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Nesta categoria foram agrupados os dados que evidenciaram o foco da avaliação no processo de aprendizagem e não em resultados finais ou em objetivos pré-estabelecidos.

No curso, os conteúdos dos diferentes módulos foram integrados por meio do desenvolvimento do projeto e-Business Plan, cuja proposta era a aplicação prática dos conceitos abordados nos diferentes módulos. Segundo Hernandez e Ventura (1998), com os projetos de trabalho, os alunos não entram em contato com os conteúdos disciplinares a partir de conceitos abstratos e de modo teórico, como, muitas vezes, acontece nas práticas escolares. O projeto aparece, inicialmente, como um problema a ser solucionado, no qual as atividades são organizadas na direção de sua solução, ou de sua compreensão. O acúmulo linear de informação é substituído pela busca de inter-relações entre os conhecimentos de forma contextualizada.

Um dos indicadores da categoria centrada na aprendizagem foi o foco das interações e orientações dos professores no desenvolvimento do projeto. No depoimento a seguir, o professor manifesta sua opinião sobre a importância dos projetos no processo de aprendizagem.

Foco no desenvolvimento

do projeto

Hoje, a carência de vários cursos, não importa a modalidade, se presencial ou a distância, não é a modalidade de interação, não é esse canal, mas o quanto são fragmentados entre si os conteúdos apresentados. E não tem nenhum projeto que amarre os módulos às disciplinas. O segredo é muito mais do modelo do curso do que se ele é presencial ou a distância (PM, professor).

Observa-se no depoimento deste professor uma crítica à fragmentação do conteúdo disciplinar e que o trabalho por projetos pode favorecer a integração dos conteúdos tanto em cursos presenciais como em cursos on-line. Ao participar de um projeto, o aluno está envolvido em uma experiência educativa em que o processo de construção de conhecimento está integrado às práticas vividas. Esse aluno deixa de ser, nessa perspectiva, apenas um “aprendiz" do

conteúdo, ele está desenvolvendo uma atividade complexa que faz sentido para ele mesmo, e neste processo está se formando como sujeito cultural.

Conforme descrito no capítulo anterior, item 3.11, a ação pedagógica estava voltada, no e- Business, para a construção do projeto, o que gerou interações entre os alunos, o professor, o mentor e os conhecimentos trabalhados ao longo do curso.

A avaliação não aconteceu como uma etapa final, apartada do processo. Ela integrou-se na aprendizagem de uma forma contínua, através do desenvolvimento dos projetos pelos alunos.

Os professores apontaram também que a articulação dos conteúdos envolvidos num projeto de trabalho do aluno estava relacionada com a articulação do próprio trabalho docente e a um planejamento flexível que permitia incorporar novos conceitos de acordo com as necessidades emergentes. No depoimento relatado a seguir, um dos professores descreve a estruturação do curso e seus benefícios para a aprendizagem dos alunos.

Foco no desenvolvimento

do projeto

Esse curso, desde o seu nascimento, foi um curso único. Não foi uma composição de ementas no qual a gente sabe que professor acaba entregando algo que ninguém sabe se é exatamente aquilo ou “algo parecido”. Todo material do curso foi preparado, isso eu falo como criador de dois módulos.

Submetia o material para o coordenador do curso e primeiro via a integralidade dele com outros módulos, era um curso que por mais que fosse segmentado em módulos, o conteúdo era um só. Eu lembro do E- procurement19, negociando com (PG, mentor e professor), bom você vai até

19 Termo utilizado para indicar uma solução de software que oferece melhores condições para cotação de preços e

esse ponto. No Suply Chain 20ele até aplicou um jogo que eu indiquei e faço gancho com esse jogo, e resgate, dando continuidade.

O link de apresentação do curso foi fundamental até para o processo de avaliação.

Que quando vocês têm módulos fragmentados, por mais que na composição da ementa elas são complementares, mas não no planejamento do conteúdo, eles não são estruturados, como foi esse curso, que exigiu todo um esforço de preparação muito maior do que num curso presencial ou em outros mais fragmentados. (PA, professor e mentor).

Segundo os relatos, a integração entre conceitos e atividades desenvolvidos nos módulos foi possibilitada pela articulação entre os professores, aspecto este fundamental para que o e- Business se diferenciasse de propostas tradicionais, nas quais, muitas vezes, as disciplinas são ministradas de forma isolada umas das outras. Um exemplo disso é o jogo utilizado pelo professor PG, e que posteriormente o professor PA utilizou em outro contexto. O que o professor PA mencionou como um “gancho”, na verdade é uma ação no sentido da integração das estratégias pedagógicas ao longo do curso. A proposta pedagógica do curso permitiu, assim, que as estratégias dos diferentes módulos e a ação docente estivessem centradas no desenvolvimento do projeto, o que criava um espaço comum de trabalho para todas as disciplinas e favorecia a integração.

