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O Livro do Primeiro Isaías (1-39) apresenta denúncias, exortações e esperanças para Israel/Judá no século VIII a.C. A dinâmica mensagem de Isaías perpassa a transição política na região siro-palestinense com o crescimento do domínio assírio, sobretudo, os enfrentamentos da monarquia de Israel/Judá provocados pelas alianças e coalizões de resistência à dominação assíria. Neste contexto, a Assíria foi um instrumento de Javé para punir Israel de suas iniqüidades.
A coleção dos OCN de Isaías sedimentou palavras de peso, de autoridade divina (
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) para dar sentido ao movimento das nações. Nesta coleção as nações foram vistas como agentes da ira de Javé (muito mais as nações imperialistas). Elas e seus exércitos se apresentavam para executarem o Dia de Javé, um dia de juízo contra os impenitentes (13,9). Todavia, nesta dinâmica de poder, Javé agiria para o bem de seu povo, Judá (14,1-7).Os conteúdos dos OCN em Isaías apresentam a iminente destruição que sobreviria sobre as nações da região siro-palestinense, por parte das ações bélicas e políticas das grandes potências, especialmente, a Assíria e a Babilônia. Essas nações vizinhas sofreriam graves ofensivas, como resultado do juízo divino, e teriam abaladas as suas seguranças e virtudes
nacionais. A destruição seria inevitável e, tal fato, deveria ser encarado como correção do Deus de Judá. Esses oráculos apresentam o Deus Javé como governante da história. Como um Deus bastante atuante no campo político, agindo para punir os impenitentes (isto inclui Israel) e para promover posterior alívio e salvação para seu povo (principalmente Judá).
A Coleção dos OCN foi organizada apresentando duras mensagens contra várias nações. Inicialmente, mensagens contra as nações imperialistas: Babilônia (13,1-14,23 e 21,1- 10), Assíria (14,24-27); e depois mensagens contra as nações vizinhas de Israel/Judá: Filistia (14,28-30); Moab (15-16); Egito – grande força político-militar anti-assíria no século VIII a.C. (18-20); Dumá (21,11-12); Arábia (21,13-17); Tiro e Sidon (23,1-18). Curiosamente, nesta coleção não há um oráculo de julgamento direto contra Edom. Normalmente, nação vista como inimiga emblemática de Israel/Judá. Mas a análise do oráculo contra Dumá parece ser dirigido para Edom.
O oráculo contra Dumá (21,11-12). Onde ficava Dumá? Dumá foi muito conhecida no século VII a.C. na documentação assíria sob a forma Adúmmatu. Refere-se à região arábica setentrional. Dumá foi uma nação considerada inimiga da Assíria, por possuir aliança com a Babilônia. Há informações que o rei assírio Asaradon (680-669 a.C.164) conquistou Dumá e
deportou seus habitantes. Dumá estava bastante próxima de Dedã e Temã (situadas mais ao sul).165 Além desta proximidade geográfica, o texto apresenta o clamor vindo de Seir – lugar
convencionado como identidade de Edom. Por isto, este oráculo pode ser compreendido como uma mensagem para Edom.
O oráculo contra Dumá/Edom foi um texto escrito em forma de enigma. Este gênero literário era muito comum na sabedoria do Antigo Oriente.166 O povo de Edom foi conhecido
por sua notável sabedoria. Quem sabe por isso, o profeta articulou a mensagem de forma enigmática: desafiando à reflexão em busca de sentido para tal mensagem. O gênero enigmático não pretende uma resposta precisa, mas busca através da reflexão apresentar caminhos possíveis e até contraditórios como resposta. Logo, ao conteúdo desse oráculo não cabe precisão hermenêutica, mas reflexão.
