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Ao longo de décadas, diversas iniciativas promoveram a Literacia Mediática, inclusivamente, sem que os promotores das mesmas tivessem disso consciência, um exemplo são as rádios comunitárias. De acordo com Peruzzo (2007, citada em Peruzzo, 2010), aqueles que se envolvem na produção comunitária passam a compreender melhor a realidade que os rodeia, aprendem a trabalhar em grupo, aumentam os conhecimentos técnicos, filosóficos, históricos e legais, ampliam a consciência dos seus direitos, desenvolvem a capacidade de expressão verbal e, além disso, conhecem o poder mobilizador e de projeção dos media e aprendem os seus mecanismos de funcionamento. Também Lema-Blanco, Rodríguez-Gómez e Barranquero-Carretero (2016), olhando para meios espanhóis do terceiro setor (comunitários, livres e universitários), referem que estes se constituem enquanto instrumentos promotores da Literacia Mediática, pois permitem aos jovens adquirir habilidades e competências críticas e contribuem para a expansão do direito à comunicação.

Segundo Bosch (2007), com a aumento global das rádios comunitárias, aumenta o número de crianças e jovens a participar na produção de programas de rádio, nomeadamente nos países em desenvolvimento, através de projetos como, por exemplo, a Radio Gune Yi no Senegal, a Radyo Timoun no Haiti e a Butterflies Radio na Índia. Em países desenvolvidos, como, por exemplo, os

Estados Unidos da América, também encontramos projetos que encorajam os jovens a serem produtores, como é o caso da estação Z-Radio (Marchi, 2009) ou da Youth Radio22. Esta última é

pioneira no campo dos meios de comunicação juvenis (Soep, 2006), foi fundada em 1992 e é uma associação de produção de media com jovens dos 14 aos 24 anos (Soep, 2012). Com uma atuação mais global, encontramos a Radijojo23, uma organização nascida em 2001, em Berlim,

que liga crianças de diferentes faixas etárias de distintas partes do mundo, sendo uma rádio feita por e para crianças (Röhlinger, 2013). Em Portugal, temos a Rádio Miúdos, uma rádio feita por e para crianças, da qual já falámos no ponto sobre o lugar da rádio na vida do público infantojuvenil. No nosso país, têm surgido projetos que apresentam este meio como promotor da Literacia Mediática dentro e fora do meio escolar, os quais têm tornado os recetores em produtores de conteúdos radiofónicos. Às iniciativas que decorrem exclusivamente no contexto escolar será dado destaque mais à frente. Para já, importa atentar em dois projetos que promovem a Literacia Mediática do público infantojuvenil: o RadioActive e o Soy Niño, Sou Criança. Dedicamos-lhes algumas linhas por serem dois exemplos relevantes no contexto nacional que, simultaneamente, vão além do mesmo, já que o RadioActive é um projeto europeu e o Soy Niño surgiu na América Latina.

Aproveitando-se da íntima relação entre a rádio e a internet, surge o RadioActive24, impulsionado,

em Portugal, por investigadores do Centro de Investigação Media e Jornalismo em parceria com o Programa Escolhas. O projeto europeu apresenta-se como um modelo de participação nos meios de comunicação que combina a inclusão, a aprendizagem informal e a empregabilidade (Ravenscroft et al., 2015). Um dos objetivos é ensinar crianças e jovens em contextos desfavorecidos a produzir rádio (Brites & Jorge, 2015).

Este meio ajudou os participantes a aprender a escutar, a prestar atenção ao som que os rodeia todos os dias, a analisar e a estruturar (Brites, Santos & Catalão, 2015). De acordo com Santos, Brites e Jorge (2016), a capacidade de adaptar constantemente a intervenção em função do diagnóstico dos fatores que poderiam favorecer o envolvimento foi um dos elementos-chave para os bons resultados alcançados. Exemplo disso mesmo foi o direcionamento de jovens que nunca demonstraram qualquer interesse em dar voz às emissões para outras atividades, sendo que uma

22 Para conhecer o projeto, pode consultar https://youthradio.org

23 Para conhecer o projeto, pode consultar http://radijojo.org/en/

das grandes aprendizagens para muitos dos participantes foi precisamente que a rádio é só na superfície voz (Santos, Brites & Jorge, 2016).

O RadioActive tem servido de inspiração para a criação de rádios escolares, como a da Escola Secundária de Alexandre Herculano, no Porto (Brites & Jorge, 2015). Além disso, também dinamizou, no Agrupamento de Escolas de Alexandre Herculano, uma série de sessões na disciplina de Tecnologias da Informação e da Comunicação (Santos, 2015).

