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FOKUS, DESIGN, METODE OG DATA

A pergunta é: qual são os efeitos da música no espírito? Ela toca os sentimentos do espírito, seu interior subjetivo. Isso define sua posição em meio às outras artes.

Desta forma, os efeitos da música irão reivindicar a última interioridade subjetiva como tal; é a arte do ânimo que se volta para o ânimo mesmo. Seu conteúdo é o subjetivo em si mesmo e a sua exterioridade é sustentada pelo interior e pelo subjetivo.77

Nos aspectos gerais da música, ela é comparada com a arquitetura e com a poesia. Ela se assemelha à arquitetura pelo fato de representar em suas formas exteriores a abstração; ela as tira da invenção espiritual. A arquitetura configura suas formas exteriores segundo as leis da gravidade e simetria, enquanto a música segue as leis da harmonia e das relações quantitativas. A música realiza um caráter arquitetônico executando, por si mesma, uma construção musical de sons conforme as leis. Agora, segundo a materialidade, som e massa sensível pesada são opostos. É a oposição entre o um do lado do outro (espacialidade) e o um depois do outro (temporalidade). A materialidade da arquitetura fica para a posteridade, em oposição ao som, que é passageiro, efêmero, o que o difere da pedra.

76 Percebemos que, como a música não tem palavras, para Hegel, ela irá expressar no ressoar “o modo no qual o si-mesmo mais íntimo é movido em si mesmo segundo a sua subjetividade e alma ideal.”. (Est, III, p. 280) 77 Onde “os sons apenas ressoam na alma mais profunda, que em sua subjetividade ideal é comovida e colocada em movimento.” (Ibidem, p. 280)

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Nessa abstração, a região mais própria das composições é a interioridade mais formal,78 o puro ressoar, um recuo para dentro da própria liberdade do interior, onde o artista é livre do conteúdo. Assim,

já podemos ver no âmbito do belo como uma libertação da alma, uma libertação da opressão e do caráter limitado – na medida em que a arte mesma suaviza os destinos trágicos mais violentos por meio do configurar teórico e os deixa se tornarem um prazer – assim a música conduz essa liberdade para o ponto máximo. (Est, III, p. 284)

No sistema hegeliano, a música será superada pela poesia justamente por essa última possuir a presença do conceito no ressoar da palavra. O significado de um tema musical já se encontra exaurido, “se ele é repetido ou também conduzido para contrastes e mediações mais amplos” (Ibidem, p. 284) como, por exemplo, modulações. Todos esses movimentos, que são próprios da música, mostram-se

para o entendimento como superficiais e pertencem apenas mais à elaboração musical e ao aprofundamento no elemento variado das diferenças harmônicas, as quais não são nem exigidas pelo conteúdo mesmo nem permanecem por ele sustentadas, ao passo que nas artes plásticas, ao contrário, a execução do singular e no singular apenas se torna um ressaltar sempre mais exato e uma análise viva do conteúdo mesmo. (Ibidem, p. 284)

Na música, quando há uma relação entre temas de forma rica e bem elaborada, como em uma fuga de Bach, por exemplo, a unidade torna-se melhor concentrada. Mesmo assim, tal conteúdo – que se deve expressar – permanece o ponto central mais universal, mas não mantém o todo tão firmemente unido. Falta à música o conceito. A música está próxima da liberdade formal do interior, o que lhe permite voltar para o conteúdo. A recordação do tema assumido é uma interiorização do artista, isto é, “um tornar-se interior [Innewerden], de modo que ele é o artista e pode se mover arbitrariamente e se voltar pra lá e pra cá” (Est, III, p. 285). Como a música é abstrata, ela não possui Formas naturais, e sim um círculo de Formas dadas, não por uma inteligência para além do homem, contudo, por ele mesmo, através de leis.79

78 Isso, os artistas plásticos produzem para fora, diante dele, como uma análise exata daquilo que já existe em si mesmo. A produção da suprema unidade deve ser, ao mesmo tempo, a expressão mais perfeita do singular na arte de espécie mais autêntica. Aqui, para haver uma boa obra musical, são necessários a articulação e o acabamento interiores ao todo, no qual uma parte se faz necessária à outra.

