóvão. Falta- ram-lhe, contudo, os meios materiais para a realiza- ção do projeto de publicação, não tendo tido sucesso o seu pedido de patrocínio ao Príncipe a quem pre- tendia dedicar a obra (COSTA, 2006).
Assim, como escreve Costa (2006), o códice invo- cado por alguns estudiosos portugueses como um “legítimo padrão do nosso justificado orgulho de sermos portugueses” (IRIA, 1967, p. XII) é também um testemunho da incúria e da desvalorização dos portugueses em relação ao poder do livro na circu- lação do conhecimento científico e na construção da sua identidade cultural.
É importante o estudo da obra de Frei Cristóvão em conjunto com a dos capuchinhos franceses que, além de contemporâneos, possivelmente comparti- lharam os mesmos informantes (ÁVILA-PIRES, 1989). O autor da obra “Poranduba Maranhense”, bati- zado Francisco Fernandes Pereira, nasceu em Favei- ros, Alijó, Portugal em 8 de julho de 1790 e faleceu na Granja do Alijó, em 1852. Ingressou no Convento de São Francisco, no Porto, em 1812, completando seu noviciado no Maranhão, Brasil. Em 1814 viajou ao Pará, já separado do Maranhão. Regressou a Portu- gal e entrou para o convento de Villa Real. Regressou posteriormente ao Maranhão e, em 1819, iniciou, em São Luís, a redação do manuscrito da “Poranduba”. Frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres, nome que adotou ao entrar para o convento, foi sócio cor-
respondente do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (ÁVILA-PIRES, 1992). Suas observações sobre animais e plantas do Maranhão foram realizadas no início do século XIX, aproximadamente 200 anos depois dos registros do século XVII. Entretanto, sua obra foi publicada após sua morte em 1891.
Para os biólogos, essas obras encerram valor prá- tico de importância imediata, ao registrarem dados sobre distribuição geográfica primitiva de elemen- tos da flora e fauna, rotas de dispersão, abundância ou raridade de espécies e alterações no tipo de co- bertura vegetal ou paisagem (ÁVILA-PIRES, 1989).
O Estado do Maranhão está geograficamente localizado em uma área sob a influência de três grandes domínios morfoclimáticos, a Amazônia no norte, a Caatinga no nordeste e no Cerrado do Brasil central. Consequentemente, a região apre- senta, em maior ou menor grau, as características de todas estas áreas. A cobertura vegetal, reflete essa transicionalidade entre o super-úmido e o se- mi-árido. Isto, leva a uma grande diversidade bio- lógica na região. Assim, o Estado do Maranhão tem características típicas por interagir com diversos ecossistemas, tendo, portanto elementos da flora e fauna pertencentes ao Cerrado, Amazônia e Caatin- ga (AB’SÁBER, 1977).
A Ilha do Maranhão está situada ao norte do es- tado do Maranhão, região nordeste do Brasil. Está enquadrada pelas coordenadas geográficas 2º 24` 10” e 2º 46` 37” de latitude Sul e 44º 22` 39” e 44º 22` 39” de longitude Oeste, com área total de aproxi- madamente 831,7 Km2. Possui uma população de 1.067.974 habitantes. A Ilha do Maranhão é compos- ta pelos seguintes municípios: São Luís (capital), São José de Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa (ARAÚJO
et al., 2005).
O clima da região, segundo a classificação de Koppen, é tipo AW, Tropical chuvoso, com predo- minância de chuvas nos meses de janeiro a abril. A temperatura média anual oscila em torno de 28º (ARAÚJO et al., 2005).
A hidrografia da região é formada pelos rios Anil, Bacanga, Tibiri, Paciência, Maracanã, Calhau, Pimenta, Coqueiro e Cachorros. São rios de pequeno porte que deságuam em diversas direções abrangen- do dunas e praias. Sendo que o rio Anil com 13.800 m de extensão, e Bacanga com 9.300m drenam para a Baía São Marcos tendo em seus estuários áreas co- bertas de mangues (ARAÚJO et al., 2005).
É objetivo do presente trabalho o levantamento e interpretação das referências de plantas e animais feitas em comum pelos autores franciscanos.
Plantas
Quadro 1: Espécies de plantas referenciadas em comum pelos autores.
