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Benjamin leu obras de muitos teóricos de literatura marxista, mas com um interesse crítico. A função do método materialista marxista no pensamento de Benjamin “trata-se mais de um método de denúncia que de explicação.” (GAGNEBIN, 1993, p. 50)

O pensamento de Benjamin ocupava-se principalmente com a tentativa de elaborar uma

Walter Benedix Schönflies Benjamin

concepção de história, contudo afastada da historiografia tradicional que mostra apenas a versão dos vencedores, uma visão dominante e triunfalista.

Por ser humana, a história é ambígua e inesgotável, pois “o conhecimento histórico implica a correlação entre subjetividade e objetividade, na medida em que relaciona [...] o passado dos homens de outrora e o presente dos homens de hoje.” (RICOEUR, 2007, p. 349) Ou seja, a história é a ciência dos homens no tempo, é o conhecimento cientificamente elaborado do passado, é o conhecimento por meio dos rastros, vestígios, indícios de memória. Nessa perspectiva, “o rastro é para o conhecimento histórico o que a observação direta ou instrumental é para as ciências naturais.” (Idem, p. 180) A concepção de conhecimento de Benjamin está pautada em sua concepção de história.

Em sua tese Sobre o Conceito de História, Benjamin reflete sobre várias questões, por exemplo:

como pensar o tempo da história? Como escrever a história, como fundar uma historiografia que não faça do presente o resultado previsível de um desenvolvimento necessário, mas que sai a revelar o possível – o que foi um dia possível no passado, e o que é possível hoje? (GAGNEBIN, 1993, p. 20)

Portanto, Benjamin não pensava a história como estática, imutável e linear, mas a partir de uma teoria da memória e da experiência. A visão descontínua da história que possuía era concebida como recortada em imagens: “imagens utópicas, essas cenas paralisadas e enigmáticas, carregadas de significação, a que somente o olhar do presente decifraria e devolveria o movimento, transformando-as em imagens dialéticas.” (MURICY, 1999, p. 35)

A história será sempre incompleta, inacabada, uma perpétua reescrita, sendo a memória o impulso que viabiliza a chance de reconstruir a história. Apesar de ser composta por inúmeros atores a história é una, onde uma história individual articula-se na outra, ao final, todas as histórias se

constituem entre si, tecendo uma rede. Assim, a história do passado do mundo é uma só, no entanto, existem diferentes olhares sobre os acontecimentos que vivenciamos, de modo que podem existir diversas formas de narrativa sobre um mesmo acontecimento, que representam os pontos de vista dos vencidos e dos vencedores, dos dominados e dos dominadores. São esses diferentes olhares, por vezes dissonantes e contraditórios, que tecem a história a partir de distintas memórias, apresentando-se como interlocutora de todas as memórias individuais.

Cada história é o ensejo de uma nova história, que desencadeia uma outra, que traz uma quarta etc.; essa dinâmica ilimitada da memória é a da constituição do relato, com cada texto chamando e suscitando outros textos. Mas também um segundo movimento, que, se está inscrito na narração, aponta para mais além do texto, para a atividade da leitura e da interpretação. (GAGNEBIN, 1986, p. 13)

Essa história não oficial, que se opõe à história dos vencedores, “não pretende dar uma descrição do passado ‘tal como ele ocorreu de fato’; pretende fazer emergir as esperanças não realizadas desse passado, inscrever em nosso presente seu apelo por um futuro diferente.” (GAGNEBIN, 1993, p. 58) Para que isso ocorra, é necessária uma experiência histórica que seja capaz de fazer a ligação entre o passado e o presente. Essa experiência, segundo a teoria benjaminiana, tem uma de suas origens no modelo de narração, que faz com que um passado comum torne-se permanentemente vivo nos relatos dos narradores.

Benjamin retirava da tradição judaica um modelo de leitura aplicada aos textos sagrados, assim, considerava que a interpretação de um texto não deveria pretender determinar-lhe um sentido definitivo, cristalizando-o e reduzindo-o a um significado único. Antes, carecia atribuir-lhe uma leitura infinita, não tendo como meta estabelecer a verdade definitiva, mas tornando “possível a descoberta de novas camadas de sentido até então ignoradas.” (GAGNEBIN, 1993, p. 35)

A experiência da leitura dos textos sagrados, que nenhuma interpretação chegará jamais a esgotar, une-se à experiência transmitida pelo narrador antigo: a de que a história é aberta, inacabada, e não pode ser definitivamente interpretada, nem pela teoria “materialista” ou “científica” do progresso, nem pela visão triunfalista dos vencedores, mas pode e deve ser contada de outra forma, incumbindo a nós dar-lhe um outro sentido. (GAGNEBIN, 1993, p. 71)

Ao tratar os textos profanos como se fossem sagrados, vemos surgir uma obra aberta que incita a profusão dos sentidos, devido ao seu não acabamento intencional. A história, dessa maneira, apresenta-se como uma cartografia do pensamento, considerando seus ritmos e movimentos. Para Benjamin, essa nova construção, esses novos sentidos podem ser dados à história através da alegoria, sendo capaz de dizer algo além de si mesma.