O projeto Soy Niño foi lançado na Venezuela, em 1993. Começou a desenvolver-se em Portugal, sob a designação de “Soy Niño, Sou Criança”, em 2012 e procura a sensibilização ambiental, despertar o pensamento crítico e o exercício da cidadania (Rodríguez & Albuquerque, 2015a). As crianças envolvidas nas atividades demonstraram, a par de outras competências, uma maior sensibilidade pela responsabilidade dos meios de comunicação e capacidade de investigar (Rodríguez, 2000, citada em Rodríguez & Albuquerque, 2015a).

No contexto português, a experiência decorreu em Ponte de Lima e foi marcada pela simulação de programas de rádio com o apoio da Rádio Universitária do Minho. Os participantes elaboraram “mensagens e conteúdos com autonomia, desenvolveram pensamento crítico, adotaram atitudes colaborativas e aplicaram conhecimentos adquiridos a situações reais” (Rodríguez & Albuquerque, 2015a, p. 219). O Soy Niño, Sou Criança teve ainda uma componente em contexto escolar. Foram realizadas ações de sensibilização nas escolas básicas de Ponte de Lima, as quais pretendiam colocar em diálogo temas da natureza, da cidade e da educomunicação com a cidadania infantil (Rodríguez & Albuquerque, 2015b). Segundo Rodríguez e Albuquerque (2015b), nas atividades de gravação das suas vozes, as crianças compreenderam que podem ser protagonistas, atores com direitos e deveres.

Relativamente à relação entre a rádio e a promoção da Literacia Mediática em contexto escolar, é possível encontrar vários trabalhos associados ao termo “educomunicação” desenvolvidos na América Latina, onde estes projetos são comuns, provavelmente devido ao contexto social e histórico dos países e ao facto da rádio estar intimamente relacionada com a educação nesse espaço geográfico, tal como vimos no capítulo anterior. É precisamente no Brasil que encontramos um projeto desenvolvido por Ismar de Oliveira Soares, um académico que está na base do surgimento do termo “educomunicação”. O projeto Educom.rádio nasceu, em 2001, por meio de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e o Núcleo de Comunicação

e Educação da Universidade de São Paulo (Soares, 2010). Em termos práticos, “destinou-se a introduzir a ‘prática educomunicativa’ em 455 escolas do ensino fundamental, entre agosto de 2001 e dezembro de 2004” (Soares, 2010, p. 119), tendo como objetivo combater a violência. Além disso, dentro dos portões das escolas também se desenvolveram iniciativas com os objetivos da Educação para os Media que não surgem enquadradas na área, pelo que é possível encontrar trabalhos que versam sobre o assunto, ainda que não sob essa designação.

No final dos anos trinta, a partir de um workshop de rádio desenvolvido em três escolas secundárias de Springfield, Allen (1941) observou que os jovens participantes aprenderam, através da sua própria experiência, não só como produzir programas de rádio, mas também a criticar emissões profissionais. Estas conclusões refletem claramente o desenvolvimento de competências de Literacia Mediática, quer a nível da leitura crítica, quer da criação de mensagens, apesar de o trabalho não estar enquadrado na área.

Em 1989, González i Monge propunha a utilização da rádio na escola, sugerindo 44 atividades com diferentes objetivos, desde o estudo dos fundamentos da acústica e dos fenómenos eletromagnéticos até exercícios de análise crítica e de produção. González i Monge (1989) afirmava que os meios de comunicação podiam ser usados na dimensão da formação humana através da análise e da crítica dos seus conteúdos. Além disso, considerava que a criação de pequenas emissoras em centros educativos trazia benefícios como, por exemplo, aproximar os alunos do ambiente envolvente, descobrir a geografia e as histórias mais próximas, potenciar a criatividade, o trabalho em equipa, o respeito pela audiência e o exercício da liberdade de expressão (González i Monge, 1989). Olhando para a emissora escolar, Rivera (1996) também evidenciou o seu potencial na promoção da Literacia Mediática, apesar de não usar tal termo:

não se trata de competir com outros meios de comunicação, nem sequer com outras rádios, se não de dominar os mecanismos de essa peculiar forma de comunicação social, de reforçar os conhecimentos para a vida que haverão de adquirir os educandos, de continuar a aprender por parte de todos, em definitiva de nos colocar numa situação de emissores-recetores. Trata-se de converter um simples ouvinte num recetor crítico perante as mensagens dos meios de comunicação social, que além disso possa usar essa linguagem para melhorar as suas relações com os outros e com o seu entorno (Rivera, 1996, p. 300)

A aproximação ao mundo da rádio pode, então, desenvolver competências a diferentes níveis. Pode fomentar o espírito crítico, tal como referem, por exemplo, Rodero (1997), Torregrosa Carmona (2012) e Neuberger (2015), e ainda desenvolver competências comunicativas e de produção criativa. Este potencial é comprovado por experiências como as relatadas por Condeza (2005), Günnel (2009) e Todorova (2015), as quais permitem ainda observar o papel da produção radiofónica neste âmbito.

