Longe de querer “levar água ao moinho” dos cria- cionistas, que voltam à tona em todo o mundo alar- deando suas idéias sobre “design inteligente”; ga- nhando espaço nos Estados Unidos, onde em alguns estados, o ensino da evolução é equiparado à versão bíblica da criação, é necessário reafirmar o papel de Darwin como formulador genial das teorias da evolu- ção biológica e da seleção natural, que fundamentam o principal paradigma da biologia moderna. Como escreve Dobzhansky “em biologia nada faz sentido exceto à luz da evolução”.
Por outro lado, é preocupante constatar-se que o ensino da evolução no Brasil seja relegado ao último plano pelos professores, como mostra o trabalho de Borges e Lima (2007) sobre as atuais tendências do ensino da biologia no Brasil, ocupando o último lugar entre os diversos temas da biologia. Sobre evolução foram apresentados apenas quatro trabalhos num total de 118, em um evento sobre ensino de biologia realizado em 2005.
Apesar de diversos autores reconhecerem a posi- ção central da evolução nas ciências biológicas, esta ainda não tem nos departamentos acadêmicos das universidades e currículos escolares, uma prioridade à altura de sua importância.
As diretrizes curriculares nacionais sugerem que a evolução biológica seja um eixo integrador que en- volva todas as áreas da biologia, tais como a zoologia, botânica, ecologia, genética, entre outras. O ensino da evolução, em função do seu caráter unificador, possibilitaria fazer uma série de relações com outros conteúdos abordados.
Entretanto, dificuldades apresentadas tanto no ensino quanto na aprendizagem em relação à com- preensão dos conceitos que envolvem o processo evo- lutivo, passaram a ser motivo de preocupação.
De acordo com Piolli e Dias (2004) na maior parte das escolas brasileiras, a evolução biológica não tem sido abordada como eixo integrador, seja nas aulas de Ciências ou Biologia, seja nos livros didáticos, vesti-
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uito se tem escrito sobre Charles Darwin. Sobre ele e a teoria da evolução se consti- tui grande parte do que se tem como refe- rências em história e filosofia da biologia. Entretanto, parte desta literatura se configura numa verdadeira hagiografia. Construiu-se de Darwin a figura de um mito, que não corresponde aos fatos históricos. É ne- cessário se compreender a figura de Darwin como homem do seu tempo, cujas idéias formuladas ainda no século XIX, tem atualmente enorme influência no pensamento ocidental.Darwin, como homem do seu tempo, viveu a conjuntura da Inglaterra vitoriana e a expansão do colonialismo britânico. Expressou, no conjunto da sua obra, as idéias da burguesia inglesa. Influenciou profundamente a sociedade e foi influenciado por pensadores reacionários tais como Malthus, Spen- cer, Galton e Haeckel. Conhecia as obras e ações de Marx e Engels e demonstrou um profundo temor que suas idéias favorecessem a mobilização do mo- vimento cartista e as “trade unions” dos trabalha- dores ingleses (YOUNG, 1985). Junto com seu primo Francis Galton, foi um dos principais formuladores da teoria eugênica na Inglaterra e seu filho Leonard Darwin deu continuidade a essa perspectiva, sendo um dos líderes da Sociedade Eugênica Britânica en- tre os anos de 1911 a 1928.
Por outro lado, com a publicação da sua obra “Origem das espécies” em 1859, despertou reações contrárias de representantes da Igreja Anglicana e o escândalo de setores conservadores da sociedade inglesa (DESMOND; MOORE, 1995).
Pensadores revolucionários como Kropotkin, Marx, Engels, Trotsky e Lukács admiravam teoria da evolução por seleção natural de Darwin, porque ela fornecia uma explicação unificada, naturalísti- ca, materialista da natureza, da vida e da natureza humana, mas também viram nisso um exemplo per- feito de penetração da ideologia no conhecimento (ALMEIDA 2012).
bulares e nos processos de reformulação dos currí- culos universitários, sendo esta trabalhada apenas como mais um tópico no rol de conteúdos da Bio- logia, geralmente associada ao ensino da Genética, como se esta fosse um instrumento imprescindível para compreensão daquela.
