M. Vaquero (2002), quando analisa a importância das catedrais nas cidades históricas refere que a associação entre a cidade e a catedral determina a importância desta no legado cultural urbano: se os centros históricos são a referência principal das cidades históricas, os conjuntosmonumentais constituem o marcador por excelência, da maior parte dos centros históricos.
54 Ver Anexo V - Plano de Pormenor do Bairro do Castelo.
Figura 3.3642 – Entrada
O simbolismo religioso, a concentração de valores históricos e artísticos, a sua condição de referente urbano dos centros históricos favoreceram a sua transformação em pontos turísticos destacados, de tal forma que não existe uma cidade histórica, cuja catedral não focalize uma parte importante do fluxo de turistas e excursionistas.
A Sé não foge a essa regra, e é, sem dúvida, juntamente com o Santuário dos Remédios, o monumento mais procurado na cidade.
• Sé Catedral de Lamego
Construída no local onde se erigia uma pequena capela dedicada a S. Sebastião, (século X), é o primeiro monumento da cidade em arte e o segundo em monumentalidade, principalmente a parte da torre que foi erguida no século XIII (Azevedo 1972).
O edifício da Catedral, na sua fachada principal, mostra três períodos: séculos XIII e XIV (a torre, já com alterações na parte cimeira); século XVI (o corpo central); e século XVII (patente nas janelas da casa do Cabido). De particular interesse são os pórticos, abertos naquela estrutura gótica flamejante, com marcas renascentistas (Laranjo 1990).
• Sé Catedral de Lamego - evolução e alterações
Das antigas construções medievais resta-nos apenas a torre e, mesmo esta, já não na sua pureza inicial. Nos meados do século XV é sagrada de novo, o que indica uma larga reforma, se não mesmo reconstrução desde os seus fundamentos (Laranjo 1990).
Segundo J. Carvalho a Torre, por bastante tempo, serviu de cadeia, até que D. Frei Feliciano de Nossa Senhora, Bispo de Lamego de 1742 a 1771 “mandou fazer um aljube para a guarda de culpados, tirando-os da torre dos sinos, que muitos a assemelhavam a sepultura de mortos” (Carvalho 1966, 19). A torre foi acrescentada por D. Manuel de Noronha, que deixou assinalada a obra com o seu escudo de armas (Azevedo 1972).
O mais antigo elemento é a porta principal que, por ser no estilo da igreja da Batalha construída pelo rei D. João I, pode ser atribuída ao bispo D. João Vicente (1433-1446) (Carvalho 1966, 15).
Passados onze anos, a 29 de Abril de 1456, o bispo D. João Gomes de Abreu sagrou o altar-mor da Sé com as relíquias de São Nicolau e dos Santos Mártires João e Paulo.
O bispo D. João de Madureira (1502-1513) mandou fazer um «formoso retábulo» para o altar-mor da Sé, o qual foi executado por mestres flamengos e provido com belíssimos
painéis pintados em tábua da autoria do célebre Vasco Fernandes, o «Grão Vasco» (Carvalho 1966). Em 1651, solicitou-se autorização a D. João IV para restaurar o retábulo da capela-mor, e cinco anos passados foi retirado o políptico para uma obra de pintura da capela, embora as principais obras de reforma do interior da Sé só tenham ocorrido durante o século XVIII55.
O prelado D. Manuel de Noronha (1551-1564), da ilustre e rica família dos Câmaras do Funchal “erigiu no claustro da Sé, a capela de São Nicolau (Fig.3.37) e ao lado dela, as capelas de São João Baptista e Santo António, reformulou a parede contígua da Sé, na qual mandou colocar um belo órgão; fez encimar a torre dos sinos, do friso para a cima, com o que se fez mais magestosa” (Carvalho 1966, 16). Todavia, a capela de S. João Baptista56 já não existe: foi destruída nos finais do século XIX.
Figura 3.3743 – Claustros e Portão da Capela de São Nicolau
Foi também nesta época que se realizou “a construção do claustro que deve ter ficado concluído em 1557, data que se vê numa inscrição trilínea que existe no andar superior da face norte, no centro do parapeito da delicada varanda do renascimento” (Carvalho 1966). A frontaria da Sé evoca a época manuelina “encastoada entre o gótico rural e arcaisante da torre dos séculos XIII e XIV e o estilo do século XVII já mais avançado, patente nas janelas de sacada do Cabido” (Laranjo 1990, 17).
O frontispício manuelino é uma das obras que se fizeram neste tempo, mantendo nos seus portais – o principal motivo de interesse – toda a estrutura do gótico flamejante. Foi seu mestre o português João Lopes, tendo como subalternos João de Vargas e João de Pamenes. As obras decorreram entre 1508 e 1515 (Laranjo 1990).
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Ver Anexo IV - Catalogação e descrição realizada pelo Museu de Lamego.
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Figura 3.3844 – Pormenor
do Pórtico central
Figura 3.3945 – Frontaria Sé catedral
As figuras são bastante curiosas, pois representam animais como o porco, o leão, o tigre, o veado, o bode, aves de rapina, pombas e alguns animais fabulosos, como o dragão, e grupos obscenos (Fig. 3.38).