A estrutura do oráculo está de acordo com a proposta literária de um enigma: É introduzida pela sentença de apresentação [
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Sentença de Dumá] e inicia sua mensagem
164 METZGER, Martin. História de Israel, São Leopoldo: Sinodal, 1989, p.110. BRIGHT, John. História de
Israel, São Paulo: Paulinas, 4ª Ed., 1978, p.418. WRIGHT, G. Ernest. Isaiah, London: SCM Press, 1965, p.62.
165 CROATTO, José Severino. Isaías: A Palavra Profética e sua releitura hermenêutica, p.132.
166 O enigma é contado no mundo do Antigo Oriente e, consequentemente, no estudo da Bíblia Hebraica como
um gênero de sabedoria. Sua característica é marcada por uma “pergunta ‘intrincada’, cuja resposta ou solução é ambígua.” Confira em: GOTTWALD, Norman Kaiser, Introdução Sócio-Literária à Bíblia Hebraica, São Paulo: Paulinas, 1988, p.523-524.
com uma pergunta. Pergunta esta intrincada, que pouca clareza traz. Seguindo a esta uma resposta tão intrincada e desafiadora como a pergunta.
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11Sentença de Dumá
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A mim [veio] o clamor de Seir:
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Guarda qual é a parte da noite?
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Guarda qual é a parte da noite?
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12Disse o guarda:
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Veio a manhã e também a noite;
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Se procurares* #
Procurai* "7
Voltai*
Vinde Estudo da MensagemA apresentação do oráculo enfatiza o tom de gravidade para a mensagem. Mesmo que a forma (o enigma) apresente certo jogo de palavras e sentidos, o que estava sendo comunicado era de extrema gravidade. O termo massá [
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] apresenta séria e pesadamente o conteúdo a ser apreendido pela reflexão. Não se trata de uma brincadeira e, sim, de uma revelação densa com implicações bastante sérias para a vida das pessoas em Dumá/Seir/Edom.A primeira sentença apresenta um sujeito indefinido [
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A mim veio o clamor de Seir]. Quem ouviu o clamor que veio de Seir? Ao que parece quem ouviu o clamor de Seir foi o guarda, a sentinela [("
]. O clamor que veio de Seir parece se expressar com a angústia da pergunta, pois ela foi feita duas vezes em seguida – com certa impaciência, incerteza:( ( ("
Guarda qual é a parte da noite?( ( ("
Guarda qual é a parte da noite? O guarda respondeu a quem clamou de Seir [(" (
Disse o guarda - v.12]:6
O conteúdo deste enigma está inserido em um diálogo: um dos interlocutores era alguém que estava angustiado, ou ansioso, ou preocupado com a noite em Seir; o outro interlocutor era um guarda. O diálogo revela, à partir da pergunta da personagem de Seir, a preocupação principal: o quanto, ainda, demoraria a noite? Mas o que era a noite? A noite podia descrever calamidade, desgraça167; ou a angústia do desconhecido, do que não pode ser
visto com clareza; ou ainda um período de tempo difícil, mas passageiro. Diante de falta de conhecimento o interlocutor perguntou ao guarda, pois este estava acostumado com as noites, conhecia os seus mistérios e sabia enfrentá-los.
Ao que parece o oráculo evocou o tema da sentinela/vigia/guarda. A literatura profética sempre atribuiu este status ao mensageiro [
=G
- sentinela, atalaia, guarda dos muros168]que, em posição privilegiada poderia ver mais distante, anunciar sobre os perigos e ainda, como profeta, revelar os desígnios divinos para o povo (Is 21,6.8; Ez 3,2; 33,6-7). Neste oráculo, o escritor preferiu utilizar o particípio Shomer [
("
] para designar (como substantivo) a sentinela/vigia/guarda. Este particípio decorre da raiz que possui como idéia básica: custodiar, proteger, vigiar, conservar, preservar.169 Como substantivo é reconhecidocomo guarda que cumpre um turno de trabalho, ou um sacerdote que possui uma escala definida para o trabalho.170 Assim a função deste guarda era a de proteger, de cuidar e de
preservar as pessoas de Seir dos perigos e das ameaças que poderiam advir da noite.
