• No results found

A teoria de Quine é uma extensão da teoria de Russell, mas diverge dela em um aspecto importante. Em oposição à tradição e a sua teoria das predicações, Quine reconheceu o caráter singular de nomes próprios, mesmo quando vazios, e conse- quentemente, contra Russell, reconheceu temporária e estrategicamente predicações gramaticais compostas com essas expressões como predicações genuínas. Nesse

sentido, Quine foi um precursor das lógicas livres ou quase isso. Quine se oporia à Russell em sua teoria das predicações, mas eventualmente recorreria a sua teoria das descrições para lidar com a aporia dos inexistentes. Em “On what there is”, de 1948, Quine defendera tanto o princípio da univocidade quanto o metafísico, segundo o qual tudo existe, em versões hoje clássicas. Quine abre o artigo com uma resposta à questão ontológica “Sobre o que há?”. Mas sua resposta não é um critério de existência, é a tese extensionalista:

A curious thing about the ontological problem is its simplicity. It can be put in three Anglo-Saxon monosyllables: "What is there?"It can be answered, moreover, in a word - ’Everything’ - and everyone will accept this answer as true. However, this is merely to say that there is what there is. There remains room for disagreement over cases; and so the issue has stayed alive down the centuries.(QUINE, 1948, 21)

No artigo, Quine argumenta contra a interpretação das predicações existenciais negativas como evidência em favor de teorias realistas dos nomes vazios. Quine critica precisamente o argumento ou raciocínio realista, do qual teoria de Russell de 1903 é o maior exemplo, segundo o qual aquilo que não existe deve de algum modo existir para que possamos predicar-lhe a inexistência. Quine chama essa resolução da aporia de Barba de Platão.

Quine, evidentemente, não fornece um critério de existência. Isto é, ele não responde “coisas concretas”, “coisas conhecíveis”, etc. Ele começa afirmando que o fato de que tudo existe é tão simples quanto a própria pergunta ontológica, que seria curiosamente simples. Então Quine inicia o texto com a pergunta ontológica, “o que existe?” ou “o que há?” (assumindo uma leitura existencial do verbo “haver”) e, no primeiro parágrafo, a responde com uma resposta à nossa terceira pergunta metaontológica: “há objetos que não existem?”. A resposta de é gramaticalmente adequada. De fato, a pergunta ontológica permite uma leitura ambígua. Quine tenta antes estabelecer uma espécie de espaço de consenso antes de opinar realmente sobre a verdadeira questão ontológica

“O que existe?”. Mas o que é realmente curioso é o fato de que sua resposta provisória, supostamente trivial e consensual, não é nem trivial nem é consenso algum. Como sabemos, Meinong, notadamente, defendeu a posição contrária de que muitas coisas não existem.

No segundo parágrafo, na passagem imediatamente após a citada, Quine introduz um personagem, McX, cuja ontologia diferiria da de Quine por ser mais generosa. McX representa alguém que defende que existem coisas que Quine não reconhece como existentes. McX, portanto, é um realista, e Quine, um anti-realista. McX, Quine explica, pode consistentemente explicar a diferença entre as duas ontologias dizendo que Quine não reconhece a existência de tais e tais entes. Quine, naturalmente, pode objetar que não há nada como tais entes para ele reconhecer como existentes, e que, portanto, McX não retrata de modo justo a diferença entre as duas ontologias. Mas, como Quine explica, os anti-realistas estão em desvantagem no debate ontológico. Anti-realistas como ele têm dificuldades em deixar claro que não estão comprometidos com a existência de certos entes. Pois se dizem que não reconhecem cavalos alados entre as coisas que existem, o realista, encenado pelo personagem McX, poderia retrucar que ambos já estão comprometidos com tais coisas, uma vez que já estão falando sobre elas. A anti-realista, aparentemente, é incapaz de mostrar que sua ontologia é mais magra, e o realista parece então já começar o debate com uma vantagem ilegítima. Segundo Quine, essa impressão é o efeito da velha, e para ele, caduca, aporia dos inexistentes.

