“Quando entramos na cidade de Lamego, sentimo-nos imediatamente dominados pela grandiosidade e imponência do Santuário de @ossa Senhora dos Remédios, que é por assim dizer a coroa gloriosa desta terra, de tão ricas e variadas paisagens e de tão fidalgas e remotas tradições” (Marrana 2004, 11).
É desta forma que o Cónego Marrana inicia a introdução do livro que dedicou ao “Culto de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego”, dando desde logo a entender a importância deste santuário, quer para a cidade, quer para toda a região do Douro.
No que diz respeito à importância que alguns monumentos têm como identificadores de uma cidade podemo-nos reter no que referiu K. Lynch (1960), acerca de Florença e da sua catedral “É difícil pensar uma cidade, sem que este edifício nos venha à imaginação” (Lynch 1960, 93). Podemos inferir que todos os locais têm algo que os identifica, constituindo uma forte imagem de marca e um precioso cartão de visita.
Reportando-nos a formas de leitura de imagens e espaços, como a semiótica, e tendo como referência C. Pierce (2000) e a sua definição de ícone, o emblema maior da cidade de Lamego é, sem dúvida, desde da sua edificação no século XVIII, o Santuário da Senhora dos Remédios. É impossível pensar em Lamego sem este santuário e as peregrinações que lhe estão associadas, tal como a imagem de Braga, está ligada ao Bom Jesus e ao Sameiro, por exemplo.
• História do Santuário da Nossa Senhora dos Remédios
O Santuário da Nª Sª dos Remédios encontra-se no monte de Santo Estêvão, onde em tempos idos se construiu uma capela com o nome daquele santo. Desconhece-se o motivo da escolha deste nome, mas sabe-se “que é anterior ao século XIV, porque a tradição e a história nos dizem que no alto deste monte sobranceiro à cidade de Lamego, em volta do ano 1361, D. Durando, bispo da Diocese, mandou construir uma pequena capela, onde introduziu o culto do glorioso protomártir do cristianismo” (Marrana 2004, 17).
A capela de Santo Estevão foi construída em 1361, acabando por ruir com o decorrer do tempo. Só mais tarde, em 1568, o Bispo D. Manuel de Noronha mandou edificar a primeira capela em honra de Nossa Senhora dos Remédios. A imagem do santo foi transferida para a nova capela, que não foi construída no mesmo local da de Santo Estevão, mas sim no local onde está hoje o chafariz com o obelisco, no Pátio dos Reis (Marrana 2004).
Mais tarde, quando esta capela entrou em ruínas e foi demolida, a Irmandade, liderada pelo Cónego José Pinto Teixeira, mandou fazer outro templo maior e mais sumptuoso, para que a devoção à Nª Sª dos Remédios não abrandasse. Assim surgiu o actual Santuário (Pinto 2001).
A primeira pedra foi lançada no ano de 1750, mais especificamente em 14 de Fevereiro, sendo o Santuário acabado em 1761. O novo templo foi edificado ao gosto barroco, estilo muito apreciado na época: “Não se sabe bem o nome do arquitecto a quem foi confiado o projecto desta obra maravilhosa. Supõe-se e com fundamento que o seu autor fora Nicolau Nazoni, arquitecto e pintor florentino, que da Itália viera para Portugal, no segundo quartel do século XVIII” (Marrana 2004, 47)47.
47 Existiram várias circunstâncias que impediram a possibilidade de encontrar as plantas do edifício, de descobrir quais os autores, ou
autor, do projecto e dos respectivos contratos. Muito provavelmente, desapareceu tudo no incêndio que deflagrou em 17 de Dezembro de 1868 na Sacristia do Santuário, que era o local onde se guardavam os documentos. Ou, então, pode ter tudo desaparecido num outro incêndio na casa do juiz da Irmandade, Visconde Guedes Teixeira (1878-1880), local onde se realizavam as reuniões da Mesa (Pinto, 2001).
A construção do Santuário decorreu em diversas fases: a primeira (1750 e 1761), que corresponde à construção da igreja propriamente dita (Fig. 3.6); a segunda (1778-1868) relativa ao avanço da construção do escadório (Fig. 3.7); a terceira (1868 – 1905) reconstrução e ampliação da igreja (Fig. 3.8); e finalmente, uma quarta e última fase (1917-1969) que corresponde a conclusão do escadório (Fig. 3.9) (Pinto 2001).
Figura 3.615 – Igreja
N. Sº dos remédios
Figura 3.716– Escadório
construído até à Fonte do Pelicano
Figura 3.817 –
Construção das torres
Figura 3.92 – Obras
concluídas
Fonte: Cabral, 2002, 23
Fonte: Kymagem (s/d)
Fonte: Kymagem (s/d)
O Santuário de Nossa Senhora foi o único monumento a ter, desde os finais do século XIX, preocupações de gestão, viradas para as necessidades dos visitantes. Os mesários da Irmandade pensaram nos acessos ao santuário, uma vez que não existia uma estrada onde fosse possível passar um carro e, prevendo o eventual afluxo de peregrinos que podiam acorrer à cidade com abertura dos Caminhos-de-Ferro (Linha do Douro), decidiram construir dois caminhos para o Santuário:
“Em sessão de 7-3-1864 (…) a Irmandade mandou abrir duas estradas largas de cada um dos lados da escadaria. Partiam da Meia Laranja até ao pátio de Jesus Maria José e poucos anos depois avançavam até ao pátio dos Reis e ao Souto, onde actualmente se faz a feira.” (Marrana 2004, 153).
