Foto: Maria Diana de Oliveira, agosto de 2006.
Na perspectiva indicada pela foto acima, integrantes de grupos preservacionistas ou daqueles interessados em projetos turísticos237
também entram em conflito com os empreendimentos minerais, uma vez que, devido ao impacto (sobretudo visual), a mineração diminui as possibilidades de auferir lucros aos capitais empregados ou a ser empregados no circuito do turismo e do lazer.
A expansão da indústria do turismo e dos lazeres, utilizando os meios de comunicação, produz necessidades novas apropriando-se do discurso sobre a escassez da natureza. Como ajuda a esclarecer Lefebvre, o valor de troca limita os vínculos, as relações de pertencimento. Ocorre a obsolescência não só dos produtos, mas também nas relações ao criar novas necessidades, havendo, portanto, uma produção não só do produto, mas também do consumidor. Apela-se para a transitoriedade, para o retorno
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Refiro-me aos interessados em levar adiante projetos turísticos apoiados no Centro de Apoio ao Turista, que também recebeu apoio financeiro da Companhia Vale o Rio Doce para sua instalação.
ao passado, busca de consumo do exótico e do inusitado.238
Portanto, a problemática relativa à natureza é parcial:
Assim se determina a problemática parcial relativa à “natureza”. Teoricamente, a natureza distancia-se, mas os signos da natureza e do natural se multiplicam, substituindo e suplantando a “natureza” real. Tais signos são produzidos e vendidos em massa. Uma árvore, uma flor, um ramo, um perfume, uma presença. Ao mesmo tempo, a naturalização ideológica obceca. Na publicidade, a dos produtos alimentares ou têxteis, como a da moradia ou das férias, a referência à natureza é constante. Todos os “significantes flutuantes” que a retórica utiliza se agarram à sua re-presentação para encontrar um sentido e um conteúdo (ilusórios). O que não tem mais sentido procura reencontrar um sentido pela mediação do fetiche “natureza”.239
Os projetos de educação ambiental, de modo geral e nos casos da Mata do Jambreiro e Catas Altas, têm apresentado uma perspectiva de relação sociedade- natureza partindo da idéia de mudança de comportamento dos indivíduos perante o consumo de recursos naturais e/ou projetos voltados para uma mera contemplação da natureza, como no caso da Mata do Jambreiro. Tal perspectiva transfere para os indivíduos, numa perspectiva malthusiana, a responsabilidade sobre os processos de degradação, tentando influir na “diminuição” de determinado consumo do cotidiano, ou melhor, busca-se direcionar os indivíduos para um “consumo consciente”.
238 Aqui me valho amplamente das discussões do grupo de estudos e pesquisas “As (im)posibilidades do
urbano na metrópole contemporânea” coordenado por Sérgio Martins no qual ocorre o esforço de compreensão da produção do espaço através de uma teoria geral, mas que inclui estudos que refletem sobre as diversas materialidades através das quais o espaço é produzido por esta totalidade.
Figura 23: “Consumo consciente é a única saída para o século XXI: estudos indicam que se o nível de consumo continuar crescendo o esgotamento do planeta virá antes do fim do século”.
Fonte: AMBIENTE HOJE. Consumo consciente evita desperdício. Obra citada, p. 6-7.
No caso específico da AMDA, ao mesmo tempo em que reforça o Estado, traz para si a responsabilidade de desenvolver atividades que caberiam a ele240
. Entretanto, sua atuação se assemelha à do Estado, ou melhor, sua atuação é parte dele. Ela considera que o Estado cresceu muito e, portanto, apresenta lacunas que podem ser preenchidas pelas ONGs. Nesse sentido, tem encaminhado ações de educação ambiental juntamente com o setor privado. Dessa forma, desenvolve programas para que práticas institucionalizadas possam se firmar como parte do cotidiano e deslocar disputas por hegemonias241
de modelos de gestão do espaço. Uma dessas práticas refere-se à educação ambiental assumida por diversas ONGs e pela AMDA, como
240 Para se legitimar, o Estado tem apresentado várias facetas. No período pós-guerra, por exemplo,
assumiu uma postura de tutela perante a sociedade com a expansão, sobretudo, do sistema educacional. Apesar de reforçarem que a educação ainda é uma função do Estado, a AMDA tem entrado na chamada educação informal desenvolvendo práticas de educação ambiental.
241 Paula Brügger afirma que é possível traduzir a crise ambiental em termos de disputa entre o que
Toffler chamou de Segunda Onda e de Terceira Onda. A civilização de Terceira Onda baseia-se em novas tecnologias como a eletrônica, a informática e a biotecnologia, no uso de recursos naturais renováveis, indústrias de baixa demanda energética, operações no espaço e no fundo do mar. A Terceira Onda promete ainda energias limpas, uma profunda reestruturação das relações sociais. A crise ambiental seria a crise de civilização de Segunda Onda, o colapso de um modo de produção baseado no uso intensivo de recursos não-renováveis, altamente sorvedora de energia e com grande fé no progresso a ser atingido pelo avanço da tecnologia. BRÜGGER, Paula. p.25-26.
apontado anteriormente. Nesse ponto, parece-me importante lembrar, aqui, a discussão feita por Lefebvre sobre a importância da linguagem e das ideologias na modelagem das consciências. Tal discussão pode ser utilizada para compreensão do papel da educação ambiental desenvolvida pela AMDA e outras ONGs. Argumenta o autor:
É pela e através da linguagem que a ideologia entra nas consciências e as modela [...] o paradoxo da situação atual é que a crise das antigas ideologias acarreta uma desideologização aparente. A desideologização significa apenas a dissolução dos referenciais ideológicos: religiões, códigos morais, humanismo. Ora, esta crise permite a introdução de novos mitos e de novas ideologias, entre outros os mitos e ideologias do consumo sob a capa de não ideologia (de rigor, de ciência, de realidade positiva e observável etc).242
Ao mesmo tempo em que a entidade questiona o consumo, o reforça, pois as questões referidas à produção são intocadas por tais projetos, até porque estes vêm sendo financiados pelas empresas, como já mostrado. Por outro lado, a educação ambiental se torna um marketing ecológico, como indicado abaixo: