Quando Júlio César escreveu a “Guerra Gálica”, preocupou-se em relatar não apenas as campanhas realizadas contra os gauleses, tentou descrever também a estruturação da sociedade gaulesa (tripartite). Um dos aspectos que julgou relevante narrar foi a organização religiosa, deu especial ênfase ao papel religioso dos druidas, mas também tentou descrever quais eram os deuses mais importantes da Gália (César. De Bello Gallico VI, XVII): adorariam principalmente Mercúrio, o consideravam como o inventor de todas as artes, o guia dos caminhos e das jornadas e o protetor do comércio; Apolo que expele as doenças; Minerva transmissora das técnicas de produção dos artefatos; Júpiter teria o império dos céus e Marte preside à guerra.
Esse trecho, apesar de pequeno, é muito discutido, porque apresenta os deuses gauleses sob nomes romanos. Efetivamente, os gauleses, especialmente da Prouincia já deviam conhecer essas divindades, mas César os descreve como sendo “os deuses mais cultuados da Gália”, portanto, é provável que ele tenha escrito dessa maneira com vistas a seu público: os romanos. A interpretatio romana é adaptar dentro da língua e cultura romanas coisas julgadas semelhantes às de outros povos. Apesar da multiplicidade de aplicações da interpretatio romana, a que nos concerne nesse momento é a religiosa, sobretudo, a que diz respeito aos deuses gauleses. Desta maneira, neste caso, temos a transposição sistemática das divindades indígenas aos padrões romanos. César não é o único a se utilizar desse recurso, essa é uma prática corrente entre os autores latinos e
helenos (Brunaux 1997:54), Tácito, por exemplo, também usou o recurso para falar dos deuses Germânicos, na Germânica.
Acreditando que esse trecho de César não correspondia à realidade exata dos deuses da Gália, vários autores tentaram o interpretar. Brunaux (1997:54) adota a interpretação de Dumèzil, para ele, cada uma das divindades citadas – Mercúrio, Marte, Júpiter, Apolo e Minerva – seria a síntese ideal dos deuses que existiam na Gália e não necessariamente existiria per si. Porém, Brunaux (1997:57) vai além, e acredita que cada um desses deuses teria um culto mais regional, mesmo se conhecidos por toda a Gália. Assim o Marte descrito por César é um deus importante para a Gália Belga, população conhecida por ser extremamente belicosa.
William Van Andringa (2002:132) tem uma hipótese muito interessante a esse respeito, para ele mais importante do que a interpretação de deuses gauleses, que acaba resultando em uma mudança com relação a seu caráter original, é a inter-relação entre os cultos dos “grandes” deuses romanos e do culto imperial. Mesmo porque, uma vez que a “correspondência” fosse feita, as divindades romanas e locais não eram mais rivais, na verdade, elas eram quase como se fossem iguais. Essa afirmação é pautada em Tito Lívio (apud: Andriga 2002:132), que teria afirmado que os deuses são os mesmos em todos os lugares.
Se por um lado o autor vê uma integração pacífica e quase “natural” entre os deuses gauleses e os romanos, inclusive, utilizando o termo “romanização” sem ressalvas; por outro, acertadamente defende uma posição, não tão recorrente, de que a religião galo- romana é, mais do que tudo, uma religião nova:
“A associação dos antigos deuses locais, romanizados ou não, com uma forma do poder imperial divinizado estão na origem de combinações cultuais inéditas, de uma nova linguagem religiosa que marcaram de maneira decisiva a incorporação dos deuses locais na civilização municipal”7(2002:153).
Quando se fala de associação entre um deus e outro, isso implica em discutir o sincretismo. O caso galo-romano foi estudado em suas estruturas por Clavel-Lêvêque: de acordo com ela, o fenômeno se manifesta tanto nos casos em que os deuses mantêm seus
7 L’association des anciens dieux locaux, romanisés ou non, avec une forme du pouvoir imperial divinisé fut à l’origine de combinaisons cultuelles inédites, d’um nouveau langage religieux qui marquèrent de façon décisive l’incorporation des dieux locaux dans la civilisation municipale”
nomes indígenas – como Cernus, ou Epona e que são reconhecidos pelos romanos como tendo características similares aos seus deuses monstruosos –, como no caso dos que recebem nomes romanos. Esse sincretismo teria permitido passar de uma religião a outra sem grandes dificuldades, já que as duas seriam fundamentadas em um fundo indo-europeu comum, mas a evolução das duas religiões não permitiria uma correspondência direta. Os deuses, portanto, podem ser interpretados de diversas maneiras, com diferenças, sobretudo entre o ambiente rural e os mais impregnados do classicismo grego-romano.
