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A partir dos relatos de cronistas e viajantes, especialmente dos Oitocentos, procuro analisar as descrições escritas e visuais produzidas sobre a vista da entrada da Cidade do Pará, por constatar que foi um dos primeiros aspectos registrados pelos viajantes quando se referiam à cidade. Além do texto escrito, vários viajantes produziram gravuras desse espaço, embora outros

224 KURY, Lorelai. Viajantes e Naturalistas do Século XIX. In: PEREIRA, Paulo Roberto. 500 anos de Brasil na

Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2000, p. 22.

viajantes, mesmo que não tenham disponibilizado em suas obras uma representação visual do porto de Belém, fizeram uma descrição minuciosa sobre suas percepções da cidade sob o ponto de vista do rio.

A vista panorâmica de Belém, vista pelo lado do rio, fez parte do repertório de gravuras de vários outros viajantes que deixaram seus registros sobre a cidade. Entre eles, podemos identificar as imagens publicadas nas obras de Alexandre Rodrigues Ferreira, Johann Baptist Von Spix e Karl Friedrich Von Martius; Alcide d’Orbigny, Ferdinand Denis, Daniel Parish Kidder; Paul Marcoy, James Orton, Herbert Smith, Karl Von den Steinen e Élisée Réclus. De modo geral, além do período em que a cidade foi representada, procuramos detalhar a composição do cenário, mesmo que em algumas gravuras os detalhes fossem poucos diferentes. Levamos em consideração as noções da vista da cidade a partir de registros de outros viajantes que somente as descreveram em seus relatos de viagens.

Sentimos a necessidade de iniciar a exposição a partir do final do século XVIII, por fazer parte da primeira expedição determinada pelo governo português que ficou conhecida como a "Viagem filosófica", comandada por Alexandre Rodrigues Ferreira, realizada entre 1784 e 1792. O prospecto da Cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará (figura 2), localizada junto com muitas outras ilustrações de seu livro226, foi desenhado por Joaquim José Codina, um dos riscadores da expedição227.

Figura 2- Prospecto da Cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, 20 de maio de 1784.

Fonte:Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira. Ca. 1792.228

226 A coleção apresenta desenhos em maior parte da flora do Brasil em menor quantidade a fauna e por fim artefatos indígenas, além de alguns tipos humanos e artefatos indígenas, tipos de embarcações. Em relação à quantidade e desenhos produzidos durante a Viagem Filosófica foram relacionadas 1.015 imagens feitos da expedição do Pará, e 1.048 catalogadas de outras localidades. Cf. SOARES, José Paulo Monteiro; FERRÃO, Cristina (Orgs.). Viagem ao

Brasil de Alexandre Rodrigues Ferreira. Expedição Filosófica pelas Capitanias do Pará, Rio Negro, Mato Grosso

e Cuyabá. Volume III. Rio de Janeiro: Kapa Editorial, 2008, p. 200.

227 A expedição contava com outro desenhista, José Joaquim Freire (1760-1847). 228 SOARES; FERRÃO (Org.), 2008, p. 22-23; também disponível em:

<http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_manuscritos/ARF_JPG/mssMAP.I_5_1_001a.jpg>. Acesso em: 7 out. 2014.

Vegetação

Igreja e Forte das Mercês, Alfândega.

Torres das Igrejas e o Forte da Serra Palácio dos Governadores Igreja de Santo Antonio Cúpula da Igreja de Sant’Anna Sobrados

No centro do desenho, identificamos a Igreja de Nossa Senhora das Mercês e a Alfândega229, ao lado direito, uma série de sobrados e edifícios públicos construídos ao longo do período pombalino, entre os quais se destaca o Palácio dos Governadores, com seu frontão clássico, o Palácio Residencial dos Generais e as torres das Igrejas de Santo Alexandre e da Catedral. O desenho mostra à esquerda a cúpula da Igreja de Sant'Anna230 e a Igreja de Santo Antonio dos frades capuchinhos. Em primeiro plano, há vários tipos de embarcações, canoas, montarias, como foi especificada pelos viajantes Kidder, Paul Marcoy, entre outros, durante o século XVIII. Nas partes extremas, do lado direito, a representação do Forte e do lado esquerdo, a única representação da vegetação que compõem o cenário da vista do porto da “Cidade do Pará”.

