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2 Literature review

2.1 Quality characteristics of salmon flesh

2.1.4 Flavour and odour

A narrativa do encontro entre Esaú e Jacó descreve dupla postura: Jacó preocupado com suas marcas negativas do passado, possuído de medo das conseqüências e agindo para um encontro formal; Esaú despreocupado e desinteressado tanto do passado como do presente agindo para o reencontro com seu irmão, que há muito não via.100

Por esta narrativa, a saga preserva uma identidade generosa e, até mesmo, solidária para a postura de Esaú. Sua conduta não foi marcada por nenhuma revolta ou mágoa. Agiu liberalmente para uma convivência pacífica. Essas informações serão devidamente consideradas na análise da mensagem deste texto.

A Introdução (v.1a)

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Levantou Jacó seus olhos e viu

A introdução da cena apresenta um Jacó atento e preocupado. Parecia estar de vigia para não ser surpreendido. Certamente, mesmo com as várias manifestações positivas de Deus sobre sua vida, Jacó estava esperando um encontro muito hostil. Temia por sua própria vida. Temia também pela segurança de sua família. A narrativa explorou o suspense: O que Jacó

98 RAD, Gerhard von. El Libro del Genesis, p.403.

99 WESTERMANN, Claus. Gênesis 12-36: a Commentary, p.524. 100 WESTERMANN, Claus. Gênesis 12-36: a Commentary, p.524.

viu? A descrição da cena deve ter agravado ainda mais as suas desconfianças, pois seu irmão se aproximava com um grupo imenso de homens montados dando uma impressão de batalha, de um encontro violento.

Jacó e Esaú acolhem um ao outro (vv.1b-11)

A segunda parte da estrutura da narrativa apresenta o encontro e suas nuances. Descreve o medo de Jacó, sua estratégia de proteção da família, a aproximação exagerada e suspeita de Esaú e o encontro com seus desdobramentos.

A aproximação com medo (vv.1b-3)

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Eis que Esaú vinha

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junto dele com quatrocentos homens

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Ele passou adiante deles

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Curvou-se em terra sete vezes

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Até se aproximar de seu irmão

A descrição do que vira Jacó deve ter ampliado muito as suas suspeitas. O texto revelou Esaú se aproximando, da caravana de Jacó, com uma tropa significativa: quatrocentos homens. O que poderia passar na mente de Jacó? A morte prometida no passado está chegando. Movido pelo medo e pelo instinto de preservação da família que constituiu, organizou as mulheres e seus filhos. O que surpreende é que Jacó cuidou da família, também, com preferências e distinção de tratamento. Expôs primeiramente as servas e seus filhos, depois Léa e seus filhos e, por último (não por acaso), Raquel e seu único filho José (v.2). A nobreza desta cena ficou reservada para a iniciativa de Jacó: se curvou exageradamente para seu irmão, como que suplicando sua misericórdia e bondade (v.3).

O verbo “curvou-se” advém da raiz havah [ ]. Esta descreve a ação de curvar-se como sinal de reverência, de honra e adoração. Tal manifestação gestual descreve submissão, humilhação, dependência. Esta prática estava muito afeiçoada a liguagem palaciana, onde os súditos-vassalos se curvavam demonstrando reverência a uma autoridade superior.101

Todavia, sete prostrações parecem exageradas102. Rad afirma que prostrar-se uma só vez já

era uma expressão de máximo respeito (Gn 18,1 e 19,1).103 Por esta atitude, Jacó parece se

reportar a Esaú como alguém superior, como um vassalo que está diante de seu senhor. Todavia, tais prostrações demonstraram temor e humilhação diante de Esaú.

Um encontro emocionado para o perdão (v.4)

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Correu Esaú chamando-o [seu nome]

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O abraçou

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Lançou sobre seu pescoço

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O beijou

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Choraram.

A cena mudou de direção: às ações são de Esaú. Seu rompante é mais emotivo. Correu gritando a Jacó (v.4a). Não agiu cerimonialmente. Agiu como um irmão que desejava reencontrar o outro irmão, após longo tempo e difíceis silêncios. A gradação, das ações emotivas, foi sendo ampliada (v.4): abraçou-o, se lançou sobre o pescoço, o beijou e choraram. As ações, em paralelismo climático, demonstraram a crescente compaixão que gerara a concessão de perdão e o desejo de reconstruir a relação com seu irmão.

Neste ponto a saga permite que, através da emoção e dos gestos, haja uma interpretação aberta para toda sorte de suposições.104 Na narrativa não houve espaço para

nenhuma palavra do passado: não falaram de trapaças e nem de ameaças de morte, apenas a clareza de sentimentos e gestos abertos para uma nova realidade nos futuros relacionamentos.

Esaú que havia, no passado, sido lesado e extorquido estava disposto a viver a vida com seu irmão. Não permitiu que o passado e a suas dores impedissem uma reconciliação.