Para os autores, o ensino da evolução nas esco- las é considerado como um momento tenso para os professores de Ciências e Biologia, por ser um espa- ço propício ao surgimento da polêmica entre cria- cionismo e evolucionismo.
Entre as controvérsias envolvendo o ensino da evolução, destaca-se o conflito gerado entre os opo- sitores do evolucionismo e seus defensores. Segun- do Futuyma (1992, p. 16) o criacionismo ressurgiu “não como um fenômeno científico, mas como uma questão social, parte de uma ideologia reacionária mais ampla que constitui uma ameaça real à inte- gridade e qualidade do ensino público”.
Para Tidon e Lewontin (2004) a questão da “complexidade” é outro ponto que tem sido mui- to discutido na mídia (principalmente na mídia criacionista) e, ultimamente, é o argumento onde os criacionistas modernos se agarram. A tese dos criacionistas “vendida como possibilidade e ar- gumento científico” é a de que a complexidade da vida não poderia ter surgido por mutações gené- ticas aleatórias e sem um “propósito inteligente” orientando essas mutações. A questão básica aqui é que ninguém quer afirmar explicitamente que esse “propósito inteligente” seria uma espécie de “deus” que planeja e faz executar todos os atos da nature- za, mas no fundo o que os criacionistas propõem é isso mesmo: que por trás de toda mutação genética que produza um novo ser, e ao longo do tempo no- vas espécies, há sempre uma “intenção” de algum criador. Isso soa bem como religião, mas é absoluta- mente irrelevante como ciência.
Entretanto, a própria evolução biológica consti- tui-se num dos temas mais controversos da biologia. O seu conceito mostra-se permeado por obstáculos epistemológicos, de fundos ideológicos, filosóficos e teológicos, o que torna sua abordagem em contex- to de sala-de-aula particularmente difícil, tanto no ensino, por parte dos professores, quanto na apren- dizagem, por parte dos estudantes (ALMEIDA, 2007). Por outro lado, é freqüente em vários livros di- dáticos de biologia adotados no Brasil a abordagem do tema como concluído, desprovido de contextua- lização histórica para a compreensão, por parte dos alunos, de como os conceitos foram desenvolvi- dos ao longo do tempo (ALMEIDA, 2007).
Delineamentos para um conceito de ideologia Para Marx (1974) a produção de idéias, de repre- sentações e da consciência está diretamente ligada à atividade material e ao comércio material dos ho- mens; é a linguagem da vida real. As representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens surge como emanação direta do seu comportamento material. O mesmo acontece com a produção intelec- tual quando esta se apresenta na linguagem das leis, política, moral, religião, metafísica de um povo.
Para Gramsci (1978) as ideologias são muito mais que ilusões e aparências (falsas consciências). Elas constituem a totalidade das formas de consciência social (superestrutura) condicionada pela estrutura produtiva. Traduzem uma realidade objetiva que se opera sobre a vida. É o terreno onde os homens ad- quirem consciência dos conflitos fundamentais, das relações sociais e do mundo econômico. Num sentido mais geral, ela é toda uma concepção particular dos grupos internos componentes das classes, que se pro- põem a resolver problemas imediatos e restritos.
Em Gramsci (1978) a análise da religião e da ciência situa-se nas diferenças entre as ideologias orgânicas, sensos comuns, religiosas, folclóricas, e as ideologias arbitrárias, técnicas, de bons sensos, científicas, sen- do ambas entremeadas e perpassadas por visões de mundo da classe dominante, que, desta forma, fun- dam a distorcida visão de mundo da classe dominada. Assim, o senso comum coloca-se como uma ideologia religiosa, onde o mundo foi criado por deus, indepen- dente do homem, sendo, portanto, a expressão da concepção mitológica do mundo. O homem que crê no senso comum acha que percebe a realidade exterior de forma objetiva, mas na verdade engana-se e não consegue estabelecer nexos reais de causa e efeito.