No prospecto da cidade há uma legenda em latim, O Fortunati, quorum jam mœnia surgunt! que significa "os afortunados, cujas paredes já subiram!"231, representa uma das maneiras de expressar como o viajante concebia a cidade, no momento em que percebeu os tipos de prédios que já existiam em Belém no final do século XVIII. No início da expedição, o naturalista afirmara que Belém era "a única cidade da Região Norte"232. Alexandre Rodrigues Ferreira, antes de seguir viagem para o Rio Negro, escreveu um texto intitulado Miscelânea Histórica para servir de explicação ao prospecto da Cidade do Pará, em 1784233.

Em relação aos naturalistas bávaros Martius e Spix, eles produziram a gravura da vista da cidade de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, publicada no terceiro volume sobre a narrativa da expedição entre os anos de 1817 a 1820. O desenho da cidade de Belém do ponto de vista do lado do rio é semelhante às produções de vários artistas que acompanhavam os naturalistas durante as expedições. Embora se possa verificar que alguns viajantes também produziam seus próprios desenhos no decurso das viagens.

Portanto, a organização do cenário reproduzido pelo pintor Franz Xaver Nachtmann (1799-1846)234 é semelhante a que foi identificada anteriormente, produzida por Joaquim José Codina, em 1791, numa versão mais compacta. Deve-se levar em consideração que é um desenho

229 Antigo Convento dos Mercedários e atualmente representa as repartições do Ministério da Fazenda. 230 Foi projetada por Landi e a sua construção teve início em 1760 e só foi concluída em 1782. Cf. SOARES; FERRÃO (Orgs.), 2008, p. 60.

231 Este versículo foi dito por Enéas quando olhou para as alturas da cidade: "O fortunati, quorum iam moenia surgunt!'. (Vergil, Aeneid, I: 437-438) - "Oh, os afortunados, cujas paredes já subiram!".

232 SILVA, José Pereira da. Alexandre Rodrigues Ferreira. In: SOARES; FERRÃO (Orgs.), 2008, p. 194. 233 SILVA, José Pereira da. Alexandre Rodrigues Ferreira. In: SOARES; FERRÃO (Orgs.), 2008, p. 195. 234 “As estampas do atlas foram gravadas a partir de desenhos esboçados em sua maioria por Martius e Thomas Ender. Os esboços foram [...] parcialmente litografados em argila por Joseph Steingrübel, Franz Xaver Nachtmann, Carl Friedrich Heinzmann e Friedrich Hohe, impressas por Josef Selb; tendo seis estampas coloridas”. Cf.

Disponível em: <http://hid0141.blogspot.com.br/2008/10/imagens-etnogrficas-de-viajantes-alemes.html>. Acesso em: 11 mar. 2015.

que retrata, provavelmente, o momento em que a expedição passou por Belém em 1819. A cidade, vista pelo lado do rio, é representada na parte do centro pelo prédio da Alfândega, atrás do qual surgem as duas torres da Igreja das Mercês; olhando para o lado esquerdo, eleva-se a cúpula da Igreja de Sant'Anna e, em direção ao litoral, o convento dos Capuchinhos de Santo Antonio; no sentido do lado direito, o Forte do Castelo235, o Hospital Militar; às proximidades, o Seminário Episcopal e as torres da Catedral da Sé. Mais para dentro da imagem, o Palácio do Governo.

Figura 3- Franz Xaver Nachtmann (1799-1846). Santa Maria de Belém do Gram Pará [1819]

Fonte: SPIX, Joh Bapt von. Atlas zur Reise in Brasilien. [Gravura 24-E], 1831236

O diferencial dessa paisagem, em relação à anterior, é a representação da natureza compondo o cenário nas partes edificadas, especificamente as palmeiras que se misturam com os prédios. O movimento do rio é evidenciado no desenho junto com os diversos tipos de embarcações.

Detalhe, figura 3

Em abril de 1828, o tenente da marinha inglesa Henry Lister Maw fez um breve relato sobre Belém. Primeiramente apresenta a localização da cidade e as ilhas em seus arredores, destacando a Ilha das Onças e também os fortes edificados. Concluiu que a cidade era "defendida

235 Spix já identificava o Forte somente pelo nome Castelo.

236 Esta gravura faz parte do acervo da Biblioteca Nacional Digital. Disponível em:

<http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon1250074/icon1250074_26.jpg>. Acesso em: 7 out. 2014 e também foi identificada na tradução brasileira, Cf. SPIX, MARTIUS, 1981, p. 85.

por dois fortes, e ambos são situados em rochedos íngremes, mas não elevados”237. Um deles, o Forte da Serra está localizado em um “rochedo isolado”, no qual “todas as embarcações que entram ou saem são obrigadas a mandar hum bote com os papéis, antes de lhes ser permitido o passarem adiante”238. O outro forte fica em frente à Alfândega, ligado por uma escada de madeira. Ao retornar para a Inglaterra, Maw239 descreveu que no porto estavam ancoradas várias embarcações, uma fragata francesa; dois brigues ingleses: uma escuna de guerra e outro mercante. Também um brigue francês que saiu no mesmo dia do tenente Maw e um grande navio brasileiro que tinha partido para Lisboa já há alguns dias.