Nos anos seguintes, com o aparecimento dos veículos automóveis, houve necessidade de adaptação às novas exigências e assim: “A chamada estrada das peregrinações, que parte do mesmo ponto, onde começa a estrada dos carros – lado norte do parque – foi votada e feita em 1932 pela Mesa Administrativa (…); é posterior ao parque” (Marrana 2004, 158). Nos anos 30 do século XX, para facilitar, ainda mais, o acesso dos peregrinos ao santuário, a Mesa pensou em criar uma rede de transportes locais que os levasse até ao topo do monte. O projecto avançou, e, em 1934, a Irmandade possuía dois autocarros. Por lei eram
obrigados a ter um percurso regular entre o centro e o Santuário, o que trouxe problemas financeiros, pois não tinham um movimento significativo. Por isso, em Fevereiro de 1936, a comissão decidiu vender os dois autocarros em hasta pública, uma vez que estavam a dar prejuízo (Marrana 2004).
Em 1942, já se pensa no bem-estar dos peregrinos e na sua segurança, providenciando a separação de percursos para pessoas e carros. Outro motivo de preocupação foi o abastecimento de água aos peregrinos e para o Parque, problema que ainda hoje se mantém actual e é assunto prioritário da recém eleita Mesa, pois neste momento a água quase não jorra das fontes.
Mais tarde, nos anos sessenta, surgiu a necessidade de facultar alojamento, e, assim, aproveitando a casa do capelão, construiu-se o Hotel Parque, que foi o primeiro hotel a ser edificado em Lamego.
• Trabalhos de conservação recentes
As obras mais recentes incidiram na igreja. Começaram há cerca de 2 anos e incluíram o restauro do telhado (Fig. 3.10) e das duas portas exteriores.
Com objectivos de manutenção preventiva, faz-se a limpeza diária do Santuário e, cerca de duas vezes por mês, procede-se à aplicação de verniz nos bancos da igreja. A limpeza estende-se também a todos os altares e respectiva talha dourada, bem como às imagens dos Santos e às suas coroas, principalmente as que fazem parte da imagem de Nossa Senhora dos Remédios e do Menino Jesus que está ao seu colo. As limpezas regulares também incluem as alfaias religiosas, como cálices e a Santa Custódia, que exigem uma manutenção mais cuidada, já que são de prata e de prata dourada.
Também o presépio foi restaurado recentemente, por uma Técnica de Conservação de Tomar, que demorou cerca de três meses a concluir esse trabalho. Foi, também, renovada a instalação eléctrica48.
48
Ver Anexo II – Questionário às entidades gestoras.
A parede norte do coro também foi recuperada, por se ter verificado infiltração da água das chuvas (Fig. 3.11), utilizando-se o cimento como material de restauro (Fig. 3.12).
Figura 3.1119 – Estado do Coro
em 2003
Figura 3.1220 – Arranjos no Côro
em 2004
Figura 3.1321 – Estado actual
2005
No salão nobre, que se situa por cima da Sacristia, todo o tecto e paredes ainda se encontram em fase de restauro para eliminar a acumulação de humidade.
Figura 3.1422– Quadro da D. Antónia
É nesta sala nobre que encontramos o famoso quadro da D. Antónia (Fig. 3.14), mais conhecida como Ferreirinha49, e símbolo forte da marca usada nos rótulos da empresa de vinhos “Porto Ferreira”.
• Estado de conservação
Devido a estes cuidados permanentes, podemos considerar que, de uma maneira geral, este monumento se encontra em bom estado de conservação. No entanto, convém referir que é no escadório que se encontram os maiores problemas causados pelo vandalismo e por alguma incompatibilidade entre quem gere e quem tutela o património.
49
Ferreirinha uma grande impulsionadora da região do Douro enquanto produtora do vinho generoso. Ver Martins e Olazabal (1996) e http://www.leme.pt/biografias/80mulheres/ferreirinha.html .
Figura 3.1524 – Sra
Santíssima Trindade Figura 3.16
23 – Painel de
Azulejos
Figura 3.1725 – Pináculos destruídos
Assim, os painéis de azulejos -Nossa Senhora Rainha do Universo (Fig. 3.15 e 3.16) e Nossa Senhora Santíssima Trindade - encontram-se muito deteriorados, bem como grande parte do gradeamento (Fig. 3.17). Os maiores problemas localizam-se, a partir da Fonte do Pelicano, devido à erosão e vandalismo.
No que diz respeito ao mau estado dos azulejos, o Secretário-Geral da Irmandade esclareceu que nada podem fazer, pois o IPPAR não permite qualquer forma de intervenção.