De acordo com Chauí (1980) para a ideologia bur- guesa, toda a história é o progresso das nações, dos estados, das ciências, das artes, das técnicas. E que o historiador burguês aceita a imagem progressista que a burguesia tem de si mesma, na medida em que a burguesia considera um progresso seu modo de do- minar a Natureza e de dominar os outros homens. Com esse culto do progresso, a burguesia e seus ideó- logos justificam o direito do capitalismo de colonizar os povos ditos “primitivos” ou “atrasados” para que se beneficiem dos “progressos da civilização.
Numa síntese conhecida e referenciada escreve Chauí (1980) que:
A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de re- presentações (idéias e valores) e de normas ou regras (de con- duta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o
que devem pensar e como devem pensar, o que devem valori- zar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, re- gras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à di- visão da sociedade em classes, a partir das divisões na esfera da produção. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apa- gar as diferenças como de classes e de fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, encontran- do certos referenciais identificadores de todos e para todos, como, por exemplo, a Humanidade, a Liberdade, a Igualdade, a Nação, ou o Estado (CHAUÍ, 1980, p. 47).
Já para Sacarrão (1989) hoje não é possível de- bater qualquer problema relativo ao homem sem o considerar à luz da ciência, em particular da Biolo- gia, que ocupa aí uma posição central. Para o autor, esse debate não deverá perder de vista a profunda originalidade humana. Na perspectiva evolucionista os biólogos absorvidos em demonstrar que o homem é um animal, porém sem paralelo entre os outros seres. Não é tanto o que nos aproxima do animal o que devemos procurar, mas principalmente conhe- cer aquilo em que nos afastamos dele. Em geral, o que se tem feito desde o começo do darwinismo, é acumular testemunhos da animalidade do homem, quando hoje o que parece de fato importante é evi- denciarmos a sua originalidade biológica, a sua hu- manidade.
Afirma o autor que não há ciência neutra. Ciência livre de influências políticas, de orientações ideo- lógicas, autenticamente objetiva, é coisa que não existe. Se confundir ciência e ideologia é sempre um mal, a verdade é que a primeira não consegue libertar-se inteiramente da influência da segunda. Darwin constitui um exemplo significativo, na gê- nese da sua teoria entraram múltiplos fatores e não apenas a sua formação de naturalista.
Canguilhem (1977) escreve que a ideologia evolu- cionista de Spencer (legitimada por Darwin) funcio- na como autojustificação dos interesses de um tipo de sociedade, a sociedade industrial em conflito, por um lado com a sociedade tradicional e, por outro, com a reivindicação social. Ideologia antiteleológi- ca, por um lado, e anti-socialista, por outro. Reen- contramos assim o conceito marxista de ideologia, que a considera como a representação da realidade natural ou social, cuja verdade não reside no que esta representação diz, mas no que ela cala.
Bizzo (1997) referindo-se a Robert Wright autor da obra “O animal moral” erscreve:
O ideólogo interpreta o mundo à sua volta projetando nele os valores de sua cultura e, tão satisfeito está com eles, acredi- ta que seja pura coincidência encontrá-los fora da esfera de relações por ele construída. Com entusiasmo, e por vezes in- conscientemente, julga ter alcançado resultado tão legítimo, verdadeiro e abrangente que refaz o caminho de volta e per- cebe que pode explicar as relações sociais com a lógica que projetou na natureza (BIZZO, 1997, p. 4).
Manifestações ideológicas explícitas em Darwin
Em duas obras de Darwin distanciadas no tempo por 11 anos (“A naturalist voyage round the world” de 1860 e “The descent os man and selection in rela- tion to sex” de 1871) encontramos as principais ma- nifestações ideológicas explícitas do naturalista. Na primeira obra de juventude (tinha então 22 anos de idade), o registro do seu diário da viagem entre 1831 a 1836, a naturalista manifestou racismo em relação aos habitantes da América do Sul, principalmente quanto aos povos indígenas da Terra do Fogo na Pata- gônia; na segunda, como obra de maturidade, o natu- ralista aprofunda sua visão racista marcando sua vi- são antropológica; onde pela primeira vez consolida um discurso e um programa eugênico.
Racismo
Sobre os argentinos, escreveu: “O maior número consistia de mestiços negros, de índios e espanhóis. Não sei porque, mas indivíduos dessa origem rara- mente possuem boa expressão fisionômica” (DAR- WIN, 1982, p. 77).
