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Forvaltning av tilskudd og administrative rutiner

6   Direkte forvaltningsrettede tilskudd og tiltak

6.5   Forvaltning av tilskudd og administrative rutiner

Incentivar a organização de um leque de conhecimentos teórico-práticos que garantissem ao tipógrafo o aperfeiçoamento da sua arte, é um dos lemas pelo qual se bate Serafim da Silva. Aliás, é bom dizer-se, o articulista demonstrava um pioneirismo meritório ao abordar de forma engenhosa, o lado artístico da questão gráfica. Mais do que um mero executante, interessado em reproduzir com exímia perfeição, o tipógrafo devia ambicionar igualmente alcançar a autonomia e a sabedoria intelectual, próprias do criador. Na verdade, é este pertinente intento que afasta o pensamento do autor das abordagens incipientes, demasiado auto-centradas nas lutas do tipógrafo-operário, tão características dos textos da época (sem que esta atitude de- nuncie uma necessária insensibilidade face à realidade descrita).

Mas o legado do articulista, não se esgotava apenas em boas intenções. Depois de dar uma resposta positiva à sua própria pergunta – Será indispensável á imprensa o desenho?17

–, Sera- fim da Silva, justificava a presença nuclear deste género artístico, na aprendizagem multidis- ciplinar do tipógrafo:

15A. Seraphim da Silva, “A Arte Typographica e o Desenho”, in Typographia Portugueza, nº 5, Porto, 1888, p. 1.

16A. Seraphim da Silva, “A Aprendizagem”, in Typographia Portugueza, nº 2, Porto, 1887, p. 3. 17 A. Seraphim da Silva, “A Arte Typographica e o Desenho”, in Typographia Portuguesa, nº 3, Porto, 1887, p. 1.

Os conhecimentos do typographo não devem resumir-se apenas em metter le- tras para o componedor com destreza, em fazer a distribuição d’ellas pelos caixotins com mais ou menos agilidade, em formar paginas com habilidade. Não é só isso: ha trabalhos na arte typographica que, por serem complicados e difficeis, requerem mais alguma coisa – é o DESENHO.18

Tendo em conta que a simples definição do termo «desenho» varia bastante19

, atentemos à proposta de Etienne Souriau: Le substantif «dessin» dérive du latin designo, mot riche de sens

pouvant notamment signifier «dessiner» et «désigner». Le dessin, oeuvre inscrite sur un su- pport à deux dimensions (papier ou ancêtre du papier, plaques, murs…), présente plastique- ment une essence, un concept ou une pensée, ou représente les apparences de notre monde naturé20

. De facto, além das vantagens mais palpáveis – como estimular a percepção e apurar a representação –, o desenho garante aos seus cultores a capacidade de fazer uso da imagina- ção. Pelo menos assim se exigia ao tipógrafo. Para o compositor, o domínio do desenho pro- vava-se de extrema utilidade, quando a feitura de um determinado trabalho de remendagem21

, impunha o emprego de vinhetas e tarjas para cercaduras, por vezes tão difficultosas de com-

binar22

. O hábito de desenhar, mais do que adestrar a mão do compositor na reprodução de linhas, formas e texturas, alheias ou não ao rigor geométrico, incentivava-o a criar novas or- gânicas, através da manipulação gráfica dos elementos. Combinar diferentes exemplares dos inúmeros motivos decorativos que as fundições de typos têm proporcionado à imprensa23

, gerir a sua distribuição no espaço em função das escalas e contrates cromáticos, sem nunca descurar a relação com o texto, de modo a adquirir um conjunto bello e harmonioso24

– é tudo o que se espera do bom compositor, auxiliado pelo desenho. Mas as suas incumbências não ficavam por aqui. Num período em que as publicações se diferenciam pelos cabeçalhos, cabia ao compositor desenhar com a matéria disponível – texto e imagem –, um todo visualmente coerente e apelativo:

18Idem.

19Ana Leonor M. Madeira Rodrigues, O que é desenho, 2003, p. 20.

20 [O substantivo «desenho» deriva do latim «designo», um termo rico de significado que pode nomeada- mente significar «desenhar» e «designar». O desenho, obra inscrita num suporte de duas dimensões (papel ou antepassado do papel, placas, paredes…) apresenta plasticamente uma essência, um conceito ou um pen- samento, ou representa as aparências do nosso mundo natural] Etienne Souriau, Vocabulaire D’Esthétique, 1990, p. 566.

