Em 1993 Picard escreveu um texto sobre a romanização da Gália “La romanisation de la Gaule, problèmes et perspective” (PICARD 1993). O texto é extremamente relevante, pois trata da urbanização sob o ponto de vista da “romanização”, mas também porque incorpora a discussão sobre os fana.
Seu texto discute a romanização primeiramente através de um debate com Pierre Gros e, analisando, como estudo de caso, o exemplo de Gué-de-Sciaux, uici picto que contém fana e teatro, entre outras estruturas. O objetivo do autor é mostrar a fragilidade das organizações urbanas nos primeiros tempos do império e sua susceptibilidade. Picard
17 Um croqui com a posição das colónias pode ser visto na página 138, nele é possível perceber a proximidade de assentamentos urbanos na Gália Bélgica, próximos das fronteiras Germânicas.
despreza as teorias de resistência, ao mesmo tempo em que afirma o pequeno acesso que se tem à história dos camponeses, ou seja, a maioria da população. Por fim, Picard lança mão da teoria de Alföfldy para se opor à idéia de classes sociais e de luta de classes tanto na Gália quanto em Roma.
A teoria de G. Alföldy diz que a sociedade imperial podia ser representada por uma pirâmide dividida horizontalmente em duas partes desiguais, a primeira era formada de ordens e a segunda de camadas, as ligações essenciais se formavam de cima para baixo, o que exclui a possibilidade de classes sociais e, portanto, de uma luta de classes18.
Quanto à questão da luta de classes, Picard considera que com o empobrecimento de gauleses ricos, que durante os primeiros tempos de império não souberam diversificar sua fonte de rendimentos para além da produção agrícola, não conseguindo, por exemplo, estabelecer relações de clientelismo, esses deixaram de fazer parte da elite galo-romana. A solidariedade entre as pessoas se dava de forma horizontal, fazendo nascer classes sociais que não existiam antes. Apesar dessa horizontalidade, cada um sempre dependia de um superior, sendo, portanto, o pertencimento a uma hierarquia uma regra válida para todos. Picard critica Gros, por considerar que sua visão se remeteria a eventos contemporâneos da França: a Gália teria nascido livre e depois de cinco séculos teria sofrido uma colonização frágil. O trabalho de Gros, que utiliza como fonte principalmente as evidências arqueológicas, não pode ser separado, para o autor, do de Mario Torelli19, cuja obra se foca na história da arquitetura e do urbanismo.
O autor acredita que, realmente, a presença de Roma se verifica pela construção de cidades e remodelamento das “cidades embrionárias” para seguirem o desenho romano, como Glanum. Pois, para Gros, se o urbanismo grego se integra à natureza, o romano o remodela para o submeter a uma ordem política (PICARD 1993:354), conduzindo a ordem da ciuitas (forma romana da polis mediterrânea). Desta forma, o Império romano teria se mantido mais graças às cidades do que até mesmo ao exército.
Este autor não discute em pormenores o termo romanização e sua visão sobre o termo parece ser tradicional, contudo, ele acredita que na Gália a ocupação romana acabou
18 ALFÖLDY, G. Histoire sociale de Rome. Paris, 1991, p. 133-134 apud PICARD 1993: 384). 19 GROS, P. & TORELLI, Mario. Storia dell’urbanistica, Il Mondo romano. Rome-Bari, 1988.
produzindo um tipo particular de romanos.20 Essa posição mostra uma percepção da não igualdade cultural com os que seriam os romanos “legítimos”, ao mesmo tempo que os engloba no Império. A partir da sua afirmação, cabe perguntar se havia um romano típico, considerando que apenas entre os habitantes de Roma havia estrangeiros e escravos. Fica claro que essa comparação se estabelece com o cidadão romano que seria o portador da cultura romana em seus aspectos mais tradicionais e típicos.
No tocante aos espaços urbanos, os uici e os assentamentos de cunho religioso, como santuários, ficariam subordinados às ciuitates politicamente e as classes sociais dos dois primeiros também estariam subordinados às últimas, teria sido desta maneira que Roma teria conseguido englobar a Gália ao seu mundo21.
Segundo os autores consultados, ao adotar o urbanismo os gauleses pretendiam mostrar sua lealdade a Roma que garantia a proteção dos espaços urbanos, era uma maneira de manifestar rivalidade contra outros espaços urbanos, fossem eles ciuitates ou assentamentos secundários, competição essa que já existia antes da conquista romana; mas, inclusive estabelecer relações com essa cultura urbana que também tinha aspectos interessantes, como a possibilidade de ter água trazida de longe. Falando de Autun, Woolf (1998) discute a urbanização da ciuitas a partir do conceito de civilização: adotar o estilo arquitetônico das edificações romanas e o modo de vida urbano seria “civilizar-se”, esse conceito viria já dos autores romanos. Na concepção de Virgilio22 e Vitruvio23, o processo de civilização está amplamente relacionado com a importância do urbanismo. Em se tratando da Gália, o autor do tratado “Da Arquitetura”, apenas a menciona para dizer que assim como a Ibéria suas técnicas arquitetônicas são primitivas.