Segundo Condeza (2005), um projeto que desafiou para a produção numa escola do Chile permitiu que os estudantes, para além de aprenderem a comunicar para a rádio, compreendessem o trabalho de um comunicador e tomassem consciência da responsabilidade social inerente à emissão de mensagens. Günnel (2009), através de entrevistas semiestruturadas, verificou que um projeto de rádio de longa duração em duas escolas da Alemanha fomentou as competências mediáticas. Promoveu o conhecimento de como produzir uma variedade de programas de rádio, a capacidade linguística e comunicativa, a apreciação auditiva e o trabalho em grupo (Günnel, 2009). No Canadá, a partir dos ensaios escritos por estudantes universitários sobre a produção de um pequeno programa de rádio narrando como viam e experienciavam o multiculturalismo, Todorova (2015) observou que os alunos mostraram ter consciência sobre como o tempo, a tecnologia e os meios disponíveis tiveram influência nas decisões que tomaram no processo de produção e de como o a estrutura e o contexto influenciam as mensagens dos media. Além disso, muitos também escreveram que ter total controlo sobre os seus programas os fez conscientes das ligações entre os media e o poder (Todorova, 2015).

Baltar (2008) explica que a implementação de um meio radiofónico na escola pode funcionar como um contraponto em relação ao discurso mediático convencional, “construindo pontes para a compreensão do ambiente discursivo midiático” (p. 568). Como refere Bonixe (2015), “a rádio deve ser vista como um excelente incentivo para a aprendizagem e conhecimento do mundo e da linguagem dos media” (p. 156).

Ao focar a atenção numa iniciativa desenvolvida dentro da escola e noutra fora, Guerreiro (2015) concluiu que os projetos que envolvem a rádio permitem a aquisição de competências técnicas e sociais e de conhecimentos na área dos media. A partir de entrevistas e grupos focais com os

participantes do RadioActive e do Rádio e TV nas Escolas25 , a autora verificou que estes projetos

permitem a aquisição de ferramentas técnicas como aprender a trabalhar com equipamento e programas de edição de som, permitem desenvolver uma aprendizagem autodidata, espírito de equipa, integração e participação na comunidade escolar e dão visibilidade aos jovens.

Urgoiti (2011) centra-se em iniciativas fora da escola, no entanto, faz uma reflexão que importa aqui referir e que acreditamos ser aplicável ao contexto escolar. De acordo com o autor, a rádio pode ser uma ferramenta capaz de consolidar os direitos globais das crianças e, em particular, o direito à participação. Esta questão é também verificável a partir dos estudos de Barbalho e Campos (2015) e de Wagg (2004).

Barbalho e Campos (2015) analisaram a participação de estudantes na produção do programa Antenados no âmbito do projeto Rádio-escola pela Educação, em quatro escolas da Fortaleza, no Brasil, e compreenderam precisamente que este levava ao exercício da cidadania, compreendida na dimensão que envolve o direito à comunicação. Centrando-se na produção de um programa de rádio de uma emissora canadiense, através de entrevistas a jovens entre os 12 e 13 anos, Wagg (2004) também verificou que estes sentem que a participação em todas as fases da produção promoveu o seu empoderamento através da provisão de um espaço para que as suas vozes fossem ouvidas.

A rádio é ainda uma ferramenta educativa poderosa que pode ajudar as crianças a atingir objetivos académicos (Delorme, 2013). De acordo com Gonnet (2007), são várias as práticas associadas ao uso deste meio nas escolas como, por exemplo, o trabalho de expressão, a exploração de documentos, a improvisação, a crítica e a avaliação. Deste modo, como refere Valls (1992), este trabalho terá quase sempre um carácter interdisciplinar, o que favorecerá a qualidade da aprendizagem.

Este meio de comunicação em contexto escolar favorece o trabalho em equipa, estimula a criatividade e a imaginação, melhora a expressão e a compreensão verbal, desenvolve a capacidade de análise e de síntese, facilita o conhecimento do meio envolvente, desenvolve a responsabilidade e o autocontrolo, favorece o respeito face a opiniões alheias, gera atitudes críticas que ajudam a descodificar mensagens e intencionalidades que transcendem a aparência

25 “O Projecto Rádio e TV nas Escolas conta com o apoio da Divisão de Juventude da Câmara Municipal de Cascais – Geração C, e consiste na

(Torregrosa Carmona, 2012). Além disso, tendo a atualidade como referente, propicia o debate, o intercambio de opiniões e o conhecimento de diversas posturas (Torregrosa Carmona, 2012). Com este meio sonoro, os estudantes adquirem protagonismo, elimina-se a timidez, promove-se a autoestima e estimula-se a participação (Rodríguez, 2001).

