3 Litteraturstudium
3.4 Effekter av samspill
No contexto do I Encontro da Red(e) Ibero-Americana Resistência e (y) Memória, que reuniu investigadores de diversas áreas em torno da temática da memória e da utilização de fontes orais nas investigações dedicadas à resistência e movimentos sociais, não resisto a referir o seguinte episódio.
―SOBRE ISSO, VOCÊ DEVIA ERA ENTREVISTAR A MINHA IRMÃ‖ – A FAMÍLIA FLOR E OS DITOS E NÃO DITOS SOBRE A CRISE DA LISNAVE NA DÉCADA DE 1980
152 Um dos primeiros trabalhos de campo que realizei (quando terminei a licenciatura), foi na aldeia de Aivados, onde permaneci de Maio a Outubro de 1995. Tendo muito presentes os ensinamentos e conselhos recebidos nas aulas de métodos e técnicas, estive sempre muito preocupada (talvez demasiado) em mostrar-me disponível para participar em todas as actividades do dia-a-dia dos moradores da aldeia. Foi assim que comecei a ajudar algumas das minhas vizinhas na realização de diferentes tarefas: ajudar a carregar garrafões de água ou sacos de produtos das hortas, descascar legumes para a sopa do dia, lavar e torcer roupa à mão no tanque público da aldeia (inicialmente, tratava- se de calças de ganga ou casacos e depois, tapetes, mantas ou cortinas). Também assumi algumas tarefas de mais responsabilidade, tais como: nas minhas viagens semanais à sede de concelho, receber as pensões de reforma de algumas pessoas e fazer o pagamento das suas despesas fixas; fazer a compra dos medicamentos na farmácia (levando a respectiva receita médica e cartão de utente); ou durante as festas da aldeia, ficar na caixa do bar ou da quermesse (recebendo os pagamentos, fazendo trocos e apresentando as respectivas contas no final).
Estas últimas correspondiam a momentos de grande tensão para mim, pois, no caso de alguma coisa correr mal ou de haver algum engano, podiam comprometer a minha relação com aquelas pessoas e consequentemente, pôr a investigação em causa. Contudo, sem que eu me apercebesse, com o decurso do trabalho e à medida que a investigação avançava eu estava cada vez mais envolvida nestas actividades que me eram atribuídas e que eu aceitava sem regatear – o que me consumia grande parte das horas do meu dia de trabalho. Até que, finalmente, por ocasião dos preparativos de uma das festas a que assisti, foi-me pedido que descascasse 3 kgs de alhos, ao que acedi.
Foi, provavelmente, a tarefa mais penosa e desagradável que me foi proposta, o que foi reconhecido pelas minhas companheiras que, no final, acabaram por vir em meu socorro. No momento do trabalho de campo em Aivados, além dos moradores da aldeia, conheci também a sua comunidade migrante (maioritariamente instalada na Baixa da Banheira). Anos mais tarde, no âmbito de uma outra investigação com algumas destas pessoas, ainda se faziam comentários jocosos sobre o tema – o que, além de significar um reconhecimento relativamente ao exagero da tarefa que me foi dada, do meu ponto de vista, significa também um reconhecimento da minha proximidade com estas pessoas e portanto, da minha boa integração no terreno (condição essencial para a investigação).
Assim, se me perguntam qual é a diferença entre a história oral (expressão utilizada pelos historiadores para designarem uma metodologia de trabalho assente nas fontes não escritas) e o método etnográfico (metodologia utilizada pelos antropólogos, que implica a presença do investigador no terreno, a observação directa e sempre que possível, a participação do investigador nas actividades observadas, bem como a recolha de narrativas e depoimentos), eu direi que esta consiste em 3 kgs de alhos descascados numa manhã!
Na verdade o trabalho de campo, tal como é praticado pelos antropólogos, depende inteiramente da relação de confiança que se estabelece entre o investigador e as pessoas com quem e sobre as quais
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153 trabalha. E essa relação só é possível porque o investigador permanece no terreno, partilha das condições de vida existentes, observa directamente o que as pessoas fazem e estabelece um contacto próximo com elas e com o seu objecto de estudo.
Quando se trata de investigar sobre resistências quotidianas, movimentos sociais e as memórias associadas a estes, essa proximidade constitui uma enorme vantagem, pois permite, além do acesso aos discursos das pessoas sobre o que dizem que fazem e a observação do que verdadeiramente fazem e das suas rotinas de trabalho e familiares, também o acesso a dados que não constam em outras fontes de investigação e que só é possível obter com a presença do investigador no terreno, bem como a escuta daquilo que as pessoas têm a dizer sobre as actividades em que participam e da sua maneira de ver a realidade / a sua visão do mundo.
É, então, graças à presença do investigador no terreno e à sua relação com os sujeitos da investigação, que se torna possível aceder a muitas informações que de outra forma permaneceriam invisíveis. Exemplos disso mesmo são algumas das situações ocorridas no âmbito da minha investigação na Baixa da Banheira.
Como eu não estava a viver no terreno de investigação (como aconteceu em trabalhos precedentes), tentei frequentar o máximo possível os espaços públicos da vila. Um dos locais de observação privilegiados que elegi durante esse trabalho de campo foi a sede da Sociedade Recreativa e
Cultural União Alentejana, uma das muitas colectividades existentes na freguesia, fundada em 1960 e
conhecida entre todos como ―os alentejanos‖.
