4 Diskusjon
4.3 Foreldre, ungdom og alkohol
«Cego assim, ao arrepio do gosto corrente e da preferência do mundo literário pelo tema na verdade sugestivo de D. Sebastião, mesmo assim eu seguirei no meu convencimento de que Nun´Álvares é o mais acabado tipo de heroísmo português, porque às virtudes excelsas, que a D. Sebastião faltaram, juntou a portentosa ciência da vitória, que o vencido de África desconheceu. E o culto dos heróis vale principalmente porque ensina a vencer…».
FIGUEIREDO, Fidelino, 1925, “Nun`Álvares” in: Revista Nacional, nº1, 15/05/1925, Lisboa, p.8.
«(…) Os heróis são homens de acção. É o valor dos homens que caracteriza uma cultura nacional. (…) A nossa História é a de uma cruzada, expansão europeia pela espada de cavaleiros peninsulares. Este percurso resume-se à nossa preparação para as viagens marítimas e à descoberta de novas terras para a Europa».
PINTO, Francisco de Paula Leite, 1960, A lição de Camões à juventude, Lisboa, M.E.N., p.27, 31-32.
«Não se hão-de chamar para as primeiras linhas os fracos, os acomodatícios, os pouco valorosos; mas os fortes, os desinteressados, os que têm na alma um princípio daquelas virtudes superiores que fazem os heróis e os santos.»
SALAZAR, António de Oliveira, 1935, Discursos, Vol. I, Coimbra, Coimbra Editora, p.183. (discurso proferido na Sala de Estado, em 23 de novembro de 1932, no ato de posse dos corpos diretivos da União Nacional).
A evocação das figuras históricas e o tema do heroísmo remete-nos em grande parte para a temática da mitologia que exprime um determinado sentido de existência, um sentido escatológico, associado à predestinação. A mitologia nacional está ligada a uma tipologia do “ser e estar português”, a qual reúne as personagens mais representativas da História nacional que exprimem e contêm, em forma de virtudes, os objetivos coletivos de uma nação.
O conceito que está subjacente ao tema dos heróis prende-se com a ideia que um povo faz de si próprio, dos períodos e das grandes personagens que engrandeceram a sua história, valorizando-a num contexto mais alargado.
Os mitos e os heróis fazem parte da memória histórica coletiva de todas as sociedades porque se transformaram em produtos do imaginário. As suas virtudes, sejam elas de qualquer natureza, sofrem um processo de hiperbolização, traço obrigatório na caraterização do herói. O herói está ligado ao mito porque a noção que o carateriza decorre da existência de situações míticas.
Ao longo dos vários períodos da História, vários foram sendo as figuras históricas que se vieram a tornar mitos e que foram sofrendo processos de sublimação/reabilitação ou de depreciação, consoante o contexto ideológico que proporcionava o seu surgimento. O momento do desaparecimento físico e material do herói representa a fase do surgimento do mito, no entanto, há também outras figuras que se tornaram mitos sem terem de morrer.
O herói é transformado em mito por meio de um processo baseado na forma como a sua memória é evocada pela sociedade. Uma caraterística importante do mito é que este mantém geralmente uma imagem jovem, imutável e viril que perdura na história e nunca envelhece, nunca se transforma, nunca demonstra qualquer fraqueza, em suma, nunca “morre” na memória nacional, impõe-se à sociedade, não se discute nem se questiona.
O debate em torno deste tema tem vindo a intensificar-se nas últimas décadas graças aos estudos de vários autores nacionais e estrangeiros394, com o objetivo de aprofundar conhecimentos e desbravar caminhos dentro da temática complexa que é a mitologia. Sobre o imaginário mítico português, mais especificamente, também alguns autores se
394 O estudo dos mitos foi explorado por vários autores, dos quais destacamos: Roland Barthes (1988); Mircea
Eliade (1978, 1986); Claude Lévi-Strauss (1989); António Quadros (1982); Hans Georg Gadamer (1992), António José Saraiva (1985), Yvette Centeno (1993); Nicole Ferrière Caverivière (1988), Victor Jabouille (1993); Luís Díez del Corral (1974); Roger Caillois (1980); Raymond Trousson (1965, 1981): Pierre Brunel (1994); Oliveira Martins (1986); Dalila Pereira da Costa (1978); Eduardo Lourenço (1982, 1985); Francisco de Salles Loureiro (1989); Ana Isabel Buescu (1993).
debruçaram395no sentido da procura de explicação das origens e das unidades míticas que constituem esse imaginário dentro do contexto da memória histórica nacional.
