• No results found

FoU-årsverk og FoU-personale i Norge

3 Menneskelige ressurser til FoU

3.1 FoU-årsverk og FoU-personale i Norge

O próximo excerto nos mostra como o jornalismo nos brinda todos os dias com doses cada vez maiores de cenas hiper-realistas que, devido à recorrência, não chocam mais.

Excerto 4, Corpus 1

222. ANA LÍVIA: ou então vai parar pra ligar a televisão 223. ANA LÍVIA: e as pessoas não se importam de tá comendo 224. ANA LÍVIA: .. e tá assistindo programas

225. ANA LÍVIA: que

226. ANA LÍVIA: .. não dá pra passar a imagem, 227. ANA LÍVIA: mas você vê que eles

228. ANA LÍVIA: desfocam a câmera 229. ANA LÍVIA: e acaba aparecendo. 230. ANA LÍVIA: pra população é um pouco, 231. ANA LÍVIA: já ficou a questão do 232. ANA LÍVIA: .. do banal

234. ANA LÍVIA: tá o cadáver estendido, 235. ANA LÍVIA: aí fica o pessoal fazendo, 236. ANA LÍVIA: .. dando tchau,

237. ANA LÍVIA: fica um monte de menino pulando, 238. ANA LÍVIA: então,

239. ANA LÍVIA: .. é como se virasse 240. ANA LÍVIA: algo normal pra eles, 241. ANA LÍVIA: a pessoa não

242. ANA LÍVIA: ... se espanta mais com aquilo.

A banalização da violência pela mídia é representada pelo verbo “ficar” linha 231. Esse veículo indica a mudança de estado do fenômeno violência que contextualmente torna-se banal. A mídia materializa a violência em imagens fragmentadas, vulgarizando fatos que

antes eram motivo de espanto, um “cadáver estendido no chão” linha 234. O processo

continua na linha 239 com o verbo virar, também indicador de mudança de estado significando a transformação do surpreendente em trivial. O processo de banalização da violência pela mídia é finalizado com a reação das pessoas diante de tanta exposição, não há mais estranheza por parte das pessoas diante da trivialidade de crimes hediondos, ninguém mais se admira, conforme podemos depreender da última fala da participante no excerto, linha 242. Tal escalada da violência torna a sociedade insensível para com a vida humana.

Não podemos deixar passar despercebido que o processo de conceitualização é estruturado, contextualmente, na relação de causa e efeito, já que a banalização é compreendida como um efeito da exposição reiterada da violência pela mídia, efeito esse expresso claramente pelos veículos metafóricos representados pelos verbos de processo

“ficou” e “virasse”. A banalização da violência também foi enfatizada no corpus 3:

EXCERTO 5, CORPUS 3 28. MÁRCIA: Jornalismo verdade. 29. MÁRCIA: ...E que na verdade

30. MÁRCIA: ..a gente vê uma grande banalização da violência. 31. MÁRCIA: A gente vê

33. MÁRCIA: os rondas13,

34. MÁRCIA: .um monte de menino passando pelo morro, 35. MÁRCIA: ..assim, brincando e tal,

36. MÁRCIA: pra ter seus 15 minutos 37. MÁRCIA: de fama na televisão, 38. MÁRCIA: então,

39. MÁRCIA: é uma coisa que, 40. Márcia: não só nas novelas. 41. Márcia: Eu acho que em

42. Márcia: muito programa sensacionalista, 43. Márcia: que não vale a pena assistir

44. MÁRCIA: e não contribui com absolutamente nada, 45. MÁRCIA: como dizia,

46. MÁRCIA: ..e tão aí

47. MÁRCIA: .e têm uma audiência enorme.

Logo no início, linhas 28 e 29 evidenciamos um jogo polissêmico em relação ao lexema verdade, que na linha 28 possui uma conotação de realidade, jornalismo que transmite a verdadeira realidade que, depois ganha outra acepção na linha 29 equivalendo a

“sinceramente”. O veículo metafórico “na verdade” revela uma mudança de entonação no

diálogo e reflete a indignação de Márcia no momento da discussão. As repetições de palavras e idéias sugerem o movimento da consciência, cujas idéias vão e vem continuamente.