Cinco meses depois, o desenhista francês Hercules Florence (1804-1879), assim como Henry Maw, não produziu nenhuma gravura da vista de Belém, mas, em seu diário, fez uma descrição pontual da quantidade de embarcações no porto onde "havia uns trinta navios mercantes de origem inglesa, norte-americana, portuguesa e brasileira e francesa, outro sardo, dois brigues de guerra da marinha brasileira e outro da francesa, que viera de Caiena para carregar gado"240.

Figura 4- Willian John Burhell. Belém do Pará vista de longe

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-

1829, 1981, p. 163.

237 MAW, Lister Henry. Narrativa da passagem do Pacífico ao Atlântico: através dos Andes nas províncias do norte do Peru, e descendo pelo Rio Amazonas até ao Pará. Liverpool: F. B. Wright, 1831, 318, p. 273.

238 MAW, 1831, p. 273. 239 MAW, 1831, p. 276.

240 FLORENCE, Hércules. Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Tradução do Visconde de Taunay. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2007. XLIV e 282 p. (Edições do Senado Federal; v. 93), p. 340.

Em 1829, William John Burchell, como combinação de cientista e artista, produziu vários desenhos dos lugares por onde passou, alguns ainda estão desaparecidos, como no caso do grande panorama da Cidade do Pará241. Para Gilberto Ferrez242, o naturalista Burchell, ao deixar o registro243 desse panorama, tem a impressão de que o naturalista conheceu toda a cidade e vários moradores importantes. Outro aspecto identificado por Ferrez, é de que o tema principal do naturalista era basicamente a natureza, “dispensando vistas urbanas e apresentando diminutas figuras humanas”244. Os detalhes do desenho, Belém do Pará vista de longe do naturalista Burchell, permitem identificar o local em que foi produzido. Diferente da maioria dos artistas e naturalistas que produziram a vista da cidade a partir das suas embarcações, o cenário é destacado pela vegetação das Ilhas da Onça e Belém, ficando quase imperceptível se não fosse a legenda para chamar a atenção do leitor. Num olhar atento, basicamente, só é possível ver as torres das inúmeras igrejas da cidade. Próximo da ilha, uma canoa com os nativos no formato diminuto.

Assim como Florence, dois anos depois, o cientista britânico William Webster também descreveu as principais atividades observadas no porto da capital da Província do Pará. O que mais chamou a atenção, além de diversos tipos de embarcações, foi a grande quantidade de canoas que fazem o translado de pessoas e mercadoria dos navios para o litoral e vice-versa. Para o viajante, “o principal negócio do rio parece ser exercido nessas canoas”245, que continuamente levam e trazem as pessoas e mercadorias de diversas parte do mundo.

Webster identificou algumas embarcações na Baía do Guajará, além das canoas, um brigue brasileiro de guerra, um navio de prisão e várias embarcações de mercantes portugueses. Webster foi um dos únicos viajantes que descreve a margem do rio que é “excessivamente enlameado”246, dificultando na hora do desembarque, mas o fato de as edificações serem erguidas representa um dos benefícios para a cidade que não devem ser desconsiderados. Para o viajante, a cidade do Pará, vista a partir do rio, não apresenta nada “visualmente atraente”, com exceção das

241 De acordo com Gilberto Ferrez, constam oito páginas manuscritas relacionando 128 itens. Este grande panorama está perdido, em relação ao grande panorama do Rio de Janeiro, cujas pranchas existem, mas o índice foi perdido. Cf. FERREZ, 1981, p. 164.

242 FERREZ, 1981, p. 167.

243 Os principais registros sobre a cidade: Norte- Fortaleza da Barra, Ponte da Alfândega, Igreja N. S. das Mercês, Rua do

Passinho, Alfândega e Rua do Açougue; Nordeste- Capela do Passinho, Largo das Mercês, Capela de Santo Antonio,

Igreja de Sant’Anna e Rua da Paixão; Leste- Igreja N. S. dos Rosário e dos pretos, Rua Nova, Pelourinho, Rua das Flores e Palmeiras de Marajá; Sul- Armazém da Alfândega, Palácio do Presidente; Capela do Presidente; Sudeste- Igreja e largo da Sé, Rua da Cadeia (Rua dos Mercadores), Ponte da Pedra. Cf. FERREZ, 1981, p. 164-67.

