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Os reitores já identificados são portadores de duas formações de base até 1972. A de direito, que totalizou 24 anos na reitoria, e a de matemática, esta maioritária, que totalizou 42 anos na reitoria — os mesmos dígitos, mas noutra ordem. No período em estudo, que vai de 1956 a 1969, inicia-se a reitoria de Dias Agudo seguida da reitoria de Furtado Leote, ambos com formação em matemática. A Jaime Furtado Leote dedicamos o último capítulo deste estudo, atendendo a que também foi um metodólogo ativo e um elemento fundamental no trabalho desenvolvido na formação dos professores liceais de Matemática e do qual trata esta investigação. O antecessor destes reitores foi João Matilde Xavier Lôbo (1893-1966), também de formação base em matemática e que por meio do “incremento dado ao Posto Emissor, pólo dinamizador de uma original acção pedagógica e cultural” e por meio das “conferências, pelas sessões musicais, pelos concursos, pela divulgação de temas de cultura” levou o Liceu “a quase todo o país e até mesmo ao estrangeiro” (Guerra, 2005, p. 259).

Francisco Dias Agudo (1901-1987) licenciou-se em Ciências Matemáticas na Universidade de Coimbra e fez-se notar pelas suas classificações entre 18 e 20 valores. Antes dos onze anos passados na reitoria do Liceu Normal de Pedro Nunes, Dias Agudo foi diretor da Escola do Magistério Primário de Lisboa, reitor do Liceu de Faro e reitor do Liceu Gil Vicente de Lisboa. Para além da publicação de dois compêndios, um de Álgebra e Trigonometria para os 4.º, 5.º e 6.º anos liceais, em 1938, e outro de Aritmética e Álgebra para os 1.º, 2.º e 3.º anos liceais no ano seguinte, 1939, “estudou e comparou, exaustivamente, exemplares de vários textos [d’Os Lusíadas], existentes em várias instituições” com o objetivo de “fixar a autenticidade e a prioridade da primeira edição” (Guerra, 2005, p. 250) da obra de Camões. Maria Luísa Guerra, que foi professora de História do Liceu Normal de Pedro Nunes, escreve no seu livro sobre o Liceu (pp. 250- 251), que as instituições consultadas foram: Biblioteca da Universidade de Coimbra, Biblioteca Nacional de Lisboa (quatro edições), Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Ateneu Comercial do Porto, Biblioteca Bodleina da Universidade de Oxford, Museu Britânico (três exemplares), Biblioteca Nacional de Nápoles, Fundação da Casa de Bragança em Vila Viçosa, Academia das Ciências de Lisboa e Museu do Caramulo. Consultou ainda exemplares que pertenceram ao rei D. Manuel II, segundo a mesma fonte.

O livro da autoria de Francisco Dias Agudo, publicado em 1955 pela Livraria Sá da Costa, com o título Introdução à Vida Docente, é o resultado de artigos que escreveu na

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revista de ensino liceal Labor28 entre dezembro de 1953 e junho de 1955 denominados por Projecto de Estatuto do Professor. “No seu conjunto, o texto de Francisco Dias Agudo constitui uma excelente reflexão sobre a dimensão ética da profissão docente, tal como poderia ser encarada por um profissional do ensino nos anos 50 do século XX” (Pintassilgo, 2002, p. 1). Joaquim Pintassilgo neste seu artigo acrescenta que, não sendo caso único, o trabalho de Francisco Dias Agudo é um documento fundador sobre o tema da deontologia da classe dos professores liceais portugueses (p. 15).

Sobre este reitor do Liceu Normal de Pedro Nunes com formação em matemática, Francisco Dias Agudo, que acompanha o Liceu ao longo de quase todo o nosso período de estudo, terminamos com a referência à Revista de Pedagogia e Cultura, Palestra, por si criada, cujo número 1 sai no ano de 1958. Esta revista, uma publicação do Liceu, subsidiada pelo Estado Português e divulgada para os outros liceus do país, terminou com o número 42 em 1973 e teve, entre outros, um papel fundamental na divulgação da experiência pedagógica alvo do nosso estudo. Antes, de 1906 a 1939, havia no Liceu uma outra publicação, o Boletim do Liceu Normal de Lisboa (Pedro Nunes), cuja capa continha as palavras: o que se fez, como se fez, porque se fez. Entre 1906 e 1917 existiu ainda o Anuário, que era o relatório anual do reitor e, entre 1906 e 1942, o jornal de nome Os Novos publicado pela Associação Escolar29.