Esse ir e vir de ideias emerge através de imagens representadas por metonímias,

sobretudo nas linhas 32, 33 e 34, pois é evidente a relação parte/todo na expressão “barras pesadas” usadas para se referirem as notícias apresentadas por esse programa. Na linha 33, o termo “os rondas” remete à relação instituição pelos responsáveis, pois são os policiais a

quem a participante faz referência. É importante salientar que a palavra ronda tem sua origem

13 Ronda do Quarteirão é um programa de segurança pública implantado no Estado do Ceará em novembro de 2007 em cinco áreas piloto e consiste em uma polícia técnica mais próxima da sociedade, fazendo dos agentes de segurança pública, agentes transformadores da pacificação social. Em 22 de fevereiro de 2008 foi ampliado de 76 para 91 áreas, abrangendo todos os bairros de Fortaleza. Em 12 de junho de 2008 houve a expansão do programa para mais 20 novas áreas de atuação, abrangendo por completo as regiões de Fortaleza, Caucaia e Maracanaú. Em junho de 2009, o Governo do estado implantou o projeto também nos municípios de Juazeiro do Norte e Sobral. O programa se expandiu para outros estados como RN.

na ação executada pelos policiais, pois a missão desses policiais que andam em grupo é fazer uma ronda em um determinado local, contudo, já é comum a grande massa referir-se a esses policiais como uma instituição.

Já na linha 34, a relação lugar pelo evento está representada na expressão “pelo

morro”, posto que o uso de tal expressão locativa expressa, através da entonação da

participante, uma imagem de que esse local em específico é marcado por atos violentos, como se a violência acontecesse principalmente nesse tipo de lugar. Lakoff (1980) cita como exemplo do mesmo tipo de relação metonímica o Vietnã, no seguinte exemplo: “Não

deixemos que a Tailândia vire um Vietnã”, Lakoff (1980, p. 96). A violência, nesse exemplo,

é conceitualizada por sua relação com o fato de o Vietnã ter enfrentado uma das guerras mais violentas de todos os tempos. Similarmente, o fato de o morro ser conhecido como um local marcado pela violência, evento que ocorre rotineiramente nesse local, fez com que Márcia o utilizasse, através da relação metonímica EVENTO PELO LOCAL, no processo de conceitualização de violência. Essa metonímia revela uma atitude preconceituosa da participante Márcia, visto que a violência não acontece apenas em lugares como morros ou favelas, mas em qualquer lugar sobretudo nos lugares mais sofisticados. Cameron, et. al. (2009) afirma que a metáfora pode ser usada como uma ferramenta para desvelar ideias, atitudes e valores das pessoas através da análise do discurso à luz das metáforas. Nesse trabalho, constatamos que a metonímia também cumpre esse papel.

Todas essas imagens que emergiram no excerto acima remetem ao que Paiva (2010) chama de compressão fractal, técnica de armazenamento de imagens que parte do fato de que qualquer imagem natural é composta de redundâncias semelhantes, que por sua vez pode ser eliminada, ocasionando uma codificação de uma imagem, ou seja, a participante codificou várias imagens similares como a violência exposta pelo Programa Barra pesada, da ação dos policiais do ronda, das crianças do morro que fazem questão de aparecer na televisão, todas essas imagens compactadas fazem emergir uma imagem maior, a de banalização da violência.

Em seguida, na linha 30, a banalização da violência é representada pelo verbo

“ver” que é reiterado na linha 31. Essa reiteração só enfatiza a acepção metafórica do verbo de

que a gente, constantemente, presencia, testemunha uma vasta exposição de violência que não vale a pena assistir, linha 43. É importante notar que o verbo assistir é uma relexicalização do

“ver” em que ambos possuem a mesma acepção, mas apenas este é metafórico. Essa mudança,

tempo local, pois essa mudança de veículo representa uma negociação entre os falantes para melhor adaptarem os termos às ideias.

O processo de emergência desta metáfora sistemática termina com o veículo

metafórico “contribuir”, linha 44 que a participante, para atribuir valor a programação que,

apesar de fazer parte do nosso cotidiano, não colabora em nada para o desenvolvimento intelectual das pessoas.