101 ERNEST, Jenni. e WESTERMANN, Claus. Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento, p. 740-

744. HARRIS, R. Laird. Et al. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p.434-436.

102 As cartas de Armana informam que os vassalos de Faraó deveriam se prostar sete vezes: ‘aos pés do rei [...]

sete vezes, sete vezes eu caio, para frente e para trás’ em ANEP,fig 5. Confira em HARRIS, R. Laird. Et al. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p.434.

103 RAD, Gerhard von. El Libro del Genesis, p.403. 104RAD, Gerhard von. El Libro del Genesis, p.404.

Resignou-se e, com isso, estava demonstrando a disposição de desenvolver relações pacíficas e de solidariedade com seu irmão.

Esta cena foi marcante. Nela, pode ser visto que o ser humano é capaz de perdoar e recomeçar relações aparentemente irrecuperáveis. Nela pode se verificar que o ser humano pode ser altruísta e capaz de oferecer mais uma chance a outrem. Esaú foi destacado nesta cena como uma pessoa de interesses humanos pacíficos, como uma pessoa capaz de rever e reverter caminhos em sua prórpia história.

Conhecendo a família de Jacó (vv.5-7)

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Levantou os seus olhos e viu as esposas e os filhos

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Quem são estes para ti?

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Estes são os filhos que ´Elohim agraciou a teu servo.

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Aproximaram-se as suas servas

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Aproximou-se também Léa e os filhos dela

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E depois aproximou-se José e Raquel

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e se curvaram

A cena procurou um novo ângulo: Esaú emocionado viu ao lado um grupo de pessoas. Perguntou a Jacó: Quem são estes? Jacó mais aliviado respondeu: - É minha família. Os filhos são reconhecidos, por Jacó, como fruto da graça, da bondade [ ] de ´Elohim (v.5). Depois, como que se apresentando, as mulheres e os filhos foram reverenciando o tio depois da comovente cena de reconciliação (vv.6-7).

É importante perceber um pequeno detalhe nesta cena. Os filhos de Jacó participaram de perto de uma reconciliação familiar dificílima. Provavelmente, conviveram com o medo e viram como o perdão pode alterar realidades. Curioso é que na organização dos filhos para a defesa, os filhos das servas são postos à frente, depois os filhos de Léa e, por último, Raquel e José (v.1). Nesta cena (vv.5-7), toda a organização anterior foi mantida (vv.1b-11) exceto que, nesta narrativa, José foi colocado à frente de Raquel (v.7). Por quê? Há alguma

intencionalidade narrativa? É possível que sim, pois José teria que seguir o exemplo de seu tio Esaú. José também experimentaria a traição de seus irmãos (Gn 37,17b-28) e teria a oportunidade que seu tio teve: perdoar seus irmãos (Gn 45,1-15) e proporcionar a reconstrução da vida de sua família (Gn 46,1-47,12).

Um diálogo sobre as dádivas (vv.8-11)

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Quem são para ti todos deste acampamento (tropa, multidão) que encontrei?

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Por favor, se encontro graça nos olhos de meu senhor.

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Seja certamente para ti.

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Não [rejeites] agora se já encontrei graça diante de teus olhos

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Tomaste minha oferta de minha mão

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Eis que vi tua face como vejo a face de ´Elohim

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Expiaste-me [pagar, saldar, expiar; obter restituição, ter dívida paga].

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Toma agora a minha bênção que foi feita vir para ti

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porque ´Elohim me favoreceu [teve piedade de mim]

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e eis que tudo tenho para mim

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Insistiu com ele

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Tomou.

Neste diálogo foram mantidas as posturas anteriores: Jacó continuou tratando Esaú como um monarca a quem devia reverência e tributo e Esaú tratou Jacó como a um irmão. Em suas falas, Jacó, se referiu a Esaú como “meu senhor” ( - v.8) e Esaú se referiu a Jacó

como “meu irmão” ( - v.9). Esta diferença no tratamento apresenta uma aparente humilhação de Jacó e, ao mesmo tempo, o seu medo de Esaú.

O diálogo entre Esaú e Jacó transcorreu sobre as dádivas que estavam espalhadas pelo caminho (v.8). Jacó as ofereceu como tributo, como dádivas, como oferta de perdão (vv.8.10- 11). Para Jacó, as ofertas serviriam para abrandar o coração de Esaú (v.8) e gerar compaixão, misericórdia e graciosidade. Serviriam também como uma forma de pagamento redentor pelo seu golpe no passado (v.10). A narrativa expressou o conceito restituição, expiação ( ) para descrever o que Jacó pretendia com as dádivas. Essa raiz hebraica denotava: pagar algo, receber algo em troca ou aceitar como fruto de gratidão105. Também podia significar o

pagamento de dívidas no sentido de expiação para os pecados106. O texto apresenta através

deste conceito que Jacó pretendia quitar uma dívida para conviver com seu passado. Pretendia retribuir, como pagamento de dívida, pela sua traição no passado e encontrar em seu irmão o perdão de suas dívidas.

