Como vimos anteriormente, Campbell (1990) define o mito como sendo um modelo de vida, revelando aquilo que os homens têm em comum. Cada era, vivida pela humanidade, segue determinado mito. Segundo Johnson (1993), o mito acompanha certo período, expressando o que irá acontecer e, com isso, traz sábios conselhos para se lidar com os elementos psicológicos desse momento. “No mito de Parsifal e a busca do Santo Graal – cálice da
Última Ceia – encontramos a receita para nosso próprio tempo” (Johnson,
1993, p. 9). Isso acontece já que idéias, atitudes e conceitos atuais tiveram suas origens nos tempos em que este mito surgiu.
O mito do Graal é como um conto de fadas. Seu enredo baseia-se na busca de uma preciosidade difícil de ser obtida e da libertação de um feitiço. Essa história se entrelaça com uma lenda cristã, sendo a preciosidade o recipiente onde José de Aritmatéia recolheu o sangue de Cristo ao descê-lo da cruz. 1 . H , - # # & &! & ! # (Franz, 1980, p. 09).
A origem da lenda do Graal é incerta. Ela faz parte dos chamados
Contes bretons, mais especificamente dos Romances da Tábula Redonda, que
se baseiam em torno da figura do rei Arthur e dos feitos de seus cavaleiros. Além disso, esses contos contêm um elemento familiar às mulheres: o irracional, isto é, o mundo das fantasias. “Os poemas do Graal nasceram
provavelmente de uma necessidade de dar um desenvolvimento criativo a certos problemas que permaneceram abertos como o da sexualidade, o da
Ilustração acompanhando a história do Graal,
“L’Estoire du Graal”, início do século XIV
Podemos perceber neste mito a tendência à irracionalidade e o simbolismo do “país do além”. Além disso, é evidente a presença do feminino. Em conjunto, esses elementos expressam a reanimação do inconsciente em épocas dominadas pela cultura da religião. O “país do além” é um traço do mundo das idéias célticas. Além de ser morada dos mortos, também é um país dos vivos. “É um país isento de doenças e de morte, no qual os homens vivem
ao lado de seres semelhantes a deuses, saboreiam deliciosos pratos e bebidas e ouvem música maravilhosa. Como, no entanto a humanidade perdeu esse país, é menor o número de eleitos que ainda podem encontrar o caminho que leva a ele” (Franz, 1980, p. 17). Podemos assemelhar este país ao Jardim do
Éden. Da mesma maneira que fomos expulsos do paraíso e não temos acesso a ele, não é fácil entrar no país do além. Este país, no mito, aparece como o reino do Graal, governado pelo Rei do Graal.
Penso ser necessário enfatizar que alguns aspectos do mito aparecerão diversas vezes de diferentes formas. “Os mitos repetem o mesmo tema muitas
e muitas vezes, de modo diverso, mostrando um mesmo princípio que se manifesta em diferentes níveis” (Johnson, 1993, p. 31). Assim, aspectos como
anima, relação simbiótica, alteridade e feminino aparecerão no mito repetidamente. ! " # $ % & & ' $ ( )& ' & # )* & & ) &
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O ferimento do rei reflete-se no bem-estar de seu reino. Este ferimento, independente da versão do mito, deixa o rei infértil, sem capacidade para produzir, para gerar. O reino depende da virilidade e do poder de seu
governante. Sociedades primitivas, segundo Johnson (1993), ainda hoje executam seu rei se este for incapaz de gerar descendência. “A crença é de
que o reino não vai prosperar sob um rei fraco ou enfermiço” (Johnson, 1993,
p. 14). Há aqui a sugestão de uma consciência matriarcal operando, quando não se dissocia parte e todo. Se a parte, o rei, está enferma, toda a comunidade adoecerá.
Podemos pensar, então, no rei como o Self de sua comunidade. Assim, ele é o espírito divino da tribo, o que faz com que dependa dele o bem-estar físico e psíquico de seu povo, já que ela é orientada por ele. Desse modo, “no
nível cultural primitivo, ele é sempre ritualmente morto após determinado tempo ou quando manifesta sinais de doença ou de senilidade, a fim de que o ‘espírito’ da tribo possa prosseguir a sua atuação de modo mais efetivo no corpo do seu sucessor” (Franz, 1980, p. 142).