Abbeville Évreux Lisboa Prazeres Nomes vulgares
atuais
Possível identificação
1 Acaiouyer Caju Quaiu (Fig.5) Cajueiro Cajueiro Anacardium occidentale L.; Anacardiaceae 2 Iunipap Jenipapo Genipapo Genipapeiro Jenipapeiro Genipa americanaL.Rubiaceae
3 Manioch Cariman Mandioqua Maniva Mandioca Manihot esculenta Crantz; Euphorbiaceae
4 Ouroucou Urucu Oroquu Urucú Urucum; Colorau Bixa orellana L. Bixaceae
5 Mangaá - Mangaueira Mangabeira Mangabeira Hancornia speciosa Gomez; Apocinaceae
6 Araticou - Araticum Araticum Annona sp. Annonaceae
7 Euuauirap Guabirabeira Guabiraba Campomanesia sp. Myrtaceae
8 Margoya Maracuia(Fig.5) Maracujá Maracujazeiro Passiflora sp. Passifloraceae
9 Carana-vue Anhauba Carnaúba Carnaúba Copernicia cerifera Mart. Arecaceae 10 Toucon-vue Tuqum Tucum Tucum Astrocaryum 106ucumã Mart. Arecaceae
11 Pacoury - Bacurizéiro Bacurí Platonia insignis Mart. Gutiferae 12 Acaia Caia Cajazeira Cajazeiro Spondias mombin L. Anacardiaceae
13 Pitom - Pitombéira Pitombeira Sapindus edulis St. Hil. Sapindaceae
14 Morecy Morecim Muruci Murici Byrsonima verbascifolia Rich. Malphiguiaceae 15 Mourouré - Mururi Mururé Brosimum acutifolium Moraceae (Huber) Ducke.
16 Vua-oyiou - Guabijú Guabiju Eugenia guabiju Mart. Myrtaceae
17 Vua pirup - Guabirabeira Guabiroba Abbevillea maschalantha Berg. Myrtaceae 18 Arasa Arasa Araçá Araçazeiro Psidium cattleyanum Sabine. Myrtaceae
19 Pekéi Paquori Pequizeiro Pequizeiro Caryocar brasiliensisSt.-Hil. Sapindaceae
20 Ioutay - Jatobá ou Jutahi Jutaizeiro Hymnnaea courbaril Mart. Fabaceae
21 Inga - Ingá Ingazeira Inga sp. Fabaceae
22 Amonyiou Manoiu Algodoeiro Algodoeiro Gossypium sp. Malvaceae
23 Ananas Aananas Ananazeiro Ananás Ananassa sativaBromeliaceae Lindl.
24 Vua-een Hubahem Melancia Melancia Citrillus lanatus& Nakai Cucurbitaceae (Thunb.) Matsum. 25 Yeteuch Gitica Batata Batata-doce; Jetica; Ipomoea batatas (L.) Lam. Convolvulaceae
26 Cara Cara Cará Cará Dioscorea alata L. Dioscoreaceae
27 Macachet - Aipim ou
Macaxeira Aipim; Macaxeira Manihot esculenta Crantz. Euphorbiaceae 27 Petun - Fumo ou Tabaco Fumo; Tabaco Nicotiana tabacum L.; Solanaceae 28 Apparituries - Mangue Mangue-vermelho Rhizophora mangle L.; Rhizophoraceae
Animais
Quadro 2: Espécies de mamíferos referenciadas em comum pelos autores
Abbeville Évreux Lisboa Prazeres Nomes vulgares atuais Possível identificação
1 Souässou apar - Souasu Veado-
galheiro Veado-galheiro Blastocerus dichotomus (Illigier, 1811). Cervidae 2 Taiässou Javali Porco tarasu Caititú Caititu Tayassu pecari (Link, 1795). Tayassuidae 3 Tamandouä Cão selvagem Tamandua Tamanduá Tamanduá-bandeira Myrmecophaga tridactyla Myrmecophagidae L., 1758.