Darwin considerava os nativos da Terra do Fogo como a “raça” humana mais inferior e desprezível, assim escreve em seu diário de viagem:
Nunca poderia ter acreditado na enormidade da diferença que separa o selvagem do homem civilizado; é maior do que a que existe entre a fera e o animal domesticado [...] (DARWIN, 1982, p. 195).
A própria atitude já era abjeta, e a expressão que se lhes dese- nhava no semblante era de surpresa, suspeita e alarme. (DAR- WIN, 1982, p. 195).
Quando descíamos, um dia, próximo à Ilha Wollaston, acer- camo-nos de uma canoa em que iam seis fogueanos. Eram as criaturas mais abjetas e miseráveis que tinha visto onde quer que fosse.(DARWIN, 1982, p. 202).
Olhando-se para aqueles homens custava-nos crer que fossem criaturas da nossa espécie e habitassem o mesmo mundo. É assunto comum de conjeturas, o prazer que acaso possam ter na vida alguns dos animais inferiores: que dizer daqueles bárbaros, tomando-os como objeto de tais medita- ções! (DARWIN, 1982, p. 202).
Os três fogueanos, embora tivessem mantido contato de so- mente três anos com homens civilizados, gostariam, estou certo, de se aterem aos seus novos hábitos, mas via-se que isso seria impossível. Receio até que seja duvidoso se a sua visita à civilização lhes tivesse realmente valido qualquer proveito. (DARWIN, 1982, p. 214).
Quando me achava na baleeira cheguei até a criar ódio pelo mero som da sua voz, tantos dissabores ela nos tinha, a todos custado.(DARWIN, 1982, p. 214).
...nós, apiedando-nos deles por nos fornecerem tão excelentes peixes e siris a trôco de farrapos sem valor; eles, afoitando- se em agarrar a oportunidade de encontrar gente tão maluca que trocava por um bom almoço, tão esplêndido atavio. (DAR- WIN, 1982, p. 215).
O seu racismo também era estendido aos negros americanos como “raça degradada” a quem neste tre- cho ridiculariza, ao mesmo tempo em que louvava “a delicadeza sentimental” dos britânicos:
Encontramos, perto de Mendonza, uma negra muito gor- da e baixa, que ia montada numa besta. Tinha um papo tão volumoso que era quase impossível evitar-se olhá-la por um momento; mas os meus dois companheiros, imediatamente, a título de desculpas, saudaram-na segundo a maneira usual, tirando-lhe o chapéu. Onde se encontraria, entre as classes mais baixas ou mais altas da Europa quem mostrasse tanta delicadeza sentimental para com uma pobre e mísera criatura de uma raça degradada? (DARWIN, 1982, p. 294).
Sobre os peruanos afirma que “era uma gente de- pravada e embriagada” que estende ao mundo tropi- cal de “odores abomináveis”:
Callao é um pequeno porto imundo e mal construído. Os ha- bitantes, tanto aí como em Lima, apresentam todas as grada- ções imagináveis entre europeus, negros e índios. Parecem um punhado de gente depravada e embriagada. A atmosfera anda carregada de odores abomináveis, estancando-se aí o cheiro forte peculiar a quase toda cidade dos trópicos. (DAR- WIN, 1982, p. 340).
Sobre os índios sul-americanos aprova o ditado
dos colonizadores genocidas espanhóis: “A experiên- cia comum justifica a máxima dos espanhóis:
Nunca confiar num índio” (DARWIN, 1974, p. 143).
Novamente referindo-se aos fueguinos, para ar- gumentar do ponto de vista do darwinismo social:
Enquanto observava os bárbaros habitantes da Terra do Fogo, impressionou-me o fato de que a posse de algumas proprie- dades, residências fixas e a união de algumas famílias sob um chefe, constituíam requisitos indispensáveis para a civiliza- ção.(DARWIN, 1982, p. 161).
Os habitantes da Terra do Fogo foram provavelmente força- dos por outras hordas de conquistadores a estabelecer-se na sua terra não hospitaleira e podem conseqüentemente ter regredido, mas seria difícil provar que tenham decaído mais do que os botocudos, que habitam a melhor parte do Brasil.(DARWIN, 1982, p. 173).