É possível relacionar o Rei Pescador a Deus e o seu reino à sociedade atual. Como vimos, Deus está morto para o homem moderno (Whitmont, 1990). Porém, esta morte tem seus efeitos na humanidade. O homem alienado, além de sentir-se abandonado, está sempre à procura do que foi perdido. Com isso, para sentir-se útil e feliz, o indivíduo produz, utiliza, além dos seus, todos os recursos da natureza, destruindo-a, rompendo a harmonia que caracterizava a relação do homem com seu meio na fase matriarcal. Porém, se no nível cultural
primitivo é de se esperar que haja a morte do rei para que a comunidade
prossiga com outro sucessor, a morte de Deus já era “esperada” e acarreta o aparecimento de outro rei. Talvez agora seja à hora de percebermos o divino de outra maneira, sem que haja um rei masculino poderoso, e sim, resgatando aspectos femininos inconscientes para os encontrarmos em nós mesmos e, assim, avançarmos um nível da evolução da consciência. Franz (1980) cita um pensamento de Jung em relação à morte de Deus e à evolução da consciência, com a ação do aspecto feminino de integração:
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1$ ( & D + ) + ' , - . $ F ' / * , - 4 & "# (Franz, 1980, p. 142).
Em outras palavras, o Self “envelhece” durante o tempo e, por isso, deve rejuvenescer. Isto pode acontecer, também, com a presença de uma figura nova em seu lugar. Com isso, a vida psíquica se auto-renova permitindo que seus aspectos inconscientes estejam eternamente novos e surpreendentes.
Parsifal será o sucessor do Rei Pescador, como veremos adiante. Porém, a doença do rei não o deixa morrer, o que impede que esta renovação aconteça. Penso que o que pode estar impedindo a presença de um sucessor para Deus é o medo que a humanidade tem de assumir seus aspectos femininos.
No mundo céltico cuja religião era pré-cristã, o salmão representa todos os peixes. É o animal da ciência sagrada. “O salmão é um dos símbolos da
sabedoria e da alimentação espiritual” (Chevalier, 2008, p. 799). O peixe é o
símbolo das águas; com isso, está associado ao nascimento ou à restauração cíclica. “Se Cristo é freqüentemente representado como um pescador, sendo
os cristãos peixes, pois a água do batismo é seu elemento natural e o instrumento de sua regeneração, Ele próprio é simbolizado pelo peixe”. “Visto que o peixe é também um alimento, e que Cristo ressuscitado o comeu, ele se transforma no símbolo do alimento eucarístico” (Chevalier, 2008, p. 704). Com
esta definição podemos sugerir que o rei se queimou ao ter seu primeiro contato com o divino.
O fato de seu ferimento ter acontecido quando ainda estava na adolescência, mostra que o rei não estava preparado para lidar com o aspecto religioso que existe dentro dele. “É como se o aspecto escuro de Deus o
tivesse agredido para despertar nele uma atitude religiosa mais consciente”
(Franz, 1980, p. 155). Isto é expresso no fato do rei se queimar ao tocar o peixe. “Seu primeiro contato com o que mais tarde será sua redenção causa-
lhe uma ferida. É o que o torna um Rei Pescador ferido. O primeiro lampejo de consciência no jovem aparece sob a forma de uma ferida ou um sofrimento”
(Johnson, 1993, p. 16). Este fato, esta ferida, acontece na vida de todos os homens. Ela é essencial para que haja a evolução da consciência, tornando-se a consciência do Self. Johnson (1993) assemelha a ferida à queda do Jardim do Éden. Penso que o homem moderno apresenta características do Rei Pescador adolescente, pois se sente ferido e não consegue viver com essa ferida, que representa uma nova consciência: a consciência de seus verdadeiros sentimentos, vontades e angústias e da necessidade do retorno de aspectos reprimidos. A predominância e valorização do dinamismo patriarcal levou à repressão de aspectos associados ao feminino, como os citados anteriormente. A “ferida” simboliza a necessidade de uma nova integração, que poderá levar à alteridade.
Ao analisarmos a outra versão do mito, onde o rei duela com outro cavaleiro e é ferido na coxa, percebemos que esta colisão representa uma realidade do homem do período patriarcal. Neste período, um embate resulta sempre em uma morte. Devido à polarização existente na era patriarcal, dois conceitos que, por alguma razão, se “enfrentam”, tornam-se antagônicos, sendo que um anula o outro. Na era matriarcal era diferente, pois não existiam opostos, já que não havia a separação dos conceitos. Desde modo, sua característica era a integração e um movimento fluido entre o que posteriormente foi considerado como polaridades.