Essa visão não é compartilhada por todos os autores, Andriga acredita que a adesão progressiva dos provinciais aos deuses pátrios, à cidade local e Roma, não implicava exatamente em um sincretismo. Para ele, nunca houve uma mistura dos papéis, pelo menos no espaço público8(Andriga 2002:289). Entretanto, vale a pena ressaltar que o foco de estudo e as fontes de Andriga são as cidades galo-romanas. Nosso estudo se centra nos fana e sua relação com as edificações urbanas, o que não necessariamente se limita às cidades, visto que também há templos de tradição galo-romana em assentamentos e fugindo da nossa delimitação, isolados.
Feita essa ressalva, vale a pena explanar as principais idéias desse autor a respeito das modificações religiosas feitas nas cidades. Durante os três séculos que atendem à delimitação de nossa pesquisa, os deuses gauleses que foram trazidos para um ambiente romano, mesmo que sobre aparências romanas, foram sofrendo mutações tanto na sua forma de culto quanto na sua representação iconográfica. Conseqüentemente, definições estáticas de quem eram esses deuses e suas funções são passíveis de erro. Um exemplo disso são as mutações que o Marte cultuado na Gália sofreu. O Marte gaulês não corresponde exatamente a nenhum deus da Gália, prova disso são os inúmeros epítetos que ele tem, em cada local: Marte recebia um segundo nome que o ligava a um deus cultuado pelos gauleses em cada localidade. Contudo, se há um deus com o qual o Marte Gaulês mais se aproxima, este é Teutatès. Conhecido na época da independência como uma divindade relacionada à manutenção da comunidade, sendo responsável pela proteção, independência e integridade do território desta, ou seja, o contexto social que desaparece
8 “L’adhesion progressive des provinciaux aux deux patries, la cité locale et Rome, n’impliquait pas, à proprement parler, de syncrétisme. Il n’y a jamais eu de mélange des rôles, du moins sur la place publique. Manifestement, la découverte de la politique passait par une reformulation des rites et des cultes dans un sens normatif et hiérachique sans qu’il ait fusion ou mélange des habitudes religieuses et des entités divins”
com a conquista romana. Mas Teutatès também era o deus das migrações, das batalhas e das armas, essas características não vão propriamente desaparecer quando transferidas para o Marte, mas vão ser “pacificadas”.
Para Andriga (2002:150), o caso dos Martes indígenas mostraria como a
interpretatio romana seria um processo oficial de elaboração política da cidade, ou seja,
deuses como: Marte Mullo, Lenus Marte, Marte Camulus são deuses da cidade, o que significa que receberam uma consagração municipal. A tal ponto que em Renes foi construído um templum público a Marte Mullo, seu culto era público, o que quer dizer, gerido pelas autoridades municipais. Inscrições deixam entrever que o culto ao Marte indígena é o único na Gália, além daquele de Augusto, e de Roma e de Augusto, no qual os sacerdotes se intitulam flâmines (Hatt 1986: 417). Entretanto, esses não eram uma classe sacerdotal independente, mas sim chefes tradicionais das cidades, que acumulavam funções religiosas, cívicas e militares.
Jean-Jacques Hatt, em “Mythes et dieux de la Gaule, 1. Les Grandes divinités
masculines” (1989) tem um capítulo9 exclusivamente sobre o uso político imperial de aspectos da religião gaulesa. Hatt separa por grupo de imperadores o “tratamento” dado às divindades, assim, segundo ele, Augusto e Tibério, no início do se reino, são liberais, permitindo que, apesar das influências helênicas e romanas, a religião gaulesa pudesse se manifestar abertamente (1989:119). A tal ponto que o reino de Tibério é marcado por uma tendência sincrética celta-romana
Hatt é um renomado pesquisador, contudo, é necessário dizer que as fontes arqueológicas para essas conclusões se situam, sobretudo, no sul da França e em Lugdunun (Lyon), capital das três Gálias. Para os seus objetivos esse foco espacial não apresenta muitos problemas, todavia, quando tratamos dos templos de tradição gaulesa, os fana, não se pode deixar de salientar que suas afirmações não valem como regras absolutas. Ainda mais à luz de novas propostas sobre a transmissão de padrões culturais romanos a outras populações.
Em 1952 (Duval 1952:305), “La vie quotidienne en Gaule pendant la paix romaine” (A vida cotidiana na Gália durante a paz romana), procura entender essa relação entre os deuses gauleses e romanos através do conceito de politeismo, o que aconteceu na Gália só
teria sido possível porque se tratava de duas religiões politeistas. De acordo com ele, os gauleses deram aos deuses romanos atribuitos de seus deuses, porém, não os consideravam como o mesmo deus: são “assimilações imperfeitas” que formam divindades novas e não a sobreposição de uma divindade pela outra.
Os deuses cultuados nos fana não são os deuses romanos, como acontece nos foruns das cidades, eles são os chamados deuses galo-romanos e os deuses gauleses que conseguiram sobreviver, por terem características que remetiam a figuras mediterrânicas, como Sucellus e Esus. Desta maneira, tentar entender a relação que os fana ocupam com relação à urbes é também um esforço para o aprofundamento desta questão: afinal, qual era a posição desses deuses na sociedade galo-romana?