"Um dos piores momentos aconteceu no Ramadã de 2008, época em que nenhum muçulmano come ou bebe algo enquanto for dia claro. O Talibã bombardeara a central elétrica, e por isso não tínhamos eletricidade. Poucos dias depois, explodiram o gasoduto, e então, deixamos de ter gás. O preço dos botijões no mercado que costumávamos comprar dobrou, e por esse motivo minha mãe voltou a cozinhar em fogueiras, como no começo de nossa vida familiar. Bhiba não reclamava: os alimentos precisavam ser cozidos e ela os cozinhava. Havia famílias em situação pior que a nossa. Não havia água limpa, e as pessoas começaram a morrer de cólera. O hospital não tinha condições de cuidar de todos os pacientes e teve de erguer grandes barracões na parte externa para atendê-los."
YOUSAFZAI, M. "Eu sou Malala”. Companhia das Letras.2013. p.155
O parágrafo acima é um pequeno trecho da história de Malala, "a garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã", conforme adianta o subtítulo do romance de Malala Yousafzai. Desenvolver uma ferramenta para medir a situação de Malala, e milhares de famílias no Afeganistão, a partir da métrica unidimensional na renda, parece pouco promissor. Uma ferramenta baseada em aspectos subjetivos como o nível de satisfação pessoal declarado ou o sentimento de insegurança vivido por essa população durante esse momento histórico não parece apresentar vantagens significativas devido à incomensurabilidade da experiência humana medida nesses termos. Ademais, tal estudo apresentaria baixa perspectiva de comparabilidade com outros estudos, e não deixaria claro qual seria a contribuição em relação à ótica da renda. Uma medida de pobreza multidimensional, por sua vez, trataria logo de detectar se a família passou fome, se tem acesso à água limpa e a remédios, se cozinha com gás ou com lenha, gerando fumaça e possíveis doenças respiratórias para as famílias afetadas pela ofensiva do Talibã.
O diálogo com os economistas clássicos Adam Smith e John Stuart Mill foi importante para a construção da AC na medida em que proporciona um retorno a um nível de utilitarismo mais abstrato e filosófico do que o proposto por Bentham no século XIX, abrindo caminho para novas abordagens. Esse retorno ao utilitarismo clássico de Mill teria aberto espaço para a construção da AC livre da pretensão de reproduzir o bem-estar humano por meio de métricas subjetivas, como o próprio conceito de “utilidade” desenvolvido a partir das leituras de Bentham das obras que Smith e Mill escreveram dois séculos antes.
É a partir das contribuições de Adam Smith em Teoria dos Sentimentos Morais (1759) e Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações (1776) que Bonfim (2012, p.9-11) defende que o legado de Smith vai muito além do homo economicus, fornecendo bases para uma avaliação moral da economia. Em Teoria dos Sentimentos Morais (1759) Smith desenvolve o conceito de sympathy ( ‘compaixão’) que teria influenciado o desenvolvimento da AC. Neste sentido, para Sen, “compaixão e comportamento egocêntrico6 não são,
em Smith, ideias em conflito” (Bonfim, 2012 p.10), pois a voz da consciência, o “espectador imparcial” pode impedir a ação meramente egoísta, enfraquecendo desse modo o argumento de que cada indivíduo busca senão seu maior benefício individual em detrimento de seus resultados para terceiros. A maximização da utilidade então teria de ser repensada de modo a incluir ações humanas que não são exclusivamente voltadas à maximização de seu ganho pessoal, mas que podem incluir em seu bojo ações promovendo o bem-estar coletivo e de outrem. O que ocorreu foi que os aspectos morais do trabalho de Smith foram sendo marginalizados no decorrer da história do pensamento econômico, restando uma visão estereotipada do homem essencialmente egoísta. (SEN, 1987 p.22-8). Sen considera Adam Smith uma de suas maiores fontes de inspiração, ao lado de Aristóteles, Stuart Mill e Marx, particularmente por conta de sua investigação sobre a racionalidade e as capacidades humanas (SEN, 2006 p.81).
Qizilbash (2008, p.54-62)7 argumenta que os passos mais importantes de Sen no estabelecimento da AC derivam do processo de diferenciação crítica das várias formas de utilitarismo que surgiram a partir de Bentham8. Segundo o autor, é justamente neste contexto que Sen retorna ao pensamento de Stuart Mill em ao menos três pontos: (1) na concepção do desenvolvimento como processo de expansão das capacidades, em que Mill define o “novo mundo” (mundo desenvolvido) como aquele em que os homens estariam livres para exercerem suas faculdades, (2) na defesa das causas da liberdade e igualdade de gênero, em que Mill apresenta argumentos feministas e (3) na discussão da pobreza, em que Mill sustenta que qualquer pessoa pode ter a capacidade de levar uma vida de valor desde que certas condições sociais sejam cumpridas. Qizilbash (2008, p.59) chega a argumentar que mesmo entre particularidades e diferenças, as passagens selecionadas de Mill podem ser lidas como uma versão utilitarista da Abordagem das Capacidades. (“utilitarian capability approach”).
7 Nesta mesma edição da revista Utilitas (publicada pela Universidade de Cambridge) em que foi
publicado o artigo de Qizilbash citado (Utilitas, vol. 18, primeira edição, de Março de 2006) foram publicados também um artigo de Sugden e um artigo de Sen respondendo as considerações de Qizilbash acerca da influência de Stuart Mill em seu pensamento.
8 As críticas às diversas vertentes do utilitarismo estão presentes na origem da abordagem das
capacidades. Neste artigo, Qilizbash diz que o que une todas estas abordagens é que são caracterizadas pelo consequencialismo, na medida em que estão preocupadas com os resultados da ação dos indivíduos e não com suas bases morais. O autor cita que as versões alternativas de utilitarismo propostas por Harsanyi (1982) e Griffin (1986) também são rejeitadas por Sen.
Na mesma edição da revista Utilitas, de Março de 2006, Sen reconhece que Stuart Mill é um dos principais “espíritos-guias” em seu pensamento9 e que Qizilbash relacionou alguns aspectos ainda não apercebidos pelo próprio Sen, como a extensão da compreensão de Mill acerca do papel da adaptação de preferências às circunstâncias adversas, que distorcem a métrica da utilidade em indivíduos que sofrem de privações crônicas.10 Sen, contudo, não pode aceitar o pensamento de Mill inteiramente, pois julga ser incompatível a inclusão da justiça social à utilidade proposta por Mill, assim como julga suas observações acerca da intensidade das privações ainda frágil. (SEN, 2006, p.82-4).