A evocação do mérito do herói pode perdurar durante longos períodos de tempo, décadas ou séculos, mas também pode acontecer que tenha uma evocação de duração efémera, uma vez que a sua principal função é a legitimação do poder e do reforço da consciência nacionalista, por isso, pode existir enquanto os regimes assim o desejarem e/ou necessitarem deles.
O herói serve de elemento de identidade com o qual o indivíduo se identifica e mantém essa relação de identificação. Neste processo a ritualização ocupa um papel fundamental, porque se converte no culto do heroísmo que é indissolúvel do mito. Esta caraterística da identificação não é só primordial para a compreensão da função do herói, mas também para se entender todo o processo de heroicização. A sua função histórica é proporcionar a identificação da nação com a sua personalidade e com os seus atos virtuosos, encarnando o génio coletivo.
O herói é sempre uma imagem do passado que é reconhecido no presente, contrariamente às figuras que não gozam de reconhecimento e caiem no esquecimento. O herói também tem uma função divina, na medida em que a sua missão é estipulada pelo destino e por uma força superior: a prova. A condição essencial para fazer o herói é a adversidade, as condições desfavoráveis, a obstinação e a tenacidade que o obriga a atuar num cenário mais austero, fazendo sobressair as suas virtudes. O conceito de herói é uma ideia que foi sofrendo mutações mais ou menos significativas consoante as épocas. Esta noção remonta à antiguidade clássica, onde o heroísmo se ligava ao divino e onde eram privilegiadas figuras religiosas como os santos, os mártires e as figuras poderosas, que se transformaram em objetos de exaltação e de culto. O herói era um sonhador, um ser que se destacava pela superioridade física e intelectual.
Os mitos são representações coletivas que assumem simbolicamente na estrutura civilizacional em que estão inseridos, a intervenção de entidades superiores e têm suscitado diversas abordagens e teorias. Foram as civilizações ancestrais396, as primeiras a criar os mitos. Mais atuais são os mitos da civilização ocidental que se enquadram no âmbito de uma ciência geral dos signos. Na sua génese, os mitos representam a ligação entre o real e o sobrenatural que decorre da narração, a qual, enquanto depositária fiel de uma cultura, contém
a existência de personagens que combinam a sua natureza sobre-humana com um comportamento humano e se movimentam num espaço indiferenciado entre o real e o transcendental. Dentro desta problemática julgamos poder afirmar que todos os mitos são heróis dentro de um plano ou de outro, mas nem todos os heróis são mitos.
Em Portugal, foi com o declínio da expansão e, sobretudo, com o desastre de Alcácer- Quibir (reflete uma crise na sucessão dinástica e instabilidade nacional), que se instalou na mentalidade portuguesa um espírito depreciativo e derrotista. Este foi contrariado pelo desejo de revalorizar a nação, colocando-a de novo na senda gloriosa dos tempos áureos. É nesta conjuntura que se desenvolve um sentimento de afeição pelos heróis e mitos do passado e do presente numa tentativa de elevar o espírito nacional e as suas energias positivas, que se manifesta a partir dos finais do século XIX correspondendo à sua época de afirmação.
A conjuntura do sistema político de finais do século XIX proporcionou a discussão em torno da temática relacionada com o herói nacional e a procura de novas perspetivas para ultrapassar estas épocas de crise, facto que proporcionou um retorno ao tradicionalismo e, consequentemente, ao culto do heroísmo. Os períodos de crise de uma nação e as suas circunstâncias desencadeiam a procura de soluções muitas vezes firmadas em figuras do passado que tiveram uma ação decisiva em períodos semelhantes, facto que explica a difusão de paradigmas de heroísmo nacional e a clara intenção de perpetuá-las, ou simplesmente afirmar a veneração de determinadas figuras cujo perfil se enquadra nos valores ideológicos defendidos pelo regime político em vigor.
No entanto, é ainda durante a época da Regeneração que surge um manancial de literatura dedicada ao heroísmo cujas caraterísticas e traços de personalidade tinham como objetivo desenvolver o sentimento nacionalista, fomentando o conceito de identidade nacional. Esta tendência remete a nação para a busca do sonho e o regresso às origens da glória. Para que tal se concretize direcionam-se as atenções para figuras messiânicas que se destacaram pelas suas ações virtuosas, capazes de inverter a situação desfavorável desde o início da nacionalidade até à “época de ouro” dos descobrimentos, tentando criar na memória histórica da nação uma imagem de apego ao passado histórico nacional. Esta evocação do passado pretendia estabelecer relações sentimentais com o presente, constituindo este um conjunto de exemplos evidentes e, por isso, aceitáveis. Neste sentido, os heróis do passado faziam parte de uma estratégia em que (…) «les traditions de toutes les générations mortes pèsent d`un poids très lourd sur le cerveau des vivants»397.
397GASPARD, Claire, 1988, “Révolution, révolutionnaires” in: Dictionnaire des Mythes Littéraires, Éditions du
É apenas no século XIX que se assiste à génese da teoria do herói e ao emergir de novos conceitos de heroísmo. É graças à teoria filosófica de Schelling que se verifica o salto qualitativo que foi condição essencial para dar início a uma abordagem moderna dos estudos mitológicos. A sua teoria estabelecia uma relação próxima entre o mito, alegoria e linguagem, relançou a interpretação do mito enquanto simbolismo e introduziu a História como fator de ligação entre o passado e o futuro.
A conceção de heroísmo que defendia que os heróis eram dados à história através da providência divina, devido aos seus feitos serem sempre vistos como sacrifícios indispensáveis à pátria ou males necessários que se impunham na sua missão foi recusada pelos positivistas que desvalorizavam as ações guerreiras dos homens e consideravam que as explicações teológicas e metafísicas estavam ultrapassadas. No entanto, esta conceção foi retomada nos finais do século XIX devido à crise dos valores liberais. Nesta época impunham-se a importância da ação dos homens e a afirmação de messianismos aprendidos nos exemplos da História.
A visão do herói enquanto prestador de um serviço à pátria divulgou-se em Portugal através do Positivismo. O herói mítico detinha caraterísticas divinas e humanas, o que pode levar a afirmar que o divino e o humano interagem numa mesma personagem. Possui qualidades de um guia, de condutor de destinos e de almas, comparando-se a messias porque assume as aspirações e os desejos da pátria. A sua dimensão humana transforma-se no símbolo que a partir daí encarna.
Em Portugal, o século XIX representou o período em que a projeção do passado nacional ganhou maior relevo numa fase em que a questão da manutenção da independência política voltava a estar em debate. A época do Romantismo foi o impulso para a mudança do conceito de heroísmo desenvolvida sobretudo por Oliveira Martins, Teófilo Braga e Latino Coelho.
O herói guerreiro era relegado para um plano secundário, justificação atestada pela divulgação do (…) «ideal pragmático de progresso científico, económico, tecnológico e educacional, bem como a difusão de uma ideia nacionalista ecuménica»398. O herói clássico era o herói virtuoso e poderoso, cujo estatuto tocava as qualidades divinas e/ou de santidade. O herói destacava-se porque se distinguia pela sua força, sabedoria e espírito de iniciativa para revelar o futuro. Além de iniciador, é também salvador, protetor e aquele que defende
necessidades, tendo sempre em vista o ideal do bem comum. É o detentor de uma ética moral que faz consistir o bem no interesse e dedicação pelos seus semelhantes. São os protetores e os defensores dos interesses nacionais que tiveram uma ação decisiva em determinado período da História e que se unem em prol do ideal coletivo. Esta conceção de herói como elemento utilitário da nação terá tido como percursores Teófilo Braga, Teixeira Bastos e Ramalho Ortigão, nos finais do século XIX.
