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EXCERTO 13, CORPUS 2:

87. REJANE: Até por causa do próprio contexto social 88. REJANE: em que esses meninos vivem.

89.REJANE: ... Vêm de famílias desestruturadas,

90.REJANE: muitas vezes vêm pra escola só pra se alimentar, 91.REJANE: às vezes, pra fugir de casa pra não apanhar. 92.REJANE: Então, tem todo um contexto,

93.REJANE: por trás disso aí.

Nesse excerto, notamos a predominância da relação metonímica local pela instituição dominando o contexto situacional. A família é uma instituição que faz parte do processo educacional, mas que, conforme a participante, vem passando por uma crise, está

cada vez mais desestruturada, ou seja, ela deveria dar sustentação aos filhos em momentos de dificuldade, pois ela é parte essencial no processo educacional, visto que tudo começa na relação familiar sendo ela, portanto, o arcabouço, o delineamento inicial do processo

educacional. Dessa relação, emerge o veículo tautócrono “pra fugir de casa”, pois, ele é

simultaneamente metafórico e metonímico. O verbo “fugir” está no sentido de esquivar-se, evitar as pessoas que moram naquela casa porque elas, provavelmente, os maltratam. Casa, por conseguinte, é um local que representa a instituição família, pois os meninos não fogem do local casa, mas das pessoas que moram lá. Mais uma vez temos o escopo da metonímia sobre a metáfora e é importante repetirmos que se desfizermos a metonímia, a metáfora também se desfaz. São casos recorrentes que comprovam a predominância da metonímia sobre a metáfora.

EXCERTO 14, CORPUS 2:

118. GABRIELA: Tem um ponto importante assim que eu acho que -- 119. GABRIELA: .. que contribui pra agravar

120. GABRIELA: que é essa política do governo, 121. GABRIELA: em beneficiar alunos,

122. GABRIELA: por estarem dentro de uma escola a todo custo, né? 123. GABRIELA: .. Porque a gente vê que isso aí é uma situação, 124. GABRIELA: totalmente passiva de acontecer fraude, né? 125. GABRIELA: .. Tem aluno que mal frequenta,

126. GABRIELA: mas como não quer perder a bolsa, 127. GABRIELA: tá na sala a todo custo.

128. GABRIELA: ... Então,

129. GABRIELA: o próprio governo, 130. GABRIELA: ... ele tapa,

131. GABRIELA: coloca um pano na situação e finge que isso não existe. 132. GABRIELA: Sendo que,

133. GABRIELA: ... é uma política que distorce 134. GABRIELA: totalmente o real interesse 135. GABRIELA: de um aluno estar

Já neste trecho, surgem vários veículos que caracterizam o sistema como um agente que pratica ações que contribuem para o aumento da violência, dentre eles os das

linhas 120 e 121 em que Gabriela afirma que “a política do governo beneficia o aluno”. A

participante refere-se ao Bolsa Escola, programa do governo de auxilio as pessoas de baixa renda que leva em consideração a frequência do aluno para ser recebido. E ao dizer também

que o governo “tapa”, “coloca”, “finge”, linhas 130 e 131, a participante Gabriela atribui ao

governo, ações própria de seres humanos, pois o governo, através da relação metonímica INSTITUIÇÃO PELOS RESPONSÁVEIS, fez emergir os veículos metafóricos citados anteriormente. Mais uma vez a tautocronia entre metáfora e metonímia se faz presente para validar nossos objetivos de pesquisa, dado o fato de que, se trocarmos a instituição pelos seus responsáveis, será desfeita a metonímia e, automaticamente, a metáfora será desfeita também.

Essa tautocronia se repete com o veículo “uma política que distorce”, em que temos a política

como um sujeito agente praticando uma ação que contribui para o crescimento da violência.

EXCERTO 15, CORPUS 2: 134. HUDSON: Ah, eu acho que, 135. HUDSON: ... inclusive é

136.HUDSON: ... (3.0) não é bem os gestores assim, 137.HUDSON: analisando bem,

138.HUDSON: eu acho a questão mesmo 139.HUDSON: é do sistema, né?

140.HUDSON: ... que favorece esse tipo de coisa. 141.HUDSON: Porque o gestor também,

142.HUDSON: .. a verba vai direto pra escola e depende,

143.HUDSON: é proporcional ao número de alunos que frequentam, 144.HUDSON: que estão matriculados, né?

Recorrente em nossos corpora, a sincronia entre metáfora e metonímia veio mais uma vez à baila. Recategorizado pelo termo sistema, agente que, metonimicamente, pratica ações que favorecem o aumento de violência e encapsula todas as instituições que remetem à educação começando pela família, como vimos anteriormente, e perpassando o governo, gestores educacionais e, como veremos mais adiante, secretaria escolar, conselho tutelar, SEDUC, entre outros que foram mencionado nos corpora e que, por uma questão espacial não pudemos incluir nos dados aqui destacados.

EXCERTO 16, CORPUS 2:

679. HUDSON: ..É o que eu tô dizendo 680. HUDSON: que o grande problema aí, 681. HUDSON: é que a gente,

682. HUDSON: ... o sistema 683.HUDSON: .. abre aspas

684.HUDSON: disponibiliza o acesso universal ao ensino, 685.HUDSON: sem dar as condições materiais

686.HUDSON: para que isso se efetive de fato.