Quine precisa mostrar como tratar o problema dos nomes vazios e a aporia dos inexistentes sem cair no feitiço da Barba de Platão. Para tanto, Quine traçará uma distinção entre termos singulares referenciais e não referenciais de modo a respeitar a forma gramatical das predicações. O critério para a semântica das expressões naturais de Quine era muito simples: é a função gramatical de uma expressão que devemos levar em conta para interpretá-la como singular ou geral. Mas então uma ressalva precisa ser feita na própria teoria da predicação, isto é, na regra de avalição do valor de verdade de predicações: que um termo singular possa não referir a objeto algum. Uma predicação, pois, juntaria um termo geral e um singular formando uma sentença verdadeira ou falsa

conforme o termo geral é verdadeiro ou falso sobre o objeto, se houver um, ao qual o termo singular refere.

Is is by grammatical role that general and singular terms are properly to be distinguished. [Parágrafo] The basic combination in which general and singular terms find their contrasting roles is that of predication: ’Mama is a woman’, or schematically ’a is an F ’ where ’a’ represents a singular term and ’F’ a general term”. Predication joins a general term and a singular term to form a sentence that is true or false according as the general term is true or false of the object, if any, to which the singular term refers.(QUINE, 1960, 96)

Em um aspecto muito importante, Quine quebra com a teoria tradicional da predi- cação, que requeria que toda predicação envolvesse denotação. Em contraste, a teoria que Quine sugere admite a possibilidade de falha de referência da parte de um termo singular em uma predicação genuína. Mas Quine pensava também que uma predicação só preservava a transparência e a extensionalidade quando o sujeito fosse usado como uma expressão referencial.

When a singular term is used in a sentence purely to specify its object, and the sentence is true of the object, then certainly the sentence will stay true when any any other singular term is substituted that designates the sema object. Here we have a criterion for what may be called purely referential position: the position must be subject to the substitutivity of identity.

(. . . )

An illustration of purely referential position is the position of singular terms under predication. For, the predication is true so long merrely as the predi- cated general term is true of the object named by the singular term.(QUINE, 1960, 142)

Quine mostra que verbos de atitudes proposicionais normalmente indicam situações em que termos singulares não são usados como puramente referenciais. Mas e quanto a

predicações vazias? Quine (1943) já parecia oferecer uma abertura para reconhecer que “Pégaso” poderia ocorrer como um termo singular genuíno, no sentido de ser substituível salva veritate, se acreditássemos que “Pégaso” refere em primeiro lugar. Quine mantivera essa posição já em 1943:

The main conclusions reached in the five sections of this paper are as follows. A substantive word or phrase which designates an object may occur purely designatively in others. This second type of context, though no less “correct” than the first, is not subject to the law of substitutivity of identity nor to the laws of application and existential generalization. Moreover, no pronoun (or variable of quantification) within a context of this second type can refer back to an antecedent (or quantifier) prior to that context. This circumstance imposes serious restrictions, commonly unheeded, upon the significant use of modal operators, as well as challenging that philosophy of mathematics which assumes as basic a theory of attributes in a sense distinct from classes.(QUINE, 1943, 127)

Não surpreende que ele tenha vindo a oferecer resistência à idéia de acolher nomes vazios como nomes em sua teoria. Segundo Quine, nomes vazios não são usados referencialmente precisamente porque sabemos que não têm referência quando os usamos.

A constant singular term, simples or complex, will seldom be used in purely referential position unless the speaker believes or makes believe that there is something, and just one, that the term designates. For us who know there is no such thing as Pegasus, the sentence ’Pegasus flies’ counts prhaps as neither true nor false.(QUINE, 1960, 176)

Quine, ao mesmo tempo, não deseja ceder nem à atitude de Frege e postular coisas como sentidos, nem deseja, com Russell, confundir significado e referência sacrificando a forma gramatical em função de uma noção puramente semântica de predicação. Mas

incapaz de lidar com nomes vazios de outro modo, recua, no capítulo sobre regimentação, à visão de recusar aos nomes vazios uma posição puramente referencial. Se admitidos, termos singulares vazios produziriam lacunas de valores de verdade.

Singular terms which, like ’Pegasus’, lack their objects thus raise problems; and not only in connection with the concept of purely referential position. The mere occorrence of truth-calue gaps, as we may call them—cases where, in Strawson’sphrase, the question of truth value does not arise—would add irksome complications to deductive theory if allowed for. (. . . ) A special awkwardness of the truth-value gaps here under consideration is that they cannot be systematically spotted be notational form. Whether ’Pegasus flies’ has a truth value is made to depend on whether there is such a thing as Pegasus. (. . . ) Even such truth-value gaps can be admitted and coped with, perhaps best by something like a logic of three truth values. But they remain an irksome complication, as complications are that promise no gain in understanding.(QUINE, 1960, 177)

Segundo Quine, termos singulares vazios de fato aprecem dentro de contextos opacos, como em “Homero acreditava em Pégaso”, mas nesses casos eles não são, na verdade, puramente referenciais. Termos singulares vazios aprecem em existenciais ne- gativas, mas aqui, Quine sugere, eles são melhor entendidos como não sendo realmente referenciais. Podemos tratá-los à la Russell utilizando um método de conversão de termos singulares em gerais sem supormos que uma descrição seja associada mentalmente ao nome por um falante. Nas seções 37 e 38, Quine então apresenta sua famosa teoria de 1948 sobre a eliminabilidade de termos singulares. Segundo sua teoria, existência pode ser expressa em termos de identidade, uma vez que vale o pressuposto metafísico de que tudo existe. A importância da conversão de predicação existencial singular em uma quantificação com identidade é essencial para o projeto do empirismo mínimo de Quine e seu nominalismo. A mesma tecnologia é sido sugerida on “On what there is” para mostrar como é possível negar sem ter que supor a existência de algo e escapar à Barba de Platão.

A look at ’

(

∃x

)(

xexists

)

suggests that our embarrassment may be one of riches: that ’exists’ has perhaps no independent business in our vocabulary when ’

(

∃x

)

’ is at our disposal. May we not better spell ’Pegasus exists’ itself out as ’

(

∃y

)(

y

=

Pegasus

)

’ On this plan ’

(

∀x

)(

xexists

)

’ and ’

(

∃x

)(

xexists

)

’ become ’

(

x

)(

∃y

)(

y

=

x

)

’ and ’

(

∃x

)(

∃y

)(

y

=

x

)

’ and thus trivially true. What we have done here is to construe ’exists’ as an ordinary general term, or predicate, but a trivial one: we have taken ’xexists’ as ’

(

∃y

)(

y

=

x

)

’, which, like ’x

=

x’, is true of everything.(QUINE, 1960, 176)

Mas para que ’

(

∃y

)(

y

=

Pegasus

)

’ seja falso ’Pegasus’ tem de ocorrer de modo não referencial, caso pensássemos o contrário cairíamos na Barba de Platão. Mas a teoria de Quine serve precisamente para evitar os compromissos ontológicos que a tradição associava às expressões singulares. Somente expressões como “há alguma coisa” que nos compromete ontologicamente com algo. Lembre do critério de compromisso ontológico de Quine. Só estamos comprometidos com a existência de algo se pudermos derivar uma sentença quantificada existencial a partir de nossas crenças devidamente revisadas. Quine sugere que termos singulares precedidos da igualdade, ’

=

a’, podem ser entendidos como termos gerais. Quine explica a manobra no artigo de 1948:

In order thus to to subsume a one-word name or alleged name such as ’Pegasus’ under Russell’s theory of descriptions, we must, of course, be able first to translate the word into a description. But this is no real restriction. If the notion of Pegasus had been so obscure or so basic a one that no pat translation into a descriptive phrase had offered itself along familiar lines, we could still have availed ourselves of the following artificial and trivial-seeming device: we could have availed ourselves of the following artificial and trivial- seeming device: we could have appealed to the ex hypothesi unanalyzable, irreducible attribute of being Pegasus, adopting, for its expression, the verb ’is-Pegasus’, or ’pegasizes’. The noun ’Pegasus’ itself could then be treated as derivative, and identified after all with a description: ’the thing that is- Pegasus’, ’the thing that pegasizes’.(QUINE, 1960, 36)

Termos singulares nunca, por eles mesmos, exigem que os interpretemos de modo existencialmente carregado. É necessário que sejam também referenciais. Aqui Quine diverge de Russell, mas mantém com ele um vínculo nítido de fidelidade, ao reconhecer contra ele a singularidade, mas também não a referencialidade, de expressões singulares ordinárias. E apesar de não reconhecer o requisito epistemológico de Russell quanto a expressões puramente referenciais, Quine exige que expressões denotativas sejam usadas com a intenção de referir para que sejam realmente referenciais.

Nomes seriam então melhor eliminados da linguagem. Para isso Quine propõe que os tratemos como descrições, que os convertamos em termos gerais. Talvez pensar como Russell que uma descrição definida fosse mentalmente associada a cada nome próprio ordinário em seu uso seja uma estratégia inviável. Nenhuma condição descritiva específica de individuação é necessária ou suficiente para garantir a desinação de um objeto. Mas a sugestão de Quine é uma puramente simbólica. Uma predicação qualquer Papode ser convertida em

(

∃x

)(

Px ∧

(

x

=

a

))

, contanto que leiamos ’

=

a’ como sendo um termo geral construído a partir de um nome. Quine mostra que as condições de ambas as sentenças é a mesma. Isso é evidente, mas é necessário, além do fato de que valham a univocidade e o princípio metafísico de que tudo existe, que a lógica seja clássica, onde vale a extensionalidade.

The use of allegded names is no criterion, for we can repudiate their na- mehood at the drop of a hat unless the assumption of a corresponding entity can be spotted in the things we affirm in thems of bound variables. Names are, in fact, altogether immaterial to the ontological issue, for I have shown, in connection with ’Pegasus’ and ’pagasize’, that names can be converted into descriptions, and Russell has shown that descriptions can be eliminated. Whatever we say with the help of names can be said in a language which shuns names altogether. To be assumed as an entity is, purely and simply, to be reckoned as the value of a variable.(QUINE, 1948, 39)

Em última instância, os esforços de Quine para respeitar a forma gramatical das sentenças é somente um ponto de partida para sugerir que seria melhor eliminar os

nomes da linguagem de predicados de uma vez por todas. Sobre essas seções do Word and Object, Lambert diz:

The clear suggestion is that ’Pegasus’ — the expression — is an inconveni- ence, an embarrassment to good philosophical taste which favors the austere and transparent over the baroque and opaque, and, therefore, should be banished from “the canonical language”. (. . . )

To paraphrase Russell, it is not customary for a philosopher to face ’Pagasus’ with so much courage, and indeed not even the canonical language can withstand its onset. The argument is that retaining expressions such as ’Peagaus’ (or ’Vulcan’) is more than inconvenient; ’Pegasus’ is the Devil himself, and, in the words of the Scriptures, must be bound in chains and cast down.

Restam, contudo, as suspeitas de que o método de Quine reduz a singularidade à generalidade e que, por isso, está sujeito às críticas ao descritivismo; de que é demasiadamente artificial para que sirva a uma semântica efetiva. Como interpretar um termo geral composto com identidade e um termo singular se não formos capazes de interpretar esse termo singular como referencial em primeiro lugar? Ou seja, como saber o que significa “pegasear” se não sabemos interpretar “Págaso” nem como objeto nem como descrições, sob pena das críticas de Kripke? Além disso, há as suspeitas ainda mais sérias de que o verbo “existe” não pode ser reduzido à quantificação e identidade. A sugestão de Quine é de que uma sentença existencial “algo existe” é equivalente à “algo é idêntico a si mesmo”, de modo que se admitimos a conversão de um nome em um termo geral, então “Pégaso existe” também será equivalente a algo como “Existe algo tal que é idêntico a algo que pegaseia”. Que ’

(

∀x

)(

∃y

)(

x

=

y

)

’ é um teorema de LP1 e que ele expressa o pensamento da ortodoxia nós sabemos. Mas Quine requer que reconheçamos o uso da identidade como uma espécie de operador formador de termos gerais. É difícil entender que diferença faz trocar um predicado de existência por um predicado de identidade, uma vez que ambos, para a ortodoxia, exibem a problemática

propriedade de não possuirem complemento. Além disso, vale a seguinte pergunta de McGinn (, 27): será que é isso mesmo que dizemos quando enunciamos a existência de algo: que ele é idêntico a alguma coisa?