Para o processo de avaliação formativa do aluno a articulação dos conteúdos e dos professores entre si foi fundamental. Os alunos tinham a oportunidade de integrar os conteúdos

20 Termo em inglês utilizado para designar Cadeia de Suprimentos e no caso do curso citado, um módulo que

em função do desenvolvimento de seus projetos e os professores, por sua vez, trocavam informações sobre os alunos. Assim puderam integrar suas estratégias levando em conta o desenvolvimento dos alunos nos diferentes módulos. A avaliação, por sua vez, servia como diagnóstico para a atuação dos professores nos diferentes módulos.

A avaliação da aprendizagem aparece, portanto, relacionada com a integração dos conteúdos por meio da proposta de trabalho por projetos e com o diálogo entre os professores para integrar as emergências do processo no planejamento.

Um outro indicador da categoria centrada na aprendizagem foi identificado como a ausência de instrumentos padronizados de avaliação. Os projetos de trabalho são instrumentos que não possuem um padrão único de desenvolvimento e apresentação dos resultados. Nos depoimentos apresentados a seguir, os professores fazem comparações entre as estratégias utilizadas no e-Business e outras propostas que partem de avaliações padronizadas.

Ausência de instrumentos padronizados de

avaliação

A gente foi monitorando. Se o aluno cumpre todas as atividades; ele consegue, em tese, obter esse aprendizado uma vez que ele passou por esse processo. Não é só um teste. A maioria dos cursos a distância, se vai perceber - já deve ter percebido, dão um texto enorme para a pessoa ler e depois vem um teste; a gente não trabalhou dentro desse conceito, a gente definiu isso não é, vamos dizer, uma competência.

Fomos na linha de incentivar o aluno a fazer algo prático. Trazer uma pesquisa que ele fez e aplicar na empresa dele.

Foi em cima dessa filosofia, desse conceito.

Realmente nesse sentido a avaliação é mais puxada. Tem um número de reuniões muito grande de conversa entre professor, coordenação e aluno. Você precisa melhorar nisso, a gente conversa, vai e volta. Se fosse múltipla escolha, seria muito mais rápido. (PH, coordenador)

Ausência de instrumentos padronizados de

avaliação

Minha dissertação de Mestrado que eu fiz já há alguns anos foi uso de tecnologia na Educação de Administradores e tinha muita discussão do uso de CBT, de testes de múltipla escolha. Esse mecanismo de avaliação, ou tentar dar inteligência para o computador poder avaliar, acho que vai ser muito difícil, mas o mecanismo deste curso, de retroalimentação e de aprendizado contínuo, trouxe essa riqueza da avaliação nesse curso. (PA, professor e

mentor)

Nos dois depoimentos anteriores, os professores evidenciaram a diferença da avaliação do curso e-Business com outras propostas de cursos a distância com foco na distribuição de

informações aos alunos, que utilizam testes ou outros instrumentos padronizados de avaliação. O professor expressa a opinião de que a avaliação, no curso e-Business, proporcionou uma retroalimentação e o aprendizado contínuo, pois não partia de comportamentos observáveis baseados em objetivos pré-estabelecidos e rígidos.

Quando a avaliação se apóia em instrumentos padronizados, como testes e provas objetivas, ocorre uma definição pré-estabelecida sobre o produto final a ser alcançado pelos alunos. No entanto, a avaliação, para ser formativa, deve permitir a individualização dos percursos de aprendizagem, além de incorporar as emergências dos contextos e da dinâmica das interações.

Um outro indicador da categoria Centrada na aprendizagem foi a possibilidade de individualização dos processos de aprendizagem. Nos depoimentos a seguir, os professores descrevem como ao longo do curso e-Business, a avaliação estava centrada no desenvolvimento dos projetos pelos alunos.

Individualização dos processos de

aprendizagem

Boa parte da avaliação era a presença no chat, não tem como a pessoa ter outra pessoa por ela discutindo. Até poderia ter alguém colando, mas vai ter que colar durante 1 ano e meio que ter uma pessoa fazendo o curso por você. Você vai ganhar o certificado mas no fundo, o grande diferencial não é o certificado, mas o aprendizado (PA,

Individualização dos processos de

aprendizagem

Complementando, na composição do aluno tem uma parte que é a participação em chat, fórum. É nesse momento que você vê, você avalia o conhecimento.