O conhecimento do passado era considerado fundamental para funcionar como motivação nacional enquanto (…) «elemento de formação moral e cívica»399. A visão da
História enquanto “mestra da vida” defendida por Cícero é adotada porque a História passa a conter intrinsecamente um valor formativo, mas também uma função política e ideológica e desempenhava um papel unificador no contexto nacional.
Até aos finais do século XIX, o conceito dominante em termos historiográficos pressupunha a conciliação entre as figuras históricas exemplares e as necessidades pragmáticas da época que representavam uma finalidade doutrinária. É também nesta fase que começam a surgir por toda a Europa movimentos de inspiração nacionalista, sobretudo devido ao surgimento dos movimentos fascistas em Itália e nacionalistas em Espanha.
Em Portugal houve um renascer do sentimento nacional que promoveu iniciativas tendentes ao renascimento de cultos e mitos das glórias do passado e de heróis nacionais. A este contexto, a que se uniu o sentimento de desânimo nacional resultante do desastre da batalha de La Lys (1918) que constituiu a maior catástrofe militar portuguesa depois da batalha de Alcácer-Quibir (1578) e as desilusões do sidonismo, aliou-se o aparecimento de diversos movimentos de direita de inspiração nacionalista e católica conservadora que procuravam mobilizar as massas através da recriação de figuras míticas da heroicidade e virtude pátria.
A velha conceção do herói relacionado com os feitos guerreiros e militares, passou para um plano secundário. A escolha de representações sobre o perfil nacional passa a ser imposta pela memória histórica nacional, influenciada pelo Romantismo, movimento que marca esta conceção de heroísmo, enquanto representante do caráter nacional. Assiste-se neste contexto à defesa de uma nova conceção de heroísmo: a figura ligada à cultura, à civilização e ao império400, em suma, ao seu valor intelectual de cariz laico e foi nesta
399 MATOS, Sérgio Campos, 1992, História, Positivismo e função dos Grandes Homens, Separata da Revista
Penélope, nº8, p.51.
perspetiva que Luís de Camões, o Infante D. Henrique e Vasco da Gama surgiram como vultos de grande projeção nacional por serem figuras históricas de âmbito universalista.
Foi com o advento da I República que o conceito de patriotismo se tornou a base do sentimento nacional. A glorificação histórica e artística começou a frutificar, uma vez que os valores religiosos estavam arredados da educação cívica por haver uma total separação entre a Igreja e o Estado laico.
O Romantismo destacava em primeiro plano o modelo de herói artista, sendo Camões o seu maior expoente. Ele representa também o protótipo do herói criador que evoca a epopeia antiga. Camões manteve-se como personalidade mais representativa do caráter nacional até à década de 90, altura em que começou a sofrer a concorrência de outros protótipos nacionalistas que começaram a afirmar-se, tais como os mitos nunalverino e
henriquino, mas sobretudo, o primeiro. Esta época de afirmações de novos mitos marca o período que G. Durand apelida de codificação reflexiva401de vários mitos heroicos, processo segundo o qual se destacam os seus exemplos morais.
Também a I República adotou para seu patrono a figura de Camões, esse ilustre homem de cultura que veio a tornar-se a sua imagem e símbolo, fortalecendo o substrato mental de gerações deste período adquirindo uma aura de divindade pelo culto que lhe era prestado.
Após o flagelo da I guerra mundial, Camões passa a partilhar com a figura do Condestável o ideal patriótico. Foram propícias as condições que fizeram surgir esta figura no panorama nacional: com o triunfo do Sidonismo que permitiu um clima mais sereno a nível religioso, Nuno Álvares Pereira surge como redentor do sofrimento moral e físico que se abatera durante o conflito. Esta figura não surge apenas como defensor da pátria contra a invasão espanhola, ele (…) «perpassava também o homem de fé, o guerreiro que no fim da vida se fizera monge, o carmelita que ficara na tradição popular com o nome de Santo Condestável. Ao lado da figura laica de Camões, erguia-se o símbolo de Portugal guerreiro e cristão, personificado no culto de Nuno Álvares que, desde 1918, passou a gozar de uma grande auréola nos meios estudantis e militares, não lhe faltando também a comunhão de um forte apoio popular»402. É na conjuntura referida anteriormente que este herói funciona como dinamizador de projetos políticos, de ponto de referência e de forte inspiração para o futuro.
