Tudo começa com uma insatisfação, uma esperança e uma aposta. Passo a passo os navegadores começaram a romper sua clausura medieval e lançaram-se aos mares, um “verde mar de pesadelo e escuridão”. Porém, nem pesadelo, nem escuridão, o Atlântico seria, isso sim, o caminho para revelações acerca do mundo.
Frente às limitações da época, mesclavam ignorância e medo, mas os marinheiros quebraram as barreiras do ceticismo e da incredulidade popular, conquistando novas possibilidades e desafiando a finitude dos espaços.
Lançando-se ao além-mar, expandiram suas fronteiras avançando sobre os limites do mundo então conhecido.
Os navegadores levantavam âncora com o objetivo de conhecer outros horizontes, de estabelecer relações com novas gentes, de revelar um novo mundo.
Todo o nosso mundo, o Mundo Novo, foi construído a partir de uma radical experiência de ruptura: o homem novo, que pelas navegações parece incompatibilizar-se com as suas próprias raízes, promete a si mesmo um mundo totalmente outro. Sua missão é nova: a construção de um mundo realmente inédito. (BORNHEIM, 1998, p. 18)
Aqui, neste trabalho, propomo-nos também a uma experiência de ruptura, mas em outro campo de investigação, o campo da Educação. Intentamos buscar argumentos e ferramentas que nos possibilitem caminhar em direção ao rompimento com as bases do tipo de educação hoje instituída, um tipo de Educação Tradicional, muitas vezes velada sob uma roupagem mais avançada proporcionada pelas tecnologias, o que propicia poucas condições para a construção do conhecimento. A partir daí, dessa incompatibilização, será possível dirigir um novo olhar em busca de outro tipo de educação, a fim de concebermos dialogicamente práticas educativas conectadas às demandas de nossa sociedade.
A forma de mediação educativa que será adotada em sala de aula “é dependente da identidade que o professor possui, mostrando que o uso das mídias num processo escolar que favoreça a produção do conhecimento vai muito além da presença das tecnologias na escola.” (TOSCHI, 2010, p. 13)
Assim, torna-se latente a necessidade de promoverem-se espaços de discussão sobre as tecnologias e a educação e sobre a formação dos futuros professores. Nesse contexto, o foco das discussões aqui tecidas é a importância da reflexão e do desenvolvimento de uma metodologia de ensino que potencialize o processo ensino-aprendizagem mediado pelas tecnologias,
como também a importância da preparação dos professores para experienciarem essas linguagens nas salas de aula.
Destaca-se, portanto, o professor como sujeito desta pesquisa, que tem sido alvo de muitas discussões a respeito do uso das mídias na educação e que por diversas vezes é incriminado pelos fracassos da educação brasileira.
A base deste trabalho, portanto, não está na importância de ter-se uma tecnologia (televisão, rádio, computador) na sala de aula, mas, sobretudo, nas mudanças pelas quais vêm passando as relações sociais com a presença de um número cada vez maior de diferentes tecnologias em nossa sociedade. Mudanças que não afetam apenas as formas de relações sociais, como também as atitudes, os valores e a identidade dos sujeitos, fatores que influenciam o contexto educativo.
Um dos grandes responsáveis pela decisão de como serão as relações sociais em sala de aula é o professor, quem poderá dar uma maior abertura e incentivar as novas formas de interações comunicativas, explorando-as para construir o processo ensino-aprendizagem, ou poderá podá-las, impondo apenas o seu discurso.
O presente trabalho pretende, diante dessas colocações, esboçar os fios que tecem uma formação de professores tendo em vista a presença das tecnologias nas escolas, por meio da experiência e da colaboração de atores e de estudiosos do campo, e traçar os itinerários iniciais de uma proposta metodológica de ensino que busca estar em consonância com a sociedade em que vivemos.