Esaú, por sua vez, não via da mesma forma. As ofertas deveriam ficar com Jacó e sua família. Já que, no texto, Esaú afirmou que já possuía muitos bens (v.9). Portanto, sua misericórdia e perdão não estavam atrelados a esses valores patrimoniais. Esaú resistiu a aceitar tais valores de seu irmão (v.9-10), todavia, pela insistência de Jacó, acabou por aceitar (v.11).

Jacó tinha um alvo: encontrar graça em seu irmão Esaú. Este termo han ( ) pode ser encontrado três vezes nesta parte da perícope (vv.8.10-11). Este substantivo pode denotar: favor, graça, compaixão solidariedade, bondade para com os necessitados ou para aqueles que não merecem qualquer clemência107. Sua raiz hanan ( ) oferece a idéia de ser algo oferecido

por alguém superior que, por causa da misericórdia e condescendência, protegia os menos afortunados108. O desejo de Jacó era o de encontrar em Esaú uma condição de perdoar e de

agir benevolamente, mesmo tendo o direito de recorrer a violência e disciplina.

Todavia, o conteúdo mais importante desta perícope está na sentença:

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“Eis que vi tua face como vejo a face de ´Elohim” (v.10). A experiência

com Esaú fez Jacó ver na face de seu irmão a bondade e a misericórdia do próprio Elohim. A manifestação acolhedora, emocionada, perdoadora de Esaú fez Jacó ver na presença, nos sentimentos e nas ações de seu irmão atitudes e sentimentos atribuídos a Deus. Esaú era a face

105 ERNEST, Jenni. e WESTERMANN, Claus. Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento, p.1018. 106 HARRIS, R. Laird. Et al. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p.1450.

107 Idem, p.494-495.

108 ERNEST, Jenni. e WESTERMANN, Claus. Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento, p.815-

de Deus. Esta afirmação também pode ser interpretada em conexão com o capítulo trinta e dois da saga de Isaque (Gn 32,22-32). Neste capítulo, Jacó teve um encontro com “um homem” (

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- v.24), e com ele lutou (

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- Eis que contendeste junto de Elohim - v.28) alcançando a grandeza de um príncipe que pelejou com força para ser abençoado por Elohim109. Após esta peleja, Jacó/Israel afirmou: “vi a Deus face a face” (

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- Eis que vi ´Elohim face a face - v.30). Com base nesta experiência, Jacó aproxima Esaú da grandeza e do caráter de Elohim.

Esaú foi também a revelação dos valores, dos sentimentos e das ações atribuídas somente a Deus. Jacó constatou e exaltou a grandeza do caráter de seu irmão. Destacou sua grandeza em perdoar, tão liberalmente, a um ofensor. Engrandeceu sua sensibilidade humana em agir bondosamente em favor de seu irmão.

Esaú ofereceu sua hospitalidade a Jacó (vv.12-15)

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12 Disse:

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Levantaremos acampamento e caminharemos

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e caminharei diante de ti.

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Passa agora, senhor meu, adiante de seu servo

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Se achei graça nos olhos de meu senhor?

A bondade e misericórdia reveladas em Esaú não foram suficientes para gerar em Jacó a confiança. Agindo com bondade ofereceu escolta (v.12) e hospitalidade (v.15). Todavia, Jacó ainda desconfiado, resistiu a oferta de seu irmão Esaú, preferindo seguir para um caminho oposto.

Outra informação, no texto, revelou que Jacó não apenas rejeitou a escolta e a hospitalidade, como mais uma vez mentiu para se liberar de seu irmão. O texto afirmou que Jacó prometera ir lentamente, por causa de seus filhos e criação, até Seir, habitação de Esaú (v.14). Mas outra informação dá conta de que não cumprira o prometido, ao contrário, dirigiu- se para outra direção, revelando ainda sua desconfiança e caráter duvidoso.

Cada um para seu lado: Seir e Sucote (vv.16-17)

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Naquele dia voltou Esaú a seu caminho de Seir

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e Jacó pôs-se a caminho de Sucote

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por causa disso, chamou o nome do lugar Sucote.

Esta conclusão parcial da perícope apresentou um desfecho, atribuindo destinos diferentes para os irmãos. Esta postura apresenta a individualidade sócio-política das famílias e, como, geograficamente ocuparam lugares disitintos na região palestinense: os descendentes de Esaú (Edom, região de Seir) e de Jacó (a sudeste de Canaã). O final da perícope aponta para uma convivência harmônica e tolerante. A separação não representava, necessariamente, inimizade. Poderiam desenvolver projetos políticos diferentes, pois estavam resguardados pela tolerância e pela solidariedade.