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5 Results, influence and control

5.4 Funding

A teoria de Brown e Levinson (1978, 1987), assentando sobre a noção de “face”, ancorando-se no modelo original de interação conversacional de Grice (1975, 1989), baseia-se no pressuposto de que a comunicação verbal assenta numa base de racionalidade, sendo intencional e orientada por objetivos (P. Brown & Levinson, 1987, pp. 4, 58, 64). Admitindo as propostas griceanas (o Princípio de Cooperação e as quatro máximas conversacionais), Brown e Levinson propõem um modelo de delicadeza que visa explicar os “desvios”, i.e., as nossas estratégias linguísticas que podem ser aplicadas na comunicação interpessoal.

Tal como Leech (1983) refere, o Princípio de Cooperação e o Princípio de Delicadeza completam-se e influenciam-se mutuamente de modo a constituírem o que pode ser designado por sistema completo de Implicatura Conversacional (Brandão & Sathler, 2014; Chen R., 1985). Estes parecem ser os aspetos consensuais que presidem ao desenvolvimento dos estudos da delicadeza, todavia, o teste último para qualquer teoria é o seu campo de aplicação e, como já foi abordado neste capítulo, algumas limitações têm sido levantadas. A consideração das teorias na sua aplicação ao universo linguístico e cultural chinês merece, pois, alguns cuidados, como foi, acima, apontado e será, adiante, discutido. Nos próximos dois capítulos, dedicados mais especificamente à delicadeza chinesa e às suas formas de tratamento, continuaremos a dar conta destas limitações teóricas e de cuidados a observar na aplicação da teoria, sobretudo quando se estudam comportamentos linguísticos de falantes/aprendentes com ethos culturais tão afastados como o chinês e o português.

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Capítulo 2 Delicadeza Linguística na Sociedade Chinesa e no Mandarim

2.1 Introdução

O estudo da delicadeza linguística em chinês tem representado um desafio exigente devido às múltiplas camadas e mudanças sociais que a afetam.Com efeito, na China, os fenómenos de delicadeza terão surgido na mais remota antiguidade, sendo provavelmente tão antigos como o Peking Man (Homo erectus pekinensis), escavado num subúrbio de Pequim em 1929 (Fairbank, 1997, p. 31). A evidência definitiva encontrada em Hemudu (situada na atual província de Zhejiang) atesta a existência de conceitos de delicadeza em scripts de osso do oráculo, um sistema de escrita amplamente utilizado na Dinastia Shang (1765-1122 a.C.) (Gu, 2011).

Então, a sociedade chinesa produziu diversos ditos e provérbios sobre a importância da delicadeza linguística e o poder da linguagem, tais como “liáng yán yí jù sān dōng nuǎn, è yǔ shāng rén liù yuè hán”17 e “yì yán xīng bāng, yì yán sàng

17 “良言一句三冬暖,恶语伤人六月寒”, “Mesmo no inverno, uma palavra delicada faz o coração sentir-se quente, enquanto, mesmo em junho, uma palavra indelicada magoa e faz o coração sentir-se frio.” Tradução nossa.

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bāng”18 . Estas formas adagiárias que se destinavam a salientar a importância da

delicadeza linguística nas interações sociais, resistiram ao tempo e acabaram por ficar inseridas na língua chinesa, fazendo parte das convenções socioculturais do povo. Ao interagirem, os falantes, com ou sem consciência, procuram optar por estratégias que facilitem uma comunicação coerente e bem-sucedida, através de atos de fala adequados aos seus interesses e o mais atinentes possível às normas sociais.

Este longo processo de acomodação de práticas linguísticas, no que à delicadeza chinesa diz respeito, pode ser dividido em duas fases de desenvolvimento: um período chamado histórico e um período contemporâneo de delicadeza da língua chinesa (Y. Pan & Kádár, 2011a, 2011b). Trata-se, segundo o autor, de um fenómeno único e misterioso, pois não há outra língua em que se verifique uma desconexão tão pronunciada entre a delicadeza histórica e a delicadeza contemporânea (Y. Pan & Kádár, 2011a, p. 1526).

There is a disconnection between the modern and traditional Chinese in terms of the application of politeness formulae. On the one hand, the Chinese people are famed for their long tradition of polite rituals and polite vocatives, and on the other hand, modern Chinese politeness behavior seems to be quite different and distant from these ‘famous’ polite phenomena. As a result, there seems to be a myth about Chinese politeness.

(Y. Pan, 2008, p. 328)

As invasões sofridas pela sociedade chinesa no século passado levaram a que muitos chineses tivessem rompido com as normas e os valores tradicionais, quer na última parte do Séc. XIX, quer nos anos posteriores à Revolução Xinhai de 1911 e, em seguida, novamente, a experiência da fundação da República Popular da China em 1949 promoveu novas ações de rutura.

Não é de surpreender que os chineses tenham ficado atónitos com a humilhante derrota sofrida durante as Guerras de Ópio19 (Yāpiàn Zhànzhēng鸦片战争) e durante os

18 “一言兴邦,一言丧邦”, “As palavras, por si só, podem fazer florescer um estado, uma única instrução errada pode ser desastrosa para o mesmo.” Tradução nossa.

19 As Guerras do Ópio, ou Guerras Anglo-Chinesas, foram conflitos armados ocorridos entre a Grã-Bretanha e a China nos anos de 1839-1842 e 1856-1860.

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conflitos que se seguiram (Grasso et al., 1997) já que, desde a Dinastia Ming (1368-1644) que foi aplicada uma política de isolacionismo, em que a população era levada a considerar a sua civilização superior às restantes. Surgiram, então, em consequência, iniciativas antitradicionalistas, a primeira das quais terá ocorrido no ano 1919, durante o Movimento de Quatro de Maio20 (Wǔsì Yùndòng五四运动). Tratava-se

de um movimento anti-imperialista, cultural (inclui o Movimento Vernacular) e político, que cresceu a partir de manifestações estudantis em Pequim, no dia 4 de maio de 1919. Poder-se-á dizer então, que a divisão entre o período histórico e contemporâneo tem origem numa reação nativa face à invasão militar e à influência político-cultural dos poderes estrangeiros (Y. Pan & Kádár, 2011a), em que o povo chinês, recusando a ideologia que tinha sido seguida, tomou a iniciativa de introduzir o pensamento ocidental, a fim de procurar a verdade e o caminho para fortalecer o país.

Neste capítulo, tomamos como ponto de partida a reflexão sobre o Princípio de Delicadeza proposto por Gu Yueguo (1990) e adotamos, pelas razões acima adiantadas, uma perspetiva diacrónica de análise, no seguimento do trabalho de vários autores (Francesca Bargiela-Chiappini & Kádár, 2011; Kádár & Pan, 2011; Mills & Kádár, 2011; Pan & Kádár, 2011a, 2011b, etc.), aceitando como apropriados, os dois períodos referidos: histórico e contemporâneo.