21Segundo o Manual do Tipógrafo (1908) de Libânio da Silva, a expressão remendagem – então antiga e já em desuso –, utilizava-se para designar os actuais trabalhos de fantasia, onde se incluem, bilhetes, fac- turas, circulares, etc. Segundo o Manual, os espanhóis continuavam a fazer uso do termo remiendo, para classificar este género de exemplares gráficos.

22 A. Seraphim da Silva, “A Arte Typographica e o Desenho”, in Typographia Portuguesa, nº 3, Porto, 1887, p. 1.

23Idem, p. 2. 24Idem, p. 1.

Para se fazer um frontispicio com arte – um dos trabalhos mais laboriosos – é necessario estudar o conteúdo d’elle (os titulos), e dispô-lo de fórma a que o seu todo apresente um bonito aspecto á vista. O frontispicio deve formar um adorno, uma figura tanto mais perfeita quanto possa sel-o. As suas linhas tira- das ao contorno nos demonstrarão se elle estará bem formado, se a parte cor- respondente ao todo, e se o desenho offerece bom effeito em seu conjunto.25

O desenho exigido ao tipógrafo-compositor, não constitui um objecto artístico em si mes- mo, nem pretende fazê-lo. É um desenho que encerra a génese criativa e antecipa conceptual- mente a obra a materializar. Ou, como diria Joaquim Vieira, é um projecto em processo, ali- mentado por uma razão exterior que o vivifica: O projecto é transformação do mundo – des-

truir; construir.26

[…] é a proposição de novas organizações e funções da forma, de conjuntos

de formas materiais, sociais ou ideológicas através de métodos e sistemas convencionais27

. Além dos referidos estímulos à qualidade produtiva do compositor, o desenho revelava-se

uma das matérias indispensaveis ao impressor, se não a mais indispensavel – reiterava o

articulista –, porque d’elle provirá a boa execução dos trabalhos que continuamente lhe são

confiados28

:

Para muitos, o trabalho do impressor passa por ser mais simples e material que o do typographo; devemos porém dizer que muito se engana quem pensa d’esse modo. Se ao impressor são dispensaveis a grammatica, a historia, enfim todas as materias de uma necessidade indiscutivel para o compositor, pelo simples facto de ter sómente de estampar no papel a chapa que o seu collega na officina organisa, é certo tambem que é obrigado algumas vezes a executar trabalhos muito difficultosos, que requerem conhecimentos especiaes.

Não é na imposição de fôrmas nem na facilidade em as pôr a correr nas ma- chinas, que se resume a sciencia do impressor: trabalhos ha em que o desenho é de uma necessidade absoluta.29

Mas não basta dizer-se que esta ou aquella materia é de grande vantagem para uma ou outra arte, para um ou outro officio: deve provar-se com factos a sua utilidade30

. Ora, no intuito de Serafim da Silva, qualquer impressor instruído no desenho31

, mostrava-se mais argu- to a estruturar os recortes e os alceamentos32

na almofada da máquina, a fim de reproduzir

25Idem, p. 2.

26Joaquim Vieira, O Desenho e o Projecto São o Mesmo?, Porto, 1995, p. 48. 27Idem, p. 21.

28 A. Seraphim da Silva, “A Arte Typographica e o Desenho”, in Typographia Portuguesa, nº 5, Porto, 1888, p. 1.

29Idem. 30Idem.

31O autor aconselha especificamenteao impressor desenho de figura e de paisagem.

32 Processo normalmente utilizado quando a composição (ou partes da mesma) deverá ser impressa em mais de uma cor ou em diversos tons de uma só cor. Vide a explicação do mesmo nas obras: Libânio da

com exactidão toda a sorte de pormenores (incluindo as gradações lumínicas) de uma dada gravura.

Certo é que em Portugal, onde se tem descurado todos os assumptos relativos ao ensino,

onde não há escolas profissionaes de especie alguma, ignora-se ainda a poderosa influencia que o desenho exerce nas artes33. E assim se traçava o destino provável das palavras de Sera-

fim da Silva: o esquecimento e a indiferença; uma indiferença directamente proporcional à dos poderes públicos, perante a debatida problemática do ensino do desenho.