Chat que é on-line, está todo mundo lá... Então aparecem sempre questões que alguém colocou, que você mesmo coloca na hora, e você pega o aluno de surpresa. Nesse momento você vê que está avaliando mesmo e vendo quanto o aluno está absorvendo. (PM, professor).

No curso e-Business, o projeto permitiu que os alunos trabalhassem com elementos da própria realidade profissional, ou com temas de seu interesse, o que favoreceu o envolvimento pessoal nas atividades, pois os alunos viam uma proposta de integração entre teoria e prática. Foi freqüente entre os alunos, que os temas dos projetos fizessem parte de seu cotidiano de trabalho e, em alguns casos, o projeto foi aplicado na própria empresa em que os alunos trabalhavam, com o respectivo apoio da gerência e de colegas de trabalho.

O envolvimento dos alunos nas atividades é fundamental para a criação de um significado para as aprendizagens. Segundo Prado (2003) as atividades devem propiciar ao aluno o estabelecimento de um sentido pessoal ou profissional com o que se está aprendendo. A partir deste sentido é que os alunos irão estabelecer ações reflexivas sobre as atividades que realizam, articulando-as com seu contexto pessoal e profissional. Para essa autora, a partir das atividades os alunos podem estabelecer relações significativas com os conhecimentos e desenvolver habilidades sobre o aprender a aprender. No depoimento a seguir, o professor relata um exemplo de estruturação de uma atividade que previa a análise da realidade profissional do aluno como tarefa do curso.

Individualização dos processos de

aprendizagem

Ele teria que aplicar um diagnóstico olhando a empresa dele e aí sim, a 3ª parte da atividade, seria um plano de ação do que ele poderia fazer para melhorar, naquele tema, a empresa dele.

Se é, por exemplo, a gestão de relacionamento com cliente, mapear como estava hoje a empresa dele, fotografia do que tem de pontos fracos e pontos fortes e aí focava o ponto fraco a desenvolver. E a última atividade seria desenvolver um plano de ação para a empresa dele melhorar o relacionamento com cliente(PH, professor e mentor)

No depoimento anterior o professor descreve um exemplo de atividade que exigia a análise de um processo no qual o aluno estava envolvido em sua atividade profissional. O projeto não era, portanto, alheio à atividade ou ao interesse dos alunos, mas uma forma de crescimento profissional.

Nem todos os alunos desenvolveram projetos relacionados com sua atividade profissional, pois a liberdade de escolha foi respeitada, mas a maior parte deles optou por proposta dessa natureza.

Os professores reconheceram que os recursos do ambiente digital favoreceram um conhecimento mais individualizado dos alunos enquanto os alunos trocavam informações, experiências e se ajudavam mutuamente. Segundo eles, por meio da participação nos chats e fóruns, era possível saber das expectativas dos alunos, como eles se relacionavam com os demais e como estavam desenvolvendo os projetos, o que tornava mais fácil a tarefa de orientá-los individualmente e fazer intervenções conforme o andamento das atividades.

Acompanhar o trabalho individual dos alunos exige maior dedicação por parte dos professores. No depoimento a seguir, o professor destaca que o volume de trabalho gerado pelo curso e-Business foi intenso.

Individualização dos processos de

aprendizagem

Mas na preparação, eu lembro que a dinâmica foi muito grande. A gente procurava falar, vamos por um exercício em que ele é obrigado a navegar na internet. Vamos por um exercício no qual o aluno tenha que vincular um trabalho em que está inserido, por exemplo, a área financeira de um banco... ele era muito particularizado, era “one-to- one”, mesmo.

A distância atrapalha em alguns sentidos, mas força você a ter uma preparação do curso maior, preparar dinâmicas de avaliação mais sofisticadas, que acabam gerando aprendizado tão bom ou até melhor do que num curso presencial.

No modelo tradicional, quando aplicadas, claro, todas essas ferramentas (além de) poder encontrar as pessoas com periodicidade maior pode ter um benefício maior, a hora do encontro é muito positiva. A distância o trabalho exige toda uma preparação antes.

Mas (enfim) a estruturação e o principal mote da avaliação (neste curso) não foi cada módulo individualmente mas a amarração do business-plan, do plano como um todo.(PA, professor e mentor).

Fica evidente, nos depoimentos anteriores que no curso e-Business a avaliação também era um instrumento que provocava aprendizagem, e estava baseada na construção de atividades personalizadas. Essa estratégia exigiu mais preparação e envolvimento por parte dos professores

do curso para que pudessem compreender a temática tratada em cada projeto e orientassem adequadamente cada aluno conforme o processo individual de desenvolvimento. A proposta pedagógica deu suporte às estratégias e processos de articulação entre os professores.