4 Tatu-etê - Tatu (Fig.6) Tatu Tatu-galinha Dasypus novemcinctus (L., 1758). Dasypodidae 5 Margaia - Maracaya Maracajá Maracajá Felis pardalis brasiliensis (Oken, 1816). Felidae 6 Vnäu - Priguisa(Fig.7) Preguiça Preguiça Bradypus tridactylus miritibae Bradypodidae Lönnberg, 1943. 7 Ouärioue Macaco - Guariba Guariba Alouatta belzebul ululata Elliot, 1912. Cebidae 8 Cai-on Macaco - Coxiú Caxiú-preto Chiropotes satanas Cebidae (Hoffmannsegg, 1807). 9 Sapaiou Macaco - Macaco Macaco-de-cheiro; Sapaju Saimiri sciureus (L., 1758). Cebidae 10 - Cutia Paca (Fig.8) Cotia Cutia Dasyprocta prymnolophaDasyproctidae Wagler, 1831.
11 - Peixe-boi Garagua
(Fig.9) Peixe-boi Peixe-boi; Manati Trichechus manatus L., 1758. Trichechidae 12 Capyyuare - Capiuara(Fig.10) Capivara Capivara Hydrochaeris hidrochaerisHidrochaeridae. (L., 1766). 13 Andheura - Andura Morcego Morcego-vampiro Desmodus rotundus Phyllostomidae (Geoffroy, 1810).
Figura 6: O “tatu” e a “paca” de Frei Cristóvão (LISBOA, 1967, p. 79).
Figura 7: A “priguisa” de Frei Cristóvão (LISBOA, 1967, p. 81 ).
Figura 8: A “capiuara” de Frei Cristóvão (LISBOA, 1967, p. 83).
Figura 9: O “caragua” de Frei Cristóvão (LISBOA, 1967, p. 85).
Figura 10: O “arasary” de Frei Cristóvão (LISBOA, 1967).
Figura 11: O “cery” de Frei Cristóvão (LISBOA, 1967, p. 93). :
:
Quadro 3: Espécies de aves referenciadas em comum pelos autores
Abbeville Évreux Lisboa Prazeres Nomes vulgares atuais Possível identificação
1 Ouyra ouassou Uira-uaçu Guraasu Gavião-real Uiraçú; Gavião-real Harpia harpyja L., 1758 Accipitridae
2 Choua;
Aracouan - Aracoan Aracuan Aracuã
Ortalis motmot superciliaris (Gray, 1867)
Cracidae
3 Kauouré - Cabure - Caboré Glaucidium brasilianumStrigidae (Gmelin 1788) 4 Yenday oussou - Jandaya - Jandaia Aratinga solstitialis Psittacidae (Linnaeus, 1766) 5 Canidé Canindé Canide Canindé Arara-canindé Ara ararauna, L., 1758 Psittacidae