O termo “sistema” reúne e sintetiza, de forma fractal, todas as instituições que

compõem o cenário educacional. Típico de um Sistema Dinâmico Complexo, essas imagens não surgem de forma linear, emergem aleatoriamente, de forma fragmentada, tal qual nosso pensamento, sobre o qual não exercemos nenhum tipo de controle, materializando-se no discurso real dos participantes por meio do automatismo, ou seja, natural e espontaneamente. Mais adiante, na análise do último excerto que abrange essa metáfora sistemática, veremos a importância da Teoria Fractal para o processo de conceitualização.

EXCERTO 17, CORPUS 2: 719. GABRIELA: A educação, 720. GABRIELA: Infelizmente,

721. GABRIELA: dentro do contexto público 722. GABRIELA: principalmente,

723. GABRIELA: é uma mentira. 724. GABRIELA: ... Não existe.

725. GABRIELA: .. Esses dados de aprovação de aluno 726. GABRIELA: que são cobrados a nível de secretaria, 727. GABRIELA: a própria SEDUC

728. GABRIELA: exige que as escolas apresentem 729. GABRIELA: um alto índice de alunos aprovados. 730. GABRIELA: Aí começa --

No excerto acima, a participante Gabriela começa atribuindo predicativos à educação, caracterizando-a como uma “mentira”, considerado por nós como veículo metafórico por representar a ideia de fraude, logro engano, pois os dados apresentados pelas instituições educacionais não correspondem à realidade, dado o fato de que muitos alunos não conseguem apresentar um bom desempenho nas avaliações ao longo do ano, mas a direção da escola exige a aprovação pelo menos da grande maioria, para isso ela exige um alto índice de bons resultados, embora não sejam resultados condizentes com a real situação do alunado.

Mais adiante, no final do excerto, linhas727 e 728, emerge mais um caso de

sincronia entre metonímia e metáfora através dos veículos “a SEDUC exige” e “as escolas

apresentem”, pois não é a instituição educacional SEDUC que exige, mas os responsáveis pela instituição. Não é a instituição escola que apresenta, mas os diretores e coordenadores responsáveis pela escola. Essas duas instituições são seguidas de verbos nocionais metafóricos que expressam ações próprias de seres humanos, porém, esses verbos perderão seu sentido figurado caso seja desfeita a relação metonímica, ou seja, se trocarmos SEDUC e escola pelos seus respectivos responsáveis. Essas instituições são conceitualizadas de forma recorrente como um agente sempre praticando ações que favorecem o aumento da violência,

ações essas representadas pelos veículos “cobrados” e “exige”, verbos que, basicamente, são

designados a seres humanos.

EXCERTO: 18, CORPUS 2: 729. REJANE: Não importa 730. REJANE: se eles realmente 731. REJANE: aprenderam ou não, 732. REJANE: quer que passe.

733. GABRIELA: O sistema quer dados, 734. GABRIELA: quer dados de aprovação. 735. EDUARDO: Eu acho o seguinte,

736.EDUARDO: a gente não discute esse tipo de questão porque, 737. EDUARDO: ... iria mexer talvez com muita gente.

738. EDUARDO: Mas o sistema é falho por natureza. 739. EDUARDO: .. Eu mesmo no primeiro dia de aula, 740. EDUARDO: como sou brincalhão

741. EDUARDO: e consigo conviver 742. EDUARDO: em todas as minhas salas.

Nesse último excerto, o veículo sistema reaparece novamente na discussão

representado de modo simbólico como um agente por meio dos veículos metafóricos “quer”, “mexer” e do predicativo “falho”.

Ao longo da discussão, várias imagens relacionadas a esse sistema emergiram de forma não linear na discussão, ou seja, em intervalos de tempo diferentes, fundindo-se para produzir sentido, cenas que foram ativadas recursivamente, compactadas de forma fractal. Graficamente, fractais são imagens criadas fora do processo de exploração matemática do espaço em que se encontram representados. Nesta pesquisa, contudo, cada imagem é usada como ponto de partida para dar sentido ao todo em uma sequência não linear no tempo e no espaço. Conforme veremos a seguir, família, governo, conselho tutelar, Seduc, etc., são imagens que emergem ao longo da discussão dos participantes, mas em momentos distintos, a

cena de uma “família” com parte integrante do sistema educacional surge logo no início da discussão, “governo” mais adiante, alguns minutos depois. “Conselho tutelar” e “Seduc”,

também aparecem em momentos distintos e no ínterim da discussão essas imagens são retomadas de forma aleatória, à medida que os discursos dos participantes são influenciados uns pelos outros dialogicamente.

Figura 6: relação metonímica Parte e todo no processo de conceitualização da violência II.

Apesar de variadas, essas imagens são autossimilares, caracterizando o sistema através de uma perspectiva fractal, conforme defende Paiva (2010), a metonímia não é

entendida como mudança de nome na perspectiva da Teoria Fractal, “mas como mudança de

escala, pois não é uma coisa nomeada por outra, é a mesma coisa vista em uma dimensão fractalizada sem que se perca a dimensão do todo” (PAIVA, 2010, p. 17). Esses termos podem também ser considerados atratores dado seu caráter iterativo, isto é, são recorrentes no discurso dos participantes.

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