79 “A abrangência de suas conformidades a leis e necessidade das Formas recai basicamente no âmbito dos sons mesmos, que não penetram em uma conexão tão estreita com a determinidade do conteúdo que neles se introduz, e no que se refere à sua aplicação, além disso, permite, em geral, um amplo espaço de jogo para a liberdade subjetiva da execução.” (Ibidem, p. 285)

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Na relação da música com a poesia, o ressoar é o que há em comum. O ressoar musical não é o conteúdo como tal. Hegel está buscando o conceito. Esse, como já visto, não habita a música – apenas há os conceitos formais de medida temporal do som, que estão ligados ao lado formal da música.80 Com relação à palavra, a música não abrange as imagens que são próprias da fantasia.81

Na poesia, por sua vez, o som não é trabalhado artisticamente, ele é articulado pelo órgão humano da fala e é reduzido a mero signo de discurso, sendo “uma designação de representações por si mesma destituída de significado” (Est, III, p. 286). O som permanece uma existência sensível autônoma, que como mero signo de representações e sentimentos “possui sua exterioridade e objetividade a ela mesma imanente” (Ibidem, p. 286); ele é apenas um signo. A objetividade do interior consiste em ter consciência de um pensamento, um sentimento, etc.: faço deles um objeto para mim e assim os tenho na representação diante de mim. “Certamente pensamos sempre com palavras, sem necessitarmos da fala efetiva.” (Ibidem, p. 286) É diante do conteúdo espiritual das representações que o som ganha autonomia, pois, na música, ele é configurado de forma rica e artisticamente, mas sem conceito. Assim, o som na música tem um fim em si mesmo, ganhando autonomia.82

Na poesia, o som se torna fonema, e a palavra passa a ter uma finalidade em si mesma. É a própria exteriorização do espiritual. Ela elimina o elemento oposto do ressoar e da percepção. Na poesia, a palavra já encontra em si sua existência, onde ela “procura tão somente em si mesma, a fim de expressar o Conteúdo do espírito tal como ele está no interior da fantasia enquanto fantasia” (Est, III, p. 286). O ressoar deixa de ser o fim.

Assim, Hegel afirma que desse modo a música pode “tornar-se chegar a ser um modo de configuração que permite à sua própria Forma, como configuração sonora [Tongebilde] ricamente artística, torna-se sua finalidade essencial” (Ibidem, p. 286). Mas nesse lugar a

80 “Pois embora a alma leve ao sentimento o interior dos objetos ou o seu próprio interior no andamento e curso da melodia e suas relações harmônicas fundamentais, este não é, todavia, o interior enquanto tal, mas a alma enredada do modo o mais íntimo com o seu ressoar, a configuração desta expressão musical, o que confere à música o seu caráter propriamente dito.” (Est, IV, p. 14)

81 A música acolhe “apenas de modo relativo em si mesma a multiplicidade de representações e instituições espirituais, a expansão ampla da consciência preenchida em si mesma, e permanece em sua expressão na universalidade mais abstrata daquilo que apreende como conteúdo e na intimidade mais indeterminada do ânimo” (Ibidem, p. 15). Ela desdobra-se no interior da fantasia mesma. Na passagem da música para a poesia, a música “não está mais em condição de realizar completamente as imagens de fantasia da poesia” (Ibidem, p. 15). 82 A música “não oprime o som em som verbal, e sim faz do som mesmo por si seu elemento, de modo que ele, na medida em que é som, é tratado como finalidade” (Ibidem, p. 286).

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música importa menos ao interesse artístico universalmente humano, e torna-se uma questão para especialistas, o que Hegel diz não ser.83

Percebe-se em Hegel que o formal [Gestalt] é o teórico da música. Com relação à Form, a música só nos é o primeiro impulso dos sentimentos: ela é abstrata. Já na Gestalt, ela é toda ordenada por questões dialéticas entre a tensão e a resolução, e vive em torno da questão do retorno a si mesmo e das leis da harmonia. Hegel explora esse retorno a si mesmo, mas não chega a reconhecer tais relações como dialéticas.

Hegel pensa a filosofia por meio de uma dialética ontológica. Ele vê na tonalidade uma relação de repouso, distanciamento, tensão e resolução, apesar de não reconhecê-la e não chamá-la de dialética. Aqui, levantamos a tese de que a tonalidade bem se enquadra na relação de tese, antítese e síntese. Percebemos que o filósofo se aproveita do retorno a si mesmo tonal para colocar a música como possuidora de um conteúdo verdadeiro, o que só fortalece a sua dialética na música. A questão é que ele não reconhece tal relação como dialética, apesar de se aproveitar dela. Portanto, defendemos que essa relação de retorno a si

mesmo tonal é dialética. O problema é que é uma relação que se dá apenas no formal da

música, e não no seu Formal, pois lhe falta o elemento conceitual. Mostraremos aqui que a forma sonata de Beethoven também apresenta uma forma dialética, ideia já defendida por teóricos como Schoenberg e Magnani, mas não por Hegel. Portanto, nos capítulos seguintes, iremos ver essa dialética tanto em um simples movimento dentro de um mesmo compasso quanto em uma Allegro-de-Sonata.

