Os elementos que mais tiveram destaque nos discursos desta categoria de análise deram origem às subcategorias território de atuação, cooperação e utilização de metodologias participativas.
Pode-se verificar o entendimento de que a estratégia de ação utilizada no Microbacias 1, que teve como base territorial de planejamento a microbacia hidrográfica, foi acertada, tendo aquele programa um foco ambiental. Os resultados obtidos nos aspectos ambientais foram expressivos no meio rural do Estado, especialmente nas regiões com maior atividade agropecuária: o Oeste e Meio-Oeste (SANTA CATARINA, 1999).
Num claro processo de transição, o Microbacias 2 se caracterizou por uma proposta mais abrangente, que incluiu outras dimensões do desenvolvimento. No primeiro momento, segundo os relatos apresentados, algumas equipes técnicas regionais passaram a discutir e propor alterações nos limites impostos pelo território a ser trabalhado pela extensão rural: a microbacia hidrográfica. Esse já não mais poderia ser utilizado como único critério de definição da unidade de planejamento e trabalho. Sendo a base de atuação a organização comunitária, foi necessário incluir todas as famílias que mantinham redes de relações sociais, culturais e econômicas dentro de um território. E dessa forma foi feito: inicialmente, nas regiões localizadas no Oeste do Estado e, posteriormente, pela adoção dessa estratégia pelas outras regiões, orientadas pela coordenação estadual. .
Resgatando os argumentos apresentados na revisão da literatura e nos dados levantados, pode-se inferir que o Microbacias 2 incorporou elementos relevantes do
desenvolvimento sustentável defendido por Sachs (2010) e Navarro (2007). Dessa forma, ampliou suas dimensões de atuação, buscando equilíbrio entre a conservação ambiental e o atendimento às necessidades sociais e econômicas das famílias rurais envolvidas.
Parte da estratégia de ação definida pelo Programa SC Rural, o apoio técnico e financeiro à implantação de redes de negócios nos territórios trabalhados, foi apontada como uma inovação, já que permite a viabilidade e legalização de centenas de pequenas iniciativas empreendedoras existentes, que têm operado na informalidade.
As estratégias de cooperação e de redes podem ser consideradas um contraponto à linha de pensamento trazida pelo Banco Mundial na fase de negociação da proposta do SC Rural, que postulava a busca da competitividade da agricultura familiar nos mercados tradicionais de commodities. Nesse sentido, à época prevaleceu a argumentação da equipe técnica do Estado, em defesa de se trabalhar com os empreendimentos da agricultura familiar por meio de um processo diferenciado de competição, utilizando-se redes de cooperação com foco na diferenciação e qualidade de produtos e serviços.
Apresentam-se com frequência relatos que dão ao trabalho realizado no Microbacias 2 destaque relacionado à organização e à participação ampliada das famílias rurais nas atividades propostas. Segundo os atores, esse trabalho gerou frutos que estão sendo colhidos no âmbito do SC Rural e de outras políticas públicas.
[...] se trabalhou com grupos temáticos, com grupos de famílias que tinham problemas afins. Isso levava à busca de soluções em conjunto, isso foi uma parte bastante positiva do projeto, o que levou à criação de muitas organizações que hoje estão sendo beneficiárias do Programa SC Rural. [...] Buscava-se no MB2 a questão social, organizando os produtores porque quando foi escrito, uma das questões que se levantava como problema era que os agricultores estavam muito individualistas, e nós precisaríamos resgatar formas tradicionais de organização [...]. (E4, 2013)
Esses grupos formados no contexto do Microbacias 2 podem ser considerados embriões de empreendimentos e redes que, no seu início, se associam para ter acesso à informação e conhecimentos com vistas a melhorar seu processo de produção. Neste sentido, um expressivo número de grupos foi envolvido em cursos e eventos de capacitação, muitos destes realizados nas
propriedades rurais, na forma de unidades demonstrativas8. Dentro de um processo
natural de amadurecimento dos grupos, os agricultores tendem a unir forças para ter mais poder de negociação e espaço nos mercados. Ascendendo na escala de complexidade e organização, famílias rurais com atividades afins que desenvolvem negócios com inserção em mercados locais e regionais, por sua vez, estão se associando em organizações cooperativas com os mesmos objetivos.
Percebe-se uma relação direta com o que apontam Verschoore e Balestrin (2008) sobre as vantagens obtidas pelas organizações que integram redes de cooperação, como acesso a soluções tecnológicas, administrativas e legais, o aumento da escala e a ampliação do mercado.
Fator relevante observado nos dados coletados é a tendência natural de “[...] ocorrer um fortalecimento das organizações já fortalecidas [...] (E6, 2013)”, uma vez que elas têm maior capacidade de articulação e, portanto, chegam antes e com um projeto mais qualificado para captar recursos do Programa. Manifestou-se a preocupação de que comunidades, grupos e organizações com maiores dificuldades continuarão tendo pouco espaço para apresentar projetos. Sendo assim, o SC Rural poderia estar promovendo uma intensificação da diferenciação social e econômica entre regiões, comunidades e famílias rurais.
Ponto comum manifestado pelos atores participantes foi o trabalho de extensão rural executado no Microbacias 2, que se baseou em métodos participativos, em especial por meio do planejamento participativo. Essa metodologia de planejamento proporcionou o que chegou a ser citado como “resgate da extensão rural”, trazendo para o campo de atuação do Estado famílias que estavam fora do perfil trabalhado. Além de buscar incluir os agricultores com menor renda nas atividades de planejamento e definição das ações, propiciou maior presença de mulheres e jovens nessas atividades.