A margem Sul do Tejo da cintura industrial de Lisboa (em que se integra a Baixa da Banheira) conheceu, desde a década de 1940, um forte processo de industrialização, com a instalação de várias unidades de preparação e transformação de cortiça e com a construção das linhas de caminho-de-ferro. Consequentemente, verificou-se um crescimento demográfico e urbano acelerado, com a chegada de uma grande quantidade de mão-de-obra vinda do sul do país (das regiões rurais e piscatórias do Alentejo e do Algarve) e também das regiões de Trás-os-Montes e Beira-Baixa. A partir dos anos 1960, deu-se uma segunda fase de crescimento económico e urbano, com o aparecimento de novas indústrias: agro- química (CUF), estaleiros navais (Lisnave e Setenave), siderurgia (Siderurgia Nacional) e diversas fábricas têxteis (onde se empregava maioritariamente a população feminina).
A população trabalhadora, que se instalou na região, vai levar a cabo alguns dos conflitos sociais mais importantes em Portugal durante o Estado Novo e no pós-25 de Abril. E os operários dos estaleiros navais da Lisnave destacam-se como protagonistas destas lutas. Assim, a memória histórica que tem vindo a ser construída sobre a população trabalhadora desta região apoia-se predominantemente em referências ao processo de industrialização, celebrando sobretudo as grandes empresas e respectivos patrões ou o movimento operário vitorioso (com as lutas durante o Estado Novo ou as do pós-25 de Abril). De fora, ficam todos os episódios que não se encaixam nesses períodos ou nessa imagem de progresso industrial ou operário.
No decurso desta investigação deparei-me com duas situações diferentes de ausência de memórias. A primeira, prende-se com o trabalho feminino.
Nas entrevistas que fiz e nas conversas que tive com as mulheres, quando lhes perguntava se alguma vez tinham tido um emprego, todas começaram por responder ―Não! Sou doméstica‖, isto apesar de no seguimento da minha relação com elas eu compreender que exerceram várias actividades assalariadas (prestadas ao / exercidas no domicílio).
Esta dificuldade que a maior parte das mulheres revelou em reconhecer os seus trabalhos remunerados, que muito contribuíram e continuam a contribuir para os rendimentos dos agregados familiares, não constitui propriamente uma novidade – este facto tem sido referido por vários autores (Leydesdorff et al., 1996; Narotzky, 1988 e Nash, 1983). As investigações que referem este silenciamento sobre o trabalho feminino, levado a cabo pelas próprias mulheres, concluem que quando elas negam a existência de um trabalho, geralmente querem significar a inexistência de um trabalho remunerado,
―SOBRE ISSO, VOCÊ DEVIA ERA ENTREVISTAR A MINHA IRMÃ‖ – A FAMÍLIA FLOR E OS DITOS E NÃO DITOS SOBRE A CRISE DA LISNAVE NA DÉCADA DE 1980
156 regular e qualificado, através do qual fazem os descontos sociais devidos e usufruem dos respectivos direitos associados à condição salarial.
Nas narrativas biográficas femininas que recolhi todas as actividades laborais, que saem desse quadro de trabalho regulamentado, são totalmente silenciadas. Sucedeu, com frequência, que a referência a algumas das actividades remuneradas que as mulheres desenvolveram surgiu apenas porque me explicavam como tinha sido possível a subsistência da família durante momentos de desemprego ou de salários do marido em atraso.
Simultaneamente, também é apenas no contexto destas explicações que surgem as referências à designada ―crise da Lisnave‖. Esta expressão refere-se ao momento dramático (já aqui referido) em que as famílias dos operários daquela empresa viveram cerca de 4 anos com o salário do marido em atraso. Tratou-se, no período contra-revolucionário, do processo de desmantelamento e estruturação da empresa, que conduziu à designada ―crise da Lisnave‖. Esta, vai durar vários anos e tem uma fase mais aguda que corresponde a um período de 4 anos (1982-1986), em que a empresa praticou uma política de salários em atraso com o objectivo de desmoralizar os trabalhadores e quebrar ou enfraquecer o movimento operário existente.
Este momento da história daquela empresa surge no contexto de crise mundial de início dos anos 1980. Por um lado, existe a pressão exercida pela Comunidade Económica Europeia no sentido de reduzir o volume da construção e reparação naval. O objectivo é deslocalizar esses trabalhos para países com mão-de-obra mais barata. Por outro lado, esta situação coincide com um momento de intervenção no país pelo Fundo Monetário Internacional, que impõe uma flexibilização das leis laborais. Este conflito, tal como descreve Varela (2011), corresponde a uma viragem no movimento operário da região depois do 25 de Abril e marca o início dos conflitos defensivos pela conservação dos postos de trabalho.
E esta é precisamente a segunda situação, bem como as suas consequências, que estão recorrentemente ausentes das memórias e que fazem parte dos não ditos nos discursos sobre o passado (desta vez,sobretudo, pelos homens).
A frase que serve de título a esta comunicação (―-Sobre isso, você devia era entrevistar a minha
irmã‖) foi pronunciada por um antigo operário nos estaleiros navais, que integrou uma comissão de
trabalhadores durante a designada ―crise da Lisnave‖. Ao longo da entrevista resistiu de todas as maneiras possíveis a falar-me sobre o tema: desviou o assunto para falar sobre outras questões (contou- me a sua participação numa cooperativa de consumo, a sua entrada para o partido comunista, etc.), fingiu que não ouvia as minhas questões e finalmente, ao juntar uns papéis que tinha à sua frente e batendo com eles na mesa à qual nos sentávamos, deu a entrevista por terminada. Depois, talvez porque reparou no meu ar desapontado, enviou-me para falar com a sua irmã (ex-operária de uma fábrica de cortiça, viúva de um ex-operário da mesma empresa, ambos sem qualquer relação com os estaleiros da Lisnave). E isto, quando tem um outro cunhado que, vim a descobri-lo mais tarde, também foi operário daquela empresa.
―SOBRE ISSO, VOCÊ DEVIA ERA ENTREVISTAR A MINHA IRMÃ‖ – A FAMÍLIA FLOR E OS DITOS E NÃO DITOS SOBRE A CRISE DA LISNAVE NA DÉCADA DE 1980
157