Assim, em objetividade exterior, a poesia perde para a música, pois para ela o sensível é apenas um meio para o conceito. Na música, esse sensível é o fim e é tratado de forma artisticamente rica. A poesia ganha em objetividade interior das intuições e das representações, pois a linguagem poética se apresenta diante da consciência espiritual. O reino dos sons e o tratamento artístico que o humano lhe dá, por si, não suscitam em nós algo mais determinado. Ocorre de uma obra musical decorrente do ânimo mesmo e que foi

penetrada por uma alma e sentimentos ricos, pode igualmente de novo fazer efeito ricamente. Nossos sentimentos, além disso, também já transitam de seu elemento da intimidade [Innigkeit] indeterminada para um Conteúdo [Gehalt] e um entretecimento subjetivo com ele em direção à intuição mais concreta e à representações mais universais deste conteúdo [Inhalt]. (Est, III, p. 287)

83 Em relação às questões teóricas ou tratamento artístico, Hegel declara: “neste âmbito sou pouco versado, e por isso, devo me desculpar de antemão se eu apenas me restringir aos pontos de vista mais universais e às observações isoladas.” (Ibidem, p. 281)

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O que nos leva a representações mais precisas são nossas intuições e representações. O que a música fez foi dar o primeiro impulso, mas ela, por si só, não nos dá representações mais precisas. A música, nesse seu limite de ser destituída da linguagem, se torna autônoma, mas é superada pela poesia.84

Na busca por algo mais determinado, a música pode se juntar à palavra, mas Hegel se mostra pessimista com relação a tal junção. Segundo ele, “em geral, no interior dessa junção entre a música e a poesia o predomínio de uma arte é prejudicial para a outra” (Ibidem, p. 281).

Para o filósofo, a poesia tem existência autônoma e pode apenas dar um apoio insignificante à música. Ressalta que os textos profundos em música não caem bem. O músico não deve querer ser admirado como poeta. Há, na 9ª Sinfonia de Beethoven, no quarto movimento, um poema de Schiller, o Hino à Alegria, ou Ode à Alegria [An die Freude], o que para Hegel “não foram feitos de modo algum para tal finalidade, se revelam como muito pesados e inaproveitáveis para a composição musical” (Ibidem, p. 281).85

84 “A música não permanece presa a esta autonomia diante da arte da poesia e do Conteúdo [Gehalt] espiritual da consciência, e sim se irmana com um conteúdo [Inhalt] já inteiramente desenvolvido por meio da poesia e expresso claramente, como decurso de sentimentos, considerações, eventos e ações.” (Ibidem, p. 281)

85“Oh amigos, mudemos de tom!

Entoemos algo mais prazeroso E mais alegre!

Alegre, formosa centelha divina, Filha do Elíseo,

Ébrios de fogo entramos Em teu santuário celeste! Tua magia volta a unir

O que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se irmanam

Ali onde teu doce vôo se detém. Quem já conseguiu o maior tesouro De ser o amigo de um amigo,

Quem já conquistou uma mulher amável Rejubile-se conosco!

Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma, Uma única em todo o mundo.

Mas aquele que falhou nisso Que fique chorando sozinho! Alegria bebem todos os seres No seio da Natureza:

Todos os bons, todos os maus, Seguem seu rastro de rosas. Ela nos deu beijos e vinho e Um amigo leal até a morte;

Deu força para a vida aos mais humildes E ao querubim que se ergue

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Para Hegel, revela-se uma direção não musical pôr o peso principal no texto. Na música religiosa, que se utiliza de salmos, há uma intenção, que é a da missa, portanto toma- se dos salmos apenas o universal do conteúdo, e a música toca os sentimentos. Segundo Schiller, a poesia alemã encaminha-se naturalmente para a música; as suas tendências panteístas e transcendentais aproximam-na do lirismo da arte dos sons.

Assim, na passagem da música para a poesia, ocorre o “representar e o intuir interiores mesmos. São as formas espirituais que se colocam no lugar do sensível e que fornecem o material a ser configurado, como anteriormente o mármore, o cobre, a cor e os sons musicais” (Est, IV, p. 16).