244 POLITO, Jéssica de Almeida. Territórios de civilidade: o papel das “mogis” na formação e reconfiguração do Leste Paulista, séculos XVII-XIX. Campinas, 2013. 258p. Dissertação. (Mestrado em Urbanismo) – Programa de Pós-Graduação na área de Arquitetura e Urbanismo, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, SP, 2013, p. 74.

245 WEBSTER, William Henry Bayley. Narrative of a voyage to the southern Atlantic Ocean, in the years 1828, 29, 30, performed in H.M. Sloop Chanticleer. 2 vols. London: Richard Bentley. Volume 2, 1834, p. 73.

várias igrejas localizadas por detrás das edificações. Portanto, o viajante conclui que a cidade “tem um aspecto completamente humilde”.247

Figura 5- Edward Duncan. Marina de Belém248.

Fonte: Fórum Landi, Biblioteca Digital249

As produções visuais da vista da cidade do Pará não ficaram limitadas apenas aos viajantes naturalistas e oficiais da marinha como se pode verificar, também fora identificado o pintor inglês Edward Duncan (1803-1882), que representou a vista de Belém, provavelmente em meados da década de 1830, por conta do tipo de embarcações representadas por Duncan ser semelhante à gravura anterior (Detalhe- figura 3) de Spix e Martius. A Baía do Guajará repleta de vários tipos de embarcações grandes, seguidas de outras que transportavam as pessoas e as mercadorias para o litoral. Em relação à maior embarcação quase no plano central da gravura, que tem no mastro a bandeira da Inglaterra, demonstrando a que país representava. As outras demais bandeiras ficam imperceptíveis ao olhar dos leitores. Era hábito de Duncan representar as águas do rio ou do mar em pleno movimento. Por detrás das diversas embarcações, a "Cidade do Pará" é visualizada a partir de suas edificações tão documentadas por vários outros viajantes que estiveram em Belém. Inicia-se a descrição da parte central com as torres da Igreja das Mercês por de trás do prédio que se parece com a Alfândega e o Forte. Do lado direito, o Palácio

247 WEBSTER, 1834, p. 74.

248 O pintor inglês Edward Duncan (1803-1882), mais conhecido por suas aquarelas de vista do mar. Recebeu patrocínio real da rainha Vitória. Companheiro de William John Huggins (1781-1845), artista oficial de cenas marina da Corte da Inglaterra durante o reinado de William IV e de George IV. Marina de Belém, Gravador: Edward Duncan. Publicada por W. S. Huggihs em 1928, Biblioteca Nacional, p.66-67.

249 Disponível em: <http://www.forumlandi.ufpa.br/biblioteca-digital/desenho/marina-de-belem>. Acesso em: 10 set. 2014.

A Igreja das Mercês, a Alfândega e o Forte.

Palácio do Governo Catedral da Sé

Presidencial, olhando para o lado esquerdo, por detrás de várias edificações, identificamos a cúpula da Igreja de Sant'Anna. Voltando para o lado direito, visualizam-se as torres da Catedral.

O naturalista francês Alcide d’Orbigny apresenta características populacionais, econômicas e aspectos relevantes da cidade, como os prédios, as ruas e a vegetação em seu entorno. A obra refere-se à Résumé général de tous les voyages que utilizou relatos de autores dos séculos XVI a XIX e está composta por numerosos desenhos reproduzidos pelos desenhistas franceses De Sainson (1800-1887) e Jules Boilly (1796-1874).

Ao fazer a descrição do porto de Belém, o naturalista francês Alcide d’Orbigny reproduz o que outros viajantes representaram sobre a cidade no que diz respeito aos fortes e às edificações visualizadas a partir do rio. Logo em seguida, o autor conduz o leitor a confirmar essa narrativa com a disposição da gravura posicionada na página seguinte da obra. Ao observar a gravura Vista de N.ª S.ª de Santa Maria de Belém, a única a tratar sobre Belém entre as várias impressas no livro, apresenta em destaque o prédio da Alfândega250 e, por trás, parte da Igreja das Mercedes. Uma embarcação de grande porte, no plano central da imagem, e alguma canoas às proximidades do litoral. Pode-se observar a cúpula da Igreja de Sant’Anna em direção ao lado esquerdo da figura. Esta imagem representa uma parte da versão publicada na obra de Spix e Martius.