Perona e Barbeito (2007) consideram que o uso da rádio na aula pode ter múltiplos benefícios desde despertar a imaginação, melhorar a expressão oral e a capacidade criativa até ampliar o conhecimento sobre o entorno político, económico, social, cultural e natural, melhorando a relação dos alunos com o que os rodeia. Para Melgarejo-Moreno e Rodríguez-Rosell (2014), este é um meio propício para que a criança desperte o espírito crítico e comece a conhecer a realidade que a rodeia. Tanto a escuta como a criação de peças radiofónicas permitirão ao aluno desenvolver a linguagem oral e escrita, fomentar a capacidade expressiva, criativa, imaginativa, crítica e de trabalho em equipa (Melgarejo-Moreno & Rodríguez-Rosell, 2014).

De acordo com Perona (2001), nos locais onde se introduziu o meio ou se colocou em funcionamento uma emissora escolar verificou-se que a experiência fomentou e reforçou o trabalho em equipa, potenciou a incitativa e a capacidade criativa dos professores, melhorou a expressão oral e escrita entre os estudantes, aumentou o uso da biblioteca, favoreceu a integração do aluno, desenvolveu uma nova maneira de educar e dinamizou a comunicação entre a comunidade escolar.

Segundo Blanco (2007), a participação numa oficina de rádio ou numa emissora escolar é a vertente mais proveitosa da experimentação com a rádio, já que fomenta o trabalho em equipa, potencia a expressão oral e estimula a imaginação.

Promover o uso da rádio junto de um público fascinado pela imagem e que aparentemente já não se sente tão atraído por este meio pode não parecer uma boa opção. Porém, Rodero (1997) explica que, entre os mais jovens, o fascínio por este meio também surge quando lhes é oferecida a oportunidade de o conhecer. E, segundo Bonixe (2015) e tal como se pode verificar a partir dos estudos citados no capítulo anterior, apesar do afastamento, a rádio ainda está no quotidiano das crianças, pelo que “não se deve descurar a identificação e proximidade” destas com o meio (p. 156). Por outro lado, a expressão oral, frequentemente infravalorizada na escola, é essencial para a integração social e falar ao microfone é um ato que compromete, estimula e que, ouvindo a gravação, permite à criança reconhecer as suas falhas e corrigi-las (Rodero, 1997). Além disso, a

rádio ajuda a fomentar a capacidade de escuta (Rodero, 1997; Rodero, 2008). Aliás, tal como já referimos, Oliveira (2013a) considera, inclusive, que este meio continua a ser o mais adequado para reestabelecer uma cultura do ouvir.

Em suma, podemos dizer que a rádio se apresenta como um meio capaz de promover a Literacia Mediática, podendo auxiliar no desenvolvimento da compreensão crítica e das competências comunicativas e de produção criativa. Ou seja, pode dizer-se que este meio pode ser um aliado na implementação da Educação para os Media em contexto escolar.

As potencialidades da rádio sintetizadas na Tabela 2 mostram que o meio pode ajudar a atingir os objetivos da Educação para os Media. Além disso, pode trazer muitos outros benefícios para os estudantes.

Potencial da rádio - Promove o gosto pelo meio radiofónico

- Desenvolve a capacidade de escuta

- Permite adquirir conhecimentos sobre os meios de comunicação

- Sensibiliza para a responsabilidade dos media - Estimula o espírito crítico relativamente aos media

- Permite adquirir ferramentas técnicas - Melhora a expressão e a compreensão oral - Desenvolve a linguagem escrita

- Dá protagonismo aos estudantes

- Promove o exercício da liberdade de expressão e consolida o direito à participação

- Estimula a participação

- Favorece a integração dos alunos - Reduz a timidez

- Promove a autoestima

- Ajuda a atingir objetivos académicos e favorece a aprendizagem

- Permite adquirir conhecimentos sobre o meio envolvente

- Estimula a imaginação e a criatividade - Desenvolve o pensamento crítico - Desenvolve a capacidade de investigação - Desenvolve a capacidade de análise e de síntese - Desenvolve a responsabilidade e o autocontrolo - Favorece o respeito pelas opiniões alheias - Promove o trabalho em equipa