No texto publicado pelo Ministério da Educação sobre as obras da Parque Escolar, em 2010, pode ler-se:

Os alunos do Liceu Pedro Nunes foram sempre considerados como um conjunto de “alunos de elite”. Seleccionados à entrada porque o liceu procurava ficar com os melhores alunos para rentabilizar o trabalho dos estagiários, o facto é que em cada ano escolar, no quadro de honra, do liceu figuraram alunos que ainda hoje se destacam na vida social, cultural e política portuguesa. (Gomes, 2010, p. 2)

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Esta revista foi criada em 1926 (imediatamente antes da implementação da Ditadura Militar portuguesa, à qual se seguiu o Estado Novo) por um conjunto de professores do ensino liceal em Aveiro, onde teve a sua sede. Publicou até 1973, com dois períodos de interrupção, o primeiro de um ano, entre 1931 e 1932, e o segundo de onze anos, entre 1940 e 1951.

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Esta Associação era constituída por alunos, com base nas Solidárias, professores, antigos alunos e outras personalidades propostas pela sua Direção. O lema era: nós nos educaremos. Teve de ser extinta, em 1942, com a chegada da Mocidade Portuguesa.

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Foram alunos do Liceu três Presidentes da República Portuguesa: Américo Deus Rodrigues Tomás, Jorge Fernando Branco de Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa e dois primeiros-ministros: Alfredo Nobre da Costa e Francisco Pinto Balsemão.

Em seguida, na tabela 3.3 apresentamos os nomes e as datas de nascimento de professores da disciplina de Matemática do Liceu.

Tabela 3.3. Professores de Matemática do Liceu Normal de Pedro Nunes.

Nome

Eduardo Ismael dos Santos Andrea

Nasc.-Morte

1871-1937 António Augusto Ferreira de Macedo 1887-1957 Luís Maria de Passos da Silva 1888-1954 António Nicodemos Sousa Pereira 1892-1956 José Francisco Ramos e Costa 1893-? Jaime Maximiano Gouveia Xavier de Brito 1893-1960

João Matilde Xavier Lobo 1893-1966 Francisco Dias Agudo 1901-1987

Jaime Furtado Leote 1902-1988

Francisco de Paula Leite Pinto30 1902-2000 José Jorge Gonçalves Calado 1903-1986 António do Nascimento Palma Fernandes 1907-1968 Alfredo Boaventura Estevão Osório dos Anjos 1919-2002 Manuel Joaquim Sousa Ventura 1925-2004

(Guerra, 2005, pp. 249-250)

Alguns destes professores foram autores de vários compêndios de Matemática para o ensino liceal. Por exemplo, José Jorge Gonçalves Calado publicou, pelo menos, oito manuais escolares entre 1941 e 1956 para os 2.º e 3.º ciclos, dois deles em coautoria com A. Nicodemos Pereira. António do Nascimento Palma Fernandes publicou, pelo menos, dezoito livros de texto e de exercícios entre 1943 e 1981 para os 1.º, 2.º e 3.º ciclos, alguns deles com mais de 20 edições. Alfredo Osório dos Anjos publicou, pelo menos,

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Francisco de Paula Leite Pinto, Ministro da Educação Nacional entre 1955 e 1961, decretou a reabertura dos estágios no Liceu Normal de Pedro Nunes em 1956. Foi um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e na reunião de 12 de Dezembro de 1940 onde foram aprovados os Estatutos da SPM, Leite Pinto foi eleito para delegado à Associação Portuguesa para o Avanço das Ciências, juntamente com Bento de Jesus Caraça (Gazeta de Matemática n.º 5, 1941, p. 12). Entre 1967 e 1969 foi Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian e presidente do Instituto Gulbenkian de Ciência, criada em 1956.