Neste trecho faz a sua opção de descendência:
Quanto a mim, quisera antes ter descendido daquela peque- na e heróica macaquinha que desafiou o seu terrível inimigo para salvar a vida do próprio guarda; ou daquele velho ba- buíno que, descendo da montanha, levou embora triunfante um companheiro se jovem, livrando-o de uma matilha de cães estupefatos, ao invés de descender de um selvagem que sente prazer em torturar os inimigos, que encara as mulheres como escravas, que não conhece o pudor e que é atormentado por enormes superstições. (DARWIN, 1982, p. 712).
Colonialismo
Comentando sobre a travessia do rio Prata na Ar- gentina:
Que diferença não haveria de observar no aspecto deste rio se, por alguma boa ventura, os colonizadores ingleses tives- sem em primeiro lugar subido pelo rio da Prata! Que cidades fidalgas não se veriam, então, a cobrir agora as suas margens extensas! (DARWIN, 1982, p. 137).
Sobre a colonização da Austrália demonstra o seu orgulho de ter “nascido inglês”:
À tarde desci para dar um passeio na cidade, e voltei encanta- do com tudo o que tinha visto. É magnífico testemunho o po- der da nação britânica. Aqui, numa terra menos promissora, vinte anos operaram muitíssimo mais do que fizeram outros tantos séculos na América do Sul. O meu primeiro impulso foi congratular-me comigo mesmo de ter nascido inglês. (DAR- WIN, 1982, p. 396).
Descrevendo Recife e Olinda, comenta sobre a “falta de civilidade” dos olindenses, estendendo a sua antipatia ao Brasil (“terra de escravidão”) e aos bra- sileiros:
Pernambuco [Recife] acha-se construída sobre bancos de areia estreitos e baixos, separados um do outro por canais rasos de água salgada. As três partes da cidade estão liga- das entre si por meio de duas pontes compridas sobre pi- lares de madeira. A cidade é por toda parte detestável, as ruas estreitas, mal calçadas e imundas; as casas altas e lú- gubres. A estação das chuvas acabava apenas de findar-se, de maneira que a região adjacente, com quase não se achar acima do nível do mar, apresentava-se completamente ala- gada, pelo que não logrei fazer passeios distantes. O terreno plano e pantanoso no qual se acha Pernambuco, está cercado, na distância de alguns quilômetros, por um semicírculo de colinas baixas, ou melhor, por uma crista de elevação, atingindo talvez 70 metros acima do nível do mar. A velha cidade de Olinda está situada numa das extre- midades dessa crista. Tomei um dia uma canoa e segui por um dos canais, na idéia de visitá-la; encontrei-a, pela sua situação, mais agradável e mais asseada que Pernambuco. Devo aqui comemorar o que aconteceu, pela primeira vez, durante quase todo o espaço de cinco anos em que pere- grinávamos, a saber, encontramos falta de civilidade: fui recusado em duas casas diferentes, de maneira assaz en- fezada, e somente com muita dificuldade permitiram-me, numa terceira, que atravessasse as hortas, afim de ganhar acesso a uma colina não cultivada, a que desejava subir para poder examinar, do alto a região. Sinto-me feliz por ter isso acontecido na terra dos brasileiros, pois não sinto por eles nenhuma paixão – terra de escravidão e, por tanto, de aviltamento moral. Um espanhol teria sentido vergonha só de pensar em recusar semelhante pedido, ou de proce- der com brutalidade para com um estranho. O canal pelo qual fomos e voltamos de Olinda, ladeava-se de mangue que surgia como floresta em miniatura, das margens la- macentas e gordurosas. O verde brilhante desses arbustos sempre me fez lembrar do mato viçoso de um cemitério: ambos se nutrem das exalações pútridas; um fala da morte que passou, outro, a miúde, da morte que virá.(DARWIN, 1982, pp. 454-455).
O elogio do imperialismo britânico que ele clas- sificava de “filantrópico”, em épocas diferentes:
Pela contemplação do estado atual é impossível não avan-