Effect of residual stress on ductile fracture
Chapter 8 Future work
Sportiche faz, em seu artigo clássico sobre o fenômeno de Q-float (Sportiche, 1988), uma crítica a tentativas anteriores para o tratamento dos quantificadores flutuantes. Na proposta de Kayne (1973), segundo Sportiche, nada era dito acerca das propriedades anafóricas que deveriam ser levadas em conta nas estruturas com Q-float. Na proposta de Sportiche, a relação entre o NP movido e o quantificador parece, sim, obedecer a duas condições impostas pela relação antecedente-anafórico: (i) a de que o quantificador deve ser c-comandado pelo NP movido e (ii) a de que a relação entre o NP movido e o quantificador tem de ser local.
Na proposta de Sportiche, o deslocamento – ou flutuação – para a direita é uma mera ilusão de ótica: “[A]ny time a Q appears adjacent to an empty NP, the illusion of
floating will be created” 23 (Sportiche, 1988:435). Tomando por base a proposta de Koopman & Sportiche (apenas publicada em 1991) para a derivação de sujeitos,24 Sportiche propõe que quantificadores estão sempre adjungidos à esquerda do DP que modificam (ou de seu vestígio), sejam quantificadores flutuantes, ou não. Se o forem, então são o resultado do movimento do DP para fora do constituinte contendo o quantificador, para que a ele (DP) seja atribuído Caso. Nesse caso, o quantificador é deixado para trás, ficando “encalhado” na posição que ocupa dentro de seu DP. A relação sintática entre o DP movido e o quantificador acontece por meio da relação anafórica entre o DP e seu vestígio, ao qual o quantificador é adjacente. Assim, mesmo estando separados, DP e quantificador são sintática e semanticamente dependentes um do outro. Se um quantificador não puder ocorrer em uma determinada posição, então é porque não há, adjacente a esta, uma posição de DP vazia.
Teríamos, então, a seguinte estrutura (Sportiche, 1988:427) para uma construção como Les enfants ont tous vu ce film, “As crianças viram todas esse filme”:
23
Tradução livre: “Toda vez que um quantificador ocorrer adjacente a um NP vazio, a ilusão de uma flutuação será criada.”
24
A questão central do artigo de Koopman & Sportiche sobre a posição dos sujeitos é a seguinte: supondo-se que a posição canônica de um sintagma é a sua posição na Estrutura-P, qual é a posição canônica dos sujeitos? Os autores defendem a idéia de que o sujeito é gerado internamente ao VP, onde recebe seu papel-θ, para, somente então, mover-se para o âmbito do IP.
(40) IP
3 NP^ (= [spec, IP]) I’ Les enfants 3 I V max ont 3 NP* VP [tous tDP] vu ce film
Na tentativa de estender sua proposta para o inglês, Sportiche notou algumas complicações. Como vimos, a proposta com encalhe está fundamentada na suposição de que os quantificadores flutuantes assinalam os vestígios dos argumentos, somente podendo ocorrer adjacentes a uma posição da qual um DP tenha se deslocado. E isso, por outro lado, indica que um quantificador flutuante tem de poder ocorrer adjacente a uma posição de vestígio de DP. Contudo, a agramaticalidade, no inglês, de quantificadores flutuantes em posições pós-verbais em orações passivas e inacusativas (Sportiche, 1988:444) – cujos sujeitos, afinal de contas, são gerados nessas posições – constitui um sério problema para essa análise:
(41) *The children were seen all. as crianças foram vistas todas (42) *The children have arrived all.
as crianças têm chegado todas
Os exemplos do francês com o quantificador nu são, segundo o autor, “levemente degenerados” (“slightly awkward”, (Sportiche, 1988:437)), mas se tornam totalmente gramaticais com a adição de presque, “quase”:
(43) a. Les enfants ont été vus ?tous/presque tous. as crianças têm sido vistas todas/quase todas b. Les enfants sont venus ?tous/presque tous. as crianças são vindas todas/quase todas c. Les enfants ont dormi ?tous/presque tous. as crianças têm dormido todas/quase todas
De fato, a agramaticalidade de (41) e (42) traz um problema para os pilares de sua proposta. Segundo o próprio autor “[A] bare Q in postverbal position in passive or
ergative constructios is totally excluded. The logic of our approach leads us to deny the existence of a postverbal NP-trace” 25 (Sportiche, 1988:444). A solução, segundo argumenta o autor, pode ser dada com base no pressuposto de que todo XP tem uma posição de especificador autorizada a conter um NP. De acordo com esse pressuposto, o VP teria, então, uma posição de especificador com a possibilidade de conter um NP. Desse modo, Sportiche argumenta que, nas passivas, um papel-θ que seria atribuído a um objeto, passa, de acordo com essa proposta, a ser atribuído ao NP na posição de [Spec, VP]. Paralelamente, pode-se dizer que o papel-θ do objeto de um verbo inacusativo26 é atribuído diretamente à posição de [Spec, VP]. Resumindo, pelo menos no inglês, os sujeitos derivados das passivas e inacusativas seriam, de acordo com a proposta, gerados no [Spec, VP], como se vê abaixo:27
(44) Vn 3
Sujeito VP 3
Sujeito 3 inac./pas. V Objeto Direto
Assim, não havendo o vestígio pós-verbal, os quantificadores flutuantes não podem aparecer na posição pós-verbal. Fica, então, pelo menos aparentemente, resolvida a questão das orações passivas e inacusativas, que constituía o único empecilho para a aceitação da proposta de Sportiche. Ao examinarmos as propostas mais recentes para o fenômeno de Q-float (Bobaljik, 1995; Baltin, 1995; Bošković, 2004), veremos que seus autores fundamentam suas críticas justamente nesse que é considerado o ponto fraco da análise de Sportiche.
25
Tradução livre: “A ocorrência de um quantificador nu em posição pós-verbal em construções passivas ou ergativas é totalmente barrada. A lógica de nossa abordagem nos leva a negar a existência de um vestígio de NP pós-verbal.”
26
O autor prefere o rótulo “ergativo”, em vez de “inacusativo”. 27
Sportiche não apresenta a representação arbórea para sua proposta. A representação vista em (44) encontra-se em Bobaljik (1995).