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dezoito compêndios de Matemática entre 1971 e 1988, alguns deles em coautoria com António de Almeida Costa, António Augusto Lopes, Maria Madalena Garcia e António Fernando Ruivo.

Maria Luísa Guerra indica ainda outros professores de Matemática desta Escola: Alfredo Tenório de Figueiredo (professor metodólogo), Iolanda Maria Vasconcelos Lima (ex-estagiária), Alberto Vasconcelos Lomelino, Sérgio Macias Marques (ex-estagiário e vice-reitor do Liceu Normal de Pedro Nunes), Maria Manuela Pais (ex-estagiária) e Pedro Cabral de Sacadura (2005, p. 264). Os nomes destes últimos docentes de Matemática, no livro sobre o Liceu de Maria Luísa Guerra, não são acompanhados de uma pequena biografia, ao contrário do que acontece com os nomes dos docentes que constam da tabela 3.3. Os ex-estagiários Iolanda Maria Lima, Sérgio Macias Marques e Maria Manuela Pais são alvo do nosso estudo nos capítulos seguintes.

Bento de Jesus Caraça (1901-1948), natural de Vila Viçosa e oriundo de uma família de trabalhadores rurais, foi aluno do Liceu Normal de Pedro Nunes onde concluiu os seus estudos do ensino liceal, em 1918, por ter desde muito cedo revelado grande facilidade de aprendizagem e a família para a qual o seu pai trabalhava ter apoiado os seus estudos. Matemático, professor do ensino superior, cofundador da Sociedade Portuguesa de Matemática e crítico do regime, foi várias vezes preso pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). Algumas das críticas de Caraça prendiam- se com algum desinvestimento na educação em Portugal, contrariando alguma propaganda do regime que queria fazer crer no contrário. Nomeadamente, o encerramento, de 1936 a 1942, das escolas de formação de professores do magistério primário, a criação dos chamados postos escolares dirigidos pelos chamados regentes que tinham pouca instrução e baixos salários e que substituíam escolas primárias e ainda o fecho, em 1937, das escolas oficiais infantis (Caraça, 1978, pp. 490-491). Os postos escolares do ensino primário começaram a ser extintos e substituídos por escolas primárias, a partir de 1973, e foram criados cursos especiais de formação intensiva para os regentes escolares nas escolas do magistério primário (Decreto-Lei n.º 67/73, de 26 de fevereiro de 1973) com Marcello Caetano e Veiga Simão. Houve uma diminuição dos cinco anos da escolaridade obrigatória, durante a Primeira República, para três anos no início do Estado Novo (Constituição Política da República Portuguesa de 193331 e promulgação na Lei n.º 1:969, de 20 de Maio de 1938), passou depois para quatro anos,

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inicialmente só para os rapazes, em 1956 (Decreto-Lei n.º 40964, de 31 de dezembro), e depois para as raparigas, em 1960 (Decreto-Lei n.º 42994, de 28 de maio), e finalmente aumentada para seis anos para ambos os sexos (Decreto-Lei n.º 45810, de 9 de julho de 1964), mas só efetivada para seis anos no ano letivo de 1969/1970, mais de vinte anos após a morte de Bento de Jesus Caraça. O seu único filho, João Manuel Gaspar Caraça, foi aluno do Liceu Normal de Pedro Nunes entre 1955 e 1962 (Gomes, 2010, p. 12). Em 1960/1961 foi o aluno n.º 17, da turma A do 6.º ano liceal, que teve as estagiárias Maria Engrácia Domingos, Maria Odette Rodrigues (ambas no seu segundo ano de estágio) e Maria Fernanda Martins (no seu primeiro ano de estágio) e o metodólogo Jaime Furtado Leote (conforme o livro de sumários da turma e as atas dos exames de estado de 1960).

Em anexo, apresentamos uma lista de ex-alunos do Liceu Normal de Pedro Nunes que se destacaram na sociedade portuguesa (Anexo n.º 1) e uma recolha de depoimentos de alguns destes ex-alunos (Anexo n.º 2), nomeadamente do atual Presidente da República Portuguesa, que ajudam a perceber e a caraterizar melhor o Liceu e a sua cultura escolar num certo tempo, onde se desenrola o nosso estudo.