Nada ou quase nada pode o homem fazer contra inundações e, para evitá-las, deve afastar-se de lugares perigosos. A inundação é consequência natural da cheia dos rios e que, se o homem a considera uma calamidade é porque habita ou cultiva em terras inundáveis... Interferir no regime de escoamento das águas pode resultar
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em soluções não totalmente satisfatórias, mas o homem procura contrariar a natural visita das enchentes e, não podendo intervir no regime de escoamento das águas, contribui com soluções insatisfatórias (BRITO, 1926, p.39 e 40 ).
Estas palavras refletem os princípios retomados duas décadas mais tarde por Gilbert F. White. Pensador e pesquisador de renome internacional, White, em seu trabalho Human Adjustment to Floods: A Geographical Approach to the Flood Problem in the United States (1945), lembra que „drenagem é espaço‟ e insiste na não ocupação de várzeas ou planícies fluviais como primeira medida para evitar o impacto das inundações. Este conceito, formulado em época em que a variabilidade climática não era tema incluído nos debates na academia ou em foros especiais de discussão sobre o clima e desastres naturais, é tópico que não perdeu a força de seu significado, passados quase setenta anos de sua formulação. Drenagem é espaço remete imediatamente ao tema da relação entre o técnico-científico e o sociopolítico, já que a infraestrutura das intervenções em drenagem urbana não pode fugir de considerações sociopolíticas, como o uso e a ocupação do solo em áreas ribeirinhas e o espaço que a visita
das inundações exige.
Referindo-se a agricultores, moradores, industriais e comerciantes, aponta para a falta de preparo para enfrentar as inundações que corroem a economia, afetam a saúde e a propriedade. Definiu algumas medidas e arranjos a serem implementados simultaneamente para a acomodação humana às inundações, incluindo medidas estruturais e não- estruturais. Esses arranjos estão relacionados no Box 1.
Em sua obra, o autor combinava o olhar sobre o homem e sobre a natureza de eventos „geográficos‟ e „físicos‟19, como as inundações. Contrariamente às
políticas de controle de inundações que glorificavam a construção e a melhoria de diques, molhes e canais, White constatou que:
19 Aspas pela pesquisadora.
Arranjos simultâneos para a convivência com inundações:
elevar o nível da terra acima da provável ameaça de inundações; realizar obras para diminuir a
velocidade do escoamento superficial nos terrenos a montante
proteger as planícies de inundação com canais, molhes e reservatórios; adotar medidas temporárias para
evacuar pessoas e proteger a propriedade;
tornar as estruturas físicas menos expostas a inundações;
usar as planícies fluviais para usos menos afetados por inundações; providenciar assistência para vítimas
de inundações;
garantir seguro financeiro para as perdas por inundações.
Box 1 - Proposta de arranjos para a convivência com inundações
“Se inundações são atos de Deus, as perdas por inundação são principalmente atos dos homens, sendo invasão humana sobre as planícies fluviais a responsável pela perda total anual causada por inundações” (WHITE, 1945, p. 2).
São muitos os temas abordados por White em sua extensa obra, expostos no Box 2. Dois deles são importantes em apoio às reflexões a que se propõe esta pesquisa: o partir da vida cotidiana em nível do local e a abordagem do relacionamento entre o técnico e o social.
A obra de White reflete preocupação constante com o relacionamento entre a natureza humana e a ecologia, influenciado por sua vida passada na cidade e no campo. Sua infância na norte-americana Chicago e seus arredores, espaços onde culturas de várias origens étnicas se mesclavam, o expôs aos conflitos oriundos das diferenças entre grupos sociais. Seu olhar para as relações sociais e para a gestão de recursos naturais e os riscos inerentes se reflete em toda a sua obra, permeada pela preocupação em explorar o local antes mesmo de abordar as questões regionais, nacionais e globais. Seus estudos científicos foram influenciados pelo local e pelo cotidiano da vida de atores sociais, contribuindo para políticas do abastecimento de água durante épocas de seca em seu país (KATES, 2011). Chegou a conclusões de alto significado para a compreensão e a formulação de estratégias e políticas (WHITE et al, 1972). No caso de intervenções em drenagem urbana e manejo de águas pluviais, a resposta à pergunta „como os usuários dos serviços prestados pelas obras usam estes serviços?‟ é útil para a formulação de estratégias inovadoras que aumentem os benefícios que as obras existentes oferecem.
Hoje, a extensa obra de White20 é lembrada e divulgada não somente através de citações por parte de pesquisadores, de seus antigos alunos e/ou colaboradores, como também através de várias organizações, uma delas, a ASFPM Foundation for Sustainable Floodplain
20 Disponível em http://www. Colorado. Edu/hazards/gfw/published.pdf. Último acesso em julho de 2013.
Temas que permeiam a obra de Gilbert White, reflexo de seu enfoque sobre o nível local:
Abastecimento doméstico de água potável, sobretudo como um direito humano.
Riscos naturais (natural hazards) e desastres, sobretudo focalizando a diminuição de mortes, estragos e destruição.
Paz global e regional através da cooperação entre diversos povos e interesses no desenvolvimento e na gestão de bacias hidrográficas e recursos hídricos.
A expansão da ciência em geral, e em particular da geografia, para além das fronteiras da academia em direção ao serviço prático à humanidade.
A reconciliação entre desejos, necessidades e ambições e as necessidades de um meio ambiente sustentável e dos recursos naturais mundiais para se chegar ao caminho do desenvolvimento equitativo.
Box 2 - Principias temas abordados por White em sua
Management Policy.21. Foros de discussão sobre a gestão de planícies inundáveis em sua homenagem chegaram a considerá-lo o mais influente gestor de planícies inundáveis do Século XX. São foros onde se discutem avanços na geração de novos conhecimentos sobre planícies inundáveis, com recomendações e formulação de políticas, como alianças a serem estabelecidas entre agricultores e gestores, a premiação de moradores e demais indivíduos para que reduzam os riscos de inundação em sua propriedade e minimizem impactos nos demais, planos de prevenção de inundações em todas as comunidades, que os cidadãos entendam que a infraestrutura de proteção contra inundações não elimina o perigo e medidas de manutenção são necessárias, assim como a conscientização e a educação.