Em Portugal, é o final do século XIX que marcou a era do culto do heroísmo, naquilo que foi o universo da criação da mitologia nacional. No processo de criação da mitologia nacional existiam discrepâncias significativas que diziam respeito à forma como foram apresentadas as imagens dos vários heróis.
A reabilitação ou construção de novas imagens de figuras históricas dependia da influência das correntes historiográficas como o Integralismo e a tradição cristã. Neste período o paradigma de heroísmo estava relacionado com as benfeitorias patrióticas, sobrevalorizando-se (…) «o herói sem armas, o artista, o pensador e, sobretudo na segunda metade de oitocentos, o cientista, o técnico, o industrial»403, cuja importância estava nos valores e conceitos que a sua imagem divulgava.
Nos finais do século XIX considerava-se que (…) «A História, juntamente com a Geografia e a Língua Portuguesa, deveria contribuir poderosamente para tornar consciente a quantidade de ser português e, cada vez mais, para uma formação moral patriótica»404. Neste sentido, a função da História aproximava-se da função da Instrução Cívica405. É com a valorização destas questões relacionadas com a importância da História enquanto construtora da memória histórica e com o papel que as comemorações centenárias começam a desempenhar que se repensam os perfis nacionais enquanto representantes da memória histórica. Neste âmbito destacam-se as obras de Teófilo Braga e Oliveira Martins, no contexto nacional que buscam em Hegel e Michelet, autores românticos, as ideias por eles teorizadas no âmbito desta problemática.
Oliveira Martins considerava os estudos biográficos como o tipo de representação própria para traduzir o “ser coletivo”. Segundo ele, os “grandes homens” são (…) «como encarnadores (muitas vezes inconscientes) da vontade colectiva, cuja emergência está relacionada com os estádios evolutivos das sociedades»406. Estes surgem sobretudo em fases de prosperidade ou de crise ultrapassada, representando essas épocas. Oliveira Martins considerava também que (…) «todas as grandes épocas das nações afirmam por uma plêiade de grandes homens em cujos actos e pensamentos, o historiador encontra sempre o sistema de ideias nacionais, anteriormente elaboradas de um modo colectivo, atualmente expressas de um modo individual»407. O herói espelha o retrato da nação numa perspetiva sinedoqueísta,
403 MATOS, Sérgio Campos, 1992, Ob. Cit., p.57. 404 Idem, p.56.
405 Que mais tarde se autonomizaria como disciplina específica no curso liceal.
406 TORGAL, Luís Reis et. allii., 1998, História da História em Portugal (sécs. XIX e XX), Vol. I, Lisboa, Temas
e Debates, p.179.
neste caso, da parte pelo todo, do individual pelo plural, com vista a desenvolver os sentimentos morais e a consciência nacional.
Os paradigmas de heroísmo de Oliveira Martins tiveram influência no historicismo do período republicano, ganharam abrangência no campo social e prevaleceram até ao Estado Novo. Este autor divulgava a ideia de “herói coletivo”, onde a nação exprimia a alma coletiva, o génio nacional. Para Oliveira Martins, as figuras heroicas das épocas gloriosas deviam supostamente funcionar como exemplo de patriotismo e de engrandecimento de modo a fomentar o culto da pátria.
O retrato psicológico dos heróis era o reflexo da alma coletiva que teve, por vezes, desfechos menos abonatórios para o percurso glorioso da nação, como o caso de D. Sebastião em Alcácer-Quibir ou o do Infante Santo, em Ceuta. A sua intenção era revelar o simbolismo da nação no contexto das épocas em que viveram, por isso o conceito de heroísmo para Oliveira Martins não é exclusivamente um heroísmo exemplar e nem sempre era o reflexo das glórias da nação, mas o espelho das caraterísticas do povo português. Uma outra caraterística