O texto revela que o guarda, consciente de sua função, que era a de proteger e de promover segurança para os habitantes de Seir respondeu:
6
Veio a manhã e também a noite. A resposta pode indicar uma simples ordem do tempo, ou seja, está noite porque o período da manhã já havia passado e, conseqüentemente, logo voltaria a manhã. Como também a resposta poderia indicar que a noite ainda iria demorar. Esta segunda possibilidade interpretativa baseia-se na tradução da conjunção gam [6
]171. Ao traduzir essaconjunção de forma enfatizante e intensificante a noite ganha maior destaque. Assim a resposta do guarda apresentaria a noite com especialidade ou como uma ênfase principal, como o período de destaque. O enigmático permanece: o que vai ser determinante é a noite.
167 CROATTO, José Severino. Isaías: A Palavra Profética e sua releitura hermenêutica, p.132. ALONSO
SCHÖKEL, Luís. Profetas I, p.199.
168
=G
- sentinela, atalaia, guarda dos muros. Este era responsável por informar a liderança acerca dos perigos.Se falhasse em seu dever era executado. Confira em: HARRIS, R. Laird. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 1299-1300.
169 JENNI, Ernst. Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento, Vol. II, p.1231-1232.
170 Idem, p.1233-1234. HARRIS, R. Laird. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 1589. 171 Esta conjunção pode ser “aditiva e associativa, mas principalmente enfatizante e intensificante” Confira em
Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português, São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 1998, p.42. HARRIS, R. Laird. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 275-276.
O final da resposta do guarda apresenta, à partir de uma sentença reflexiva [
* #
Se procurares], uma seqüência com três imperativos no plural [
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Procurai;* "
Voltai;*
Vinde]. A idéia básica é de alguém que está em busca de algo oculto, selado, vedado [
#
].172Por isso, quanto mais procura saber, mais cresce a curiosidade, mais deseja conhecer e, ao mesmo tempo, mais ansiedade é nutrida até que se chegue a conhecer. A seqüência de imperativos dá uma idéia cíclica de quem procura [
#
] a resposta: ir e vir: refletir. A ordem é insistir em conhecer. A ordem é estar atento à voz e às notícias do guarda.O enigma para Seir/Edom apresenta a realidade da noite. Quem sabe ser esta a realidade de calamidade, de medo, de desconhecimento do futuro, enfrentamento de dias difíceis. A personagem de Seir desejava descobrir quanto demoraria tal realidade. Não foi possível resposta definitiva, mas foi mantido o diálogo e a possibilidade de revelação para a noite que ainda se apresentava forte. Talvez a resposta estivesse bem na introdução do enigma: A expressão massá Dumá [
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] pode significar: sentença de silêncio (profundo, mortal).173 Quem sabe se a maior angústia a ser vivenciada pelos habitantes deSeir/Edom era a ausência da Palavra de Deus? A ausência de discernimento, de respostas confortadoras para atravessar dias de profundas adversidades?
O oráculo contra Edom na Coleção de OCN no Primeiro Isaías não apresenta afrontas diretas para Edom. Mesmo assumindo este oráculo como mensagem para Edom, parece que não houve uma mensagem de julgamento e destruição. Não houve um vaticínio por causa das transgressões. Não houve apontamentos para a crueldade contra outros povos. Nesta Coleção, Edom foi tratado de forma diferente. Não houve qualquer lembrança da cooperação na derrocada de Jerusalém. Este oráculo é o único, nas coleções de OCN nos profetas clássicos (Am, Jr, Ez), a proclamar uma mensagem profética sem a influência histórica da participação de Edom no cerco e destruição de Jerusalém e de seus fugitivos (o mesmo não pode ser dito do oráculo contra Edom em Is 34 que está deslocado da coleção). Por isto, este oráculo é tão importante nesse estudo, pois parece ser o único documento profético sobre Edom escrito antes da queda de Jerusalém.