De facto, com excepção das terras desabitadas [...], descobrir é ir ao encontro de outros homens, é tratar (em plena acepção) com eles [...]. Enquanto um povo não tiver frente a si próprio o espelho de outros povos, será bastante difícil chegar a conhecer-se bem. O conhecimento de si baseia-se no prévio conhecimento de outrem, a que se segue o jogo recíproco dos espelhos. (GODINHO, 1998, p. 72)
Os descobrimentos possibilitaram um confronto de olhares, pois permitiram que as pessoas do “Velho Mundo” se abrissem e dialogassem com o “outro”, com o diferente, isto é, com a diversidade do “outro”. Dessa forma, foi possível ao homem redescobrir-se como um ser coletivo, que não está sozinho no mundo.
Pois o descobrimento foi antes de tudo a instauração destas duas coisas: a criação de uma experiência inédita da universalidade, e de uma universalidade que soube deixar-se “A palavra falada foi a primeira tecnologia pela qual o homem pode desvincular-se de seu ambiente para retomá-lo de novo modo. As palavras são uma espécie de recuperação da informação que pode abranger, a alta velocidade, a totalidade do ambiente e da experiência. As palavras são sistemas complexos de metáforas e símbolos que traduzem a experiência para os nossos sentidos manifestos ou exteriorizados. Elas constituem uma tecnologia da explicitação. Através da tradução da experiência sensória imediata em símbolos vocais, a totalidade do mundo pode ser evocada e recuperada, a qualquer momento.”
Parte do Nautical Atlas, elaborado por cartógrafos de Dieppe, França, em 1538.
perpassar pela prática da invenção de um espírito crítico também ele inédito. (BORNHEIM, 1998, p. 20)
Por meio da expansão marítima, o homem reconheceu-se em relação à alteridade do “outro”, ao vivenciar as diferenças, dando vida nova aos propósitos das grandes navegações. Podemos ver a presença do “outro” e a identidade desse sujeito em muitas cartas náuticas, que continham narrativas sobre os povos que habitavam as terras descobertas. De fato, a descoberta de si mesmo, de ver-se como ser pensante e autoconsciente, que foi a grande descoberta do homem moderno ao permitir-se às experiências de descobrimento do mundo.
Somos formados e transformados por meio de nossas experiências. “É experiência aquilo que ‘nos passa’, ou que nos toca, ou que nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma. Somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação.” (BONDÍA, 2002, p. 26) Nesse sentido, temos a experiência como um ato que dá origem ao próprio sujeito.
A construção da identidade do sujeito tanto se dá no sentido das experiências possíveis como por meio de trocas com os “outros” e com o meio. Conseguimos compreender o “outro” e resgatar suas experiências por meio de narrativas e diálogos, sendo que é nesse contato com o “outro” que nos complementamos como sujeitos.
As experiências e a troca com o “outro”, dessa maneira, agem no sujeito com o objetivo de configurar “uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, em definitivo, uma forma humana singular de estar no mundo”
(BONDÍA, 2002, p. 27). Todavia, o sujeito é um lugar de ambivalência e incompletude, uma obra que está sempre aberta a transformações.
“Assim, a personalidade que se exprime, apreendida, por assim dizer, do interior, revela-se um produto total da inter-relação social.” (BAKHTIN, 1992, p. 117) Para o sujeito definir-se como autor de si mesmo é necessária a colaboração do “outro”, pois somente o “outro” pode dar ao “eu” um sentido para sua própria personalidade. O “eu”, para Bakhtin, só existe na interação com o “outro”, o “eu” só se vê através dos olhos do “outro” e suas palavras são um resultado da incorporação das palavras alheias, transformadas dialogicamente para tornarem-se palavras pessoais (como diz Bakhtin, é a perda das aspas).
Tudo o que me diz respeito, a começar pelo meu nome, chega do mundo exterior à minha consciência pela boca dos outros (da minha mãe, etc.), com a sua entonação, em sua tonalidade valorativa-emocional. A princípio eu tomo consciência de mim através dos outros: deles recebo as palavras, as formas e a tonalidade para a formação da primeira noção de mim mesmo. (BAKHTIN, 2003, p. 373-374)
Para Bakhtin, a alteridade é condição da identidade, define o ser humano, pois o “outro” é imprescindível para a sua concepção. “Ser significa comunicar-se” (TODOROV apud BARROS, 1996, p. 23).
Ao narrar sobre minha vida cujas personagens são os outros para mim, passo a passo eu me entrelaço em sua estrutura formal da vida (não sou o herói da minha vida mas tomo parte nela), coloco-me na condição de personagem, abranjo a mim mesmo com minha narração (BAKHTIN, 2003, p. 141).
O modo de o sujeito posicionar-se no mundo é através de sua fala. As narrativas possuem a capacidade de estabelecer lugares de fala, posições na rede social, tornando possível a manifestação dos sujeitos e possibilitando performances por meio das quais se estabelecem identidades. “O sujeito
atravessado e feito por narrações desprovidas de autoria torna-se singular na feitura, ou montagem, dessa narrativa composta por díspares forças do mundo.” (BAPTISTA, 2008, p. 67)
Durante os processos de comunicação, cada pessoa desenvolve suas estratégias de distinção, o que lhe possibilita criar uma identidade narrativa. É a partir da posição que o sujeito ocupa na narrativa, como autor/ator, que este irá enxergar o mundo, a si mesmo e o “outro”.
Afinal, narrar significa buscar e estabelecer um encadeamento e uma direção, investir o sujeito de papéis e criar personagens, indicar uma solução. As narrativas, assim, tecem a experiência vivida e podem aparecer no cotidiano, contadas pelos seres humanos, ajudando-os a viver e agrupando-os, distinguindo-os, marcando seus lugares e possibilitando a criação de comunidades. (LEAL, 2006, p. 20)
Bakhtin diz que o homem é um ser dialógico por natureza, demonstrando o poder da palavra no processo de constituição dos sujeitos. Para Bondía (2002), o homem é palavra e se dá em palavra, ou seja, o homem é tecido por palavras.
Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente “raciocinar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos tem ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem-sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E, portanto, também tem a ver com as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso. (BONDÍA, 2002, p. 21)