Benjamin analisa a oposição entre os conceitos de símbolo e alegoria, onde “o símbolo é sinônimo de totalidade, de clareza e de harmonia, enquanto a alegoria é recusada por sua obscuridade, seu peso e sua ineficiência.” (GAGNEBIN, 1993, p. 41) Desse modo, a atribuição de sentido à imagem do símbolo é natural, transparente e imediata, já que possui uma forma harmoniosa de sentido. Em relação à alegoria, sua forma de significação é arbitrária, resultado de uma construção intelectual, pois pretende uma tradução sensível ao invés de revelar o sentido imediatamente. “Como o próprio nome o indica, a alegoria fala de outra coisa que não de si mesma”. (idem)

A alegoria traz a ideia de incompletude, sendo que uma obra não basta a si própria, necessitando sempre recorrer a um sentido exterior. Para Benjamin, “esse caráter arbitrário, deficiente e conceitual de alegoria define uma arte certamente diferente da concebida pela harmonia clássica, mas da mesma forma legítima, talvez a única legítima para a época moderna.” (GAGNEBIN, 1993, p. 42)

Com tamanha flexibilidade e elasticidade, a alegoria busca alcançar um entendimento, motiva a investigar o lócus da significação e a libertar o

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. (Benjamin, 1986, p. 226)

sentido de onde esteja escondido. A alegoria manifesta um ou mais sentidos que o da simples compreensão literal, já que “na mão do alegorista o objeto se transforma em algo diferente, se transforma na chave de um saber oculto.” (CALLADO, 2006, p. 75) O vínculo entre alegoria e conhecimento possibilita a apresentação de novas ideias, no qual a alegoria permite “expandir significações para além de si mesma, ou seja, no outro” (Idem, p. 101).

O próprio Benjamin utilizava-se dos artifícios da alegoria para falar sobre a história, anunciando um novo conceito que está em contraste com a história oficial e linear. Diante da imagem alegórica do anjo de Paul Klee, quadro intitulado Angelus Novus, Benjamin faz uma interpretação sobre a ruína da cultura ocasionada pela tempestade trazida pelo progresso.

Tempestade é metáfora para a velocidade trazida pelo progresso. Ela não permite mais que o homem se detenha para praticar a ação salvadora. O ritmo que a máquina impõe ao homem o desestabiliza, impedindo-lhe de ter tempo para reparar na realidade, retirar o que lhe resta de humano e pretende compensá-lo com o ideal de um humanismo abstrato que tem seu herdeiro legítimo na própria máquina. [...] Foi o que Benjamim presenciou na Primeira Guerra, quando a tecnologia em vez de libertar, propiciou a experiência da destruição. (CALLADO, 2006, p. 79)

Contra a tirania dos mecanismos da ideia de progresso, a alegoria possibilita a recuperação do sentido do mundo, resgatando o que merece ser salvo. E contra essa repetição viciada imposta pela máquina, Benjamin constrói o despertar, ligado à rememoração, que se constitui em força combativa à hegemonia. “O processo de estilhaçamento utilizado por Benjamin se chama crítica. E o alvo é o conhecimento que se desviou do destino do homem e se transformou em instrumento de manipulação” (CALLADO, 2006, p. 83).

Para combater essa concepção de progresso, temos a revolução como uma forma de resgate, que mobiliza os meios para o aparecimento do novo, de uma nova história que surge “não mais como uma ideia eterna do passado, mas que cintila no presente, em forma de uma iluminação profana” (CALLADO, 2006, p. 22). Recorre-se à iluminação profana do pensamento para retirar a história do conformismo (catástrofe), um resgate que não pode prescindir da memória. “Na história o eterno é opressor. É no transitório que se inscreve a salvação.” (Idem, p. 96) Nesse sentido, para Benjamin, uma forma de manter posição contrária à ilusão de progresso e à história oficial e linear é escovando a história a contrapelo, de modo a reescrevê-la em outra perspectiva.

Temos também outra obra de arte que, de forma alegórica, fala sobre essa concepção avassaladora de progresso: o filme Tempos Modernos, 1936, do cineasta Charles Chaplin. Em sua narrativa, Chaplin quis passar uma mensagem social, sendo que cada cena foi trabalhada com essa finalidade. O filme representa o afastamento crescente das expectativas que criamos em relação às experiências que vivenciamos, é uma sátira ao caráter de fragmentação e especialização das tarefas modernas. “A abertura do horizonte de expectativa designado pelo termo ‘progresso’ é a Cena do filme “Tempos Modernos”.

condição prévia da concepção dos Tempos modernos como novos” (RICOEUR, 2007, p. 312).

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