Woolf (1998:121) também se preocupa em como essa influência urbanística teria chegado aos gauleses, existem fontes que dizem que a educação de membros da elite gaulesa acontecia em Autun, contudo, o autor não acredita que se deva exagerar na
20 “...il y a eu mutation fondamentale et irréversible em ce quart de notre histoire, de la fraction d’humanité qui vivait sur lê sol. Cette mutation a été essentielment culturelle, car il ne paraît pas qu’il y avait eu d’imigration massive […] ce sont les Gaulois qui ont changé fondamentalement et sont devenus des Romains d’um type particulier”. (PICARD 1993: 383)
21 “Ainsi, à partir d’une structure politique apparemment irréductible aux normes de la civilisation méditerranéenne, Rome et ses empereurs sont parvenus à faire de la Gaule une part originale mais non hétérogène de l’orbis romanus, et à créer les données culturelles et spirituelles sur lesquelles vit encore le peuple français”(PICARD 1993:385).
22 Aen. 1.421-49. 23 Vitrúvio 2.1.4.
importância da educação para os gauleses. Os gauleses devem ter tido conhecimento da importância do urbanismo para os romanos de várias formas: moedas, arcos triunfais, pinturas murais, viagens (para Roma). Lyon era considerada o espelho de Roma na Gália. Já à primeira geração da aristocracia gaulesa educada foi oferecida uma educação para que entendessem a importância da cultura de construção da cidade.
Woolf (1998:123), ao trabalhar com a cidade, relativiza a sua importância como fator de “romanização, segundo ele, tudo depende do ponto de vista do habitante. A cidade efetivamente tinha como pretensão atuar como um símbolo para civilizar os gauleses. Mas cada um podia entender e viver na cidade de diferentes maneiras; ou achando que estava em Roma, ou se confrontando com esse tipo de espaço construído. Os próprios construtores, os nobres, podiam ter visões diferentes, a educação e a cidade não garantem a adoção da ideologia romana, até mesmo porque a cultura romana não era monolítica.
A argumentação de Woolf sobre a competição entre as diversas cidades estaria embasada em uma comparação com as catedrais góticas, pois, segundo ele, em ambos os casos, os modelos seriam estrangeiros. Embora, as catedrais não tenham aparecido espontaneamente em cada local onde foram construídas, sua edificação não está no mesmo contexto de uma construção romana, pois os gauleses foram conquistados por uma outra população de onde vinha um novo modelo arquitetônico, já as catedrais estavam inseridas dentro de um contexto cristão, uma cidade medieval que não construísse uma catedral não era mais nem menos cristã, enquanto a construção de edifícios romanos provava a lealdade local a Roma, o que visava garantir proteção em termos de ataques e aumento da importância política do assentamento urbano e da família. No caso dos galo-romanos, assegurar a boa vontade dos romanos era essencial, pois até os tributos variavam de acordo com as relações que Roma estabelecia com os espaços urbanos; servia também para demonstrar à população local e regional que a elite era legítima, pois adotava padrões culturais romanos.
Comparando os três tipos de construção Woolf chegou às seguintes conclusões:
1) A emergência desse tipo de monumento conduz a maiores mudanças na sociedade e provê uma resposta para ela.
2) A construção desses monumentos é tão cara, em todos os sentidos, que atrai para si forças políticas poderosas. Monumentalização oferece uma chance para confirmar e redefinir a ordem política, simbólica, financeira. 3) Programas desse tipo são inovadores e são declarações de fé na posterioridade, pois muitos monumentos não são completos no período de uma vida.
Zanker (2000:36) ressalta que embora o processo de romanização viesse de fora, em um segundo momento de desenvolvimento a romanização individual de cada espaço urbano reflete as necessidades individuais destas. É por essa razão que acredita que o ímpeto é de erguer certos tipos de construção, mais do que certos tipos de modelo arquitetônico, isso quer dizer que se considerava mais importante que houvesse lugares para determinadas funções romanas.
Sendo que a implementação de uma estrutura de ruas ortogonais nem sempre é concomitante com a edificação de outros edifícios necessários para uma vida civil e administrativa romana, é o caso de se questionar sobre a relação entre essa estrutura de ruas e os templos. No caso em que os templos estão claramente fora dessa grade, os templos seriam o limite dessa? Eles teriam a mesma posição dos anfiteatros, estando fora da malha urbana. Como vimos, na maioria dos casos, os muros só são construídos no séc. III, realmente tendo uma função defensiva. Os muros sempre tiveram uma grande importância simbólica, porém, no caso da Gália romana, eles não parecem ter sido construídos unicamente em razão desse aspecto, tanto que é apenas quando são efetivamente necessários são construídos.