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Todas as iniciativas de cooperação existentes antes do século XVIII caracterizavam-se por uma cooperação informal e assistemática, como as formas de ajuda mútua existentes entre a população rural de vários países. Apenas algumas experiências de exploração coletiva rural, levadas a efeito por grupos religiosos, as “guildas de comerciantes” e as “corporações de ofício” da Idade Média e do início da Idade Moderna, junto à escassa população urbana de então, revestiam-se de um caráter mais formal. A cooperação mais sistemática, que se daria dentro de certos parâmetros axiológicos e metodológicos, com a pretensão de instaurar um novo sistema econômico e social fundado na cooperação, teria lugar apenas a partir da segunda metade do século XVIII. Esse novo modelo conceitual foi construído e aperfeiçoado na vivência concreta e inspirado nas orientações e doutrinas defendidas pelos “precursores do cooperativismo” que se situam desde meados do século XVIII até a fundação da cooperativa matriz de Rochdale, em 1844, na Inglaterra.

Para Schneider (2003, p. 33-34):

tanto os movimentos como as pessoas que anteciparam experiências ou idéias assumidas depois pelos pioneiros de Rochdale responderam aos muitos problemas gerados pela Revolução Industrial para a classe operária e para o campesinato. A sociedade anterior ao processo de transformação industrial fora uma sociedade relativamente estável na desigualdade econômica e social, cujas estruturas cristalizadas começaram a sofrer profundas transformações de toda ordem. Antes cada pessoal tinha o seu lugar preestabelecido, em cada camada social, segundo a ordem natural ou a

vontade divina. Ninguém ousava mudar o status quo, muito embora se constatasse a existência de situações de injustiça, de opressão e de abuso de autoridade. As relações entre senhores e servos rurais, entre mestres e aprendizes artesanais, orientava-se segundo certos códigos de honra, de lealdade e de compromisso recíproco. O processo produtivo, durante séculos, seguiu as mesmas rotinas, sem significativas inovações administrativas e tecnológicas. (SCHNEIDER, 2003, p. 33-34).

A partir de meados do século XVIII, na Inglaterra, o cenário começa a ser modificado. O processo produtivo passa a ser dinamizado através da substituição progressiva da energia orgânica pela inorgânica (máquinas a vapor, depois a eletricidade), o que promoveu o desmantelamento do sistema de produção artesanal realizado em pequenas unidades de produção – as oficinas. O novo modelo de produção ou em série, realizado em grandes, formais e complexas unidades – as fábricas, onde uma grande quantidade de operários passou a trabalhar sob o mesmo teto e patrão, orientou-se por um processo de crescente divisão social do trabalho.

Antes da introdução da energia a vapor, as máquinas das indústrias, especialmente as de tecelagem, eram movidas à água, o que exigia sua instalação em prédios próximos aos cursos de água e, portanto, com grande dispersão espacial. Com o advento das máquinas a vapor, as indústrias se concentraram nas cidades, provocando um rápido e caótico crescimento urbano. Na periferia desses conglomerados, junto às indústrias, multiplicaram-se os bairros operários onde se amontoaram famílias, na maior promiscuidade e pobreza, com total carência de obras e infra-estrutura urbana. A maioria dos operários era originária da região rural, onde seus antepassados, durante séculos, viviam e trabalhavam nas terras dos nobres senhores rurais. Com o incremento mecânico das indústrias de fiação e tecelagem, observou-se um aumento da demanda por matéria-prima (lã), o que motivou os senhores rurais a expandirem seus campos e pastagens para ovelhas, forçando os camponeses a migrarem para as cidades. (SCHNEIDER, 2003).

Segundo Schneider (2003), essa força de trabalho nova e despreparada enfrentou, durante um século, as mais cruéis e desumanas condições de vida. Oficialmente proibidos, nesse período, de se organizarem em associações para a defesa dos seus interesses de trabalho, os operários eram geralmente vítimas da mais desapiedada exploração. Era comum homens e mulheres, mesmo aquelas em estado de gravidez, trabalharem 14 a 15 horas por dia. Crianças realizavam serviços iguais aos dos adultos, principalmente nas minas de carvão, e, como eram precariamente alimentadas e pagas, apresentavam elevadas taxas de mortalidade. Não havia preocupação com medidas higiênicas e sanitárias, seguro contra acidentes, previsão

de recursos para aposentadoria e provisão de amparo, em casos de doença. Fora das fábricas, eram vítimas de comerciantes gananciosos, que lhes vendiam produtos deteriorados e fraudados nos pesos e nas medidas.

Esse fenômeno levou à polarização da sociedade em duas classes antagônicas: a dos capitalistas-proprietários dos meios de produção e a dos proletários-vendedores de sua força de trabalho, gerando uma relação de aguda oposição e exploração do capital sobre o trabalho. Essa exploração provocou, por sua vez, uma inusitada concentração de riquezas nas mãos da minoria capitalista, em prejuízo da pobreza da maioria da população. Se em épocas anteriores havia desnível, nunca o mesmo chegou a ser tão constante e dramático como no início do capitalismo industrial.

Segundo Schneider (2003, p. 35), a partir deste momento:

o capital exerce a hegemonia absoluta sobre os demais fatores de produção, como detentor exclusivo das decisões e também dos excedentes gerados na atividade econômica, o que armará o cenário para tensões e lutas, especialmente a luta de classes, uma das conseqüências fundamentais do capitalismo, processo tão analisado e denunciado por Karl Marx.

Mediante as tensões e lutas pelo controle dos fatores de produção, as classes exploradas, criadas com a polarização da nova sociedade industrial, começaram a esboçar algumas reações. As reações das classes oprimidas foram expressas de modo frontal, através dos diversos movimentos socialistas do século XIX, e de modo estratégico, através de boicotes (ludibriando as ordens dos capitalistas) e destruição das máquinas, a exemplo dos ludistas.