Segundo M. Costa (1963) o único melhoramento referenciado até ao final do século XVIII deve-se ao artista António Ferreira Muralles, que, em 1682, assinou um contrato para dourar, limpar e fazer de novo o retábulo da Capela de São Nicolau, nos Claustros.
O bispo D. Tomás de Almeida (1707-1709), «abriu» seis grandes janelas na Sé, fez as grades do cruzeiro, as portas da igreja, lajeou o adro e guarneceu-o com grades de ferro (Fig. 3.39). A 7 de Outubro de 1721, «sendo necessário acudir ao corpo da igreja» o Cabido resolveu escrever ao bispo D. Nuno Álvares Pereira de Melo, que então estava em Lisboa, expondo-lhe o estado perigoso do tecto e armação do templo (Carvalho 1966).
Segundo A. Passos (1933), a fachada foi nesta altura alterada. Este historiador baseou-se em vários descrições realizadas, entre as quais, uma
retirada da história Eclisiástica de Lamego, que descreve, desta forma a frontaria da Sé (Fig. 3.40) “ sobre o portal do meio está um óculo singelamente decorado, mas de feitio singular;por cima das portadas dos dois corpos laterais vê-se uma das janelas de cada lado com a sua coluna ao meio” (Passos 1933, 38).
Porque o cabido de Lamego, em réplica às obras realizadas nas Sés de Braga e do Porto, decidiu
renovar o seu interior (Passos 1933, 38), resolveu-se, então, “modernizar” a Sé, com os belos frescos de Nazoni,o que obrigou a realizar obras de fundo, como seja, apear a
Fonte: Kymagem, s/d
Fonte: Passos (1937)
Figura 3.4046 – Esboço da antiga
cimafronte e de refazê-la em condições de nivelamento com o corpo frontal (Passos 1933, 39).
Reconheceu-se porém o mau estado das paredes e após ouvido o voto dos arquitectos, escreveu ao rei expondo-lhe a necessidade de proceder a uma reconstrução, enviando a planta feita pelo arquitecto António Pereira. Após a aprovação, começaram as obras que se concluíram 15 anos depois, reconstruindo-se também a capela-mor, as capelas do Santíssimo e as do cruzeiro e sacristia (Carvalho 1966).
O interior, até ao transepto, corresponde a esta reconstrução. Nas abóbadas estão as magníficas pinturas barrocas: em pequenas vinhetas podemos seguir a Bíblia, desde a Criação, a Queda de Adão e Eva, a Inspiração messiânica que atravessa o Antigo Testamento, até à Esperança da vinda do Salvador, trabalho excepcional de Nicolau Nasoni (Laranjo 1990).
Segundo Robert Smith, o arquitecto, pintor e escultor Nicolau Nasoni pintou os tectos da Sé entre 1734 e 1738, deixando, em 1739 de trabalhar em Lamego. De facto, as abóbadas do transepto, da capela-mor e da capela do Santíssimo Sacramento já não foram adornadas com pinturas (Carvalho 1966).
Sabe-se, por documentos, que as obras de reconstrução da Sé se intensificaram em 1746, sendo os trabalhos dirigidos pelo entalhador António Mendes Coutinho (Mestre-de-obras, desta mesma cidade).“Das abóbadas do cruzeiro, umas foram terminadas antes de Setembro de 1747, enquanto outras foram levadas a cabo em Julho do ano seguinte. Logo depois da sagração da Catedral pelo bispo D. Frei Feliciano foi resolvido substituir a capela-mor (…)” (Carvalho 1966, 17).
Em 1751 efectuou-se a inauguração e bênção da nova Sé; todavia, só em 1776 foi sagrada pelo Bispo D. Manuel de Vasconcelos Pereira (Fernandes 2001,5).
• Alterações, a partir do século XX
A Sé de Lamego sofreu desde 1936 numerosas intervenções de conservação e restauro (IPARR, 2006), quer internas quer externas (Fig. 3.41), de acordo com aquilo que vinha a ser regulamentado, quer pelas Cartas Internacionais, quer pelas entidades da tutela.
Figura 3.4147– Sé passado presente
Fonte: Kymagem, s/d
Destacamos a última intervenção, o restauro dos frescos de Nasoni, em 2002 (Fig. 3.42 e 3.43). As pinturas são um dos grandes atractivos deste monumento.
Figura 3.4248– Pinturas danificadas Figura 3.4349– Pinturas restauradas
• Estado actual
Este Monumento Nacional encontra-se em bom estado de conservação. No entanto, há que referir alguns aspectos menos positivos, como o pórtico central, os altares laterais (Fig. 3.44), as capelas de São Nicolau (Fig. 3.45) e de Santo António nos claustros. Segundo nos foi dado a saber, também existem problemas no museu, que se encontra infestado de térmitas, estando, por isso, encerrado.
Figura 3.4450– Altares laterais Figura 3.4551– Capela de S. Nicolau