Motivados pelo interesse de preservação tanto do status social quanto de seus bens materiais, os indivíduos procuram defender-se de agressões. Sentir-se capaz de proteger a família e a propriedade durante eventos críticos, como inundações, e a habilidade de empreender ação neste sentido são os dois lados da autodefesa. Este conceito foi explorado pelo governo holandês ao formular sua política de combate a inundações: a autoproteção é a capacidade dos cidadãos de salvar-se e cuidar de si mesmos e de outros quando a catástrofe ocorre, é a capacidade de sobreviver e de lidar com circunstâncias adversas, independentemente do trabalho das agências de socorro (FRERKS et al, 2012.). A política, tal como formulada, não prevê um programa comunitário e de longo-prazo para o restabelecimento da situação vigente antes da catástrofe acontecer.
A autodefesa, como ação espontânea, muitas vezes atende a uma urgência de defesa individual para evitar perdas e outros danos devido às inundações, e acaba por bloquear arranjos coletivos sistemáticos. Quando a água retorna ao seu nível de segurança, também a vida na comunidade retorna ao seu normal. Eventos futuros não são mais previstos preparar- se para eles não é opção escolhida por residentes e comerciantes instalados em áreas de risco de inundação: outras prioridades prevalecem. Os representantes do governo local não querem se envolver com a vulnerabilidade em que se encontram moradores e comerciantes, já que „inundação‟ é assunto que pode impactar negativamente os investimentos a serem feitos e, consequentemente, as finanças públicas (CUTTER et al, 2008).
Por outro lado, o conceito de resiliência indica um enfrentamento de eventos críticos com resultados mais duradouros, maior eficácia, vinculado a estruturas já existentes e abrangendo a comunidade em seus diferentes níveis da organização social. Baseando-se em diferentes abordagens Frerks e colaboradores (2012) definem resiliência como
„a capacidade compartilhada (de um grupo, comunidade ou sociedade) de antecipar, resistir, absorver e recuperar-se de um evento crítico através de um processo de mudança adaptativo e
inovador, de sua capacidade de empreendedorismo, de aprendizagem e de crescente competência‟ (FRERKS et al, 2012, p. 53).
Não se trata então de apenas regressar à situação anterior ao desastre, já que aprendizagem e competência crescentes levam à sustentabilidade da resiliência comunitária.
Esta conceituação, em associação com a definição por Cutter e colaboradores (2008) em que „resiliência é uma expressão mais pró-ativa e positiva do engajamento da comunidade na redução de desastres naturais‟, conduz à concepção do compartilhamento de ações entre os principais grupos de interesse envolvidos na drenagem de águas pluviais: os moradores e o setor privado, os que formulam as políticas públicas e as autoridades governamentais, além dos experts técnicos comprometidos com as obras.
Este compartilhamento é tratado por Kolen e colaboradores (2012) ao assumir que os moradores e comerciantes têm sua própria percepção do risco que correm e de sua segurança, já que estão instalados no lugar onde o problema ocorre e sofrem seu impacto direto e refletem em ações de proteção a serem empreendidas; da percepção daqueles que tomam decisões, já que tendem a abordar o problema do ponto de vista do custo-benefício; e do ponto de vista dos especialistas, já que tendem a ver o problema do ponto de vista do risco técnico. Essas diferentes perspectivas, quando isoladas umas de outras, não serão suficientes para o compartilhamento que a resiliência exige.
Isolados, estes grupos de interesse tendem a não considerar a perspectiva dos demais e empreender ação social, no sentido trabalhado por Weber (1964). Resiliência significa partir de uma estratégia de autodefesa individual em direção a um esforço coletivo quando o interesse coletivo e público é tomado em consideração. O objetivo é entender se existe a
A aliança entre cidadãos, Poder Público e técnicos contribui para:
Garantir investimentos em prevenção e preparação pelo Poder público para exercícios pela defesa civil, para a pesquisa e para o trabalho de especialistas;
Garantir que o risco de desastre seja uma prioridade local e nacional;
Identificar, avaliar e monitorar os riscos de desastre e torna mais eficientes os sistemas de alerta; Usar o conhecimento, a
motivação e a educação para construir uma cultura de segurança e resiliência a todos os níveis;
Reduzir os fatores subjacentes ao risco de desastre;
Fortalecer o preparo para enfrentar o desastre para que a resposta seja eficaz e a recuperação, a todos os níveis, seja possível
Box 4 - Interação entre todos. Fonte: Clark, 2012
oportunidade para implementar ação coletiva, organizada, adaptativa e sistemática por todos aqueles que estão envolvidos em diminuir o impacto de inundações já que somente a infraestrutura hidráulica não é uma solução definitiva (FRERKS et al., 2012). Entender que a ação individual de autodefesa pode levar à ausência da percepção de externalidades, enquanto que a ação coletiva pode levar à solução mais duradoura e sustentável, à aprendizagem social, quando todos estão envolvidos. Assim, autodefesa pode ser vista como primeiro passo para a ação organizada e o alcance da resiliência comunitária.
Como um processo de aprendizagem coletiva para o alcance do interesse público, a resiliência implica a interação de todos os interessados em estratégias de segurança, a durabilidade das obras implantadas e a sustentabilidade dos serviços que oferecem. Inclui a percepção dos riscos associados aos eventos críticos, e resulta em aprendizado de experiências passadas, as atitudes presentes e o preparo para futuros eventos. Pesquisa desenvolvida por Souza (2011) em uma área afetada por grave seca no Nordeste do Brasil revelou que aqueles que passaram por eventos de seca e sofreram seus impactos tinham uma percepção real da catástrofe, tendo desenvolvido estratégias para enfrentá-los de maneira organizada. Já aqueles que nunca estiveram em tal situação percebiam esses eventos como de seriedade bem acima da real e não imaginavam como enfrentá-los, daí seu exagerado temor. Shippee et al (1982, apud KIRSCHENBAUM, 2004) chegaram a essa mesma conclusão em pesquisa com moradores de áreas situadas fora da zona de inundações e que temiam por suas vidas e propriedade em um nível mais alto do que aquelas famílias instaladas na zona de perigo. Outro aspecto é o impulso por solidariedade entre os que correm o risco de serem atingidos pelos impactos de desastres naturais e estabelece uma fortalece a coesão social e, devido à experiência compartilhada, desenvolver conhecimento para enfrentar eventos futuros e para a situação pós-evento.
A interação entre os atingidos, as autoridades e os especialistas assegura a aliança entre todos os grupos de interesse: os cidadãos que precisam ser empoderados para participar das decisões que reduzam o risco, as lideranças políticas, as entidades governamentais, o setor privado, as organizações da sociedade civil, as corporações profissionais e as instituições técnicas e científicas (CLARK, 2012).
A motivação, a criatividade e o impulso que levam à autodefesa indicam a oportunidade para o estabelecimento de redes sociais ao redor do problema comum. São redes que levam ao
fortalecimento social e permitem maior interação com entidades locais e especialistas (KIRSCHENBAUN, 2004) de onde pode surgir a oportunidade para implementar a resiliência na redução dos impactos de inundações satisfazendo o interesse público.