O processo de aprendizagem, de acordo com Fialho et al. (2007), ocorre em três instâncias que se relacionam constantemente: a individual, a do grupo e a organizacional. A aprendizagem individual é definida como um ciclo no qual a pessoa assimila uma nova informação, reflete sobre experiências anteriores, constrói um novo conhecimento e age para atingir resultados.
Processos de aprendizagem foram apontados nas avaliações finais do Microbacias 1 nos quais pesquisas qualitativas identificaram mudanças no comportamento de técnicos e agricultores envolvidos nas ações. Intenso processo de capacitação e as metodologias utilizadas contribuíram para uma postura menos segmentada por parte dos técnicos.
Uma de suas atividades era a elaboração de um plano da propriedade, discutido com o agricultor e a família, que incluía não apenas questões produtivas, mas também um diagnóstico ambiental envolvendo aspectos sanitários, uso da mão e obra disponível, formas de agregação de valor ao produto, etc. As atividades previstas nesse plano eram resultado de um acordo tácito em que o agricultor assumia seus compromissos, assim como o técnico. Assim, o trabalho gerou maior aproximação e confiança e aprendizado para ambos os atores. Considera-se que houve aprendizado, especialmente por parte dos técnicos que passaram a reconhecer o valor do conhecimento dos agricultores na construção de alternativas de desenvolvimento (SANTA CATARINA, 1999).
Na execução do Microbacias 2, o grande aprendizado se deu no trabalho de planejamento participativo, considerado um laboratório de experiências e para os atores envolvidos. Para se chegar ao plano de desenvolvimento da microbacia foi necessário discutir, negociar, assumir responsabilidades. Já na execução do plano foi necessário construir cooperação e parcerias com vistas a alcançar as metas propostas. Os técnicos passaram a atuar em um contexto no qual as principais demandas não eram no âmbito da tecnologia e da produção; elas exigiam outros tipos de conhecimento.
No que se refere ao aprendizado de grupo, têm destaque as equipes regionais de coordenação dos programas, consideradas elementos fundamentais na execução das estratégias propostas. Por meio de suas experiências na atuação com
as equipes municipais de extensão rural e conhecimento da realidade regional, trazem para as reuniões de avaliação elementos fundamentais para o andamento do trabalho. Nesses eventos estaduais, em que são reunidas as 10 equipes de coordenação regional, tem-se um aprendizado interno ao grupo e subsídios para a equipe gerencial do programa.
O Programa Microbacias 2 teve como estratégia, para reforçar a equipe de extensão rural pública, o repasse de valores de subvenção para que as ADMs contratassem esses serviços na iniciativa privada. Da mesma forma, estava prevista uma redução gradativa no valor subvencionado por ano, com o intuito de estimular a autogestão das organizações de microbacias, que deveriam buscar outras formas de custear tal serviço.
À época, a posição das equipes regionais, que refletia a grande maioria dos municípios e microbacias trabalhadas, era da impossibilidade por parte das associações assumirem os custos desses técnicos. Também se verifica nos depoimentos colhidos nesta pesquisa uma posição contrária a essa proposição, tomando-a como incoerente, pois o Microbacias 2 trabalhou com o público mais carente dos municípios, o que o configura como público preferencial de políticas públicas e gratuitas desenvolvidas pelo Estado. Esse foi então um aprendizado gerado no grupo de coordenação do Microbacias 2 que resultou em alteração da estratégia prevista.
Com relação ao aprendizado institucional, vários foram os fatos e exemplos colhidos nos dados pesquisados. Os trabalhos pioneiros de manejo e recuperação de solos e água executados pela Epagri que antecederam o Microbacias 1 e seu aperfeiçoamento no decorrer Programa nos anos 1990 produziram um sólido conhecimento institucional. A instituição, até os anos 1970, centrava seus esforços na pesquisa e difusão de tecnologias de aumento de produção e produtividade. Com o advento do Microbacias 2, esse aprendizado é reforçado pela visão do desenvolvimento sustentável, o que ampliou a atuação da instituição para outros aspectos ambientais não só do solo e da água, além de incorporar elementos sociais e econômicos.
Fato importante apontado é o aprendizado constante das instituições públicas do Estado proporcionado pelos relacionamentos ocorridos com o Banco Mundial e organizações internacionais que o assessoram. Por meio desses relacionamentos,
inovações metodológicas e conhecimentos foram disseminados na estrutura do Estado que aprende e se coloca na vanguarda do desenvolvimento rural.
[...] E o que tenho visto é que, metodologicamente, a instituição se apropria, inova na metodologia de intervenção nas comunidades, de como trabalhar processos de desenvolvimento mais endógenos e participativos. Eu acho que tudo isso a gente vem incorporando na vivência da extensão rural do estado. (E2, 2013)
Também os órgãos ambientais de Santa Catarina têm, nesses anos de participação nos programas, incorporado um aprendizado crescente da realidade rural catarinense. A Fatma e a Polícia Militar Ambiental, responsáveis por desenvolver, no âmbito do Microbacias e do SC Rural, atividades de gestão e fiscalização ambiental, que promovem atividades em parceria com a extensão rural junto às comunidades, têm hoje melhor entendimento da realidade vivida pelas famílias rurais. Essa parceria, por exemplo, mudou substancialmente a forma como os policiais ambientais atuam, tendo maior sensibilidade para os problemas sociais e econômicos e uma postura pró-ativa.
Os maiores ganhos apontados, em termos de aprendizagem, são da instituição de extensão rural do Estado, a Epagri, sendo o mais lembrado aquele proporcionado pela metodologia de planejamento participativo realizado nas microbacias. Devido a seus bons resultados, a instituição passou a utilizá-la como importante fonte de dados e informações para o próprio planejamento plurianual. Também no escopo do Programa SC Rural a nova estratégia de atuação com foco em projetos estruturantes e planos de negócio traz a necessidade de investir em novos conhecimentos e em equipes interdisciplinares, o que tende a provocar aprendizagem institucional.
Ainda se pode identificar o entendimento de que o Microbacias 2 possibilitou o resgate de conhecimentos organizacionais, uma vez que fomentou o uso de metodologias de formação e organização de grupos, conhecimento este de domínio da sua estrutura técnica, mas que vinha sendo pouco utilizada. O que se pode deduzir nesse caso é que o conhecimento em pauta havia sido internalizado pelos extensionistas, porém por condições de contexto não estava sendo utilizado. Em um novo contexto favorável proporcionado pelo programa, tais conhecimentos voltaram a ter valor e utilidade para o trabalho de campo.