Kapittel 5. – Drøfting
5.4 Forebygging
No tópico anterior foram abordadas as teorias do valor marginalista e marxista. As duas teorias abordam o comportamento humano para explicar o valor a partir da atividade econômica. Esta sempre existiu, apesar disso, em uma sociedade capitalista, ela é completamente diferente da atividade econômica da Idade Média, por exemplo. Em ambas existe o mercado, porém, a atividade econômica na sociedade capitalista é muito mais dinâmica e competitiva. O padrão de consumo dessas sociedades20 (primitiva, feudal e
capitalista) é completamente distinto. Assim, tendo em vista os objetivos deste trabalho, tem sentido analisar o comportamento do consumidor na sociedade capitalista e não em outra qualquer. Se fôssemos analisar, por exemplo, uma sociedade primitiva em que apenas as necessidades indiscutivelmente necessárias à sobrevivência humana precisam ser satisfeitas, o conceito de qualidade apropriado pelo modo de produção capitalista não teria o mesmo sentido porque o papel do consumidor seria quase nulo, pois “o aparelho produtivo da sociedade já está montado, já está construído e estruturado para satisfazer [uma] quantidade limitada e estática de necessidades.” (SINGER, 1975, p. 15). Podemos admitir que existe qualidade nos bens produzidos em sociedades que não se caracterizam como capitalistas, entretanto a discussão sobre qualidade ocorre, de forma diferente, no contexto de uma sociedade cuja atividade econômica é altamente competitiva e visa ao lucro. Na sociedade capitalista,
o dinamismo, que é gerado no ato de produção, estimula constantemente o consumidor a escolher, a ampliar a escala de suas necessidades, a mudá-las. E na medida em que respondem a esses estímulos, na medida em que seu comportamento muda, ele torna viável uma série de transformações econômicas. (SINGER, 1975, p. 16)
Ao prevalecer o modo de produção capitalista, ele se especializa para criar as condições necessárias à acumulação do capital. Nesse contexto, a discussão sobre qualidade tem seu lugar, porque o mundo corporativo e capitalista se estabelece a partir da competição. Esta se dá entre empresas e, de certa maneira, entre os homens como indivíduos. Mas como o indivíduo pode satisfazer um maior número de suas necessidades se, em função da “maior qualidade”, os preços dos produtos não forem acessíveis?
20 Não estamos considerando o discurso da qualidade no contexto social e econômico de uma sociedade
socialista porque não é objetivo deste trabalho estabelecer comparações entre os modos de produção socialista e capitalista.
O homem tem necessidades que precisam ser satisfeitas e ele produz para satisfazê-las, como diz Adolfo Sánchez Vázquez (2007). Necessidades para viver, ou melhor, para bem viver, pois “o bem-estar e não o estar é a necessidade fundamental para o homem, a necessidades das necessidades” (ORTEGA Y GASSET, 1963, p. 20). Dessa maneira, não basta ao homem existir, mas viver bem, visto que “para ele existir significa desde logo e sempre bem-estar” (ORTEGA Y GASSET, 1963, p. 22). Por outro lado, o homem, sendo parte da natureza, tem necessidades elementares e, como indivíduo, insere-se nas relações sociais. Diferente de outros animais, ele inventa, “cria suas próprias necessidades” (SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 2007, p. 127) e ocupa-se de atividades que não visam diretamente à satisfação de necessidades. O homem primitivo
não sentia menos como necessidade o proporcionar-se certos estados prazerosos que o satisfazer suas necessidades mínimas para não morrer; portanto, que desde o princípio o conceito de “necessidade humana” inclui indiferentemente o objetivamente necessário e o supérfluo. (ORTEGA Y GASSET, 1963, p. 19)
Se o homem quer estar bem no mundo, viver bem, o supérfluo converte-se em necessidade humana porque a ele não basta “o viver em sentido biológico” (ORTEGA Y GASSET, 1963, p. 24). Esse “viver biológico” é uma grandeza fixa tanto para o homem quanto para os animais, mas o viver bem que o homem deseja e tem como meta é algo variável, depende de seu repertório de necessidades. Encontram-se, nesse contexto, o homem, a necessidade e a técnica em uma relação única. As necessidades humanas são variáveis que formam um sistema de necessidades, um repertório para cada homem. A técnica, por sua vez, “é o repertório de atos provocados, suscitados pelo e inspirados no sistema dessas necessidades, [sendo assim] será também uma realidade proteiforme, em constante mutação.” (ORTEGA Y GASSET, 1963, p. 24, grifos no original). Dessa maneira, o repertório das necessidades mobiliza o próprio homem a fazer uso da técnica para viver bem. Este viver bem leva o homem a estabelecer relações com outros homens e com a natureza. Encontra-se ele cercado de facilidades, bem como de dificuldades. Essas são as circunstâncias que se impõem ao homem tornando-o “uma série de relações ativas (um processo)”, como diz Gramsci (1995, p. 39). Sua individualidade tem grande importância e deve ser considerada junto com outros elementos que compõem sua humanidade, pois esta se dá em um processo com o indivíduo, com outros homens e com a natureza, isto é, o homem se relaciona com outros, organicamente, e, ao fazê-lo, “passa a fazer parte de organismos, dos mais simples aos mais complexos.” (GRAMSCI, 1995, p. 39). Assim, o homem só o é quando em relação com
outros e com a natureza. Essa relação do homem com a natureza ocorre “ativamente, por meio do trabalho e da técnica.” (GRAMSCI, 1995, p. 39).
O trabalhador, não sendo detentor dos meios de produção para seu bem viver, tem apenas sua força de trabalho para ceder e para suprir, assim, suas necessidades, seu bem-estar. A força de trabalho é a capacidade física e mental de um indivíduo para exercer uma função produtiva e social, e esta “capacidade tem um custo, que é a soma dos recursos necessários para manter os indivíduos vivos e para garantir sua reprodução” (SINGER, 1975, p. 19). Essa condição indica que o trabalho do homem altera o estado natural de elementos da natureza e, ao fazê-lo, transforma-a para satisfazer suas necessidades (BRAVERMAN, 1980).
Conforme houve a evolução e a expansão do modo de produção capitalista, certas necessidades não são “naturais”, mas invenções que permitiram a consolidação da sociedade de consumo. Na realidade, foram planejadas para serem consumidas e para moverem o próprio modo de produção capitalista. Explico. As necessidades de consumo que são criadas e postas no mercado vão sendo incorporadas como naturais e necessárias à existência do homem. Elas se tornam “naturais” com o tempo e à medida que conseguem estabelecer um valor de uso, ou seja, conseguem apresentar uma utilidade. Marx (2008b, p. 63) diz que “o produto, para se tornar mercadoria, tem de ser transferido a quem vai servir como valor de uso por meio de troca”, dessa forma, um produto que satisfaz apenas a necessidade de seu criador não é mercadoria. A dinâmica da sociedade capitalista é criar um movimento de consumo que preserve sua existência e, para isso, são criados produtos para necessidades que foram inventadas e vice-versa.
A expansão do consumo foi uma das soluções para o desenvolvimento americano. Ali houve não apenas a racionalização, mas também a manipulação das forças subalternas para a consecução dos novos objetivos da indústria americana, representada, principalmente, por Henry Ford (GRAMSCI, 1968). A partir de Ford, tem-se uma mudança significativa: o homem não é apenas trabalhador, mas também consumidor21. A tendência que se delineava
com a sociedade americana era a de criar um novo tipo de homem e “padronizar hábitos de consumo e de conduta” como explica Lincoln Secco (2006, p. 102). O papel do Estado será, nesse contexto, levar a economia ao “estágio monopolista, com a centralização e a concentração industrial” (SECCO, 2006, p. 102). Dessa forma, a produção capitalista se especializa para substituir produtos de tempos em tempos e, desse modo, estimular o consumo do mesmo bem, porém, com outra aparência ou acrescido de funcionalidades.
21 O consumo existe em qualquer sociedade. O termo consumidor aqui utilizado refere-se ao indivíduo que