Durante o verão de 2009, esta colectividade levava a cabo os trabalhos de construção do edifício para a sua nova sede (localizada no terreno vago mesmo ao lado do edifício da primeira sede). E os trabalhos eram realizados por alguns dos associados da colectividade, que eram observados por outros que estavam sentados na esplanada ali mesmo ao lado. Nessa altura o trabalho de campo que realizei consistia em juntar-me aos grupos das mesas (onde se jogava cartas e se passava um momento com os amigos) e sobretudo, ouvir as conversas. Ouvir os comentários e picardias que se geram por esta situação e que se referem às relações patrões-empregados, aos direitos e protecções sociais dos trabalhadores, seguros de trabalho, assistência médica ou a participação sindical. Posso dizer que, a partir destas informações obtive algumas pistas que segui posteriormente em entrevistas formais com outras pessoas
Além disso, a minha presença na esplanada permitiu-me assistir ao vivo à ―economia do
desenrascanço‖. O objecto de estudo central deste trabalho eram as práticas relacionadas com a
sobrevivência económica de uma população em dificuldades e vivendo em precariedade laboral. A minha presença continuada na esplanada d‘‖os alentejanos‖ permitiu-me observar que essas práticas existem não só na vida familiar destas pessoas, mas também na sua vida colectiva. Sem grandes apoios estatais para a construção de uma nova sede, a direcção da colectividade recorre às mesmas práticas de sobrevivência que as famílias dos seus associados e que designaríamos de ―armas dos fracos‖ (Scott,
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154 1986 e 1990). Por exemplo, utlizam o trabalho gratuito ou mais barato e usufruem das doações por parte dos seus associados (muitos deles trabalhadores ou comerciantes no sector da construção civil). Ou, então, recorrem aos seus conhecimentos junto de amigos, trabalhadores em obras locais, para arranjar o material necessário (que é desviado dessas obras) ou para obter o ―empréstimo‖ de máquinas e de trabalhadores especializados. Foi isso que aconteceu (e a que assisti) durante os trabalhos de construção da segunda sede d‘―os alentejanos‖ que coincidiu e usufruíu dos trabalhos uma grande obra pública que decorriam mesmo nas traseiras da sede da colectividade.
Contudo, a proximidade à comunidade de aivadenses no novo terreno também me trouxe alguns problemas (Fonseca, 2012). A colectividade ―os alentejanos‖ é responsável pela realização de uma
Semana Alentejana, um evento (organizado anualmente e de cada vez, é dedicado a um concelho
daquela região) durante o qual ocorrem diversas actividades culturais promovidas pela autarquia em destaque. No último dia desta semana, realiza-se um desfile de grupos corais alentejanos e é oferecido um almoço aos seus participantes. Em 2009, eu participei nos trabalhos de preparação desse almoço, junto com a direcção da colectividade e algumas pessoas recrutadas para o efeito.
Apressadamente, considerei que estava em terreno já conhecido e que podia comportar-me como na aldeia. Acontece que, no contexto da Baixa da Banheira, existem outras regras e formas de comportamento (não só para mim como também para os meus interlocutores que circulam entre os dois espaços). Em Aivados, por exemplo eu participava nas actividades colectivas em que os moradores e os migrantes dão o seu trabalho voluntário para determinadas realizações. Na Baixa da Banheira, quando estas pessoas foram para lá viver, essa situação também se verificou com o trabalho voluntário no seio das colectividades locais; contudo, a situação de precariedade em que muitas destas pessoas vivem modificou a maneira de entenderem a sua participação associativa. Quando se está numa situação de precariedade laboral (como aconteceu a muitas destas pessoas) a preocupação principal passa a ser encontrar uma actividade remunerada. Consequentemente, qualquer pedido de trabalho voluntário é mais dificilmente atendido. Simultaneamente, estas colectividades demonstram estar muito atentas às condições de vida dos seus associados e também tentam, na medida do possível, remunerar todas as colaborações.
Assim, quando uma das pessoas que conheci em Aivados referiu a realização de um almoço- convívio no âmbito da semana cultural da colectividade ―os Alentejanos‖ e comentou que ia ―ajudar‖ na confecção desse almoço, desastradamente, ofereci-me para também ―ajudar‖. Não compreendi imediatamente que estava a ser irreflectida e precipitada. Só no próprio dia, depois de ter estado lado-a- lado a fazer o almoço e a servir às mesas com um grupo de pessoas, é que compreendi que essas horas de trabalho lhes íam ser pagas. No momento de fazerem as contas, elas comentaram que o meu trabalho era voluntário. E também me fizeram saber (embora de forma gentil) que, pelo facto de eu ter participado, uma das cozinheiras habituais tinha trabalhado menos tempo (pois ficou apenas a coordenar as
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155 actividades). Compreendi, assim, que a expressão ―ajudar no almoço‖ não tinha o mesmo significado na Baixa da Banheira que na aldeia dos Aivados.
Mas, além destas aprendizagens, a minha relação com estas pessoas (que se prolonga no tempo) permite o acesso a um outro tipo de informação.