Nas últimas décadas, diversos trabalhos vêm discutindo sobre o processo de formação de professores e sobre o que diz respeito à sua formação científica e pedagógica: isso se deve ao entendimento de que ainda há uma grande deficiência na formação destes profissionais. Atualmente é válida a idéia de que o professor deve estar em constante processo de aperfeiçoamento e que, além da sua formação inicial, ele deve estar sempre em uma formação continuada. (DANTAS, 2009, p. 72)
Observamos também outro ponto a ser analisado: apenas os futuros professores terão uma formação que contemplará a reflexão sobre as tecnologias na prática docente, entretanto, as tecnologias estão presentes hoje nas salas de aula. Assim, questionamos: e toda essa gama de professores que são responsáveis hoje pela educação brasileira, qual a formação que receberam? Além do mais, conforme já discutido anteriormente, o campo das tecnologias altera-se a cada dia, novos hardwares e softwares são criados, novos usos para as velhas tecnologias são inventados, como o professor poderá acompanhar essas transformações e ter sua prática docente sempre atualizada?
São muitos os questionamentos, mas é a dúvida que provoca o conhecimento, se nos dispusermos a investigar e a agregar algo novo. Somente desse modo podemos promover uma mudança na cultura formativa que possuímos.
Todavia, essa empreitada requer uma longa jornada, assim, lançamo-nos ao mar com o objetivo principal de traçar os itinerários iniciais de uma proposta metodológica de ensino e de uma formação docente, que potencializem o processo de ensino-aprendizagem ao explorar as possibilidades apresentadas pelas tecnologias à educação, bem como analisar a necessária mudança de postura dos professores, tendo em vista os novos fundamentos da educação incitados pela emergência de um novo tipo de sociedade que se apresenta na era da comunicação em rede.
Contudo, durante essa jornada, outros objetivos específicos também devem ser considerados, tais como:
• Investigar a relação entre narrativa-experiência-memória como promotora de processos de criação e multiplicação de conhecimentos, buscando entender como a narrativa de experiências rememoradas pode colaborar para a prática docente; • Analisar, por meio da realização de uma oficina teórico-prática sobre
professores do Distrito Federal para atuar com as tecnologias tem sido promovida e como ocorre o processo de mudança de expressão dos professores participantes, ao longo das discussões e atividades empreendidas, frente às inúmeras potencialidades educativas das narrativas audiovisuais; e
• Iniciar um estudo sobre as bases pedagógicas e metodológicas de um processo educativo voltado para a exploração das tecnologias comunicacionais na educação, tomando como pontos de partida a concepção de Educação Hipertextual e as teorias de Mikhail Bakhtin e de Walter Benjamin, bem como as experiências e as colaborações de atores e de estudiosos do campo.
Nesse sentido, buscamos resgatar a experiência dos professores que participaram da oficina teórico-prática com o propósito de recuperarmos, por meio de diálogos abertos, seus olhares e suas memórias sobre a formação docente e a prática educativa na era da comunicação em rede. A partir dessas narrativas, tentamos perceber, inspirados nas Cartas-Portulano, os diferentes percursos seguidos por cada participante da pesquisa para refletirem sobre um mesmo tema principal.
Ao tomar as narrativas como objeto de estudo, buscamos entendê- las enquanto meio de intercâmbio de experiências (de ensino-aprendizagem), de manutenção da memória coletiva, e também como possibilidade de rupturas, de distinção e de criação de caminhos alternativos. As narrativas representam o foco do nosso olhar pesquisador, por meio do qual buscamos compreender as múltiplas transformações que atravessam o cenário educacional brasileiro.
Portanto, a pesquisa foi realizada por meio da interação com atores do campo da Educação, dialogando com docentes atuantes nas salas de aula do ensino público do Distrito Federal, na tentativa de reunir essas experiências com o objetivo de analisar as questões aqui levantadas sobre a formação dos professores e a potencialização da prática educativa com as tecnologias.
Essas questões e as principais ideias acima aventadas estão presentes no programa da oficina teórico-prática que foi ofertada aos professores em exercício, com a intenção de avaliar, por meio de debates, como essas diferentes visões poderiam contribuir para a elaboração de uma proposta de abordagem educativa relacionada com as tecnologias. Refletimos, portanto, sobre o nosso cotidiano, (re)pensando formas de desenvolver nossa atuação como educadores. Assim, tecemos aqui um estudo polifônico sobre a docência na era da comunicação em rede.
O efeito pluralístico da polifonia ocorre com a substituição da “verdade universal” pelo diálogo de vozes-consciência. Essa multiplicidade de vozes constituem os diferentes fios que tecem os significados/conhecimentos em forma de rede.
II – NARRANDO AS NOVAS
DESCOBERTAS
A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos. Marcel Proust