6 Margana - Maraquana Maracanan Maracanã Ara maracana (Vieillot, 1816) Psittacidae
7 Touin - Tuim ite - Tuim Forpus sp. Psittacidae
8 Couiou-couiop - Xia - Maritaca Pionus sp. Psittacidae
9 Moyton - Mohi do Pará Mutum Mutum Mitu mitu (L., 1766) Cracidae
10 Iacou - Jacu Jacú Jacu Penelope sp. Cracidae
11 Toucan - Guahi - Tucano Ramphastos sp. Ramphastidae
12 Arasary - Arasary (Fig.10) Araçarí Pteroglossus bitorquatusRamphastidaet Vigors, 1826.
13 Sauia Melro - Sabiá Sabiá Turdus sp. Turdidae
14 Ierouty Jeroti - Juriti Leptotila sp. Columbidae
15 Uénonbouyh Pássaro Guanembu Beija-flor Beija-flor Trochilidae
16 Ouara Ave vermelha Guara Guará Guará Eudocinus ruber L., 1758. Threskiornithidae 17 Maouarip - Maguari - Maguarí Ciconia maguari(Gmelin, 1789). Ciconiidae
18 Touiouiouch Yaboru Jaburú Tuiuiú; Jaburu Jabiru mycteria(Lichtenstein, 1819) Ciconiidae
19 Yandou Hema Ema Ema Rhea americana
(L.,1758). Rheidae
20 - Garça menor Guaratinga-merim Garça Garça-branca-pequena Egretta thula (Molina, 1782). Ardeidae 21 Ouira-tin - Guatingaosu - Guiratinga Casmerodius alba
L., 1758. Ardeidae 2’2 - Navalha Aty asu - Talha-mar Rynchops niger (L., 1758). Laridae
Quadro 4: Espécies de peixes referenciadas em comum pelos autores
Abbeville Lisboa Prazeres Nomes vulgares atuais Identificação segundo Nomura (1996)
1 Pyra-on Piraúna - Piraúna; Mero Promicrops itaiara (Lichtenstein, 1822). Serranidae
2 Pyra-pem Pirapen Pirapema Camurupin; Pirapema Tarpon atlanticus (Valenciennes, 1846); Megalopidae 3 Paraty Varem - Parati Mugil incilis Hancock, 1830. Mugilidae
4 Pyra couäe Piracava - Piracuara Polydactylus virginicus (L., 1758). Polynemidae 5Camboury
ouässou Camorim - Camorim-açu; Camori Centropomus undecimalis (Bloch, 1792). Centropomidae 6 Ouaaram Picuruata - Ubarana Elops saurus L., 1766. Elopidae
7 Yaüebouyre Yabebura - Jaberuba; Jabiretê Dasyatis guttata (Bloch & Schneider, 1801). Dasyatidae 8 Ouara Guara - Guará-etê; Guará-tereba Caranx hippos (L., 1766). Carangidae
9 Parou Paru - Paru Chaetodipterus faber (Broussonet, 1782). Epihidae 10Panapanam Panapana Cação Cação-panã Sphyrna tiburo L., 1758. Sphyrnidae
11 Pacamo Pacamo - Pacamão Amphichthys cryptocentrus (Valenciennes, 1837). Batrachodidae
12 Caramourou Caramoru - Caramuru Gymnothorax moringa (Cuvier, 1829). Muraenidae 13 Tinmoucou
ouässou Ytimmoquaju - Timucu Strongylura timucu (Walbaum, 1792. Belonidae 14 Pouraké Poraque Puraquê Poraquê Electhrophorus electricus (L., 1766). Electhrophorida e 15 Courimata Curimata - Curimatã Prochilodus lacustris Steindachner, 1907. Prochilodontidae 16 Sourouuy Sorobim Cerobim Surubim Pseudoplatystoma fasciatum fasciatum Pimelodidae (L., 1766).
17 Yaconda Yacondapynima - Jacundá Crenicichla lugubris Heckel, 1840. Cichlidae 18 Acara Acara - Acará Aequidens stollei Ribeiro, 1918. Cichlidae 19 Opean Piranha Pirânha Piranha-vermelha;Piranha-caju Serrasalmus nattereri (Kner, 1860). Characidae
20 Tarehure Tararira Terahira Traíra Hoplias malabaricus malabaricus (Bloch, 1794). Erythrinidae 21 Ieieou Jeigu Jeiju Jeju Hoplerythrinus unitaenitatus (Schneider, 1801). Erythrinidae 22 Tamoata Tamoata Tamoatá Tamuatá Calichthys callichthys (L., 1758). Calichthyidae
23 Sarapo Sarapo Sarapó Sarapó Hypopomus brevirostris (Steindachner, 1868). Pimelodidae 24 Moussou Mocu - Muçu; Muçum Synbrachus marmoratus Bloch, 1795. Synbrachidae
Quadro 5: Espécies de répteis referenciadas em comum pelos autores
Abbeville Évreux Lisboa Prazeres Nomes vulgares atuais Possível identificação
1 Teiou ouässou Toju Tiuasu Tejú Teju; Teiú Tupinambis merianae L., 1758. Teiidae 2 Senenboy Camaleão Synimbu - Sininmbu Iguana iguana (L., 1758). Iguanidae 3- Tartaruga Gerara Jurará Muçuã; Jurará Kinosternum scorpioides int egrum (Le Conte, 1854). Kinostermidae
Quadro 6: Espécies de insetos referenciadas em comum pelos autores
Abbeville Évreux Prazeres Nomes vulgares atuais Possível identificação
1 Marigouy Maringoim - Maruim Culicoides sp. Diptera; Ceratopogonidae
2 Ussa-été Formiga Saúba Içá; Saúva Atta sp. Hymenoptera; Formicidae
3 Koueuioup Caju - Grilo Gryllus assimilis (Fabricius, 1775). Orthoptera; Gryllidae Entre as espécies de crustáceos referenciadas em
comum pelos autores só o siri (Callinectes bocourti Edwards, 1879, Portunidae) é citado por Abbeville (“siry”) e Lisboa (“cery”) (fig.11).
Quadro 7: Levantamento de plantas e animais realizado pelos autores no Maranhão.