; H , - # & 1 # 0 ! ! ' D 1 # (Franz, 1980, p. 67).
Essa versão mostra o enfrentamento entre instinto, representado pelo cavaleiro que teve uma visão da Cruz Verdadeira, e a natureza, representada pelo rei apaixonado. O resultado desta colisão, segundo Johnson (1993), pode resultar em “ou o mais alto nível de evolução ou um conflito fatal, capaz de
promover a destruição psicológica” (Johnson, 1993, p. 15). Penso que esta é a
maneira como o autor explica a diferença entre a integração do matriarcado (“evolução”) e a separação do patriarcado (“destruição”). Ele completa afirmando que o legado deste embate é a “morte de nossa natureza sensual e
um ferimento terrível em nossa visão cristã”. “Sua paixão é morta e sua visão muito ferida” (Johnson, 1993, p. 15). O que me intriga é o fato do autor trocar
as personagens, afinal, quem morre é o cavaleiro, a visão religiosa, e quem sobrevive com uma ferida é o rei, a paixão. Além disso, ao meu ver, instinto e natureza são semelhantes; ambos fazem parte da essência do homem. Com isso, posso relacionar este duelo ao conflito que o matriarcado enfrentou com o surgimento do patriarcado: o homem precisou reprimir sua essência, sua natureza, já que esta era vista como maligna, e ele começou a viver no mundo racional. Porém, este homem patriarcal leva consigo uma ferida, isto é, a falta de reconhecimento e integração dos aspectos femininos, que será sentida durante toda essa era. A integração, a convivência em harmonia destes dois aspectos, seria uma evolução psicológica, seria a alteridade.
Neste momento do mito, percebemos a mudança de período do desenvolvimento da consciência do Rei Pescador. Para Whitmont (1991), isto estaria representando a passagem do matriarcado para o patriarcado, ou seja, para o surgimento da consciência racional. A terceira fase seria a alteridade. Essas fases são explicadas por Johnson (1993) da seguinte maneira:
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O autor acredita que, diferentemente de Whitmont (1991), a alteridade é atingida na velhice. Whitmont (1991) acredita que a alteridade é o próximo passo na evolução da consciência da humanidade, mas, para isto acontecer, o homem moderno precisa reintegrar o feminino à sua consciência patriarcal. Lembro que é esta a visão que sigo ao analisar o mito e a vida do homem nos tempos atuais. Apesar de não concordar com a visão de Johnson (1993) sobre a evolução da consciência, seu trabalho traz outras questões coerentes com o meu pensamento e, por este motivo, escolhi a sua obra para analisar o mito do Graal. Entretanto, recorro também a outros autores para participar deste diálogo (Whitmont, Chevalier, Franz e Alvarenga).
Voltando à análise do mito. O rei tocar no salmão pela primeira vez representa o início de sua vida individual, ou seja, ele passa a ser alguém por si próprio. Esta individualidade retira o sujeito do coletivo, que é um aspecto matriarcal. “Seu relacionamento com outras pessoas e com a vida está
destruído, mas ele não está distanciado o suficiente, o que significa que ainda não se tornou um indivíduo que possa relacionar-se bem com a vida (...) ele está numa espécie de limbo” (Johnson, 1993, p. 19). Este pensamento do autor
alienação dos tempos modernos comprova este fato. O homem sente-se isolado, não percebe o sentido e o significado da vida, não entende sua existência. Para começar a se relacionar bem, o indivíduo precisa sair desta situação, precisa voltar a perceber o divino e a importância da vida coletiva do encontro. “A ferida do Rei Pescador é o carimbo do homem moderno” (Johnson, 1993, p. 19). Na tentativa de curar esta ferida e inverter sua situação, o indivíduo satisfaz as vontades do seu ego com coisas supérfluas e, muitas vezes, faz coisas sem sentido.
O Rei Pescador não consegue andar e vive em sua liteira, gemendo e gritando em seu desespero. A dor de sua ferida passa quando ele está pescando. Durante a pesca, o rei está “executando seu trabalho interior, dando
prosseguimento à tarefa de conscientização, da individuação, que ele, despreparado, iniciou com o ferimento em algum momento de sua juventude”
(Johnson, 1993, p. 20). É este trabalho interior que o homem, nos tempos atuais, deve fazer. É esta busca pelo significado e este é o caminho para a individuação. Enquanto o Rei Pescador ferido estiver habitando o inconsciente do homem moderno o sofrimento e a alienação farão parte de sua vida.