Figura 6- Vista de N.ª S.ª de Santa Maria de Belém [1832]

Fonte: ORBIGNY, Alcide Dessalines d'. Voyage pittoresque dans les deux Amériques, 1836, p.142-143.

250 Tudo indica que era o prédio da Alfândega, devido aos registros anteriores dos viajantes inglês, Henry Maw e os próprios registros do naturalista Orbigny. Embora haja controvérsia de que poderia ser o Palácio do Governo.

Forte das Mercês Forte do Castelo

Vista do porto, de acordo com Orbigny, Belém está localizada “em uma superfície plana” e que parecem existir somente duas ruas paralelas, limitadas ao fundo pelas florestas virgens. As edificações parecem disputar os espaços com a natureza. A partir deste ponto de vista, os dois primeiros prédios monumentais, visualizados são o da Bolsa e da Alfândega, localizados perto do litoral e “quase no centro das ligas de casas. Por detrás dos referidos prédios as duas torres da Igreja das Mercês”251. No extremo sul, segundo o naturalista, “o olho pousa sobre o [Forte do] Castelo e do Hospital Militar, que são iguais do Seminário e da Catedral, com as duas torres. Mais adiante, a vista parcial do magnífico do Palácio do Governo construído sob a administração do Marquês de Pombal”252. “A cidade em si é defendida por dois fortes253 construídos um sobre a rocha”, 254 o outro logo a seguir. O arsenal está fora da cidade, próximo da foz do rio Guamá. O naturalista Orbigny descreve o que não foi representado na gravura, ao se referir à Igreja de Santo Antonio e ao mosteiro dos capuchinhos finalizando com a perspectiva ao Norte.

A gravura Santa Maria de Belém (figura 7), desenhada por Danvin, foi impressa em 1837, junto com várias outras ilustrações das cidades do Brasil, na obra de Ferdinand Denis, intitulada L' Univers. Histoire et description de tous les peuples. Brèsil, Colombie et Guyanes. Ao olharmos atentamente, pode-se perceber certa semelhança com a gravura do naturalista francês Alcide d’Orbigny. Os temas representados são parecidos, ambos tratam das principais edificações, as torres das Igrejas, o Forte e as embarcações, o que diferencia é apenas a quantidade de navios e a perspectiva dos objetos representados.

Ao observar que várias gravuras incluídas na obra de Ferdinand Denis foram reproduções de artistas que haviam visitado o Brasil; o fato de não se ter indícios sobre a sua vinda a Belém; e a forma como escreve sobre a cidade, apresentando um resumo histórico, provavelmente, a sua narrativa baseou-se em estudos sobre a localidade. Pode ser possível que a gravura seja uma releitura de gravuras de viajantes que passaram por Belém.

Verifica-se que foi a única gravura sobre Belém na referida obra, a qual representa o mar em movimento em primeiro plano. No centro da imagem, há dois veleiros brigue ancorados e uma pequena embarcação que servia para transportar os passageiros e mercadorias para o porto. Sutilmente, ao lado direito, outro veleiro navegando. As edificações visualizadas da cidade, seguindo para o plano direito da imagem, aparecem: os casarões coloniais, a cúpula da Igreja de

251 ORBIGNY, Alcide Dessalines d'. Voyage pittoresque dans les deux Amériques, Résumé général de tous les voyages. Paris: Chez L. Tenré, Libraire-éditeur, 1836, p. 137-138.

252 ORBIGNY, 1836, p. 138.

253 Segundo Orbigny, o forte construído na pequena rocha e que controla os passes e reconhece todos os navios, antes de deixá-los seguir viagem para dentro do rio em frente a cidade. Cf. ORBIGNY, 1836, p 132

Sant'Anna; o Palácio do Governo, as torres das Igrejas das Mercês, da Catedral e de Santo Alexandre, e, provavelmente, um dos fortes descrito pelos viajantes, Henry Lister Maw255 em 1828; e Gaetano Osculati (1808-1894)256 em 1848, localizado em um "rochedo íngreme".

Figura 7- Danvin, Victor Marie Felix. Santa Maria de Belém do Grão-Pará257

Fonte: DENIS, Ferdinand. Brésil. In: DENIS, Ferdinand; FAMIN, C. L'Univers. Histoire et description de tous les peuples. Brèsil, Colombie et Guyanes, 1837, p. 292258

Nas observações de Ferdinand Denis, a Cidade do Grão-Pará, à primeira vista, “é uma das cidades mais saudáveis do Brasil”259, no entanto, apresenta “a ausência completa de fortificações”, favorecendo as insurreições que têm ocorrido na cidade, embora, segundo Denis,