Nas aventuras montadas, como infantis caminham em busca do acerto? De que modos mestres precisam agir para transformá-los e, assim, afastá-los de feiticeiras? Que técnicas são acionadas para que o currículo estudado tenha um grand finale? Além da técnica do espetáculo, opera-se aqui com a técnica da comparação em que alunos/as são solicitados/as a comparar-se com o mestre, a tirar dele lições, a reconhecer nele o que lhes falta, a entender o que teriam de melhorar em processos mais avançados.
Diversas foram as situações em que pude observar tal técnica em ação. Ao analisá- las, percebi que ela apresentava algumas características. A primeira é procurar sempre as diferenças: pergunta-se se alguém fez diferente e pede que olhem para suas respostas e vejam se elas estão próximas do que ela falou (DC, 07/10/2010, p. 40). Ou ao questionar o porquê de haver diferenças, pede-se que “olhem que o grupo um e o três acharam números mais disparatados. Isso aconteceu porque os cubos deles são feitos por um tipo de madeira diferente” (DC, 27/09/2010, p. 32). A segunda é corrigir tais diferenças: solicita-se que Júlia leia sua resposta e afirma que “essa ficou completa. Quem não fez assim, corrija” (DC, 27/10/2010, p. 43). Assim, é corrigir pela cópia: “quem fez errado, pode fazer desse jeito” (DC, 27/10/2010, p. 44).
Vê-se que, com a técnica de comparação – que quer identificar os/as que fogem do padrão e, no contexto da tecnologia da cientifização, corrigi-los/as – busca-se “vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los,
localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao máximo” (FOUCAULT, 2007, p. 62). Por meio dessa técnica, efetua-se não apenas uma dominação. A partir dela, infantis podem fazer um exercício sobre si, pois opera-se como “um olhar que vigia e que cada um, sentindo-o pesar sobre si, acabará por interiorizar, a ponto de observar a si mesmo; sendo assim, cada um exercerá esta vigilância sobre e contra si mesmo” (FOUCAULT, 2007, p. 218). Um exercício em que se acredita que o Senhor é o modelo, o ideal, a salvação (CORBIN, 2008a), e é a Ele que se deve comparar.
A terceira característica seria a de fazer alunos/as modificarem-se ao aprenderem por imitação. Já encontramos essa ideia de imitação em Skinner quando esse autor sugere que “o primeiro passo ao ensinar o aluno a se comportar de uma dada maneira é, em geral, levá-lo a imitar o professor ou a seguir instruções” (1972, p. 163). Um imitar que é considerado natural aos humanos, visto que, ao falar sobre os perigos dos fungos nos alimentos, afirma-se “então, aí vocês precisam avisar isso em casa, todo mundo faz isso. Eu, vocês, todo mundo. Até porque nós aprendemos por imitação” (DC, 25/08/2010, p.4). Uma imitação que sempre se dá do errado para o correto, o padrão, a norma, “sendo normal precisamente quem é capaz de se conformar a essa norma e o anormal quem não é” (FOUCAULT, 2008a, p. 75).
Para que a imitação seja eficaz, frequentemente, mestre percebe e aproxima-se, manipulando os instrumentos para corrigir o que fizeram no experimento (DC, 30/08/2010, p.15). Outro exemplo de tal preocupação foi quando Ângela chega para ajudá-los/as na prática em que observariam a queda da temperatura de um sistema: empurra os dedos sobre as camadas que estão no copo para fazer o gelo derretido transbordar e ela derramar o excesso de água na pia ao lado. O resultado desse ensinamento pode ser o desejado – um aluno, olhando para os colegas, diz: “tá vendo, Ângela não tem medo de sujar e colocar as mãos no sal; tem que fazer isso gente” – ou o não-desejado – a reação da colega ao lado foi diferente da dele, pois ela fica com os olhos assustados ao ver a cena da professora (DC, 30/08/2010, p.16).
A quarta característica seria a de fazê-los/as entender que, na comparação-imitação, têm de obedecer ao que foi prescrito pelo mestre, algo fundamental ao rebanho (FOUCAULT, 2008a). Para um cristão, “obedecer não é obedecer a uma lei [...], é pôr-se inteiramente na dependência de alguém por ser alguém” (FOUCAULT, 2008, p. 232). Obedece-se para alcançar um estado de obediência, o que configura o poder pastoral como a arte de ensinar aos outros o deixar-se governar. Então, em algumas situações define-se
com eles/as o que é preciso fazer e o que não é para ir além. “Gente, se não mandar, não é para fazer. Só faz o que está lá escrito e mandado!” (DC, 04/11/2010, p.45). Mestres reforçam que, para alunos/as conseguirem aprender a ciência e seus métodos: “vocês precisam ouvir minhas ordens. Sei que ainda não têm traquejo com o laboratório, mas, por enquanto, vocês ouvem minhas instruções e obedecem, depois vocês já aprendem” (DC, 26/08/2010, p.12). Afinal, nesse currículo, o que mais se deseja é o grand finale, é que “quem não sabe, responda para fechar com chave de ouro. Pensem no que os outros falaram e repete gente” (DC, 08/11/2010, p.48).
Uma vez entendido diferentes papéis de personagens infantis e mestres, montado um caminho com espetáculos e agenciado por comparação, a tecnologia da cientifização deseja transformações em alunos/as. Isto se dá porque a técnica da comparação coloca a seguinte questão a infantis: sou normal? Por meio do padrão científico estabelecido pelo dispositivo da experimentação, separam-se sujeitos racionais de não racionais, certos de errados, normais de anormais. Afinal, foi sempre preciso contabilizar “quantas aprendiam e quantas tinham uma coisa chamada ‘dificuldade de aprendizagem’, quantas eram normais e quantas anormais” (CORAZZA, 2002c, p.73). Ao normalizar, a escola empenha-se em “regular formas particulares de ver o mundo e definir o ‘senso comum’” (SIMON, 2008, p. 64). Isso porque “a própria noção de normalidade surgiu de uma preocupação com os tipos de conduta, pensamento e expressão considerados problemáticos ou perigosos” (ROSE, 2001b, p. 37). Um currículo permeado por divisões e diferenciações transborda de “hierarquizações, explicações e justificativas para resultados nas avaliações, para comportamentos e para outras práticas curriculares que, por sua vez, trazem outras formas ao currículo” (PARAÍSO, 2012b, p. 06).
Assim, a tecnologia da cientifização objetiva distinguir comportamentos anormais daqueles aceitos para, em seguida, transformá-los em condutas semelhantes àquelas dos representantes da ciência. Para responder à questão “sou normal?”, infantis comparam-se com mestres e colegas em desenvolvimento mais avançado. Nesse questionamento, só existiriam duas respostas: a afirmativa, quando dominam o padrão científico, e a negativa, quando suas condutas escapam do padrão. Se algum Edmundo estiver na segunda opção, logo algum Aslam se aproximará para conduzi-lo ao caminho correto. Assim, o primeiro passo é fazê-los/as reconhecer-se na condição do erro para, em seguida, convidá-los/as a imitar mestres ao obedecer a prescrições. Afinal, infantis são “completamente sem forma, maleáveis e, enquanto tais, podemos fazer deles o que quisermos” (KOHAN, 2005, p. 40).