O nome “Rei Pescador” surge, já que a ferida do rei foi causada por um peixe. Podemos perceber que ele é um rei sem nome até então. Era identificado apenas com o seu papel, sua persona, “rei”. Com a ferida, ele ganhou uma identidade. Se analisarmos a figura do peixe de outra perspectiva, ele possui outro significado. “O peixe é ainda símbolo de vida e de
fecundidade, em função de sua prodigiosa faculdade de reprodução e do número infinito de suas ovas. Símbolo que pode, bem entendido, transferir-se para o plano espiritual” (Chevalier, 2008, p. 704). Com essa definição, o peixe
ganha um aspecto feminino, já que a mulher é quem representa a fertilidade. Portanto, o contato do rei com o Divino foi através do feminino. Porém, ele, que faz parte de uma dinâmica patriarcal, explícita em seu papel hierarquizado, não estava preparado para admitir o contato e a presença do feminino em seu consciente e em sua vida. Não podemos esquecer que o peixe vive no mar, na água. A água possui, também, aspectos femininos (fertilidade) e inconscientes (submerso/sombrio). “A água é o símbolo das energias inconscientes, das
virtudes informes da alma, das motivações secretas e desconhecidas. A água, símbolo do espírito ainda inconsciente, encerra o conteúdo da alma, que o pescador se esforça a trazes à superfície e que deverá alimentá-lo. O peixe é um animal psíquico...” (Chevalier, 2008, p. 22). Pode também simbolizar o
batismo, que possui uma característica de volta às origens para se renovar. Isto também descreve a alteridade, que exige que o homem tenha contato com suas origens e, a partir deste, transformar-se em um novo homem. “Mergulhar
nas águas, para delas sair sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica, é retornar às origens, carregar-se de novo, num imenso reservatório de energia e nele beber uma força nova” (Chevalier, 2008, p. 15). Portanto, a
simbologia do peixe e da água remete a aspectos femininos como a vida, o nascimento e renascimento, a transformação, a fertilidade, pureza. “A água se
torna o símbolo da vida espiritual e do Espírito, oferecidos por Deus e muitas vezes recusado pelos homens” (Chevalier, 2008, p. 17).
Outra associação que se pode fazer, utilizando-se a amplificação simbólica, é que “Rei Pescador” é a junção do masculino, que denomina papéis hierárquicos na sociedade, com o feminino, que reproduz, que cria. Essa junção poderá resultar na alteridade, desde que haja uma integração da multiplicidade de possibilidades. + 5 & # ! $ - # # ) )& & # 1 " # $ ( " , 0 / $ + & $ %
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O fato do Rei Pescador não poder usufruir do vinho do Graal causa grande sofrimento. Ele tem em suas mãos o poder de cura, mas não pode tocá-lo. “O fato de ter todas as coisas que o poderiam fazer feliz não adianta,
porque elas não cicatrizam as feridas do Rei Pescador, e ele sofre justamente pela sua incapacidade de tocar as coisas boas, a felicidade que tem ao seu alcance” (Johnson, 1993, p. 22). O homem moderno, assim como o rei,
também está ferido. Tem em suas mãos a cura de sua angústia, o sentido da vida, mas não consegue acessá-lo. Isto lhe causa grande sofrimento, assim como o Rei Pescador sofre. Temos o feminino guardado dentro de nós, no nosso inconsciente. Porém, por algum motivo maior (talvez o medo que o homem tem de resgatar aspectos inconscientes), não aceitamos a sua volta. Além disso, tememos o feminino por ele fazer parte da nossa sombra. Os aspectos sombrios são aqueles que não são aceitos pelo ego e passam a ser considerados “defeitos” da personalidade do homem. Além disso, são aspectos ameaçadores, pois são elementos considerados pelo ego como as características mais repugnantes de uma pessoa. O ego defende-se destes, o que torna o acesso à sombra muito difícil, apesar de necessário.
Outro aspecto que percebemos nesta passagem é que o Graal realiza todos os desejos dos homens instantaneamente, mesmo que estes não sejam expressos. Este fato me fez pensar na simbiose entre mãe e filho, nos primeiros anos de vida deste. Como vimos, Whitmont (1991) compara os níveis de consciência do homem às fases de sua vida física. A fase mágica, que apresenta características matriarcais, está relacionada aos primeiros três anos de vida do homem. Desta forma, percebemos que a relação do Graal com os homens é simbiótica e é esta relação que traz a felicidade dos homens. Portanto, o mito nos conta que é preciso ter o contato com o feminino para que haja plenitude.
O Graal em si possui alguns significados e, por ter uma importância universal, pode ser considerado uma idéia arquetípica. “Simboliza a plenitude
interior que os homens sempre buscaram” (Chevalier, 2008, p. 476). Porém,
para se ter acesso ao Graal é necessário ter uma vida interior singular, ou seja, uma vida espiritual. Esta condição impede o homem moderno de ter acesso a ele, já que este se mostra mais preocupado com sua condição material que com as condições espirituais. “As atividades exteriores impedem a
contemplação que seria necessária e desviam o desejo. Ele está perto e não é visto. É o drama da cegueira diante das realidades espirituais, tanto mais intensas quando mais se crê na sinceridade da busca” (Chevalier, 2008, p.
476). O desejo do Graal inacessível simboliza a aventura espiritual e a exigência de interioridade, isto é, do contato com seu interior para se obter o acesso ao Graal. “A perfeição humana se conquista não a golpes de lança
como um tesouro material, mas por uma transformação radical do espírito e do coração” (Chevalier, 2008, p. 477). A perda do Graal simboliza a perda da
conexão interna. Desta maneira, para atingirmos a alteridade precisamos encontrá-lo, já que isto implica na ligação consciente – inconsciente necessária para a volta do feminino. O Graal é visto como fonte de felicidade e, por isso, traz consigo a lembrança do estado paradisíaco. Portanto, com o seu encontro o homem moderno encontrará a felicidade que tanto procura.
Podemos pensar no Graal também como símbolo do feminino. É um objeto que possui um interior côncavo (cálice, taça, prato, copo). Isto simboliza o ventre feminino e, portanto, a fertilidade, o acolhimento, a proteção, o conservar, o conter. A maternidade envolve todos esses aspectos e, com isso, é evidente a simbologia da imagem da mãe. “O Castelo do Graal é o local da
mais preciosa feminilidade, e o Graal é a síntese de tudo que é feminino, é o seu mais puro símbolo, a quintessência da expressão feminina. É exatamente o que os cavaleiros buscam por toda a vida, porque é o que dá ao homem o que deseja, antes mesmo que ele venha a pedir. É a perfeita felicidade, o próprio êxtase” (Johnson, 1993, p. 70). Esta relação do Graal com o homem é
a relação simbiótica que, como vimos no início deste trecho, leva o homem a atingir a plenitude, semelhante aquela encontrada no Paraíso, onde todos seus
A palavra Graal determina diversos sentidos e, deste modo, o próprio Graal se modificou com o tempo. Até mesmo os acontecimentos que o envolvem variam. Pensando em um dos sentidos da palavra:
H ) D ) & ! & ) 0 0 (Franz, 1980, p. 21).
É interessante perceber que na versão original de Chrétien o objeto aparece como um Graal e não como o Graal, já que determina um tipo de recipiente. Mesmo pensando no Graal como um recipiente, muito bonito e rico, com deliciosas comidas, consigo percebê-lo como algo que todos querem possuir, ou devido a sua beleza ou ao seu conteúdo, e que pode nos fornecer algo muito bom. Portanto, ainda assim podemos associá-lo ao feminino e ao potencial que este tem, além da necessidade de tê-lo presente em nossas vidas.
A lança é um símbolo fálico e, portanto, representa o masculino e seu poder. O fato do Graal e da lança serem guardados juntos representa a integração da agressividade masculina com a alma do homem, ou seja, sua anima, sempre na busca de amor e união. Deve existir equilíbrio entre esses dois elementos para que não haja conflitos internos.
Ambos os símbolos, Graal e lança, podem ser analisados em relação ao sangue de Cristo que, no caso do Graal, o conservou e, no caso da lança, o possuía. Porém, esta seria uma simbologia extensa para descrever, além de fugir um pouco de nosso tema, e, portanto, optei por não incluí-la neste trabalho.
“Parsifal no Montsalvat, o Castelo
do Graal”, parede pintada
provavelmente por Ferdinand
# " ! , " 6 $ & , " $ 7 0 ) " 1 & & " $ , ! 0 $
Apesar de soar estranho para nós que um tolo curaria a dolorosa ferida do Rei Pescador, é freqüente em mitos a presença de pessoas inimagináveis