Plantas e animais Abbeville 1614 Évreux 1615 Lisboa 1624 Prazeres 1819 Plantas 64 8 54 174 Mamíferos 26 20 22 28 Aves 61 20 70 59 Peixes 40 - 100 21 Répteis - 6 8 10 Crustáceos 8 - 2 - Insetos 16 9 - 9 Totais 215 63 256 301
O levantamento completo das espécies de animais referenciadas por Abbeville, Évreux e Lisboa foi rea- lizado na enciclopédica obra “História da Zoologia no Brasil” do Professor Hitoshi Nomura (1996).
Como pode ser observado nos resultados da ta- bela 7, o maior número de espécies de plantas (174) foi referenciado por Prazeres no início do século XIX. Deve ser assinalado que o seu levantamento registra um grande número de espécies de plantas cultivadas introduzidas na região. Chama atenção o baixíssimo número de espécies de répteis, crustáceos e insetos referenciados pelos autores, mesmo possuindo uma altíssima diversidade de espécies na região mara- nhense. Os moluscos e os anfíbios nem mesmo foram
mencionados pelos autores. No século XVII o levanta- mento mais completo foi realizado por Lisboa, acom- panhados por estampas com desenhos, destacando- se os peixes assinalados por este.
Como pode ser constatado, os levantamentos principais foram feitos por Abbeville e Lisboa, sendo o de Évreux apenas complementar ao de Abbeville, como ele mesmo escreveu. Para levantamentos feitos aproximadamente numa mesma época e região (com 20 anos de diferença), pode-se constatar também que são poucas as espécies de plantas e animais em co- mum referenciadas pelos três autores.
Já o levantamento de Frei Francisco dos Prazeres (1891) foi realizado aproximadamente 200 anos de- pois dos registros do século XVII.
Isto pode ser observado entre os mamíferos, quando só existem 13 espécies referenciadas em co- mum, de um total de 26 de Abbeville, 20 de Évreux e 22 de Lisboa. Entre as aves, 22 espécies são referen- ciadas em comum de um total de 61 de Abbeville, 20 de Évreux e 70 de Lisboa e, sobretudo entre os peixes com apenas 24 espécies em comum de um total de 40 espécies de Abbeville e 100 de Lisboa, como pode ser visto na lista geral de Nomura (1996). Isto significa que provavelmente não existiu aquele “colono português conhecedor da língua tupi” como informante comum de Abbeville e Lisboa, mencionado na literatura.
Sobre os animais Abbeville, considera-os como “signos celestes” zodiacais:
É conveniente levar em consideração os animais ou signos celestes que dominam o zodíaco desta esfera universal, pois se alguém pudesse conhecer-lhes as particularidades todas muito proveito tiraria. Do mesmo modo é de grande interesse saber quais os animais elementares que existem em maior nú-
mero sob os signos celestes dos celestes animais. Pois, se fosse possível descrevê-los todos em particular e ao vivo, ninguém deixaria de admirá-los. Pensam alguns astrônomos e filósofos que os signos dos animais celestes influem muito nos animais terrestres [...] Por isso, encontram-se nessa zona animais sem número, e maravilhosos, parecendo terem-se esforçado Deus e a Natureza em prover essa região de animais mais admirá- veis do que os das outras regiões. Dir-se-ia o quintal de Júpiter dos animais celestes, e principalmente o quintal do sol (ABBE- VILLE, 1975, p. 181).
Mesmo sendo uma percepção constante da sua presença incômoda, os insetos praticamente não fo- ram referenciados pelos autores. Sobre estes escreve Abbeville revelando a sua ampla concepção sobre es- tes animais:
Muitas pessoas ouviram falar na existência no Maranhão de animais que, embora pequenos, incomodam o homem. E muito se admiram do fato. Mas é pura verdade. Devem elas saber que em qualquer país onde existam animais perfeitos também os há imperfeitos, a que alguns denominam insecta e outros anulosa ou annulata e outros ainda, com Aristóteles e Plínio, entoma. São pequenos animais sem sangue ou sem membros distintos, apenas alguns têm cabeça e ventre ou simplesmente um centro que serve de peito e dorso; têm uns de pele golpeada; outros a têm enrugada ou ainda anelada ou feita de rodelas. Existem muitos em França mesmo. Uns,